Um livro por semana 252

«Os sinais da viagem» de José Correia Tavares

Natural de Castelo Branco, José Correia Tavares (n. 1938) foi dos primeiros poetas portugueses a escrever sobre a Guerra Colonial – «Três Natais» (1967). Depois do recente «O grande livro dos cães», Correia Tavares regressa neste livro ao ofício da quadra ao gosto popular.

O ponto de partida é o trabalho poético: «Hás entre razão e rima / Eterna má vizinhança / Uma em baixo, a outra em cima / Como os pratos da balança». O poeta define o seu campo de acção: «Parecendo surdo e mudo / Ao armar a minha teia / Tenho olhos para tudo / O que mexe, me rodeia». Mas não esquece o espaço de onde vem: «A oliveira mais velha / Seus frutos só um punhado / É que, debaixo de telha / Me tem sempre alumiado». Nem olvida o caminho percorrido: «Sedentário, vigilante / Ao germinar das sementes / Já cruzei, daqui distante / Oceanos, continentes».

A vivência da Guerra Colonial em 1963 marcou o poeta e ficou marcada nesta quadra: «Os sinos da minha terra / Tocam por tudo e por nada / Quando nós fomos à guerra / Nem uma só badalada». E também nesta: «Longe das nossas famílias / Dos amigos, na floresta / As cores das buganvílias / Eram a única festa». O desmoronar de esperanças do «25 de Abril» deu origem a esta quadra: «Se a memória não me falha / Lembrança faz sempre falta / Tu que eras homem de palha / Agora mandas na malta». E a esta: «Nesta ordem de inversões / Com mais ou menos perícias / Chamam já muitos ladrões / Desonestos aos polícias».

Termina a sugestão de leitura com duas quadras. Uma sobre a realidade que nos cerca: «Disseste Zé do Telhado / Foi bom mas grande ladrão / Sem saber nem um bocado / Das golpadas que aí vão». Outra sobre o ofício do poeta: «Talvez tudo esteja dito / E até da mesma maneira / Nem por isso o infinito / Será meta derradeira».

(Editora: Húmus, Capa: António Pedro, Prefácio: José Manuel Mendes)

One thought on “Um livro por semana 252”

  1. Que ganda seca! Isto não é poesia: é convição saloia de que se escreve uma grande coisa.
    «Os sinos da minha terra / Tocam por tudo e por nada / Quando nós fomos à guerra / Nem uma só badalada» – eh pá, cala-te! Se queres os sinos a tocar sobe ao campanário e toca-os! Faz isso, mas pf não tentes escrever poesia. Mas lá está a antiga regra grega: a mediocridade admira-se mutuamente. Como no amor.

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