Vinte Linhas 665

Para uma memória de Rua do Ouro em 1966

A fotografia muito antiga, roubada do computador em 17 de Julho, foi emprestada de novo pelo meu amigo Vítor Salgado, conceituado comerciante de ouro, prata e afins na Rua do Ouro. Serviu de ilustração a um poema; serve hoje para acompanhar uma crónica sobre o tempo dessa rua em 1966. Tempo em que as notícias saíam da Agência Havas para os jornais diários de Portugal – havia 11 em 1941, talvez a data desta fotografia. Tempo em que as notícias comerciais e particulares saíam de Portugal através da Rádio Marconi e dos seus cabogramas – os célebres cable em inglês.

Em 1966 o Banco à direita ainda se chamava Lisboa & Açores e o da esquerda ainda era o Totta Aliança. No segundo quarteirão à direita existia o Banco Português do Continente e Ilhas que em 1951 se passou a chamar Banco Português do Atlântico. O eléctrico da fotografia era o «Rossio-Graça», o antepassado do actual «28», o «Prazeres-Martim Moniz» sempre cheio de turistas. Alguns dos automóveis da foto permaneceram até 1966 quando aqui cheguei e vi um polícia sinaleiro em cada esquina. O Augusto, motorista do presidente do BPA, dava uma nota de 20 escudos a cada um no Natal porque eles facilitavam a passagem do Mercedes-Benz preto nas esquinas, também as da Rua Augusta. Anos depois no Diário Popular contaram-me outra história parecida: a administração do jornal do Bairro Alto precisava de tudo facilitado no caminho até Santa Apolónia para que os jornais não perdessem os comboios para o Norte.

Quarenta e cinco anos depois a Rua do Ouro continua na minha memória como em 1966 – eu ganhava 900 escudos e descontava 18 escudos para o Fundo de Desemprego mas sabia que se por acaso ficasse desempregado eu não podia ir lá buscar nada.

10 thoughts on “Vinte Linhas 665”

  1. A fotografia é muito bonita e o preto e branco também ajuda. Não estou a menosprezar
    a técnica.
    Descontar 18$00 para um “saco azul?” é muito dinheiro. Como pode haver saudosistas, da classe média baixa, desses tempos? Pior que a ignorância é a estupidez.

  2. Ora vamos lá ver. Eu fui a 1ª. vez sozinho para Lisboa, tinha os meus 12 anos e fui à Rua da Conceição apanhar o elétrico para a Estrela pois ia fazer o exame do 2º. ano liceal ao Liceu Passos Manuel que ainda frequentei, mas como aluno efetivo no 6º e 7º anos. Portanto, isto foi em 1949, 17 anos antes do jcfrancisco aparecer na Rua do Ouro. Ah! Mas antes de ir para o liceu ainda fui ao Caracol, esquina da Rua da Prata com a do Comércio, tomar o meu café. No regresso voltava a passar pelo Caracol agora para comer umas caracoletas e beber umas imperiais. Digam lá se com 12 anos já não era atrevimento. Só ainda não fumava a minha cigarrada embora já tivesse por várias vezes experimentado, tendo inclusivamente apanhado uma bebedeira de tabaco fumando uns atras dos outros por só ter um fósforo. E assim se foi um maço. Mas isso teria os meus 8 anos. Depois apanhava o barco de regresso a casa.

  3. Quem diria, Manteigas! Já falavas francês aos 12, enquanto emborcavas umas imperiais para limpares a garganta e cantares “La mer” na mesa mais escondida do Caracol, já fumavas aos 8, ias morrendo mas isso não interessa, mas não dizes nada da puta que te tirou os três três dias antes de fazeres os cincos aninhos. Com as conversas que andam por aí sobre as precocidades em matéria de inteligência, o teu comentário vai despregar algumas línguas.

    E o teu pai trabalhava onde, na estiva? Guarda linha na CP, por acaso?

  4. a razão do poste são € 0,095 que foram descontados indevidamente durante 3 anos, mas que garantiram uma reforma precoce 25.000 vezes superior aos descontos ilegais. em vez de repetires aqui o fabuloso ordenado que ganhavas em 1966, tinha mais interesse em saber o que é que fazias que valesse esse dinheiro e se a cunha tamém foi política à semelhança dos teus sucessos literários.

  5. V. KALIMATANOS só respondo a uma coisa para não ser indelicado. O meu pai, com muita honra minha, era empregado do comércio. Trabalhava noite e dia numa drogaria/ mercearia. A primeira vez que ele foi de férias, tinha eu 10 anos. Não tinha segurança social, assistência médica gratuita, reforma. Percebes? E fico-me por aqui.

  6. Obrigado pela informação, Manteigas, mas, porque esta vida não é só cardos, atrevo-me a calcular que durante a Segunda das Mundanas deves ter tido menos problemas que eu para arranjares a paparoca, o teu pai a trabalhar numa merceariazita, etc. Por outro lado, ires de férias em 1947 quando o racionamento iria prolongar-se por alguns anos ainda em paises de império e bota alta como a Inglaterra, e milhões de alemães a viviam em buracos como bichos, já não foi nada mau, nada mau.

    Obrigado, mais uma vez.

  7. A fotografia é uma grande porcaria, e a menos que haja um terramoto que destrua a Rua do Ouro, não vejo a utilidade de ter sido tirada. Por favor não venham com a conversa de que “a arte é inútil”; se isso é verdade, não paguem aos parasitas dos artistas. Quem quer ser artista, vende obra; não se pendura na teta estatal. E depois, este vómito de Lisboa: ya, são as pombas de lisboa, e os bairros de lisboa, e o rio de lisboa, e os vendedores de castanha de lisboa, e os caixotes do lixo de lisboa… da-se!!! Que chatos! Parecem os Pólo Norte, esse exemplo qualificativo da elevação da música portuguesa! Mas prontos: é arte e temos que calar. Se eu fosse um serial-killer, matava JSDs e/ou artistas. Mas não sou, e por isso vou dormir agora.

  8. V. KALIMATANOS a guerra acabou em 1945. E quem trabalha como ele trabalhava desde as 8 horas da manhã, almoçava das 14 às 15 e voltava para o serviço donde saía sempre depois das 21 horas. De segunda a sábado. Ao domingo ia por contra própria vender para os mercados. Saía às 6 da manhã com sol ou chuva às vezes numa carroça alugada e regressava a casa pelas 23 horas. Tu sabes lá o que é trabalhar? Nem eu sei. Todo o dia de pé andando dum lado para o outro. Era no tempo em que as tintas, as ceras, as graxas, as brilhantinas e outros produtos eram feitos no próprio estabelecimento. Tal como os medicamentos nas farmácias. E era depois da loja fechar que se faziam essas coisas. Cala-te porque não sabes o que dizes. Só dizes baboseiras e não volto a responder-te porque não mereces sequer a água que bebes.

  9. Porra, Manteigas, disse duas coisitas de não ofender ninguém e pões-me logo a pão, laranja e ferros, porque água não se dá a pobres. É essa a tua cartilha para o entendimento entre seres humanos neste universo? Mas quem é que disse que o teu pai não largava o coirato a fabricar brilhantina, tintas e graxas, ou a fazer alfinetes, tanto faz, depois das horas de fecho do estabelecimento? Eu não sei, pá. Estou aqui a olhar pró lado a ver se manco o gajo que disse isso mas não vejo ninguém. A única coisa que eu insinuei, com a inocência de ajudante de caixeiro, era que o teu pai, durante a Mundana violenta, tinha a tulha do açucar mais à mão que o meu.

    E eu não sei o que é trabalhar? Olha o malandreco. Pra tua informação, meu senhor, tive empregos em que ia muitos dias ia pra cama à meia noite e quatro horas depois estava em pé agarrado ao malho, e tive outros em que ganhava bem e saía cedo. E tive um emprego de vários anos em que trabalhava 365 dias ao ano. E olha que não foi no tempo do fascismo. Beat that, aguadeiro.

    E desmaio se não te pergunto: e quanto é que o honrado senhor te deixou em suor de herança que reconheceste com muita gratidão filial? Fico a cismar, depois de me cortares a água.

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