Do Memorando e da memória

Os responsáveis do PSD – dirigentes, representantes, governantes e deputados – já disseram que o Memorando é o que é por sua decisiva influência durante as negociações com os credores, que o Memorando corresponde exactamente à visão, ao diagnóstico e aos propósitos programáticos dos social-democratas e que o Memorando precisava de ser ultrapassado por em certos pontos não ir tão longe na alteração das funções do Estado como o PSD ambicionava. Esta conversa durou até ao princípio de 2012. Depois, perante o crescente descalabro gasparino, começaram a dizer que o Memorando era a incontornável causa da austeridade que impunham aos portugueses, que o Memorando era uma herança que tinham recebido dos socialistas, que o Memorando era o que era porque o Governo de Sócrates assim o quis e que eles nada tiveram a ver com isso e se limitam a cumprir com as obrigações assumidas por outros.

Para além da sua natureza gelatinosa, estes fulanos entram em êxtase de avacalhamento sempre que têm a oportunidade de repetir a cassete da culpa do PS por todos os males conhecidos e por conhecer neste rectângulo e ilhas. E têm essa oportunidade várias vezes ao dia, por vezes com intervalo de apenas minutos ou segundos entre duas doses. Como no debate do Orçamento para 2013:

Continuar a lerDo Memorando e da memória

Justificação para que uma lei (ainda que mal feita) se esqueça da Igreja

“Não podemos interferir nesta relação de anos disse, referindo-se ao acordo estabelecido entre Lisboa e o Vaticano primeiro em 1940 revisto em 2004. Nem pôr em causa o equilíbrio na relação entre o Estado e a Igreja Católica insistiu” (Hélder Rosalino, explicando o melhor que consegue o por quê de só agora a IGF estar a querer dar uma olhadela às 125 fundações católicas que ficaram de fora da primeira avaliação realizada pelo Governo nos termos da Lei nº 1/2012, de 30 de janeiro).

Sexto exame regular ao ministro: não passa

Por interesse político e sociológico, convém não perder, de vez em quando, uma conferência de imprensa de Vítor Gaspar, enquanto duram, e preparar-se para resistir. Foi o que fiz.

Fiquei a saber, dada a minha distração, que o programa de ajustamento está a ser um sucesso. Tudo corre conforme previsto e 95% das medidas já foram ou estão a ser implementadas com êxito. Assim sendo, diz-nos Gaspar articuladamente, em finais de 2013 retomaremos o crescimento, que em 2014 será de 0,8% e em 2015 de 1,8%. O restante relato deste extraordinário caso de sucesso pode ser lido num jornal perto de si, ou eventualmente no site do Ministério das Finanças, transpondo a porta da realidade. Destaco apenas a parte em que se referiu ao corte de 4000 M€ na despesa nos próximos dois anos, a iniciar já no início de 2013, que deliberadamente não especificou, mas cuja abordagem revelou claramente o apreço que tem pela democracia e o consenso. Sua Competência não considera necessário discutir o assunto com a oposição nem com os partidos enquanto tal. Já que tem de ter em conta variáveis políticas/sociais desse género lembradas pelos jornalistas, mas que não lhe apareciam na folha, diz privilegiar antes a discussão alargada a toda a sociedade, incluindo os parceiros sociais, mas não aos partidos. Ou seja, a todos e a ninguém. Enquanto tal acontece, em televisões, nos jornais, nos cafés, nas ruas, no planeta, de preferência não no Parlamento, e os portugueses andam assim entretidos com o circo, o Banco Mundial e outras eminências convidadas já lhe traçam o modelo que ele mesmo preencherá com todo o gosto e apresentará em Fevereiro aos portugueses, findos os debates, que ele espera tenham decorrido bem e com espírito de cidadania, mas em que obviamente não participou.

O à-vontade e visível deleite com que recorre a eufemismos e tergiversações, sobretudo quando não lhe interessa ou não quer responder, é tal que me pergunto com que habilidades de estilo nos brindará na altura da cessação precoce das suas funções. Gostaria de não demorar muito a saber. O ministro tem todo o direito e mais algum de ir para uma conferência de imprensa munido das defesas que melhor domina. Pena que as perguntas nem sempre tenham sido mais incisivas e persistentes ao ponto de as quebrarem, embora eu tenha consciência de que o ministro manteria o sistema estudado de não aprofundar o que não lhe interessa, que é muito. Pelo que desse círculo não se sairia nunca. Mas teria valido a pena expor mais a opacidade. E o que não lhe interessa, percebeu-se, é justificar-se quando confrontado com erros de previsões, derrapagens orçamentais sempre ignoradas, destruição evitável de empresas e de postos de trabalho, crescimento da dívida pública, diminuição das exportações, exageros e fundamentalismos de consequências tragicamente à vista. Enfim, as ruínas. As que ele não pisa, nem conhece. E, tudo indica, não importam. São coisas que acontecem, danos colaterais, por vezes premimos um botão e a casa vem abaixo, mas estaremos sempre no caminho certo. É só voltar a premir o mesmo botão. Os estrangeiros da Troika, sobretudo os europeus, concordam.

O certo é que, se o homem já acreditava à partida num ajustamento “científico” da nossa economia, com base num modelo que ignora os ecossistemas e sobretudo as pessoas, os descalabros reais e as críticas apenas o levam a intensificar a crença nas virtudes da sua missão. Soou assim a pergunta vinda do outro mundo aquela que pretendia saber o que faria o ministro na reunião em que estará presente na quarta-feira, em Berlim, em defesa dos interesses do país. Interesses do país?

Há pouco a fazer, mas alguma coisa terá de ser feita. Por nós, cidadãos com voz, pelos partidos, ou até, em última análise, como diz quem sabe, pelos bancos, a quem não pode interessar a miséria sem fim dos potenciais clientes. Um ministro destes, que raia a loucura e é o modelo acabado da subserviência a interesses políticos alheios, não nos interessa mesmo nada.

Até que enfim!

Apetece-me dizer “até que enfim!”. Já tardava um post assim. Não desvalorizando o que por aqui se vai escrevendo, precisamos de intervenções como esta do Vega como de pão para a boca! E que raras são.

Excelente post, a abrir caminhos de debate e reflexão. Começa a ser tempo de nos deixarmos de conversas sobre as pequenezes da vida como chonés e companhia Lda e de nos concentrarmos no que verdadeiramente importa. Os tempos mudaram e os desafios estão aí à porta. Como mudarmos nós também? O que queremos para o futuro?

Saltaram-me à vista duas ideias. Em primeiro, a necessidade de justificação para a presença numa actividade do partido de que se é militante. Não comungo da ideia “sendo que na vida partidária activa deve estar gente com bastante mais talento do que eu”. Os partidos afastaram-se das pessoas (ou afastaram as pessoas) e isso é uma das razões para esta situação ao estilo “tempestade perfeita” que vivemos hoje. Se acreditamos na democracia então está na hora de intervir e, para quem não vê solução no arremesso do calhau, contribuir para a mudança dentro dos partidos é o único caminho. Claro que esta é uma estrada de duas vias e também tem que partir de dentro das organizações partidárias a reflexão acerca da necessidade de renovação e de cativar militância. Mas podemos sempre dar o primeiro passo.

Em segundo, o parágrafo sobre o que significa uma esquerda moderna. É urgente despir os preconceitos e começar a sacudir o pó e os dogmas. Há muito que a direita percebeu isto e actualizou o discurso. E a mensagem passa. É preciso que passe, também, a mensagem da esquerda.

__

Oferta da nossa amiga SAlves

Singulis major, universis minor

Se nem em ditaduras as repressões policiais conseguem acabar, sequer diminuir, com as manifestações, ainda menos em democracias. O efeito será exactamente o oposto. A queda do Bloco Soviético e a “Primavera Árabe” são exemplos cristalinos deste princípio: quando o povo sai à rua não é possível assustá-lo, só massacrá-lo ou convencê-lo. Mas imaginemos que algum louco no Governo tinha imaginado que conseguiria – e sem ser descoberto! – pôr agentes disfarçados de anarco-pedreiros a servir calhaus aos colegas fardados até se considerar que estavam reunidas as condições para avançar de bastão em riste e partir a cabeça a meia dúzia de adolescentes, velhos e mulheres na esperança de que, sei lá, deixa cá ver, a CGTP e o PCP não voltassem a ter vivalma nas suas acções de luta. Ver pessoas que julgávamos em condições mentais suficientes para tirar a carta de condução, e outras que admiramos intelectual e moralmente, a alinharem nessa febre paranóide é uma espectacular lição quanto à facilidade com que se pode dar uma intoxicação cognitiva. O exemplo das fotografias de um tipo que se andou a passear junto da primeira linha do Corpo de Intervenção, e que até aparece num vídeo a gesticular sem máscara para um dos polícias que permanece imóvel de escudo erguido, é um gigantesco monumento à imbecilidade.

Continuar a lerSingulis major, universis minor

Último episódio ou apenas o mais recente?

Com várias séries de suspense a correr ao mesmo tempo (ANA, TAP, estaleiros, IRS, IVA da restauração, refundação ora do Estado ora do Memorando, etc.), cada uma orientada em função do grau de desnorte ou explorada em função dos interesses político-mediáticos do momento, mas todas com um provável desfecho dramático, a da RTP acaba de evoluir para mais um episódio, não sabemos se o final. Parece que não vai haver revolução nenhuma e que os dois canais televisivos públicos se mantêm, assim como os três de rádio. Quem o diz é Alberto da Ponte, o novo administrador, nomeado por Relvas.

“O que é que se passou, senhor deputado?!”

Outubro de 2012. Um primeiro-ministro de um país da União Europeia roga a um deputado da oposição que lhe explique o que se passou no tal país e no Mundo durante o período compreendido entre 2005 e 2011. O ambiente é de feira do gado, o estilo é de taberna. Ver para crer:

Dias depois, a chanceler de outro país da União Europeia aproveitou estar a passeio no país do tal primeiro-ministro para o ajudar a perceber o que se terá realmente passado:

Uma das coisas divertidas da passagem de Angela Merkel por Lisboa – para além da “photo opportunity” do letreiro “governo de Portugal” – aconteceu quando a chanceler, na conferência de imprensa ao lado de Passos Coelho, lembrou a origem da crise do euro. Deve ter sido esquisito para quem está habituado a culpar “o Sócrates” ter ouvido a todo-poderosa Angela explicar que, por causa da crise financeira desencadeada nos Estados Unidos, e da sua propagação à Europa, os governos europeus desataram a apostar no investimento público para conter o descalabro das suas economias. Só que entretanto os investidores começaram a desconfiar de algumas economias (as mais frágeis) e a duvidar da fiabilidade de alguns para pagar as respectivas dívidas. Esta foi a explicação de Merkel, perante um Passos Coelho que arrumou a um canto o discurso habitual do “vivemos acima das nossas possibilidades” e se concentrou no verdadeiro desastre nacional – um grave problema de produção.

Fonte

Revolution through evolution

Women Eager to Negotiate Salaries, When Given the Opportunity
.
Ask Gini: How to Measure Inequalit
.
Systematic Incarceration of African American Males Is a Wrong, Costly Path
.
‘Mindful Eating’ Equals Traditional Education In Lowering Weight And Blood Sugar
.

Hormone oxytocin may keep men monogamous, study suggests
.
Looks matter, even when it comes to money
.
Practicing meditation or exercising might make you sick less often
.
Physicist Elected to Congress Calls for More Scientists-Statesmen
.
Not What You Consciously Thought: How We Can Do Math Problems and Read Phrases Nonconsciously
.
Study Identifies Four Family Cultures in America
.
Does the Color Green Boost Exercise’s Effects?

Construções muito mal-vindas nos tempos que correm

Lou Ruvo Center for Brain Health.

À primeira vista não se diria, mas é uma clínica de saúde mental e situa-se em Las Vegas, terra onde pensávamos já ter visto tudo em reproduções ou originalidades arquitetónicas. Ao fim de anos de tentativas, a coincidência de uma perda sofrida de familiares conseguiu convencer Frank Gehry a deixar lá a sua obra. Resta-me desejar que os doentes, uma vez no interior, encontrem algum equilíbrio e pontos de referência.

Aproveito para deixar o meu profundo lamento a quem ficou sem carro, casa ou outros haveres no Algarve.

Vencidos da troika

Quem gosta de política gosta do Louçã. Gosta muito, tanto quanto a sua excepcionalidade. E tão mais quão menos se identificar com ele. Porque o desacordo ideológico, intelectual e moral permite uma objectividade centrada no homem e não no chefe.

Embora o Bloco seja o Louçã, e sendo duvidoso que o partido lhe sobreviva caso o Chico saia mesmo de cena, Louçã é mais do que o Bloco. O que ele fez no PSR foi igualmente notável, pois já então conseguiu ocupar o espaço entre o PS e o PCP, chegando a eleitorados jovens e urbanos com uma promessa de lirismo credível. O seu instinto de marketing cedo mostrou ser apurado, utilizando linguagens e códigos onde se escondia o radicalismo e se vendia o vanguardismo. Era a síntese perfeita à esquerda: a pureza ideológica do PCP com a ligação à sociedade e ao futuro do PS. Ou assim se fez parecer.

É por tudo isso que a sua despedida do palco, mesmo que temporária ou simulada, merece uma ponderação mais funda sobre tão influente figura. E basta comentar o seu último discurso, na abertura da Convenção do BE, para termos um retrato transparente da sua pessoa política. São 30 minutos extraordinários. 30 minutos de demagogia, fanatismo, hipocrisia, narcisismo e desonestidade intelectual sem o menor vestígio de consciência, quanto mais de vergonha. 30 minutos de culto da personalidade e de rédea solta à megalomania e ao farisaísmo. E, no entanto, tal não impede que se reconheça o seu valor: também por sua causa Portugal melhorou nos últimos 30 anos.

São variadas as calamidades do foro lógico que aquele discurso oferece à contemplação. Contudo, porque ele se constitui como o enésimo ataque à outrance ao PS, assim se misturando a sua obsessão com a homenagem a companheiros mortos e a saudação a companheiros vivos, talvez o mais apropriado seja sairmos dessa mistela de duvidoso gosto e ficarmo-nos pelo cenário. Nele se pode ler, por todo o lado, o lema do evento: “vencer a troika”. Isto significa que o partido que viabilizou a perda da soberania e a entrega do País à dupla Passos-Relvas, e cujo líder chegou na altura a dizer que desse modo se estava a sair da crise, se transformou numa entidade cujo único desígnio é o de lutar contra o seu passado. É que existiu realmente uma altura em que a Troika poderia ter sido vencida e um Governo disposto a combater ao lado do BE nessa patriótica batalha, mas não é nesta altura nem será em nenhuma outra por vir. O mal está feito, o que resta acontecer será uma penosa recuperação.

Eis um facto histórico que diz o essencial a respeito de Louçã como político e como cidadão.

Polícias contra polícias

__

Nesta imagem vemos vários polícias em acção. À esquerda, temos o polícia do blusão preto com o símbolo branco no braço, com a mochila, com as luvas e com o gorro. Este polícia notabilizou-se por haver cumprido à risca o protocolo das infiltrações e, tal como mandam os manuais do infiltrismo, ter ido várias vezes à linha da frente nas escadarias trocar palavras com os seus colegas fardados, quiçá dando informações ou pedindo instruções e depois voltando ao fight dos pedreiros libres. Há fotos onde se vê este polícia mesmo juntinho aos outros polícias, pelo que escusam de vir para cá com teorias de que não senhor e coiso e tal pois as fotos não mentem como sabe qualquer estudante com um razoável conhecimento da estética do estalinismo. Mesmo junto dele, segurando um cartaz onde se lê o intrincado argumento Aqueles que fazem da revolução pacífica algo impossível farão com que a revolução violenta seja inevitável, está outro polícia que momentos antes ou momentos depois foi fotografado a passear um sinal de trânsito à frente dos seus colegas de cara destapada. Como este polícia também usa um blusão preto e um gorro, há uma corrente que afirma estarmos perante o desdobramento holográfico do polícia da esquerda, no que seria mais uma prova de o Governo estar a usar tecnologias de última geração cedidas pela CIA. Contudo, a geringonça ainda apresenta algumas imperfeições, pois o polícia da direita não tem mochila, não tem luvas e até o gorro difere por apresentar uma abertura para a boca. Pormenores a resolver em futuras versões, certamente. Colhe igualmente apontar aquele ou aquela polícia que empunha um cartaz onde se pode ler o fatal Morte ao Governo, e ainda o polícia que está a puxar lume ao fogaréu com a perícia de um profissional.

Mas o melhor é apreciar-se o vídeo respectivo, onde se pode admirar toda a extensão deste estupendo conflito entre polícias que, pese embora uma ou outra cacetada mais agreste, não impede que eles continuem todos amigos.

Naquele dia, lembram-se?

«Alertei, no dia 1 de janeiro de 2010, procurando chamar a atenção dos agentes políticos para inverter o rumo que nós estávamos a seguir (…) Nós estamos numa situação de recessão que não conhecíamos há algum tempo, na medida em que em dois anos a economia portuguesa caiu cerca de 4,5%. É uma situação muito, muito pior do que aquela que já se antecipava – mas alguns não quiseram acreditar – e que hoje temos de enfrentar», afirmou Cavaco Silva.

15 de Novembro de 2012

__

Cavaco lembra, quase 3 anos depois, que houve um certo dia em que disse uma certa coisa. Essa era a coisa certa, e a coisa verdadeira. Mas algo funesto aconteceu: os incréus não acreditaram, como é aliás seu hábito por ser essa a sua retorcida natureza.

Aproximemo-nos deste paradigmático símbolo da direita portuguesa, o político há mais tempo no activo, o nosso reeleito Supremo Magistrado da Nação. Para além de tudo o resto que nele é exemplo e excelso, este homem não mente aos portugueses. Já o afiançou vezes sem conta. Quem mente são os outros, aqueles que acumulam esse vício imoral com a incredulidade a seu respeito. Aliás, quem quiser conhecer a verdade – repito: a verdade; insisto: a verdade – sobre aquilo que diz e faz o Presidente da República, basta ir ao website da Presidência. Lá, está a verdade. Pelo que este estadista revela eficiência máxima na utilização dos canais digitais para agregar a verdade e disponibilizá-la aos seus utilizadores. Como também vê crescer a fama e os amigos por usar a plataforma Facebook em complemento ao website da Presidência, não erramos se dissermos estar Cavaco por esta altura capaz de produzir verdades com uma percentagem de pureza bem acima dos 100% – talvez mesmo já tendo atingido o “Pico de Moisés”, assim conhecido entre os investigadores esse nível em que uma figura pública consegue chegar a conteúdos com 250% de verdade só pela Internet.

Mas concentremo-nos. Atenção. Atenção à data: 1 de Janeiro de 2010 à noitinha. Quer isso dizer que não se justificou alertar o País para qualquer berbicacho de especial importância antes. Isto é óbvio, para além de ser evidente. Caso tivesse sido necessário avisar os agentes políticos mais cedo, o nosso veríssimo e responsabilíssimo Presidente não teria ficado placidamente à espera do dia 1 Janeiro de 2010 à noitinha. Mas igualmente quer dizer que deixou de ser necessário fazer novos alertas mais tarde, pois não se referem outras datas. Aliás, tendo em conta que o Presidente da República reúne semanalmente com o Primeiro-Ministro, há boas razões para supor que esta agora recordada comunicação só se tornou pública por ter calhado no feriado do Ano Novo e não estar previsto nenhum encontro entre os dois chefes nesse dia.

Cândida e pesarosamente, Cavaco lamenta que alguns agentes políticos não tivessem de imediato invertido o rumo que se estava a seguir no dia 1 de Janeiro de 2010 à noitinha, rumo que diferia substancialmente do rumo seguido em 30 de Dezembro de 2009 à tardinha ou em 15 de Junho de 2008 de manhãzinha, só para referir outras datas em que de Belém não veio nenhuma chamada de atenção a merecer atenção. E é bem verdade, para sempre ficaremos com essa dúvida a pairar sobre as nossas cabeças. A dúvida relativamente a esse regime onde as arbitrárias palavras de um homem obrigassem um Governo democrático a abdicar da sua legitimidade e do seu programa. A dúvida diz apenas respeito à designação, pois já sabemos que o conceito de democracia não se aplica. Que nome teria essa aberração?

Notas soltas de um debate

Estive ontem num debate local sobre a situação económica com dois jovens deputados do PS, Pedro Nuno Santos e Pedro Delgado Alves. Fui pela primeira vez a um evento destes movido por uma curiosidade que tinha já há algum tempo: o que é que se fala e como é que se discute esta crise e a situação do país dentro do próprio partido, num contexto mais afastado das luzes dos holofotes e do combate na arena politica. Ou seja, o que é que o PS pensa disto quando fala entre os seus, quais são os caminhos que aponta, que opções vê? E sobretudo, qual é a estratégia? Há sequer uma, para além das banalidades e soundbites debitadas regularmente por Seguro e Zorrinho? Do “temos que apostar no crescimento” sem explicar bem como é que lá se chega? Das medidas pontuais?
Note-se que apesar de ser militante (inscrevi-me já há uns anos, quando Durão Barroso ganhou) a minha actividade nesse campo tem sido praticamente nula, por isso esta é um aspecto da discussão do qual estou afastado. Sei o que qualquer um sabe lendo jornais, blogues ou redes sociais (e um ou outro contacto com gente de dentro), mas pouco mais. Não me desagradava essa posição até agora, sendo que na vida partidária activa deve estar gente com bastante mais talento do que eu, mas a completa ausência de respostas, estratégia e de orientação por parte do PS começa a desesperar. Não pode ser só aquilo, o PS não pode resumir-se a esta mediocridade insalubre, mesmo que iluminada pontualmente por algumas intervenções,  que passa cá para fora. Por isso fui. Fui ver com os meus olhos e sobretudo, ouvir. E saí de lá com sentimentos contraditórios.
Sem entrar em grandes detalhes sobre o que se falou, para não aborrecer, deixo algumas notas (evidentemente com reservas. Foi um debate, com dois deputados):

Continuar a lerNotas soltas de um debate

Deixem lá, para a próxima não será melhor

Louçã, tivesse nascido no século I AD, poderia ter sido um Apolónio de Tiana, famoso e milagreiro como Cristo, vestido de túnica branca e pregando a frugalidade e a pureza, no império e mais longe. A voz está lá. Mas, nestes anos da graça, não lhe foi fácil conquistar adeptos sequer numa zona circunscrita desta ex-província romana. Na prática, há poucos crentes no reino dos amanhãs que cantam. Era um sátiro e admirado enquanto tal. O par que agora o substituiu, e que ontem foi entrevistado na RTP, não permite, dos seus rostos, a mesma leitura, pelo que a “mensagem” ainda menos passa. Sem a voz e as convicções algo alucinadas de Louçã, as propostas de rasgar o Memorando, nacionalizar os bancos, a crença de que a evolução da situação social em Portugal lhes dará um número avassalador de votos, a ideia de que Cavaco demite o Governo já para lhes fazer o serviço, a cortesia de Semedo a remeter cadenciadamente para as palavras da sua consorte, mas vindo em seu socorro quando a via “entalada”, a falta de explicação da nossa futura fonte de financiamento após a rutura com a Troika, a resposta patética de que um líder único também nada decide sem consultar outros, enfim, tudo aquilo foi penoso de ver. A ponto de não excluir a possibilidade de me ter escapado alguma afirmação verdadeiramente importante por ter, nalguns momentos, mudado de canal.

Calhaus com olhos

Os bravos que destruíram à pedrada o impacto da greve geral foram o que de melhor poderia ter acontecido à direita decadente que ocupa Belém e S. Bento. Por um lado, permitem ter o Presidente da República e o Primeiro-Ministro unidos na defesa da segurança pública, assim anulando a dimensão política do evento. Por outro lado, os efeitos da carga policial deixaram os cidadãos combatendo-se entre si, divididos entre os indignados com a brutalidade da ordem e os indignados com a naturalidade da desordem. Em suma, pior era impossível para os interesses da CGTP e da população.

Vamos admitir que foram apenas meia dúzia aqueles que causaram os desacatos, pegando na expressão metonímica do ministro Macedo. Vamos admitir como gostam de admitir aqueles que colocam toda a responsabilidade nos bastões da polícia. Ora, pensemos: meia dúzia. Meia dúzia, pelos melhores cálculos, corresponde a seis indivíduos, mais coisa menos coisa. Ora, pensemos: seis valentes estiveram hora e meia a desmontar um passeio público e a fazer pontaria ao boneco. A primeira pergunta que ocorre é esta: porque demorou a polícia nas escadarias tanto tempo a reagir? A segunda pergunta é esta: porque não agiram os agentes infiltrados? Ou mesmo um GNR de folga e bigode farfalhudo? São boas e legítimas perguntas, posto que meia dúzia de rapazolas não deveria conseguir assustar o Corpo de Intervenção mais os seus ferozes colegas em cima da festa, por isso gente muito boa as coloca com toda a legitimidade. Só é de lamentar, então, que não se chegue à terceira pergunta: porque deixaram os restantes cinco mil pacíficos e inocentes manifestantes que seis galfarros tivessem tomado conta dos acontecimentos e estivessem a atacar agentes da autoridade que defendiam a Assembleia da República, não se sabendo o porquê e muito menos o para quê desse ataque?

O PCP e a CGTP orgulham-se da férrea disciplina que conseguem impor nas suas manifestações, algo que gera admiração e até agradecimentos em todo o espectro político democrático. Mesmo o lado perverso, as anedotas relativas à coerção que os seguranças vermelhos exercem sobre os espúrios, é visto como folclore sem gravidade. Contudo, CGTP e PCP dependem de uma retórica bélica que promove a radicalização das divergências políticas e a estigmatização dos adversários. Este é um caldo ideológico onde parte da violência urbana encontra alimento, senão mesmo génese. E não são só os putos que alinham, como se pode constatar lendo esta reportagem: Quem é que atirou a primeira pedra?

Pelos vistos, foi mais interessante para as cinco mil vítimas das animalescas rotinas policiais estarem solidariamente ao lado dos pedreiros do que terem-nos mandado para casa com uns higiénicos e pedagógicos calduços. O que nos leva a concluir ter o número de calhaus com olhos presentes na ocasião ultrapassado manifestamente a meia dúzia.