Naquele dia, lembram-se?

«Alertei, no dia 1 de janeiro de 2010, procurando chamar a atenção dos agentes políticos para inverter o rumo que nós estávamos a seguir (…) Nós estamos numa situação de recessão que não conhecíamos há algum tempo, na medida em que em dois anos a economia portuguesa caiu cerca de 4,5%. É uma situação muito, muito pior do que aquela que já se antecipava – mas alguns não quiseram acreditar – e que hoje temos de enfrentar», afirmou Cavaco Silva.

15 de Novembro de 2012

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Cavaco lembra, quase 3 anos depois, que houve um certo dia em que disse uma certa coisa. Essa era a coisa certa, e a coisa verdadeira. Mas algo funesto aconteceu: os incréus não acreditaram, como é aliás seu hábito por ser essa a sua retorcida natureza.

Aproximemo-nos deste paradigmático símbolo da direita portuguesa, o político há mais tempo no activo, o nosso reeleito Supremo Magistrado da Nação. Para além de tudo o resto que nele é exemplo e excelso, este homem não mente aos portugueses. Já o afiançou vezes sem conta. Quem mente são os outros, aqueles que acumulam esse vício imoral com a incredulidade a seu respeito. Aliás, quem quiser conhecer a verdade – repito: a verdade; insisto: a verdade – sobre aquilo que diz e faz o Presidente da República, basta ir ao website da Presidência. Lá, está a verdade. Pelo que este estadista revela eficiência máxima na utilização dos canais digitais para agregar a verdade e disponibilizá-la aos seus utilizadores. Como também vê crescer a fama e os amigos por usar a plataforma Facebook em complemento ao website da Presidência, não erramos se dissermos estar Cavaco por esta altura capaz de produzir verdades com uma percentagem de pureza bem acima dos 100% – talvez mesmo já tendo atingido o “Pico de Moisés”, assim conhecido entre os investigadores esse nível em que uma figura pública consegue chegar a conteúdos com 250% de verdade só pela Internet.

Mas concentremo-nos. Atenção. Atenção à data: 1 de Janeiro de 2010 à noitinha. Quer isso dizer que não se justificou alertar o País para qualquer berbicacho de especial importância antes. Isto é óbvio, para além de ser evidente. Caso tivesse sido necessário avisar os agentes políticos mais cedo, o nosso veríssimo e responsabilíssimo Presidente não teria ficado placidamente à espera do dia 1 Janeiro de 2010 à noitinha. Mas igualmente quer dizer que deixou de ser necessário fazer novos alertas mais tarde, pois não se referem outras datas. Aliás, tendo em conta que o Presidente da República reúne semanalmente com o Primeiro-Ministro, há boas razões para supor que esta agora recordada comunicação só se tornou pública por ter calhado no feriado do Ano Novo e não estar previsto nenhum encontro entre os dois chefes nesse dia.

Cândida e pesarosamente, Cavaco lamenta que alguns agentes políticos não tivessem de imediato invertido o rumo que se estava a seguir no dia 1 de Janeiro de 2010 à noitinha, rumo que diferia substancialmente do rumo seguido em 30 de Dezembro de 2009 à tardinha ou em 15 de Junho de 2008 de manhãzinha, só para referir outras datas em que de Belém não veio nenhuma chamada de atenção a merecer atenção. E é bem verdade, para sempre ficaremos com essa dúvida a pairar sobre as nossas cabeças. A dúvida relativamente a esse regime onde as arbitrárias palavras de um homem obrigassem um Governo democrático a abdicar da sua legitimidade e do seu programa. A dúvida diz apenas respeito à designação, pois já sabemos que o conceito de democracia não se aplica. Que nome teria essa aberração?

3 thoughts on “Naquele dia, lembram-se?”

  1. Eu, Jeremias, lamento profundamente. Quando recordo os anos plenos de iniciativa e conretizações nos mais diversos domínios, onde se desenhava, claramente, um Portugal inovador, os anos 2006, 2007 e ainda 2008, eis que surge a desolação da crise financeira. filha da ganância sem alma. Quem achar que isto é delirio de um socrático, veja com olhos de ver os números, um a um, e compare com o antes e o depois deste triénio. O ataque feroz dos mercados foi secundado de imediato pelos abutres lusos, que salivaram perante as feridas profundas causadas na economia. Chegara a hora da vingança. E o tiro de partida foi dado pelo memso homem que agora dirige o ataque final à jovem democracia de Abril: Cavaco. Todos nos lembramos que, a propósito de umas “virgulas” colocadas nos estatutos do Governo dos Açores (aprovadas por unanimidade na AR!!!) Cavaco interrompe as férias para iniciar o ataque até ao fim, ao PM de Portugal em exercício, afrontando o Parlamento e o Governo. Economista profeta, como ele constantemente se arroga, sabia o que aí vinha do outro lado do Atlântico, não tivesse ele, muito bem posicionado, o seu olheiro por aquelas bandas, António Borges.
    O resto da história nem vale a pena lembar.
    Perdemos. Uma democracia mata-se e pouco tempo

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