Vencidos da troika

Quem gosta de política gosta do Louçã. Gosta muito, tanto quanto a sua excepcionalidade. E tão mais quão menos se identificar com ele. Porque o desacordo ideológico, intelectual e moral permite uma objectividade centrada no homem e não no chefe.

Embora o Bloco seja o Louçã, e sendo duvidoso que o partido lhe sobreviva caso o Chico saia mesmo de cena, Louçã é mais do que o Bloco. O que ele fez no PSR foi igualmente notável, pois já então conseguiu ocupar o espaço entre o PS e o PCP, chegando a eleitorados jovens e urbanos com uma promessa de lirismo credível. O seu instinto de marketing cedo mostrou ser apurado, utilizando linguagens e códigos onde se escondia o radicalismo e se vendia o vanguardismo. Era a síntese perfeita à esquerda: a pureza ideológica do PCP com a ligação à sociedade e ao futuro do PS. Ou assim se fez parecer.

É por tudo isso que a sua despedida do palco, mesmo que temporária ou simulada, merece uma ponderação mais funda sobre tão influente figura. E basta comentar o seu último discurso, na abertura da Convenção do BE, para termos um retrato transparente da sua pessoa política. São 30 minutos extraordinários. 30 minutos de demagogia, fanatismo, hipocrisia, narcisismo e desonestidade intelectual sem o menor vestígio de consciência, quanto mais de vergonha. 30 minutos de culto da personalidade e de rédea solta à megalomania e ao farisaísmo. E, no entanto, tal não impede que se reconheça o seu valor: também por sua causa Portugal melhorou nos últimos 30 anos.

São variadas as calamidades do foro lógico que aquele discurso oferece à contemplação. Contudo, porque ele se constitui como o enésimo ataque à outrance ao PS, assim se misturando a sua obsessão com a homenagem a companheiros mortos e a saudação a companheiros vivos, talvez o mais apropriado seja sairmos dessa mistela de duvidoso gosto e ficarmo-nos pelo cenário. Nele se pode ler, por todo o lado, o lema do evento: “vencer a troika”. Isto significa que o partido que viabilizou a perda da soberania e a entrega do País à dupla Passos-Relvas, e cujo líder chegou na altura a dizer que desse modo se estava a sair da crise, se transformou numa entidade cujo único desígnio é o de lutar contra o seu passado. É que existiu realmente uma altura em que a Troika poderia ter sido vencida e um Governo disposto a combater ao lado do BE nessa patriótica batalha, mas não é nesta altura nem será em nenhuma outra por vir. O mal está feito, o que resta acontecer será uma penosa recuperação.

Eis um facto histórico que diz o essencial a respeito de Louçã como político e como cidadão.

6 thoughts on “Vencidos da troika”

  1. Nem mais. Contra factos não há argumentos.E por mais que o Louçã esperneie, para a história fica a coligação da esquerda radical com a pior direita portuguesa contra um PM disposto a lutar contra a entrega da soberania aos mercados cegos e gananciosos, quando o mesmo PM já tinha assegurado o apoio da senhora Merkel e da Comissão Europeia.
    Louçã sabia perfeitamente que a queda do governo era a derrota do país e a chegada ao poder de Passos-Relvas-Portas com os seus “veneráveis” curriculos, que os portugueses podiam conhecer mal, mas Louçã sabia de cor e salteado.
    É minha opinião pessoal que ele abandonou o cargo porque tomou consciência da enormidade política que cometeu. Normalmente, estes “arrependidos” costumam cair, seduzidos, nos braços daqueles que sempre afirmaram combater, quando, efectivamente, atacavam de morte os adversários destes. Dizendo claramente, e os factos provam isso mesmo, o verdadeiro adversário político das nossas esquerdas foi sempre o PS. De Soares ou Sócrates.
    Quando ele conta, numa entrevista recente, que avisou o primo Victor Gaspar da “alhada monumental” em que se metera (supõe-se, por ter aceitado o cargo de MF) ele sabia bem do que estava a falar. A revelaçãos deste aviso ao primo Gaspar bem pode ser a confissão involuntária dos motivos reais do seu abandono: a consciência perfeita de que metera o país numa “alhada monumental”.
    Apesar de ter visto tanta coisa nesta minha vida, já longa, ainda me espanto ao dar de caras com gente capaz de tanto cinismo, mentira e cobardia. Só na direita que nos governa encontro paralelo com a postura de Louçã. Não me admirarei, pois, se um dia destes o vir a trabalhar ao lado do primo Gaspar.

  2. “… também por sua causa Portugal melhorou nos últimos 30 anos.”

    só se for em trangenia do comunismo, de resto não enxergo melhoramentos que tenham sido votados pela cambada, tirando fufas & larilas. ainda bem, para ele, que sai, pois estava à beira do trambolhão. caso seja uma ironia tipo nhanha, tás à vontade para eliminar o comentário.

  3. Peque, peque, peque … tédio … peque, peque, … boia retórica … peque, peque, peque … mentira … peque, peque, peque … “em que a Troika poderia ter sido vencida” (risada) … peque, peque, peque … ad nauseam

    Por favor, virem o disco.

  4. Jeremias, de acordo, da primeira à última linha, com o teu excelente comentário. O primeiro parágrafo define com precisão meridiana a responsabilidade que o Louçã (estou a vê-lo na Assembleia da República na senha feroz com que atacava Sócrates) tem no momento que hoje o país vive. É uma responsabilidade que a história não poderá apagar. Pelo contrário, infelizmente e para mal dos portugueses, cada vez se tornará mais dramática.

  5. o louçã teve que se demitir porque a sua estratégia de esmagar o sócrates esmagou-o também a ele (e ao país). mas ele vai continuar a planar sobre o bloco,a dominar a estratégia do bloco que é feita através do fogo mediático. só não estará na assembleia onde até tinha decaído de ferocidade relativamente aos tempos do socras.

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