Vinte Linhas 43

Um japonês na cidade dos ventos

Chama-se Minoru Nagashima e nasceu em Takasaki em 19 de Maio de 1943 mas vive e trabalha em Lisboa desde 1999. Apaixonado por Lisboa desde 1998, pelas suas cores, pelas suas colinas e pelos seus ventos, Minoru Nagashima passa grande parte do seu dia no jardim do Príncipe Real. Vai dormir à Costa do Castelo mas regressa todas as manhãs à magia deste jardim. Nunca se cansa de o pintar. Há sempre um pormenor novo, um relevo, uma luz, um reflexo. Exagero meu, sem dúvida: Minoru Nagashima não pinta o jardim tal como ele é mas sim o seu olhar sobre o jardim, sua paisagem e seu povoamento. Esta pintura não é um registo, é uma interpretação pessoal daquilo que o pintor sente quando o vê. Porque nem sempre olhar é ver. Discreto, simples, afável, sempre com um sorriso, Minoru Nagashima chega pela manhã e faz do quiosque do senhor Oliveira o seu «atelier» de reserva. Trabalha ao ar livre e guarda mas prateleiras do quiosque a máquina fotográfica, a carteira e o seu livro grande. Nele estão fotografias de exposições anteriores em Tóquio, Kanagawa, Saitama, Gumma, Shizuoka, Fukushima e Lisboa. Para pintar, Minoru Nagashima precisa apenas da sua intuição. Por isso se despoja, por isso coloca de lado tudo o que o pode sobrecarregar na tarefa de iluminar o quadro em branco. Minoru Nagashima sorri, sorri sempre. Ele sabe que dentro dos quadros que pinta todos os dias vai guardar toda a luz da cidade dos ventos. E quem passa põe ele, numa pressa para coisa nenhuma, não consegue reparar nem no jardim nem no quiosque nem no japonês tranquilo que se deixou apaixonar em 1998 pela cidade de Lisboa. A quem ele chama com toda a razão a cidade dos ventos.

O especialista

Portas merece um justo aplauso. Veio já anunciar que vai fazer uma campanha poupadinha, porque há muitos portugueses a passarem dificuldades, coitadinhos. Portas conseguiu transformar o CDS num partido especializado em velhinhas; e isso, aposto, até nem deve ter sido nada fácil.

Para não variar, temos Cavaco

As declarações do PR seriam cómicas se não fossem preocupantes, porque mais do mesmo, enganadoras, a revelação à boca de cena de tudo o que já se escreveu sobre a figura. Estou a escrever sobre estas declarações, que mereceram o texto luminoso do valupi.

Já não tolero, tendo de tolerar (pois), que Cavaco use os cidadãos como pregos do caixão que quer meter fundo na terra. A indecência com que afirma que o PEC IV “terá apanhado de surpresa os Partidos e os portugueses” é para lá de qualificação: esse bálsamo chamado PEC, ainda por aprovar, que Cavaco acha que devia ter sido apresentado em forma de projecto aos Partidos “e aos portugueses” , entidades equiparadas e ambas em choque pós-traumático.

O carinho de Belém vem em mais um discurso directo via declarações aos jornalistas explicando que assim não foi possível fazer nada, que agora tem de actuar “com muita ponderação” (shiiiiiiuuuuuuuu), medindo as palavras (iupiiiiiii), e alguma reserva”

Diz ainda que é o último garante do normal funcionamento das instituições democráticas. O último, imaginem.

Bom, deixem lá a Manuela Ferreira Leite falar. Sem reserva.

Manobras à margem

Esta questão passou muito rapidamente para o plano dos partidos e da Assembleia da República. Pela forma como o programa foi apresentado, pela falta de informação, pelas declarações que foram feitas quase nas primeiras horas ou até nos primeiros dias, tudo isso reduziu substancialmente a margem de manobra de um presidente da república atuar preventivamente.

Diz que é uma espécie de Presidente da República

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Cavaco, o conspirador e o rancoroso, preparou um discurso de tomada de posse presidencial como nunca se tinha feito na Assembleia da República. Foi uma intervenção onde assumiu o papel de líder da oposição e que equivaleu à apresentação de uma moção de censura. Este político supinamente hipócrita, para além de se vangloriar de ser um mestre de Economia e Finanças sempre que fala da sua excelsa pessoa, para além de ter feito uma campanha eleitoral anunciando ser ele o garante da acalmia dos mercados e a fonte da estabilidade nacional por via da sua experiência e competências, tinha passado um mês a ouvir todos os principais responsáveis pela situação portuguesa, tanto interna como externamente. Sabia do imediato calendário europeu e das cruciais negociações em curso para conseguir encontrar uma solução para o trágico problema das dívidas soberanas e respectivas dificuldades de financiamento. E, se quisesse, tinha permitido ao PSD a viabilização do PEC a ser negociado em nome da mesma lógica com que viabilizou os outros e o Orçamento. Só que não permitiu, como as palavras acima revelam na sua sonsice abjecta. A ordem foi dada para derrubar o Governo. Porquê agora?

Pelos vistos, os senhores da guerra do PSD estão a cruzar três factores: a vitalidade das exportações, a boa execução orçamental e a luz ao fundo do túnel na Europa. O seu grande receio era o da plena realização desses processos, levando a que o Governo conseguisse tirar o País do estrangulamento financeiro. Nessa possibilidade, Sócrates entraria para a História como herói, e não voltaria a haver tão cedo outra conjuntura tamanhamente negativa como esta que atravessamos. Então, juntando-se a fome à vontade de comer, optaram por avançar já em direcção ao pote. Veja-se o silêncio de certos banqueiros e grandes empresários, em especial a gana de Balsemão por eleições, e fica completo o retrato em que Cavaco volta a ser uma peça central na luta pelo Poder em Portugal.

Quem ainda tiver dúvidas do que representa a sua associação lucrativa com Oliveira e Costa e Dias Loureiro, quem preferir fechar os olhos à promoção de Fernando Lima, não precisa de voltar a nascer. Uma vez chega.

Vinte Linhas 601

Um lenço dos namorados para Marta

Aqui vai, para ti Marta, com a amizade de sempre, um lenço dos namorados para ti, na edição especial da «Terra Lusa – Portugal» feito em micro fibra, próprio para limpar ecrãs, jóias, telemóveis, CDs, óculos e máquinas fotográficas.

Os lenços dos namorados originais são caríssimos – conheço o assunto porque fiz em tempos um trabalho para o IEFP e estive em Serreleis. Mas este pano de limpeza é uma gracinha e copia de modo feliz um lenço a sério. Copia e reproduz até os seus deliciosos erros de ortografia. Por exemplo este:

«Bai carta feliz buando / Nas asas dum passarinho

Cando bires o meu amor / Dale um abraço e um beijinho»

Aí em Madrid onde vives ou em Alcalá de Henares onde és professora, sei que lembras de vez em quando os teus tempos de Jaen, no Sul, perto do Alentejo Português. Onde as oliveiras parecem iguais mas onde, afinal de contas, tudo é diferente: existem lenços, existem namorados mas não existem lenços dos namorados. Estamos tão perto mas somos tão diferentes. Mas devemos ver na diferença uma espécie de complementaridade e não de distanciamento. Não é por acaso que no teu Blog aparece um banco frente ao mar da Ericeira. Despeço-me por hoje de ti com outra quadra:

«Aqui tens meu curação / E a chabe pró abrir

Num tenho mais que te dar / E tu mais que me pedir».

Aqui fica com a devida vénia à «Terra Lusa – Portugal» que teve a feliz ideia de criar este panos em micro fibra. Um achado para turistas e não só.

As casas de Blackheath Park

São todas de madeira e de vidro
As casas de Blackheath Park
A outra metade é feita de tijolos
Tristes porque são todos iguais
Na sua tão repetida monotonia

À volta da avenida fica o arvoredo
Antigo como as casas dos guardas
Lembra um velho tempo de quintas
Com cavalos e carroças no mercado
Hoje só recordado aos domingos

Esquilos nos ramos, corvos na relva
De noite raposas fogem assustadas
Dos poucos táxis a circular na rua
Na escuridão fria da noite inglesa
À hora dos comboios mais raros

Envolvido nas rotinas das escolas
Levo na mão o meu neto de manhã
E vou buscá-lo perto do meio-dia
Pego na pasta azul com o seu nome
E levo o saco da fruta que ele espera

Todos os dias trocam o livro da mala
São elefantes, borboletas e ovelhas
Entram na floresta que eu lhe conto
E tremem de medo dos monstros
Como eu tremo de medo da doença

São todas de madeira e de vidro
As casas de Blackheath Park
Frágeis perante a neve a chegar
Tal como eu frente ao pâncreas
Que de súbito há-de ficar cansado

Tudo é intenso e frágil nos dedos
Maneira de eu dizer adeus à vida
Todos os momentos são preciosos
Para que o meu neto me lembre
E não se esqueça de me recordar

Coalition Forces

Corre nos mentideros da diplomacia internacional que Khadafi, nesta segunda-feira, esteve quase para se render ao primeiro caça que visse passar por cima do casebre onde está escondido. O impulso terá tido origem num equívoco, porém, como revelou um dos seus filhos. Saif al Islam contou que o seu pai tem por hábito diário consultar dois websites portugueses: presidencia.pt e psd.pt. Parece que Khadafi consegue descontrair-se lendo essa estranha literatura porque nela fala-se dos problemas políticos como se não existisse crise internacional alguma e acabando tudo o que corre mal no Mundo por ser culpa de Sócrates e do Governo português. Embora Khadafi saiba no seu íntimo que tal não seria possível, apressou-se a explicar o filho, são à mesma preciosos momentos de escapismo e diversão que fazem muito bem à saúde do coronel. Ora, estava o grande líder nisto quando dá de fuça com o comunicado do PSD onde se promete formar a broad coalition for change. Mal acaba de ler a expressão, engasga-se com a torrada, levanta-se em pânico e fica encostado à parede, tremendo empapado de suores frios. Fruto do stress de guerra a que está sujeito, na sua mente já via Passos Coelho, Miguel Relvas e Marco António Costa avançando triunfantes e imparáveis para Tripoli com a intenção de exigirem eleições antecipadas em ordem a levarem Portas de novo para junto da máquina das fotocópias. E desse estratégico poiso a desatar a comprar dezenas de submarinos e porta-aviões seria um Paulinho, não haveria petróleo suficiente em África para os pagar. Era uma visão insuportável mesmo para quem nasceu no meio de camelos, horrenda, pelo que desatou a correr para o terraço, agitando os braços na direcção do céu e berrando que se rendia. Teve de ser agarrado pelas boazonas da sua segurança pessoal e arrastado para dentro à bruta.

Passado um bocado, acalmou e conseguiu mandar um pombo-correio para o seu grande amigo Ângelo Correia, pedindo-lhe esclarecimentos. Continuava desconfiado, aquela expressão tinha algo de sinistro. Ângelo respondeu prontamente, garantindo que a coalition do PSD tem primeiro de conquistar Belém, depois aguentar a pressão de Rio e Rangel e suportar os humores do Pacheco. Por isso, até que esteja em condições de atacar a Líbia, ainda vão passar alguns séculos.

Tem graça e devemos agradecer

Tem graça ver Medeiros Ferreira e Carrilho a pedirem a cabeça de Sócrates. É que toda a gente está encantada e agradecida com o esforço titânico que estes dois têm feito, nos jornais e nas televisões, para resolver os problemas da malta. A sua actividade produz um vendaval de inteligência, uma avalanche de soluções. E são tantas as propostas, e tão rápida a sua produção, que infelizmente não se consegue fixar nenhuma. Esperemos que esta, pelo menos, faça caminho. Bem que eles o merecem pelo muito que nos têm dado sem exigirem nada em troca.

Rasteiras rasteiras

Na manhã da quinta-feira a seguir ao repto do Presidente da República para a sedição nacional contra o Governo, o grupo parlamentar do PSD estava em polvorosa. Alguns chegaram a propor que se votasse ao lado do Bloco e do PCP para derrubar nesse mesmo dia Sócrates e sua bandidagem. Estes bravos deputados não precisavam da ajuda do Facebook para interpretar as palavras de Cavaco, o seu sentido era unívoco: tinha chegado a hora da rasteira mais rasteira.

Entretanto, o calendário europeu seguia o seu curso. No dia 11 era necessário que Portugal fizesse o seu papel na cimeira extraordinária em Bruxelas, independentemente das convulsões políticas caseiras. Tratava-se de um passo crucial para a obtenção de um consenso que levasse à criação de um fundo que pusesse o País ao abrigo da especulação, assim permitindo a recuperação económica. Para tal seria preciso continuar a dar provas de que o processo de saneamento das contas públicas permaneceria na linha que tinha sido iniciada em meados de 2010. Os resultados de Janeiro e Fevereiro permitiam acalentar as melhores expectativas, seguia-se o plano para lidar com 2012 e 2013, mais as incertezas para um 2011 marcado pela alta do petróleo. Caso o Governo tivesse falhado neste processo, de alguma forma comprometendo o desfecho esperado para a Cimeira Europeia de 24 e 25 de Março, teria sido alvo da fúria de todos os partidos e parceiros económicos nacionais e não teria como se defender. Acontece que o Governo acertou, tendo recolhido um decidido e entusiasmado apoio europeu.

O argumentário do PSD para se recusar a negociar as imprescindíveis medidas do PEC é não só mentiroso e desmiolado, é também nova ocasião em que Passos Coelho deixa escapar uma oportunidade para se libertar da perversa e cada vez mais nefasta influência de Cavaco. O político há mais tempo em actividade em Portugal, um talentoso demagogo e inimputável conspirador, é alguém que não descansará enquanto não passar a rasteira mais rasteira ao estranho que usurpou o palacete da Lapa. E Coelho, que sabe disso, está agora paralisado de medo. Medo dos seus.

Impressionar no emprego, seduzir em festas, brilhar nos jantares

For first time, majority in US back gay marriage: poll

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Gender Stereotypes About Math Develop as Early as Second Grade

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Gender Stereotypes Could Push Women Away From Entrepreneurship

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Three In Four Domestic Violence Victims Go Unidentified In Emergency Rooms

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Texting While in Class: Should It Be Prohibited?

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Creativity is an Upside to ADHD

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How to Remain Calm During Uneasy Times

Vinte Linhas 600

Bairro Alto – vidros partidos, confusão, lixo e barulho

Um destes dias morreu um jornalista do Diário de Noticias que pouco tempo antes tinha publicado uma reportagem sobre a cada vez menor qualidade de vida no Bairro alto. Até nisso temos azar: depois de ter feito uma travessia completa do nosso bairro, rua a rua, travessa a travessa, é que o jornalista se achou habilitado a escrever. Mas morreu pouco depois. Não sabemos quando é que outro jornalista se dispõe a «olhar» o Bairro Alto.

A semana passada uma amiga minha pegou no automóvel de manhã e dirigiu-se a uma bomba de gasolina para atestar. Ao abrir a pequena porta sentiu nojo e vómitos: alguém durante a noite tinha mijado contra a portinhola do combustível do seu automóvel. Parte do mijo permanecia. Quis vomitar mas não conseguiu: a repulsa foi maior que o vómito. Há bares que têm a superfície de uma casa de banho – logo não podem ter casas de banho. Este é um dos aspectos. O outro é a EMEL que multa todos os dias os moradores que estacionam mesmo junto aos muros onde não prejudicam ninguém. No muro dos Calafates, por exemplo, que fica na Travessa da Água da Flor. O muro é o mesmo mas de um lado deixam estacionar e do outro não. Na Travessa de São Pedro há um muro que é, todo ele, as traseiras do Instituto S. Pedro de Alcântara. Pois a EMEL autoriza 4 lugares quando deveria autorizar 12 pois o muro é o mesmo e as freiras entram e saem pela Rua Luísa Todi. Na Travessa da Boa Hora os moradores perderam 8 lugares com o estaleiro mas a EMEL nada fez para os ressarcir do prejuízo. E continua todos os dias a multar e a mentir. Quando nos obrigou a trocar o cartão pelo dispositivo escreveu – «Os moradores poderão estacionar livremente com o uso dos identificadores da EMEL».

O vazio de Bamiyan

A questão dos crucifixos nas escolas públicas é útil para se compreender como o excesso de algo bom pode ser mau. É o caso da secularidade, a separação entre o Estado e a religião, um processo civilizacional que se confunde com a própria matriz europeia por ter começado na Grécia com o advento da filosofia. Recebe depois um impulso decisivo no Renascimento, outra vez com a ajuda dos autores clássicos agora conservados pelos árabes e redescobertos pelos italianos, a que se junta o crescimento político dos Estados, a expansão económica com novas classes sociais, rotas e territórios e o desenvolvimento científico-tecnológico. Seguiram-se séculos de crescente secularidade, num processo que, embora ainda não esteja completo (basta recordar o peso dos preceitos legais de origem religiosa que continuavam a enformar as relações sociais e os direitos individuais ao longo do século XX), já passou para a fase em que é normativo e maioritário. No Ocidente, as religiões e os religiosos transformaram-se em minorias, perderam influência e têm um estatuto ambíguo que vai no sentido da sua progressiva exclusão cívica. À secularidade juntou-se o laicismo, permitindo-se a liberdade de culto em igualdade de condições, direitos e deveres, para todos os credos. O Estado quer-se neutro.

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Sporting, entre o PREC e o Facebook

O último treinador do Sporting a ser leoninamente à Sporting foi o Malcolm Allison. De lá para cá, passaram 30 anos de Processo Radical de Estupidificação em Curso; onde Marinho Peres é a excepção que confirma a regra. O mais recente espécimen a inscrever o seu nome no PREC de Alvalade é o Couceiro. Que homem tão estúpido, puta da minha mãe. Aquilo que fez com o Leiria, uma equipa constituída só por lagartos e que está contratualmente impedida de ganhar à agremiação fundada pelo Visconde, devia ser gravado num daqueles discos em ouro com que a NASA malbarata os parcos recursos dos americanos para ser mandado num foguete em direcção às galáxias mais longínquas, pois nesta onde estamos não há nada nem ninguém que consiga explicar aquela equipa defensiva e a demora nas substituições.

Lanço um apelo à SAD para que se livre imediatamente do triste Couceiro e passe a escalonar a equipa a partir do Facebook. Ao longo da semana, os amigos do Sporting vão dando as suas opiniões acerca dos possíveis convocados, táctica e demais considerandos, incluindo métodos de treino e política de saídas nocturnas. Depois é só contar os likes e está feito, crowdsourcing à borla. Foi assim que se fez uma revolução no Egipto, e é assim que se explicam discursos cavaquistas em Portugal. Seguramente, com o poder revolucionário-explicativo do Facebook será ainda mais fácil conseguir colocar o Vukcevic a jogar ao lado do Postiga já contra o Guimarães.

Vinte Linhas 599

A única verdade sobre o Brasil-Portugal de 1966

De vez em quando, sempre que se fala de Mundiais passados, aparecem por aí umas parvoíces escritas e faladas sobre o Brasil-Portugal de 1966 em Inglaterra. Uns não se lembram, outros fingem que não sabem, outros ainda não tinham nascido mas uns por ignorância e outros por má-fé lá repetem que Pelé foi «lesionado» por Morais no dia 19-7-1966. Mas é mentira: Pelé já estava lesionado desde 12-7-1966 por Voutsov no jogo com a Bulgária e, por isso, não jogou em 15-7-1966 com a Hungria.

No livro «O anjo pornográfico» de Ruy Castro sobre vida e obra de Nelson Rodrigues está tudo explicado. «Mário Filho pôs sua fé inabalável dentro da mala e foi para Londres ver o que veteranos como Gilmar, Djalma Santos, Bellini, Garrincha e Pelé e os novatos como Gerson, Tostão, Jairzinho, Silva e Alcindo iriam fazer durante o tri. No primeiro jogo contra a Bulgária, no dia 12-7-1966, Pelé e Garrincha fizeram 2-0. O jogo seguinte, três dias depois, contra a Hungria, trouxe o escrete à dura realidade. A derrota por 3-1 revelou um time velho, desentrosado e medroso. Restava o terceiro jogo, decisivo, contra Portugal no dia 19. Até Mário Filho esperou pelo pior. Aymoré Moreira, o treinador (apelidado de Biscoito) trocou nove jogadores na véspera da partida e botou-os em campo. Alguns foram apresentados uns aos outros já com a bola rolando. O Brasil perdeu de novo por 3-1, o que significava pegar o boné e voltar para casa. A cada golo português o comentador Hans Henningsen (o marinheiro sueco) sentado ao lado de Mário Filho, via-o desmoronar. Dois meses depois, já de volta ao Rio, Mário Filho estava morto aos 58 anos». Fim de citação por hoje.