Rasteiras rasteiras

Na manhã da quinta-feira a seguir ao repto do Presidente da República para a sedição nacional contra o Governo, o grupo parlamentar do PSD estava em polvorosa. Alguns chegaram a propor que se votasse ao lado do Bloco e do PCP para derrubar nesse mesmo dia Sócrates e sua bandidagem. Estes bravos deputados não precisavam da ajuda do Facebook para interpretar as palavras de Cavaco, o seu sentido era unívoco: tinha chegado a hora da rasteira mais rasteira.

Entretanto, o calendário europeu seguia o seu curso. No dia 11 era necessário que Portugal fizesse o seu papel na cimeira extraordinária em Bruxelas, independentemente das convulsões políticas caseiras. Tratava-se de um passo crucial para a obtenção de um consenso que levasse à criação de um fundo que pusesse o País ao abrigo da especulação, assim permitindo a recuperação económica. Para tal seria preciso continuar a dar provas de que o processo de saneamento das contas públicas permaneceria na linha que tinha sido iniciada em meados de 2010. Os resultados de Janeiro e Fevereiro permitiam acalentar as melhores expectativas, seguia-se o plano para lidar com 2012 e 2013, mais as incertezas para um 2011 marcado pela alta do petróleo. Caso o Governo tivesse falhado neste processo, de alguma forma comprometendo o desfecho esperado para a Cimeira Europeia de 24 e 25 de Março, teria sido alvo da fúria de todos os partidos e parceiros económicos nacionais e não teria como se defender. Acontece que o Governo acertou, tendo recolhido um decidido e entusiasmado apoio europeu.

O argumentário do PSD para se recusar a negociar as imprescindíveis medidas do PEC é não só mentiroso e desmiolado, é também nova ocasião em que Passos Coelho deixa escapar uma oportunidade para se libertar da perversa e cada vez mais nefasta influência de Cavaco. O político há mais tempo em actividade em Portugal, um talentoso demagogo e inimputável conspirador, é alguém que não descansará enquanto não passar a rasteira mais rasteira ao estranho que usurpou o palacete da Lapa. E Coelho, que sabe disso, está agora paralisado de medo. Medo dos seus.

6 thoughts on “Rasteiras rasteiras”

  1. Para a História alguém vai ficar muito mal na fotografia. É só uma questão de dar tempo ao assentar da poeira levantada na queda de quem foi rasteirado -o País. Como não sou tão velho assim e talvez possa assistir à queda dos qua agora brilham num efémero pedestal. Porque está tudo a ser registado para memoria futura.

  2. mais um excelente relato do que tem sido estes dias, pós discurso do venerando…

    sobressalto, falou Ele…

    e putos e seu feminino, desataram todos aos saltinhos

    às boquinhas, às discussõesinhas das horas e dias das cartas com CE…

    a substancia, a importancia dos factos subjacentes

    isso é questão menor para gerações futuras resolverem…

    e, meu deus pequeno, tantu que eles se preocupam com elas,

    gerações à rasca, dizem…

    abraço

  3. Passos Coelho diz que tenciona cumprir os objectivos de redução do défice ao mesmo tempo que classifica de injustas as medidas propostas pelo Governo. Nós devemos ter os jornalistas menos curiosos do Planeta, é que conseguem ouvi-lo dizer isto sem lhe perguntarem que medidas seriam justas e, já agora, para quando o programa eleitoral, ou se vai existir algum. A mim, não me espantaria se o PSD, na próxima campanha, substituísse o programa por comunicados em inglês para tranquilizar os mercados, por exemplo…
    A falta de curiosidade é tal que o homem falou em salvar Portugal sem que ninguém lhe tenha perguntado, ao menos, de que cor é a sua varinha mágica.

  4. Pois a mim curiosidade não me falta: por exemplo, o que será aquilo da coligação alargada?É só para inglês ler?

  5. O PSD umas vezes diz que abriu a crise porque está zangado por não o terem chamado a negociações antes de 11 de Março (negociar o quê, se nem com a UE as negociações de princípio estavam concluídas?), outras vezes diz que é porque discorda das medidas do PEC, o que significa que abriria uma crise mesmo antes de 11 de Março!

    Em suma, querem ir para o poder e a desculpa não interessa.

    Aquele comunicado em inglês dá vontade de rir. Querem uma base alargada para a imposição de medidas de austeridade (sim, reconhecem a sua necessidade!), mas, quando podiam ser eles próprios a base alargada negam-se a sê-lo!
    Ainda nos vamos divertir imenso, cheira-me, na eventualidade de andarem à cata de uma base alargada.

    O ministro Amado tem tendência a complicar em momentos cruciais. Se sabe, e o diz, que estavam em curso acertos e negociações com parceiros internacionais antes de 11 de Março, qual a necessidade de vir dizer que o governo podia ter agido de outra maneira? Espero que não venha amanhã dizer que estava cansado.

  6. bom, parece que vão mesmo haver eleições apesar do broad coalition que o ppd propõe para inglês ver mas que se recusa a implementar neste momento e em português. vamos ter novamente que arranjar argumentos para combater a retórica falaciosa e balofa habitual daqueles que nos rodeiam (e são muitos) que estão contra porque sim. e lá teremos que voltar a dizer que se esta crise tivesse aparecido em 2004 ou 2005 com o défice nos 7%, a segurança social nas lonas e a economia deprimida (apesar de crescer bem fora de portas), isto é, se nessa altura as exportações tivessem diminuído 20% e as receitas fiscais praticamente o mesmo, então não seriam a grécia e a iralnda os primeiros a irem ao pote do fmi mas seria esta velha nação portuguesa. mas a crise veio para limpar a face aos incompetentes, àqueles que nada fizeram (nem uma reforma, nem um desígnio, nem um investimento estrangeiro que valha, nada) e nem sequer conseguiram fazer a gestão corrente (concurso dos professores ou imbróglio galp/edp). e agora os incompetentes já se julgam capazes de fazer alguma coisa, pensando que o pior da crise já passou e que agora basta esperar os ventos favoráveis da recuperação internacional. pode ser que a filha-da-putice em marcha se vire contra os filhos da puta.

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