San Marco

Eu vi os quatro cavalos de Veneza

A boiar mesmo no centro da praça

A água tinha tapado toda a beleza

E trouxe à luz da arcada a desgraça

Eu vi os quatro cavalos tão perdidos

Como a cadeira de praia ou o chapéu

Eles fogem e sentem-se perseguidos

Pelo mar que quase se colou ao céu

Eles vieram à procura de um abrigo

Impossível numa praça já inundada

Na solidão podem contar só consigo

Os turistas fugiram em debandada

Ninguém tocará os sinos da catedral

Neste pânico de fugirem à água alta

Morte em Veneza, aviso de Carnaval

Dias depois só um Sol lhes fará falta

Nazaré Faina

Datado de cinquenta e dois este postal

De quem pergunta pela saúde da avó

Para poder passear tranquila no areal

No fim das férias de quem se sente só

Porque o resto da família pode esperar

Vinte e nove de Agosto era este o dia

Saudades num postal à beira do mar

Com retrato dum trabalho em sintonia

Entre os homens que dirigem animais

E os barcos já na linha de rebentação

O abegão pica as duas vacas desiguais

E comanda com a ponta do aguilhão

Este postal num selo de cinco tostões

Traz notícias duma dor em segredo

Na praia da Nazaré nascem as razões

Para umas férias de angústia e medo

KGB

PCP e Pacheco Pereira serão os únicos a consultar as escutas a Vara e Penedos, assim concretizando em pleno a espionagem política feita em Aveiro.

Depois de todas as declarações, que começaram na Comissão de Ética, e depois de todas as racionalizações, que dão a ver um negócio igual a qualquer outro entre privados, estar a explorar discrepâncias entre datas de conversas é tudo o que resta aos deputados da oposição para continuarem com o tribunal da santa aliança.

E também o ódio, claro. O ódio irá devassar a privacidade de cidadãos, possivelmente levando a que eles tenham de voltar a responder na comissão de inquérito. Agora, sendo obrigados a reproduzir o tom de voz usado ao telefone para cada passagem assinalada pelo Pacheco. Em nome da verdade.

Saldanha Sanches, um exemplo

Na morte de Saldanha Sanches, a sentida despedida da Isabel tem ainda a suprema vantagem de lembrar o caso do seu chumbo na FDL; uma história de abuso de poder, e prejuízo para a instituição, que envergonha todos os nomes envolvidos nela, incluindo os que não têm culpa nenhuma, arrastados secretamente para a lama.

Mas homenagear uma vida – que todos rotulam de honesta, frontal e corajosa – pode ser também seguir-lhe o exemplo nesta mesma hora. Por exemplo, o meu exemplo, lembrar que há uns meses Saldanha Sanches disse que Saramago tinha escolhido morar nas Canárias por razões fiscais. É uma acusação do camandro. Foi no tasco do Crespo e levou a que Saramago telefonasse a desmentir uns 15 minutos depois. Não houve qualquer repercussão do episódio, ninguém mais falou nele.

Trago esta situação para ilustrar uma ideia: a irreverência pode confundir-se com a inimputabilidade, causando tão maior prejuízo quanto a credibilidade do irreverente. Se pessoas com as capacidades intelectuais e morais de Saldanha Sanches são raras, e são, tal preciosidade aumenta a necessidade de as aproveitar em favor da comunidade. Precisamos é de descobrir como – para que não nos deixem apenas uma saudosa memória, mas um pedaço do futuro.

Vinte Linhas 481

Os sonhos andarilhos de Ruslam Botiev

Há um homem que todas as manhãs sacode o sono e afasta do olhar as poeiras fixas dum quotidiano marcado pelas suas cores mais cinzentas e repetidas.

Atravessa o Rio Tejo de comboio numa ponte cujos pilares lhe parecem de luz e não de aço americano.

Traz debaixo do braço os seus sonhos tal como os viu nascer na Mongólia natal. Cada quadro, cada esboço, cada desenho, cada pormenor, por mais discreto que pareça, faz parte integrante de um mundo interior ainda por desvendar.

Que sabemos nós dos sonhos fechados nas malas de todas as viagens deste homem capaz de falar várias línguas e ainda mais a linguagem das cores e das proporções das linhas por entre as cores?

Nunca saberemos. Os sonhos do artista da Mongólia que se fixou no Largo do Carmo em Lisboa permanecem na penumbra da verdade por revelar. O seu sentido e a sua direcção não constam dos passaportes ou outros documentos oficiais. A sua natureza é volátil e frágil como a chuva breve que o sol ardente acabou por secar em poucos minutos no passeio em frente ao Quartel do Carmo.

O motivo à vista deste trabalho é a ponte «25 de Abril» mas Ruslam Botiev faz todos os dias uma ponte maior, unindo em silêncio Portugal e a Mongólia, os seus cavaleiros e os nossos valados nas lezírias e nas charnecas ligando assim a água da Beira Tejo à secura das planícies de Além Tejo. Na sombra do quiosque do Largo do Carmo cabe todo o Mundo de Ruslam Botiev. Bom dia Portugal! Bom dia Ruslam!

Refoder

O filme de Jorge Pelicano, Pare, Escute e Olhe, engana o bom povo do cinema. Alegando estar preocupado com o Tua, o que serve é uma espetada mista de tempo de antena dos escarlates Verdes com um promissor começo de documentário acerca de Abílio Ovilheiro.

Tudo perdoado, não obstante, por causa de uma cena, captada em cima da condenada linha de comboio, onde uma senhora utiliza o verbo refoder com admirável convicção. Ora, este vocábulo mirandês precisa de ser recuperado para o linguajar nacional, deixando de ser apenas um regionalismo.

Creio que expresso um sentimento colectivo indubitável ao afirmar que estamos a precisar de refoder uma série de gente, alguma até por excelentes e óbvias razões.

Um livro por semana 182

«Cópula e outros poemas notáveis» de Luís Filipe João

Luís Filipe João (n. 1949) publicou em 1981 a primeira edição deste livro que surge agora numa segunda edição aumentada com mais 23 páginas de texto e ilustração.

Entretanto publicou em 1994, 1996 e 1999 mais três títulos: «Chocolate em repouso», «Os revólveres de Schopenhauer» e «Poemas práticos».

Da primeira parte do livro lemos de novo o início do poema «Cópula»:

«Ejaculante seda / encrespada esfíngica pele rutilante de ébano / violando sólido aflito clítoris / o pagem corpo endereçando ionizante / de aragem insuspeita abrupta ruptopénis lento / intumescido afagar de pétalas denteando o seráfico dédalo / alvinescente no deleite escorrendo carícia (…)»

Há na segunda parte do novo livro um outro ritmo, mais sincopado e breve:

«Amanhã mil nervos. / Um cavalo branco ou negro de vento / Me levará para o / Mosteiro do silêncio. / A espada repousará no esquecimento».

Os novos poemas prolongam esse anterior encontro do Homem e da Mulher:

«Somos puros / chove granizo / nos teus dentes. / Os joelhos aceleram / a luz sem regras. / A oração começa nos olhos / da libelinha».

Pode ser uma oração mas esse lugar pode ser o novo nome do poema: «A poesia é o segredo / guardado na estrela / prestes a explodir.»

(Edições MIC, Colecção Salamandra, Desenhos: H. Mourato e Fernando Grade)

Vamos lá a saber

Aqueles que acham escandaloso o dinheiro gasto com a visita do Papa fazem alguma ideia do que ela nos vai render em turismo religioso por via da promoção de Fátima como destino obrigatório para mil cento e cinquenta e seis milhões de católicos que se prezem e não estejam impedidos de sair do seu país por calotes, atentados ao pudor ou outras chatices com as autoridades respectivas?

Lá te safaste, Mozos

O documentário Ruínas, de Manuel Mozos, é um exercício que tem tanto de original como de pedante e preguiçoso. Gostei de ver, mas não gostei do que vi.

No entanto, o Mozos fez-me seu eterno fã ao ter filmado um local que descobri há dois anos, num acaso planeado, e que me ficou como uma experiência de cinema subjectivo: Porto das Barcas. É um sítio mágico, irreal na sua actual decadência, e estas fotos não vão conseguir reproduzir pintelho do que evoco: A, B, C.

Vai lá. Ao documentário e a este pedaço de Portugal onde apetece fazer filmes e filhos. Ou, pelo menos, tentar.

Cruzada

Esta viagem parece assim querer ressuscitar os ícones políticos que povoam o relicário mental de uma Igreja que ainda se considera a única detentora de verdades absolutas, reveladas pela mesma reverberação divina que a incumbiu da missão histórica de nos salvar mesmo contra a nossa vontade.

Palmira

*

O ateísmo pode ser infantil, quando é o simulacro de uma revolta. Como neste passo supra, onde se reclama uma religião sem verdades absolutas. Mau, mas existem verdades relativas? A noção de verdade estará em pior estado do que o Sporting, nesse caso. E será necessário privar os religiosos dos seus absolutos, sejam verdades ou mentiras? Não dá para os deixar em paz, até quando acreditam que é seu dever salvar-nos apesar da nossa vontade? É que nós vivemos numa sociedade secular, salvo informação mais actual que me tenha escapado.

A Palmira quer transformar a Igreja numa ONG e mandá-la acabar com o disparate dos sacramentos que não têm validade científica nem se deixam referendar pelo eleitorado. Aí, finalmente, terminará a sua cruzada.

Provavelmente, o melhor Governo do Mundo – II

Melhor do que o facies acabrunhado do Crespo ao anunciar que Portugal teve um crescimento trimestral desvairadamente superior às previsões e à média europeia, só o silêncio a que se recolheram paranóico-catastrofistas, bota-abaixistas, medina-carreiristas, reumático-cavaquistas e leite-rangelistas. Esta maltósia não falha: tudo o que seja estatística e indicador negativo é agitado triunfalmente, indo logo matar cabritos para celebrar pela noite fora a desgraça pátria; tudo o que seja notícia positiva, é abafado, nem piam.

Temos de ser misericordiosos, também em homenagem ao hóspede de branco, e reconhecer que este Governo é tão pérfido e maligno que desenvolveu um plano que passa por levar o País ao abismo através do crescimento económico. É o nunca visto, nunca antes tentado neste sistema solar, daí o pânico que imobilizou tantos e os impediu de sequer comentarem as notícias. A bolsa de Lisboa, em mais um sinal apavorante, sentiu igualmente a pressão da tirania suicida do Engenheiro, tendo fechado nesta quarta-feira a liderar os ganhos na Europa. Se o desemprego começar a descer, então, aí é que estaremos mesmo perto do fim.

Todavia, outro facto, ainda mais extraordinário e significativo, foi registado ontem. Trata-se da primeira nidificação de flamingos confirmada em Portugal. Ora, qual é a cor do flamingo? Rosa…

Escusam de arranjar desculpas maradas, apenas o melhor Governo do Mundo conseguiria esta exibição de poder sobre os seres da terra e do céu.

Dixit

“Não é por seres, agora, uma mulher viúva que vou deixar de te respeitar, e sobretudo ao teu falecido marido, tal como respeitava antes de esta tragédia ter acontecido. Nada se vai alterar. Fica então, desde já, definido que continuaremos a encontrar-nos às escondidas.”

Vinte Linhas 480

Vergílio Alberto Vieira – Um livro descoberto por acaso

Numa casa cheia de livros, mesmo numa casa onde desde 1978 todas as semanas entram pacotes de livros, de vez em quando ainda acontece uma surpresa. Descubro por mero acaso um livro de Vergílio Alberto Vieira (n.1950) cujo título é «O Livro dos desejos» e tem data de 1994. Um poeta é sempre o poeta mesmo quando escreve sobre a guerra («Chão de Víboras») ou sobre os desejos. Releio o poema de abertura do livro:

«Abrem-se / como pérolas / à primeira luz do dia / os desejos.

Em sonho / Ganham forma e cor.

E / leves / mil vezes leves / ondulam na transparência azula das águas.

Quem / nesse ferido mar / ainda não ouviu bater um coração?»

O livro foi oferecido à minha filha mais nova então com nove anos. Hoje, 16 anos passados, estou curioso em saber como lerá ela este poema sobre Fernando Pessoa:

«P´ra fingir esquecer / Quem de si tem dó / Meteu-se a beber / E a outros poetas ser / Para não estar só.

Por essa razão / Corria em Lisboa / Que a sua paixão / Fora essa ilusão / De não ser pessoa.»

Um pequeno livro (Editorial Caminho) traz, afinal, dentro das suas 51 páginas todo um mundo de ternura que vim a descobrir de modo inesperado esta manhã.

Crítica à crítica

As classificações dos críticos cinematográficos são paupérrimas taxinomias, abstracções que imitam o sistema escolar; a mais usada sendo a das 5 estrelas. Ora, isso não serve ao cinéfilo que quer entrar nas salas onde acontecem os filmes. Por isso, proponho uma nova classificação:

Gostei de ver, mas não gostei do que vi

Só para aqueles que já leram Serge Daney

Quando saí, não me apetecia falar com ninguém

Não é cinema, é uma bosta para a TV

Abençoado John Ford, que continuas a ter discípulos

Abençoado Frank Capra, que continuas a ter discípulos

Abençoado António Lopes Ribeiro, que merecias ter pelo menos um discípulo e não há maneira de aparecer

Depois de ver isto, preciso urgentemente de escrever ou realizar um filme

Foda-se, que maravilha!

Estou certo de que a aplicação universal desta classificação muito irá simplificar a escolha do filme adequado ao momento existencial do cinéfilo, assim estimulando a venda de bilhetes para entrar em salas com cadeiras alinhadas por filas e um pé direito quase sempre invejável.