Palavras mansas

Val, perdoa: hoje só consigo pensar numa coisa, o meu templo ardeu. O Hot Clube de Portugal, onde aprendi a gostar de música, a gostar de jazz, ardeu esta noite, no prédio quase devoluto onde estava, há mais de 60 anos. Felizmente que o Luis Vilas Boas já cá não está para ver isto. Desde os meus 16 anos (já lá vão 50) aquele foi, quase impreterivelmente, o meu poiso nas horas livres. Ali aprendi a distinguir o que vale a pena na música daquilo que é “musak”, como dizem nos EUA. Aprendi a gostar de todo o jazz, desde o New Orleans, passando pela West Coast e acabando no Free, com passagens por muitos e desvairados estilos Made in USA e Made in Europe. Inclusive nesta terra do Fado, e acreditem ou não, tivemos e temos por cá bons Jazzistas. O Hot ardeu, e eu não consigo pensar em mais nada, perdoa Val.

__

Oferta do nosso amigo antonio manso

Fogareiros de todas as praças, uni-vos

Estamos a assistir ao desmoronar total das instituições.

Manela

*

A séria senhora da seriedade que é um caso sério tem razão. De resto, só pode fingir-se surpreendido com mais esta verdade quem nunca poisou as partes carnudas subjacentes às costas no banco de um táxi. Há décadas que os chauffeurs de praça partilham com os clientes esta mesma evidência: as putas das instituições estão todinhas desmoronadas, e a culpa é do Governo e dos cabrões que entopem as faixas do bus.

O CDS já foi o partido do táxi. O PSD é o partido dos fogareiros.

Um livro por semana 159

«A Reconstrução do Sagrado» de Aurélio Lopes e João Monteiro Serrano

Depois de «Videntes e Confidentes» sobre Fátima, Aurélio Lopes, que se estreou em 1995 com «Religião Popular do Ribatejo», regressa ao tema em parceria com João Monteiro Serrano. Com o subtítulo de «Religião Popular dos Avieiros da Borda d´Água», este volume de 168 páginas investiga o modo como a religião em memória trazida da Vieira de Leiria se transformava em religião prática nas aldeias à beira do Tejo. A viagem era complicada: «A gente ia primeiro a pé até Monte Real, em seguida de comboio até Alfarelos e, depois, noutro comboio até Santarém». A instalação não o era menos: «O barco era instrumento de trabalho mas igualmente casa, veículo de transporte, maternidade e enfermaria». Com a itinerância, os Avieiros deixaram de frequentar as igrejas («excepto para casamento ou funeral») e a razão era a distância: «Não íamos porque era muito longe e não tínhamos vida para isso». As relações com as comunidades locais não eram fáceis: «Aos Avieiros do Patacão que mandavam os filhos à escola na Quinta da Lagoalva, era-lhes exigido que frequentassem a missa ao domingo em conjunto com as crianças, condição indispensável para as mesmas terem direito ao almoço escolar na semana seguinte». Os pioneiros sabiam rezar («A minha avó sabia. Ela era da Vieira») mas os mais novos já não: «A gente não tinha vagar de aprender as rezas porque andávamos de noite e de dia por lá». Daí a importância do bruxo: «Esta noite iam e apanhavam bom peixe. Se na noite que vem não apanhassem nada, diziam logo que era uma bruxa que andava ali».

(Editora: Âncora, Prefácio: D. Manuel Pelino Domingues, Capa: Ideias Virtuais sobre foto de João Serrano)

A literatura é uma farça

A Nós Escritores cumpre a promessa do editorial: ser um presente de Natal indicado para quem desfruta de um pouco mais de tempo nesta quadra. A revista pede para ser levada para o sofá, esplanada, um banco ao sol. Ou uma janela à chuva. E depois pacientemente desnudada. Ajuda a esta missão o desequilíbrio sexual: em 19 contos, apenas 5 cheiram a homem. É uma média que agrada ao meu palato heterossexual, mas quem não pertencer a este clube que proteste junto do Pedro Rolo Duarte, um reputado ladies man.

De especial interesse, porque resultou em cheio, o conceito deste número: juntar consagrados com absolutas estreias, entremeando com regulares. Realço a nossa amiga Blondewithaphd, num flagrante contraste com o minimalismo dos seus comentários por aqui. E realço a Maria Lucena, de quem sou amigo, e que publica pela 1ª vez. Também há uns meses o Pedro descobriu outra amiga minha, Maria João Freitas, acabadinha de lançar o blogue A namorada de Wittgenstein, e convidou-a para o Nós Alegres. Este trabalho de prospecção dos talentos nacionais é altamente meritório, espero que continue.

Mas o melhor vem do melhor, do Miguel. Ao contrário do que tenta vender o Rolo Duarte, o texto Quando escrever de notável só tem a fria constatação: é medíocre. Não só por de Esteves Cardoso, tão alta a bitola, esperarmos genialidade antes e depois das vírgulas, como por se estar no terreno da sua eleição suprema: a arte de bem escrever em português. Acontece que o autor não tinha nada de memorável para nos dizer acerca da escrita, talvez por ser um sacrilégio sequer tentar reduzi-la a fórmulas, e optou por nos mandar ler. É esse o mais antigo e universal conselho para quem se inicia nos prazeres da pena: ler, ler, ler. Contudo, há uma frase que rapta a crónica e a transporta para o Olimpo dos escritores:

É escusada a farça de pedi-los e oferecê-los.

Vejamos: o escritor mais importante desde os anos 80, o mais influente, escreve farça num texto onde manda o aprendiz de escritor aprender a ler. Para além de se constatar que nem sequer o autor lê o que escreve, muito menos o jornal que lhe publicou o texto, fica um sentimento de irreprimível liberdade. Já Pessoa advogava a desobediência criativa face ao imperialismo da gramática, agora é o Miguel que nos convence a perder toda e qualquer vergonha pelas calinadas ortográficas. E, súbito, o segredo da arte de bem escrever desvela-se e resplandece, o conselho era cifrado, especular: não ler. Porquê? Porque a literatura é uma farça.

E que raio é uma farça, perguntas já angustiado? É a literatura.

Vinte Linhas 303

Saudação de Natal a Marta

Feliz Natal Marta! Lembras-te quando éramos nós os primeiros a chegar? Eu vinha de uma cidade distante mas chegava primeiro, sempre cedo. Tu vinhas de uma vila próxima e banhada pelo mesmo rio que passava frente ao nosso escritório. O teu pai destinava-te tarefas transparentes, repetitivas, obscuras e afastadas do protagonismo. Eu dava os primeiros passos numa segunda vida de trabalho depois de trinta anos noutro espaço e noutro lugar. Às vezes chovia, às vezes o vento assobiava nas janelas daquele escritório e nós dava-mos início ao dia de trabalho com um sorriso que era construído pela paciência dos dois, pela ideia pouco explícita mas concreta de que estávamos a construir um novo dia onde se procurava negar a monotonia. Ás vezes eu percebia que nos teus olhos magoados havia uma ideia: o teu pai exigia muito de ti. Outras vezes eram as sequelas de uma doença recente que te empurravam para a tristeza e davam relevo à tua fragilidade. Nessas horas da manhã nós éramos os náufragos do tempo hostil que nos coube viver. Ás vezes falava-te da minha filha com um nome igual ao teu e das suas opiniões sobre tudo e sobre todos. A tua homónima é hoje uma jovem arquitecta à procura de um lugar de afirmação no seu espaço e no seu mundo. Nesse tempo eu já sabia que a vida não é fácil porque os pais e os filhos não nascem para serem amigos mas sim para serem apenas pais e filhos. Neste postal de Boas Festas diferente quero mandar-te, Marta, os meus votos de que continues todas as manhãs a construir esse sorriso teimoso e determinado fazendo de cada dia não uma monótona repetição mas a descoberta e a aventura de quem (como tu) sabe que o seu lugar no Mundo é próprio, exclusivo e irrepetível. Feliz Natal Marta!

Os filmes da oposição

A oposição exigiu conhecer as conversas privadas de Sócrates, mesmo depois de a Justiça ter considerado as gravações ilegais e destituídas de conteúdo criminal. O PSD chegou a solicitar ao Procurador-Geral o conhecimento das certidões no propósito de as explorar politicamente. Era muito importante averiguar se o Primeiro-Ministro mentira a respeito de um negócio inexistente, alegavam, por isso toca de devassar o cidadão. Nesta semana, conheceremos mais um episódio nessa novela.

Agora, Lopes da Mota, que o PSD atacou durante a campanha por continuar no Eurojust, foi castigado. Se foi castigado, e independentemente do desfecho de um eventual recurso, já há matéria que chegue, e que sobre, para uma qualquer tomada de posição na oposição. É que a Justiça validou a denúncia dos Procuradores do processo Freeport – logo, considerou que Lopes da Mota tentou indevidamente influenciar o desfecho do caso. O que implica ter validado o nexo entre Lopes da Mota e os alegados mandantes no Governo à época. A bomba acaba de atingir o paiol.

Alguém ouviu a explosão? Nada, apenas uns poucos de cães a ladrar. Onde está a oposição, porque não abriu já um inquérito parlamentar, porque não aproveita a soberana ocasião e varre Sócrates e PS de cena? É estranho, não é? Quase tão estranho como conviver com um Presidente da República que patrocina inventonas e não é chamado à pedra por ninguém.

Há uma pista para este anticlímax. É que Lopes da Mota, faz tempo, tem reclamado que se conheçam os factos publicamente. Podemos concluir, então, que a matéria em causa rende mais à oposição se ficar desconhecida, tela branca onde se podem projectar todas as suspeições e calúnias.

Esta oposição tem as características do pior cinema português: é tosca, velhaca e soporífera.

Somos todos irmãos

«Somos todos irmãos – do «número de crianças que morre no Brasil» a um

inesperado poema de Rubem Braga passando pelo «Sentimento do Mundo»

Corria o mês de Setembro de 1940 quando, em São Paulo, Rubem Braga (n. 1913- Cachoeiro de Itapemirim) escrevia e publicava uma das suas mais famosas crónicas: «Os mortos de Manaus». Estava Rubem Braga a hesitar no tema de uma crónica, algures entre um grupo de pretos que cantava na madrugada os sambas da moda e uma fita de cinema sobre a qual podia valer a pena escrever mas, de súbito, caiu na sua mesa de trabalho o «Boletim Estatístico do Amazonas» com os 428 mortos do primeiro trimestre de 1940 em Manaus. Ao ler e interpretar os números, Rubem Braga percebe que dos 428 mortos, 73 são crianças com diarreia e enterite. E explica: «Eis uma coisa que não chega a me dar pena porque me irrita: o número de crianças que morre no Brasil. O que me irrita é o trabalho penoso das mulheres, o sacrifico inútil de dar vida a tantas crianças que morrem logo. A indústria nacional que nunca foi protegida é a indústria humana. Preferimos importar.»

Depois de uma dissertação emocionada sobre as várias causas de morte (paludismo, tuberculose, nefrites, lepra, cancro), depois de perceber que cada morto projecta sobre a sua mesa de trabalho e sobre a sua alma uma «sombra acusativa», Rubem Braga termina a crónica com uma expressão irónica, vasta e fria como a tristeza do Mundo: «Eu não tenho culpa nenhuma e nada tenho a ver convosco. Eu não tenho culpa de nada, eu não tenho culpa nenhuma!»
Continuar a lerSomos todos irmãos

Um livro por semana 156

um homem divido vale por dois luiz pacheco

«1 Homem dividido vale por 2» – Luiz Pacheco

Trata-se de um livro duplo: além do material respeitante a Luiz Pacheco (o autor) as suas 378 páginas integram a bibliografia completa de Pacheco (o editor). Entre outros a Contraponto de Luiz Pacheco editou Apollinaire, Raul Brandão, Alfonso Castelao, Camilo Castelo Branco, Mário Cesariny de Vasconcelos, Natália Correia, Dostoiewski, Hélia Correia, Manuel Grangeio Crespo, Durrenmatt, António Ferreira, Garrett, Vergílio Ferreira, Carlo Goldoni, Herberto Hélder, Ibsen, Ionesco, Karl Jaspers, Kleist, Manuel Laranjeira, Raul Leal, Manuel de Lima, António Maria Lisboa, António Tavares Manaças, José Alberto Marques e Virgílio Martinho.

No que diz respeito a Pacheco (personagem) o outro lado do livro refere uma curiosa ligação afectiva a Caldas da Rainha: «Não me julguem que chegado a esta terra como náufrago ou foragido (e alguns sabem-no) sou aqui um tipo género pára-quedista. Por acaso, sou muito mais Caldense que muitos que por cá nasceram ou vivem – e isto bastantes o sabem já. Um dia espero contar como cheguei, quem já conhecia; quem já não vim encontrar e me fez deambular, meio-sonâmbulo, ensimesmado, pelas áleas do cemitério: a Dona Eugénia Soeiro de Brito, o Pai Freitas, o dono (como se chamava? Tiago?) do Gato Preto; o Jaime Arsénio de Oliveira e outros fantasmas mais. E aqueles que vim a conhecer, me deram a mão, ficaram Amigos ou malquistos e enchiam esta página. As minhas memórias de caldense adoptivo dariam um rico volume, se o chegar a escrever. E se não sair em letras está-me escrito na pele.»

(Editora: D. Quixote – Biblioteca Nacional, Comissário: Luís Gomes)

Pacheco e Vidal, homens da luta

O Pacheco pode ser um estratega desastrado e não mais do que um bufão no grande tabuleiro das forças que moldam a política nacional, mas na blogosfera, este reino de irresponsabilidade e irrelevância, ele é um dos nossos maiores e mais queridos companheiros.

Leia-se esta maravilha, e constate-se como é verdadeiro o ditado: Politics makes strange bedfellows. Na sua obsessão iracunda, qualquer aliado serve desde que permita alimentar a paranóia. Por exemplo, o 5 Dias, um blogue onde escrevem esquerdistas, comunistas, revolucionários e taralhoucos, embora não necessariamente por esta ordem. Do actual elenco, o taralhouco-mor, Carlos Vidal, tem fascinado as boquiabertas audiências com a sua receita que mistura megalomania com megalitismo. Pelo meio, vai celebrando os ditadores onde encontra a segurança de um cosmo sem democratas a empatar. Ora, é deste caldo fascista que se faz o culto da violência que o Pacheco quer aproveitar – ah, como seria delicioso que um comuna qualquer agredisse Sócrates em nome dos espoliados pelo capitalismo… Que gozo, que satisfação…

O seu tour de force, o sinal da sua imparável demência, está aqui:

Não é que este estilo governamental corporativo-jugular não tenha também implícita uma incitação à violência, resultado do insulto sistemático contra as pessoas, mas os seus autores, uns anónimos empregados dos ministérios e outros da esquerda bon chic bon genre que gravita à volta da figura de Sócrates, abjurariam de imediato qualquer alusão à violência e ficam muito incomodados com o que lhes lembra o 5 Dias.

Estilo governamental corporativo-jugular?! Foda-se, senhores ouvintes. Este homem priva com a fina-flor dos políticos, jornalistas e poderes fácticos em Portugal. No entanto, vem para a rua de tocha na mão perseguir as sombras de dois blogues que têm como marca distintiva serem exemplos de liberdade de expressão e frontal combate político. A sua incapacidade para lidar com a inteligência e cultura cívica deles está a dar cabo do seu prestígio intelectual; o que resta, depois de um ciclo onde se perdeu um pensador e não se ganhou um cidadão. E é essa a maior violência a lamentar, entre todas as que o Pacheco assinou ou promoveu.
__

Rogério analisa com perspicácia

Delenda Cavaco

Dois dias antes do lançamento da inventona de Belém, escrevi O sonso. Para além do escândalo, ou indignação, ou repulsa, por ver o Presidente da República envolvido na campanha eleitoral e na degradação do prestígio das mais altas instituições do Estado, estava interessado na descodificação de Cavaco, nos modos verbais e não verbais da sua comunicação em público. Em 16 de Agosto, pois, a violência reprimida que deixava transparecer no discurso equívoco, entaramelado, anunciava o pior. E o pior veio 48 horas depois, para vergonha nacional.
Continuar a lerDelenda Cavaco

Fascinante Carvalhal

Qualquer treinador que prefira jogar com o Veloso em vez do Matías Fernández, Pereirinha ou Postiga – até do Tiago, que daria um médio 10 vezes melhor do que ele – está num caminho de inovação que é capaz de ser caso único em todo o Mundo.

Vinte Linhas 435

«À sombra das árvores mortas» no Príncipe Real

O título é dum romance de Mário Ventura. Ontem das 21 às 23 horas na Faculdade de Ciências de Lisboa realizou-se um encontro de um grupo de pessoas à volta do tema «Que futuro para o jardim do Príncipe Real». Embora tenham sido convidados, não estiveram presentes os Drs. António Costa e José Sá Fernandes da CML, o Eng.º Amândio Torres da Autoridade Florestal e o Dr. Gonçalo Couceiro do IGESPAR. Foi dolorosa esta ausência mas tem lógica: a CML agiu neste caso como uma «Quadrilha selvagem», só obteve parecer favorável do IGESPAR em 30-11-2009 quando a destruição já estava consumada desde 24-11-2009 e nunca referiu «árvores» à Autoridade Florestal mas apenas e só «piso». Por outro lado todas as intervenções no raio de 50 metros à volta das árvores classificadas necessitam de parecer da AFN e, neste caso, ainda não há parecer. Foi projectada uma cópia de um relatório camarário de Janeiro de 2009 a referir o estado «razoável» das árvores do jardim. O abate de 46-49-54 árvores (ninguém sabe ao certo) foi ilegal e desrespeitou o espaço – as árvores e as pessoas. Uma requalificação a haver seria uma substituição gradual e não violenta além de que é impossível estarem doentes todas as árvores abatidas. O vereador na Junta de Freguesia referiu 6 árvores no interior do jardim quando são 9. Por outro lado um biólogo presente na sala referiu que a sombra das árvores abatidas em série faz falta não só às pessoas mas também às outras árvores. O «piso» é outro problema: no antigo jardim de S. Pedro de Alcântara (hoje miradouro) substituíram o empedrado por saibro e no Verão o pó que o vento levanta entra nas chávenas de café dos incautos turistas.

Vinte Linhas 434

O homem do saltério na estação do Campo Grande

A cidade tem armadilhas de ternura, emboscadas de encontros felizes, confusões que se desfazem devagar e nos ajudam todos os dias a dar um sentido ao tempo de viver aqui. Na estação do Campo Grande saía eu da carruagem da linha verde e procurava a linha amarela quando no espaço da plataforma fui surpreendido por um som insólito mas muito agradável. Não é todos os dias que se ouve um saltério.

O músico tocava o «My way» de Frank Sinatra, um génio que nasceu destinado a uma vida pobre, filho de um italiano empregado de um bar e pugilista em part time com um nome de guerra irlandês e de uma parteira que, também em part time, fazia uns abortos para arredondar o fim do mês.

O homem do saltério não conhecia o filme «O terceiro homem» nem a partitura de Anton Karas nem o livro de Graham Green nem a imagem de Joseph Cotten a fugir dos maus nos enormes esgotos de Viena. No fim os bons ganham. Nos filmes, ao contrário da vida real, os bons ganham sempre.

Ele, o desconhecido que interrompeu a minha deambulação na plataforma do Metro, continua a fazer voar o plectro, a pequena vara de madeira, por sobre as cordas do saltério. Eu não poderia desejar melhor motivo: um desconhecido vindo lá dos confins da Hungria ou talvez da Roménia toca com afinco, prazer e devoção uma música americana cujo titulo «My way» pode ser traduzido por «meu caminho». O meu e nosso caminho é, só pode ser, estarmos todos juntos na crónica, na Rádio, no Natal de 2009 e no mundo novo que este nosso Natal anuncia.