Delenda Cavaco

Dois dias antes do lançamento da inventona de Belém, escrevi O sonso. Para além do escândalo, ou indignação, ou repulsa, por ver o Presidente da República envolvido na campanha eleitoral e na degradação do prestígio das mais altas instituições do Estado, estava interessado na descodificação de Cavaco, nos modos verbais e não verbais da sua comunicação em público. Em 16 de Agosto, pois, a violência reprimida que deixava transparecer no discurso equívoco, entaramelado, anunciava o pior. E o pior veio 48 horas depois, para vergonha nacional.

10 dias depois de Portugal ter ficado estupefacto com o conúbio entre a Casa Civil e o casebre do Zé Manel, ao ponto de ser crescente a convicção de que Cavaco estaria a validar as notícias com o seu silêncio, lá falou. Para mostrar que não confirmava nem desmentia, antes pelo contrário. Os portugueses não lhe mereceram o respeito mínimo a que a Constituição o obriga, em vez disso saiu-se com um discurso caricato e absurdo, dizendo que não iria afastar as atenções dos problemas graves: desemprego, competitividade, segurança.

A balizar este momento desgraçado na História de Portugal, tivemos antes a cena gaga do jipe cheio de diplomas que ia levar para os Algarves a passeio, e depois as peripécias com Lima e o discurso mais vexante de que há memória tenha alguma vez saído da boca de um Chefe de Estado português. Agora, dias depois de ter atacado o TGV, voltou aquilo que já é uma cassete: censurou o diploma que permitirá o casamento entre pessoas do mesmo sexo e declarou estar apenas interessado nos problemas graves do País. Repetiu que, por ser economista, conhece muito bem a situação e que a solução passa pela união dos portugueses. A via para essa união não foi revelada.

A actividade opositora da Presidência da República voltou a ser frenética. Lima foi premiado, ressurgiram os recados anónimos que exprimem um conflito de vida ou morte com Sócrates e Cavaco insiste na postura sonsa: enquanto faz terrorismo político, afirma que não se deixa arrastar para os combates de natureza político-partidária. Neste particular, temos de lhe dar razão: Cavaco detesta os partidos e o que eles representam, o seu mundo de fantasias é supra-partidário.

Alguns socialistas advogam que o PS não devia ir a esta luta onde está sozinho, posto que os imbecis são naturais aliados dos ranhosos, sendo melhor servir a cabeça de Sócrates aos pulhas para quem vale tudo, até a utilização da Presidência e da Justiça. Pacheco já fez a oferta: entreguem-nos Sócrates, prometemos ser bonzinhos durante uns tempos.

Cavaco, o auto-investido paladino da ética e da transparência, é uma peça decisiva na estratégia de desgaste e boicote da actual liderança socialista, ao arrepio dos interesses dos eleitores. Que a incompetência dos protagonistas em Belém e na Lapa seja tal que não consigam disfarçar o seu desprezo pela democracia, eis algo que só devia incendiar ainda mais os guerreiros da Cidade.

15 thoughts on “Delenda Cavaco”

  1. A cidade não se vai incendiar, por agora. O nevoeiro dificulta a visão clara e nítida.

    “Brilho sem luz e sem arder,
    Como o que o fogo-fátuo encerra.

    Tudo é disperso, nada é inteiro.
    Ó Portugal, hoje és nevoeiro…”

    Espero que a cidade um dia diga:

    “É a Hora!”

    Pena é que não haja por aí um candidato “inteiro” que o derrote de vez!

    Se entretanto não aparecer, lá voltamos ao profeta:

    “Hoje o céu é pesado como a ideia de nunca chegar a um porto…
    A chuva miúda é vazia…A Hora sabe a ter sido…

    Ah, como esta hora é velha!… E todas as naus partiram!
    Na praia só um cabo morto e uns restos de vela falam
    De longe, das horas do Sul, de onde os nossos sonhos tiram
    Aquela angústia de sonhar mais que até para si calam…”

  2. Cavaco é a “má moeda”
    tem cada vez menos circulação, credibilidade

    é um produto baixo
    duma iletracia humana e politica
    que nenhum Chefe de Estado pode desprezar

    Este recordar de suas intervenções
    ora sobre endividamento,
    ora sobre competitividade,

    sempre sobre investimentos

    é materia governamental sufragada nas duas ultimas derrotas do venerando,
    nas legislativas e nas autarquicas

    Sexa almeja um presidencialismo feito com ajuda da crise
    alguma CIP
    alguma confusão de partidos da santa aliança
    sindicatos alinhados

    e assim joga na confusão, no messianismo pacóvio

    nuns idiotas de serviço
    que se prestam a ser usados
    e dispensados quando seu tempo validade terminar…

    acontece que agora é o tempo, o modo, a finalidade ultima de CS
    enfim a moralidade politica, que está em causa….

    é portanto o tempo politico do equivoco de boliqueime
    que está em jogo, para decisão dos portugueses
    em função da sua actuação politica recente…

    abraço

  3. O PS tem de deixar de ser tão macio como tem sido. O PS tem de ir a essa luta. Se o PS quando foi o caso das pretensas escutas a Belém tivesse exigido com toda a firmesa que fosse necessária que Cavaco eslarecesse tudo o que ficou por esclerecer, que no fundo o culpava da inventona, já talvez ele não andasse agora a actuar com a arrogância e a desfaçatez encapotada com que o anda a tentar lixar o governo.

  4. E ainda há quem acredite no Caváco e sus muxaxos, Pacheco Pereira incluido, e pretenda uma revolução fascio-comunista, aliando o PSD com o BE ,o CDS e o PCP para destruir o PS? O Partido Socialista devia ter reagido com muito mais energia e até violencia oral ,pois já é notório que o Caváco o que quer é ser ele a comandar, mesmo que seja através de interpostas pessoas.Com esta amostra de PR ninguem vai a lado nenhum, e com estas amostras de partidos da oposição o país não avança .

  5. Cavaco:

    Pela vida fora somos presenteados umas vezes com boas soluções, outras com desilusões, por certos governantes. Quanto a Cavaco quem pensou que eram boas soluções, talvez ainda ache, porque não quer dar o braço a torcer.

    Nunca foi um bom líder, mesmo na época de 1º. Ministro, em que tinha diariamente o país a jorrar de dinheiro. Fez-se sempre acompanhar por gente de fraca índole, é ver Dias Loureiro, Oliveira Costa, Luís Caprichoso, Francisco Sanches, estes no caso do BPN, e Horta e Costa no caso da PT. Para não falar no seu assessor mor no caso das escutas, Fernando Lima. Há o provérbio português que diz: diz-me com quem andas dir-te-ei quem és.

    Há dias quando lhe foi perguntado sobre se concordava com o casamento entre homossexuais, atirou com a bola para fora, como se diz na gíria futebolística, porque não lhe convinha. Se não na visita do Papa a Portugal, a que Cavaco se prontificou acompanhar nas 96 horas que ele vai cá passar, – aqui dou uma solução, devia ir menos um segurança, Cavaco preenche esse lugar – julgo que o Papa não queria tal companhia e adeus presidenciais. Com a figura do Papa a seu lado é que vai ser uma rica pré-campanha, mas o povo português sabe distinguir a religião da política.

    Ainda ontem nos surpreendeu com a falta de crianças com o que o País atravessa e disse que os casais portugueses deviam de pensar nisso. Mas enquanto cidadão, casal português e noutras condições só teve dois filhos. É com estas demonstrações que se vê o perfil a não ser que seja um fervoroso adepto de frei Tomás.

    Quando se dá exemplos destes como quer ser interpretado? Com respeito, com compreensão, com estima ou com uma crítica? Deixo estas palavras ao dispor de quem as quiser comentar.

    Por estas e outras não contribuo para este peditório. Ainda se fosse para o bolo-rei.

  6. Olha que curioso este texto exactamente hoje, que coisa gira!
    Andaste à volta mas não foste ao que pretendias, certo? Isso fica para próximo post, estarei enganado?

  7. O sonho de Cavaco não era bem este, era mais ter a amiga Ferreira Leite no Governo, e se ele se empenhou para realizar esse sonho. Mas nem tudo está perdido, existe uma coligação da oposição e quem melhor do que ele para a liderar. Que o diga o Jerónimo de sousa que acha muito bem que Cavaco tenha ‘opiniões’ acerca da governação socialista. Uns exagerados é o que os socialistas são, diz ele.

    Tal como lembra o Pedro Marques Lopes na sua crónica de hoje no DN, as dificuldades de governar em minoria eram dantes, no tempo do Cavaco primeiro-ministro, agora, Sócrates só não governa se não quiser. Ainda por cima, Sócrates tem a vantagem de, em caso de dificuldade, poder sempre contar com um empurrãozinho de tão iluminada Presidência…

  8. A comunicação social está, na prática, quase toda nas mãos da direita. É absolutamente urgente a criação de um jornal da esquerda democrática, portanto, não esquerdista, que exponha a sua verdade ao país, com seriedade, com solidez, com competência, com honestidade, sem insultos inúteis. Perorar só nos blogs não chega.

  9. Cavaco faz parte do problema e não da solução. Ora isto sendo assim e ocupando Cavaco o lugar que ocupa, torna o problema de facto muito bicudo.
    Contudo creio que o PS está, desta vez, a responder com assertividade à verborreia de Belém. O PS está de facto sozinho nesta batalha e já não tem a maioria absoluta, no entanto a meu ver está a seguir a estratégia correcta, que consiste em fazer da fraqueza força, até porque como se costuma dizer “quanto mais alguém se baixa mais se lhe vê o traseiro”.
    Assim a maneira correcta de lidar com as provocações de Cavaco é optar pela firmeza mas ao mesmo tempo estendendo o ramo de oliveira, alternando os dois discursos, aplicando enfim aquilo que em linguagem policial se poderá definir por “táctica do polícia bom e do polícia mau”. Este procedimento para além de de manter mobilizada a base eleitoral do PS, não aliena aqueles que não têm uma posição definida sobre a quem atribuir a responsabilidade desta guerrilha institucional. Isto para além de obrigar o hipócrita de Belém a cometer erros.

  10. PedroM,
    concordo contigo, excepto que me parece que essa táctica já foi – está a ser – adoptada. Desde logo, no caso das pseudo-escutas em Belém. Esperou-se que Cavaco fizesse o discurso justificativo, isto é que se enterrasse sozinho, e depois veio o discurso oficial, pela voz de Silva Pereira, que lhe deu a marretada final, mas em estio e com dignidade. Ganhou-se pelo contraste coma histeria desorientada de Cavaco.

    O risco de entrar em guerra aberta é a velha história de “são todos iguais”, que, tendo em conta o estado em que está a comunicação social, não seria bem assim, não preciso dizer mais…

  11. Isso é o que vamos a ver, mas vais sim, vais comprar blocos de dívida externa de diferentes países e compensá-las com emissão e baixando o ratio €/$ que está muito elevado. Au travail mr. tricheur, pensas que não te topo?

  12. Eu só pergunto: para que raio querem os PSD o poder, se estão todos desgraçados e não têm mostrado qualquer capacidade para se organizarem ???

    Se tiverem o poder, o que é que vão fazer ???? Fugir ao fim de 3 meses????

    Há de certeza qualquer outra “coisa” debaixo desta atitude de que estas “diabruras” são apenas a parte visível.

    É bem possivel que nunca se chegue a saber toda a verdade que deve ter um nome – Dias Loureiro e todos os companheiros do trafico de armas.

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