A pitonisa da cabeleira loira

No emissão do Ponto Contra Ponto de 17 de Novembro, o Pacheco profetizou ir valer muito a pena consumir os produtos da comunicação social nas semanas seguintes. Vindo de um dos mais cáusticos pseudo-críticos da oferta jornalística nacional, o conselho despertou excitante interesse. Porém, como de costume na sua praxis conspirativa, não nos foi dito porquê nem para quê, nem sequer quantas eram as semanas de alerta. Bom, e que aconteceu, nestes 17 dias, que possa corresponder ao modo sibilino com que embrulhou a mensagem? Será que se referia à surpreendente convocação de Stojkovic pelo Carvalhal? Estaria a falar da chegada ao Algarve dos machos Éon e Calabacin, assim completando o grupo de linces ibéricos que veio comer e divertir-se às nossas custas? Pensaria no tempo que vai fazer neste fim-de-semana? Ou, por exemplo, estaria a referir-se à notícia do SOL, a 27 de Novembro, que relata ter sido enviado, em Junho, um aviso para os arguidos do Face Oculta mudarem de telemóvel pois estavam a ser escutados? Ou será que já antecipava a notícia da Sábado, onde se reporta que foi descoberta uma carta anónima no escritório de Vara avisando que Sócrates estava a ser escutado? Ou teria antes em mente todo e qualquer boato que o PSD, ou as forças que representa, utiliza para tentar afastar Sócrates e provocar uma crise institucional sem paralelo no regime democrático?

Uma coisinha é certa: a comunidade que somos, e que continuaremos a ser com ou sem Sócrates, não precisa das tácticas soezes do Pacheco para nada, pois não vem delas qualquer bem. Este homem é pago para simular uma intervenção jornalística que não passa de terrorismo político. Tem todo o direito de continuar a fazê-lo, e aqueles que lhe pagam idem, óbvio, inquestionável, mas nós temos igual direito de repudiar quem nos trata mal. E o Pacheco trata-nos mal, muito mal e a todos.

Espionagem política – VII

Quando se diz que Ricardo Rodrigues está a validar a suspeita de que Sócrates mentiu, porque pergunta a Ferreira Leite pela fonte da sua acusação, algo de muito estranho ocorre no cérebro desses tais. Começam por apagar o facto de nunca ter existido negócio algum entre a PT e a Media Capital. Se não existiu esse negócio, é provável que Sócrates não possa saber dele, e ainda menos vir a ser responsabilizado pelas supostas consequências de algo que nunca existiu. Depois anulam a distinção entre o Primeiro-Ministro e o cidadão José Sócrates. As responsabilidades não são as mesmas, os deveres também não. O cidadão pode ter caprichos, preguiças, vícios, por exemplo. O Primeiro-Ministro não. O Primeiro-Ministro é fiscalizado no Parlamento, responde pelo Governo, tem de representar o Estado. O cidadão não. Finalmente, ao designarem como mentira o que é factualmente verdade, isso de o Governo não ter sido informado do negócio nem o ter ordenado ou influenciado, estes recos chafurdam na porqueira para onde querem arrastar tudo e todos, essa decadência colectiva donde a honra é banida para a pulhice ser exaltada.

Em Junho, Sócrates disse que não sabia do negócio. A PT disse que não havia negócio. O Ministro da Presidência garantiu que o Governo não tinha qualquer responsabilidade nesse ensejo de negócio. Foi por isso que o assunto morreu aí, por nada mais ser preciso explicar. Contudo, caso as gravações de uma conversa privada permitam concluir que os interlocutores possuíam informações que se relacionam com esse não-acontecimento, então o que há de extraordinário nisso é a utilização desse material como arma política. Porque a vingar a tese de que podemos espiar os adversários e decidir por eles quem eles são, o que irão fazer e o que teriam feito, o Estado de direito fica substituído pela lei do mais forte, pela selvajaria. Amanhã irá tocar a estes algozes desembestados, e será ainda pior. Com esta pulsão tirânica não pode haver cedências.

Aqueles que querem violar a privacidade de Sócrates são os bombistas suicidas de quem Balsemão fala.

Carvalhal, depois mando-te a factura

Jogo fascinante. O Heereenveen é uma equipa muito, muito, muito fraquinha. E o Sporting jogou muito, muito, muito pior do que essa equipa muito, muito, muito fraquinha. E esta desgraça decorreu com o Sá Pinto no banco, a poucos metros, ou centímetros, dos jogadores; já para não falar no quarto de hora de balneário ao intervalo, onde ele se pode mover livremente e abrir os braços.

Que é isto? Até o relvado, que eu não atravessaria com um tractor com medo de avariar a máquina, estava em melhores condições do que a rapaziada. O jogador da partida foi aquele que não jogava há 7 meses por lesão e o golo foi marcado por um defesa que tem passado o tempo no banco e se tornou um peso-morto no plantel. Que é isto?

Carvalhal, vais ter de inventar umas cabeças novas naquelas cabeças ocas ou lá terás de pagar a despesa da minha aposta.

Sexta-feira Negra

PSD e CDS passaram a campanha para as Legislativas a berrar que o PS iria governar em aliança com os comunas ou com os radicais, ou ambos. BE e PCP passaram a campanha para as Legislativas a berrar que nunca fariam alianças com o PS porque este era de direita e queria governar num Bloco Central ou com os reaças. Uns e outros deixaram claro que o PS fazia parte dos inimigos e já tinha pactos com os mais extremados dos inimigos respectivos. Portugal podia afundar-se ou desfazer-se às mãos dos monstros que estes partidos denunciavam, mas estar ao lado do PS em prol dos superiores interesses da recuperação económica e protecção aos mais fracos é que não. Até se chegou ao desplante de xingar a abertura do PS para um qualquer acordo que garantisse mínimos de governabilidade, acabando as reuniões com todas as forças na Assembleia por nada de nada de nadinha de nada terem acrescentado à retórica da decadência e impotência actualmente dominando os discursos da oposição.

Na passada sexta-feira, PCP, BE, PSD e CDS aliaram-se numa união nacional para o desgoverno. Provaram, dando o passo em frente que faltava, que antes das eleições Portugal estava mesmo à beira do abismo. O golpe nas finanças públicas que resultou das votações, em período de extrema dificuldade, é de molde a adivinhar a completa falência do sistema caso a irresponsabilidade continue. E ela vai continuar, pois as lideranças partidárias da oposição contêm alguns dos políticos mais irresponsáveis de que há registo na memória colectiva. Como ontem dizia Emídio Rangel, nesta lógica vai seguir-se o aumento do subsídio de desemprego para os 1500 ou 2000 euros. A que se juntará o fim das pensões de miséria, finalmente transformadas em pensões doiradas e fartas, como é justo, justíssimo. E haverá propostas para se construir um aeroporto em cada concelho, um hospital em cada freguesia, uma escola em cada quarteirão. Os impostos irão desaparecer, as férias serão de 6 meses e a convergência com a Europa será alcançada por maioria parlamentar.

A felicidade durará enquanto durar o regabofe.

Um livro por semana 148

dennis mcshade mulher e arma com guitarra espanhola

«Mulher e arma com guitarra espanhola» de Dennis Mcshade

Corria o ano de 1968 e Dinis Machado, editor da colecção RIFIFI da Editorial IBIS, apresentava Dennis Mcshade, autor deste livro. Depois de lembrar Conan Doyle e Ellery Queen, Chandler e Hammett, afirmava: «o género policial tende a desdobrar-se em vários planos, procurando pistas de vida em todas as direcções que a vida tem». A história passa-se em Nova Iorque («não há fragrância de flores, há o cheiro dos homens que correm atrás da vida, dinheiro, poder, mulheres») e envolve Maynard («Nós sabemos distinguir entre as nossas necessidades reais e as nossas fraquezas congénitas») e Ricco: «era um dos maiores malandros que conhecera em toda a minga vida, um homem de uma baixeza quase integral». Este Ricco tinha pago dez mil dólares ao «Menino» para este matar Nora mas este tinha desaparecido sem matar a mulher e sem devolver o dinheiro. A morte é uma coisa simples para estes homens: «É preciso um automóvel e dois ou três homens com pistolas, às três da madrugada, num certo sítio. Depois, levam-no.» Pelo meio da história surge Marlowe («homem ligado a muitos interesses obscuros, mudava de automóvel todos os meses») e a organização nazi dos EUA, a John Birch Society. E um bar com um nome insólito (As vinhas da Ira) e frequentadores conhecidos: Zola, Charlotte Brote, Proust, Baudelaire, George Sand, Pablo Neruda, Hemingway, John Keats. E sempre, por todo o livro, opiniões divergentes sobre o Concerto de Aranjuez de Joaquim Rodrigo: há quem prefira a guitarra de Andrés Segóvia; outros a de Narciso Yepes. A reedição deste clássico de 1968 anuncia o inédito «Blackpot», algures numa gaveta desde 1985.

(Editora: Assírio & Alvim, Capa: João Fazenda)

Espionagem política – VI

Vieira da Silva, na entrevista a Flor Pedroso, verbalizou uma evidência: se há informações na comunicação social que alegam transmitir segredos de Justiça, então há espionagem política. Espionagem, porque resultam de capturas ilegais do que era suposto permanecer secreto. E política, porque a intenção é obter ganhos políticos.

A reles manipulação da reles oposição saiu-se com a reles hipocrisia de perverter a declaração original, e fazer dela um ataque dirigido ao próprio processo e aos seus responsáveis. Ora, mesmo aceitando como hipótese que o falante tivesse esse entendimento, posto que há boas razões para duvidar da boa-fé de escutas que se escondem durante 5 meses da única autoridade que as poderia permitir, tal não foi dito. Apenas se apontou para o óbvio: se o maior partido da oposição vai para o Parlamento atacar o Governo à conta das fugas ao segredo de Justiça num caso onde a legalidade da própria fonte é dúbia, então é legítimo chamar nomes aos bois.
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Espionagem política – V

O ministro acusou quem faz investigação criminal de estar a fazer espionagem política, quando não tinha nenhum facto para sustentar acusações. Essas afirmações não foram mais do que inaceitável pressão política sobre investigação criminal.

Miguel Macedo, deputado do PSD, acerca de Vieira da Silva

*

Pedir honestidade intelectual e respeito pela malta que lhes paga o salário também não, até lhes poderia fazer mal, mas que pena nunca se pedir a estes marmanjos que expliquem as bojardas. Pagava para ouvir este deputado a descrever o processo através do qual a declaração de Vieira da Silva se constitui como pressão seja de quem for ou do que for. Pressão onde? Como? Para quê? Acima de tudo, ó Macedo, que raio de consideração tens pelos magistrados e polícias portugueses? São, como insinuas, impressionáveis por frases politicamente legítimas ditas em entrevistas? Isto é, há mesmo juízes que não suportam a democracia e dela têm de ser protegidos, como dizes?

Ferreira Leite, na Assembleia da República, exigiu que Sócrates interviesse na investigação judicial em curso. Disse que o povo, alimentado pelos boatos na comunicação social, assim o pedia, pelo que Sócrates estava obrigado a expor a sua privacidade. Chegou ao ponto de lançar suspeições para cima da decisão de considerar as escutas ilegais, reclamando a sua preservação ou publicação. Parece, no entanto, que esta pressão é aceitável para o PSD, talvez por ter vindo de uma senhora (e séria como há poucas).

Entretanto, Vara tem de pagar 25 mil euros e não pode falar com outros arguidos. Temos criminoso da pesada, pelos indícios, pois as pessoas de bem, como Dias Loureiro, quando calha terem a chatice de não conseguir explicar o que fizeram a dezenas de milhões de euros, ou centenas, quiçá milhares, apenas ficam sujeitas ao termo de identidade e residência.

Cicuta

Em primeiro lugar, Fernando Lima não foi apanhado em nenhuma escuta, muito menos numa escuta relacionada com um processo criminal. Em segundo lugar, Fernando Lima foi sacrificado porque o ‘Diário de Notícias’, em plena campanha eleitoral, decidiu publicar um mail privado de um jornalista do ‘Público’, declarando pomposamente que este era do interesse público – o que obviamente não era. Por último, a “estupefacção” do sr. Ricardo Rodrigues vem do facto de ter tido conhecimento do mail privado de um jornalista. Não seria então de esperar que o mesmo Ricardo Rodrigues exigisse a divulgação das “conversas privadas” entre José Sócrates e Armando Vara de forma a podermos ficar todos também estupefactos?

Constança

*

Para a Constança, é melhor não publicar correspondência privada quando ela é capaz de explicar actos públicos danosos que já aconteceram, assim como é melhor publicar conversas privadas quando elas são fonte de especulação para actos públicos inócuos que não aconteceram.

Só lhe posso desejar que prove desse mesmo veneno.

Vinte Linhas 431

A primeira palavra vinte e cinco anos depois

Em 1984 o meu filho Filipe, nascido em 1981, procurou escrever o seu nome numa página A4 e o resultado em maiúsculas saiu assim – EFILPI. Vinte e cinco anos depois o meu neto Thomas tentou escrever o seu nome e saiu apenas um conjunto de três letras THO. As outras três letras MAS não couberam no quadro porque o tamanho não o permitiu. No meu tempo de criança e na terra onde vivia a minha infância, as pessoas não passavam muito cartão aos miúdos. Um miúdo numa família nesse tempo, anos cinquenta, não era um indivíduo e mesmo quando se encontrava uma criança num carreiro ou numa serventia entre duas fazendas semeadas ninguém lhe perguntava «como te chamas?» mas sim «de quem és tu?». As crianças eram dos pais assim como no tempo da Bíblia se lê que os homens ao atravessarem o deserto levavam consigo «as mulheres, os filhos, os criados e os animais». É com um misto de ternura e esperança que olho para estas três letras THO escritas pelo meu neto de três anos ou seja a mesma idade do meu filho quando escreveu EFILPI em vez de FILIPE. Ternura pois uma coisa lembra a outra e se o tio está em vias de ver publicado o seu primeiro livro vinte e cinco anos depois o sobrinho está a dar os primeiros passos nesta fascinante relação com as palavras.

Não sei onde está essa folha com as palavras EFILPI do nome do Filipe e a foto com o nome THO do Thomas ficará no computador porque não existe em papel.

A vida não está fácil, as coisas são complicadas, há uma agressividade apor aí à solta nas ruas, basta ver que dantes nos agradeciam quando se chamava a atenção para as luzes acesas dos automóveis e agora insultam mas estas pequenas coisas tudo salvam.

Cineterapia

João Ratão
João Ratão_Jorge Brum do Canto

Não existem maus filmes, como Bazin e Souriau te podem explicar ou já explicaram. Esta verdade, para um português, ganha densidade ontológica quando o filme em causa conserva as presenças fundadoras de António Silva e Manuel Santos Carvalho. E também o erotismo de Teresa Casal, até hoje insuperável na tipologia de snobe tesuda, e o de Maria Domingas, aqui num mimo de frescura e mamilos eloquentes.

Mas este filme de 1940, cujo humor mais conseguido é o involuntário, contém uma cena que talvez seja a primeira retintamente camp na filmografia nacional. No diálogo com que ela começa, João Ratão lembra uma francesa que lhe fez esta subtextual declaração — Les Portugais sont toujours gais. O que se segue é um interlúdio musical onde quatro maduros fazem uma pantomima cantada que colheria o aplauso da clientela do Finalmente.

Uma obra de ficção é também um inevitável documentário. Nesta temos como cenário o vale do Vouga, onde foram captadas bucólicas e ridículas imagens. Só por elas, a fita merece ser vista, revista e bem-vista.

Anarco-civismo

No SIMplex, Leonel Moura deu um testemunho de independência que tem, simultaneamente, um timbre pessoal e uma ressonância colectiva:

Do que conheço, e já conheço alguma coisa, nem o PS enquanto organização, nem a vasta maioria dos socialistas com quem me fui cruzando nas curvas da vida, alguma vez reagiram mal à minha condição de artista e anarca. Pelo contrário, nunca vi um partido mais aberto à diferença, mais tolerante, mais empenhado nas novas coisas e nas novas ideias. Há comprovadamente uma cultura da liberdade instalada no PS que não vejo nos outros partidos, da direita ou da dita esquerda, salvo rarissimas excepções. Há, para além disso, neste PS de Sócrates uma genuína vontade de acompanhar o que efectivamente vai fazendo o mundo de hoje e do futuro. Uma abertura, uma ambição, uma respiração que só pode favorecer o país e os portugueses. Não encontro isso em mais partido nenhum. Confirmo sim, todos os dias, a asfixia do medo, do conservadorismo, da demagogia.

De facto, onde está a modernidade do PCP, hoje um tugúrio onde se berra que a realidade se enganou e engana? Onde está a modernidade do CDS, hoje uma D. Elvira para passeios nas feiras da Malveira ou Golegã? Onde está a modernidade do BE, hoje uma assembleia de fiéis hipnotizada pelo pregador-mor? Onde está a modernidade do PSD, hoje um hospício abandonado pelos médicos e enfermeiros?

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Palácio da Independência

Ano 2009. Portugal está sob domínio espanhol. Cristiano Ronaldo joga na Selecção castelhana. Saramago impõe a troca do Pentateuco por citações das suas obras, em todas as bíblias, como forma de promover o iberismo. Canta-se o Cheira bem, cheira a Madrid.

Quem, neste mundo paralelo, seriam os portugueses com coragem e amor à Pátria tais para chefiar a rebelião ou nela tomarem parte? Ou, perguntado de outra maneira, dos portugueses que conheces, a quem é que gostarias de te juntar para combater pela independência de Portugal?