Espionagem política – VI

Vieira da Silva, na entrevista a Flor Pedroso, verbalizou uma evidência: se há informações na comunicação social que alegam transmitir segredos de Justiça, então há espionagem política. Espionagem, porque resultam de capturas ilegais do que era suposto permanecer secreto. E política, porque a intenção é obter ganhos políticos.

A reles manipulação da reles oposição saiu-se com a reles hipocrisia de perverter a declaração original, e fazer dela um ataque dirigido ao próprio processo e aos seus responsáveis. Ora, mesmo aceitando como hipótese que o falante tivesse esse entendimento, posto que há boas razões para duvidar da boa-fé de escutas que se escondem durante 5 meses da única autoridade que as poderia permitir, tal não foi dito. Apenas se apontou para o óbvio: se o maior partido da oposição vai para o Parlamento atacar o Governo à conta das fugas ao segredo de Justiça num caso onde a legalidade da própria fonte é dúbia, então é legítimo chamar nomes aos bois.

Agora, olha-me para esta cena de arrebimbomalho: o PS acusa Ferreira Leite de conhecer o teor das escutas em Junho, ou uma sua qualquer versão, e a lider e partido ficam calados o dia todo. Para contra-atacarem com força demolidora a tremenda acusação? Não, o oposto: para reconhecerem que foram apanhados.

O problema não tem a ver com o acesso às escutas, tem a ver com o povo português não conhecer o conteúdo das escutas”. Manuela Ferreira Leite reagiu assim quando confrontada pelos jornalistas com a suspeita do PS de que a líder social-democrata conhece há meses o teor das escutas em que intervém o primeiro-ministro.

Fazendo de Pacheco, esta sonsa declaração significa que a Manela não se arrisca a negar ter tido conhecimento de informações a que não devia ter tido acesso, muito menos a tê-las utilizado para fins políticos, e agora tenta uma patética fuga para a frente, apostando tudo na sua publicação. De resto, o vale tudo atinge píncaros de sordidez que são, temos de o reconhecer, espantosos. Espantosos para a nossa ingenuidade aqui na plateia, claro, meros espectadores das jogadas que se sucedem imparáveis e em crescendo.

O negócio PT-TVI contém um aspecto burlesco que é o de, muito provavelmente, não ter nada a ver com a Manuela Moura Guedes e a sua farsa das sextas. A ter acontecido tal negócio, que nem sequer pôde aparecer como facto a carecer de decisão dos diferentes agentes responsáveis, daria origem a uma paradoxal situação que blindaria a posição de Moura Guedes – os prejuízos políticos do seu afastamento depois da PT ter entrado seriam insuportáveis para Sócrates.

A problemática da espionagem política é apartidária e remete directamente para a segurança e credibilidade da Justiça. Pura e simplesmente, se há informações secretas a chegar aos jornalistas, daí decorre que elas podem estar a chegar a qualquer outro destinatário. PSD e Cavaco Silva deram abundantes sinais de possuir uma qualquer informação de carácter privado que poderia servir para tentar entalar Sócrates na ocasião. A ser verdade, creio que esse partido, cujo maior ou único talento é o da insídia, devia ser fechado para desinfecção.

13 thoughts on “Espionagem política – VI”

  1. bom dia Vlupi, acho que nunca me tinha acontecido comentar uma coisa que saiu em branco e afinal é a dizer para continuar aqui, contigo, muito melhor do que eu o diria,

    imagina de como uma elipse vai parar a uma galáxia,

  2. Não sei se vai explodir, António P. Cheira-me que antes de isso acontecer estoirem com o PM, à má fila, porque têm todos os meios (todos menos o voto popular) para o fazer. Diz quem sabe, Marinho Pinto, que «a Justiça está capturada pela política». E como esta é «soberana» quem a capturou tem poder soberano. E se soubermos que a este poder soberano da justiça se junta o poder de toda TODA! a comunicação social nas mãos dos captores da justiça soberana, penso que não há PM que possa evitar o linchamento na praça pública, como se tem visto à saciedade. Os Varas apanham por tabela, condenados a penas de prisão preventiva, que poderão evitar se pagarem com dezenas de milhares de Euros. Condenados por «indicios, de indicios, de indicios»! Para indicios até pode contar mijar contra um poste de iluminação!
    «A justiça foi capturada» e quem a tem nas mãos tem poder soberano. E quem não alinhar, dentre os capturados, acontece-lhes como ao Lopes da Mota. Lembra~-se dele?
    Porca miséria! Mas hoje apetece-me dizer mesmo : puta que os pariu!

  3. O psd deve desaparecer. Um albergue espanhol que não se dá ao respeito ao ponto de ter esta pateta, sem o mais pequeno respeito pela democracia, como líder, não deve existir. Que expluda!

  4. Quem manipulou e truncou as afirmações de Vieira da Silva não foi a oposição, foram os media que deram a “noticia.”A oposição, nomeadamente o PSD, só tem que aproveitar o mau jornalismo, em que é licito apresentar uma mentira desde que respeite as tecnicas em vigor, que permitem tudo, desde esticar, hiperbolizar, distorcer as mensagens e até fazerem caixas com não afirmações, não desmentidos (logo verdades) etc…
    Que o psd tinha conhecimento das escutas já não é segredo e parece-me que tal já tinha sido admitido por PPereira a ACosta na ultima Quadratura, muito no fim do programa numa altura em que as vozes se sobrepunham e por isso a SICN não pode puxar essa frase para todos os noticiarios como sempre faz com tudo o que PPereira diz.Era demasiado grave por em antena e os empregos não abundam.

    Entretanto lá longe numa inospita e incivilizada ilha:

    Lord Mandelson declared war on the Murdoch empire today when he accused News Corporation of maintaining an “iron grip” on pay television and warned that the company wants to import rightwing Fox News-style journalism to Britain.

    In his strongest attacks on News Corp since the Sun abandoned its support for Labour hours after Gordon Brown’s party conference speech, the business secretary accused the company of imperilling the traditions of British broadcasting.

  5. Esta resposta da Ferreira Leite é inacreditável. É a velha história do perdido por dez perdido por mil. Está cega, para levar adiante a missão de derrubar Sócrates não se importa de levar à frente o próprio partido, a Justiça e o mais que se lhe atravesse no caminho. A justificação que dá para que as escutas sejam divulgadas é o facto de termos o primeiro-ministro sob suspeita. Hipocrisia, pois, tal como aconteceu no Freeport, por exemplo, é exactamente manter a suspeita o que lhe interessa. Mais, uma boa parte do povo português pensa, e provavelmente bem, que se existisse alguma coisa que o incriminasse, o conteúdo das escutas já tinha sido publicado há muito tempo. Os sociais-democratas (se é que isso ainda existe) não perdoam a Sócrates nem aos portugueses a humilhante derrota que sofreram, mas escusavam de manter a senhora unicamente para dar estes tristes espectáculos, pois está visto que não a querem para mais nada.

  6. Muito bem! Eis a prova que se pode clara e correctamente desmascará- -los, sem necessidade de lhes chamar, cruamente, aquilo que eles são!

  7. Val,

    Considero que de dia para dia estamos a chegar a um ponto decisivo. Seguindo um pouco a lógica do comentário feito por Jeremias, a justiça ficou acantonada e aos olhos da opinião publica, degradada. Quem desencadeou este processo, tornando-o publico, não nos restam dúvidas, hoje, que foram os barões do PSD, para os quais, as manuelas, pachecos etc., são apenas elementos instrumentais.

    Julgo que os comentários aos textos devem ser curtos, para sugerirem encadeamento de ideias face a um texto inicial. Contudo, talvez fosse interessante (é apenas uma sugestão)trilhar um pouco deste caminho:

    A degradação da justiça com correspondente exibição na praça publica, serve os interesses de quem ?????

  8. Não será que chegou a altura de entalar a “engelhada” e ferrá-la com o mesmo fel que ela tem feito provar ao Sócrates?
    Porque ao não negar o conhecimeto total ou parcial do conteudo das escutas antes destas virem a público, a bruxa admite implicitamente que teve conhecimento da matéria. Meus caros, digam o que disserem, em política isto é assim mesmo.
    Ora se a “senhora” teve conhecimento das escutas, tem a obrigação de dizer como tomou conhecimento delas e quem lhe passou essa informação. Ou seja, enquanto lider do maior partido da oposição:
    – Tem obrigação de denunciar um CRIME, o desrespeito pelo segredo de justiça;
    – Tem obrigação de COLABORAR COM A JUSTIÇA, na investigação daquele crime, dando todos os elementos que possam ajudar na investigação daquele crime.

    Ou seja, se neste instante a MFL pegasse no telefone e ligasse à magistrada Maria Morgado, já estaria atrasada vários meses, e poderiamos sempre perguntar porque só o fez agora.
    Se não o fizer, como obviamente não o fará, terá de nos explicar porquê, a comunicação social tem aqui um papel fundamental, mas o PS também…
    Caso contrário poderemos concluír que o momento em que tomou indevidamente conhecimento das escutas foi um daqueles gloriosos instantes de “suspensão da democracia”, de que a nulidade MFL tanto gosta.

  9. Sobre as escutas, é bom lembrar que vivemos há muito num país cuja estrutura comunicacional entre quem manda e quem vota tem a telenovela como principal instrumento. Não se queira agora que, tão bem habituados, prescindamos do próximo capítulo.

  10. EXCELENTE:

    Síntese do episódio da publicação pelo DN dos e-mails privados de jornalistas do Público:

    No Aspirina B: “Espionagem, porque resultam de capturas ilegais do que era suposto permanecer secreto. E política, porque a intenção é obter ganhos políticos”.

    Pois certamente que os referidos e-mails foram obtidos de forma ilegal, pois certamente que era suposto permanecerem privados, pois certamente que a intenção foi obter ganhos políticos.
    Muito bem.

    http://marsalgado.blogspot.com/2009/12/excelente-sintese-do-episodio-da.html

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