João Miguel Tavares criou uma brincadeira supergira, superfofinha. Consiste em tentar descobrir quantas vezes conseguiu dizer aos seus leitores que Sócrates é um bandido. Vamos contá-las, vamos? Vamos lá, então:
– mais uma triste confusão envolvendo o senhor e o seu grande amigo Armando Vara
Racional: amigos do Vara são bandidos, grandes amigos do Vara são grandes bandidos.
– O senhor acabou de ser reeleito, o tal director de jornal já se foi embora, a referida estação de televisão mudou de gerência, e mesmo assim continuam a importuná-lo.
Racional: quem importuna Sócrates vai à vida, porque Sócrates é um bandido.
– parece-me desde já evidente que este caso só pode estar baseado num enorme mal-entendido, provocado pelo facto de o senhor ter a infelicidade de estar para as trapalhadas como o pólen para as abelhas
Racional: só os bandidos atraem enxames de trapalhadas, os alvos a abater apenas suscitam a visita de ocasionais e distraídas vespas.
– Depois da licenciatura na Independente, depois dos projectos de engenharia da Guarda, depois do apartamento da Rua Braamcamp, depois do processo Cova da Beira, depois do caso Freeport, eis que a “Face Oculta”, essa investigação com nome de bar de alterne, tinha de vir incomodar uma pessoa tão ocupada.
Racional: um bandido, mesmo quando nada se prova contra si, não passa de um bandido.
– Jesus Cristo nas mãos dos romanos foi mais poupado do que o senhor engenheiro tem sido pela joint venture investigação criminal/comunicação social. Uma infâmia.
Racional: o banditismo de Sócrates é de tamanha magnitude e transcendência que já exibe as marcas do sagrado.
– Mas eu não tenho a menor dúvida, senhor engenheiro, de que vossa excelência é uma pessoa tão impoluta como as águas do Tejo, tirando aquela parte onde desagua o Trancão.
Racional: é sabido que as águas do Tejo estão cheias de bandidos fecais e patogénicos, Sócrates é igual a eles mas em dimensão macro.
– É isso que Portugal teima em não perceber: quando uma pessoa quer o melhor para o País e está simultaneamente convencida de que ela própria é a melhor coisa que o País tem, é natural que haja um certo entusiasmo na resolução de problemas, incluindo um ou outro que possa sair fora da sua alçada. Desde quando o excesso de voluntarismo é pecado?
Racional: os bandidos, à luz das Ciências Sociais e Humanas, não são culpados, são agentes que obedecem a regras lógicas decorrentes do legado genético, dos ambientes onde foram criados e dos desafios à sua sobrevivência; entretanto, não te esqueças de que Sócrates é bandido e acumula com ser vaidoso.
– Mas eu estou consigo, caro senhor engenheiro. E, com alguma sorte, o procurador-geral da República também.
Racional: os bandidos podem safar-se, em especial se contarem com a ajuda de outros bandidos como esse procurador-geral da República, um pintas do pior.
Ora, vamos contá-las: uma, duas… oito vezes em que Sócrates leva com o ferrete. Foram as que apanhei. Haverá mais, não me surpreenderia, porque o João Miguel Tavares é de uma perspicácia florentina, e baseia as suas digníssimas insinuações em material das melhores proveniências. Tivéssemos dois ou três JMT e acabava-se logo a bandalheira nacional, trocada por cartas dirigidas aos malandros que chegam a primeiro-ministro e sabe-se lá mais aonde.
Os restantes bandidos que se preparem, este implacável valentão dá cabo deles a brincar.

