O hífen da questão

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Não escapou aos atentos a suprema ambiguidade desta acção de marketing do Gato Fedorento. A primeira reacção foi de surpresa agradável — em muitos casos esfuziante —, fosse pelo inusitado da intervenção, fosse pela empatia moral assim actualizada. E neste primeiro nível terá ficado a quase totalidade da população. O Gato Fedorento é a mais recente coqueluche nacional, das raras que há, e nem sequer a polarização da questão do aborto os afectou. Estado de graça, pois, que permite brincadeiras displicentes e arroubos de juventude.

Ainda a poeira não tinha baixado e já se podia vislumbrar a face melindrosa do cartaz. O problema não estava no facto de se explorar uma temática política para vender uma imagem comercial; porque, meus amigos, o Gato Fedorento é uma entidade que visa o lucro, não uma representação política ou a intervenção social em nome de um ideal humanitário. O problema formulava-se ao contrário: sob a bandeira da argumentação política contra uma organização no extremo do espectro — usando o estatuto e discurso humorísticos como inovação propagandista —, a acção resultava na anulação do gesto político intencionado. Tão nula foi a consequência que até os nulos do PNR a aproveitaram em seu favor.

Sob vários pontos de vista, é fácil adivinhar registos de irresponsabilidade e cobardia na lógica que permitiu o acontecimento. Irresponsabilidade, porque não se ponderou o efeito de notoriedade conferido à mensagem opositora. E cobardia, porque não faltam causas políticas, sociais e culturais a merecer o contributo cívico de qualquer cidadão, sendo que nesse rol não entram cartazes de grupos de extrema-direita ou ditos nacionalistas. Esse fenómeno, em Portugal, é circense, não tem expressão. Porquê ir bater em mortos, em trinca-espinhas?

Aquém e além do berbicacho moral, não pude deixar de reparar que se grafou “bem vindos” sem hífen. Um pequeno sinal de um grande erro.

O verso mais erótico em toda a língua portuguesa

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Está numa letra atribuída a Silva Tavares, para música de Alves Coelho, e que foi um sucesso pela boca e corpo de Lina Demoel (ou será Lina de Moel?) algures no século passado. Chama-se Dia da Espiga:

Dia da Espiga

Ói! Óai!
Esta vida é uma cantiga
Este dia de alegria
Vale um ano de aflição

Ói! Óai!
Porque é o dia da Espiga
É o arauto do dia
Em que o trigo há-de dar pão

Maria! São teus olhos azeitonas
Cachopa! São teus lábios qual cerejas
E os teus seios cachos de uvas que abandonas
À vindima desta boca que os deseja

Jorra o vinho dos pinchéis
Para os lábios das moçoilas
Mais vermelhas que papoilas
Das larachas dos Manéis

E há merendas pelos prados
Gargalhadas pelo ar
E à beirinha dos valados
Ouve a gente murmurar.

O texto tem mais quadras, mas não se encontram publicadas na Internet. Para o que aqui me importa, agora, está encontrado o verso mais erótico — porque mais lírico, mais inventivo, mais gracioso — de toda a literatura portuguesa, erudita ou popular:

E os teus seios cachos de uvas que abandonas
À vindima desta boca que os deseja

Que sorte minha tão desvairada eu ser da língua portuguesa.

Nocturno, em si, menor

Alguns dormitam, maçados, nos beliches, ele viaja a noite inteira a pé. Entre o bar e o corredor, entre uma nova cerveja e os considerandos do salário que recebe. Quase setecentos contos, mesmo quando não embarca. Como agora, que vem a casa ver a mulher. Mas isso há-de acontecer só amanhã, lá pelo meio-dia, em chegando à Pampilhosa, depois de atravessar a infindável noite basca, e leonesa, e castelhana, num Sud-Expresso lôbrego.
Alfredo tem trinta anos e deixou a escola antes do tempo, em Mira. Foi trabalhar com o pai, nesse tempo havia quarenta companhas só nas artes da xávega. A princípio puxavam a rede à unha, com juntas de bois que enterravam os cascos no areal macio. Hoje não chegam à dúzia. O peixe foi-se embora, será culpa das chuponas espanholas. E ficou tão barato na lota quanto é caro nas bancas do mercado, não se compreende Portugal. Paga-se o gazol do barco e o resto mal dá para viver. De forma que o pessoal começou a emigrar lá para fora e ele foi parar a Quipert, ao pé de Nantes. Foi há dois meses, mais um cunhado, é a primeira vez que vem a casa.
Em Quipert saem para o mar à quinzena, e Alfredo é o cozinheiro. O dono do barco é tão velho que já não navega, toda a companha de sete é contratada. Mas o peixe vai à lota ao mesmo preço para todos e toda a gente ganha dinheiro. Só não se entende o que se passa em Portugal.
Alfredo vem excitado com os considerandos do salário que recebe. Jantou no restaurante, bebeu uma garrafa de vinho, no fim pediu um conhaque e pagou quarenta euros, mas valeu a pena. Depois foi aturando a noite a poder de cervejas, e é por isso que já lhe arrasta a voz, e tem este bafo choco e amargoso, e repisa outra vez os considerandos do salário que recebe. Quando chega a Vilar Formoso desce ao cais durante meia hora, o tempo de mudar a máquina ao comboio. Bebe outra cerveja na cantina, com uns camaradas negros que exercitam um hip-hop lusófono e também chegam da Europa.
Lá pelo meio-dia, toldado como vai, Alfredo levará tempo a encontrar-se com a mulher. E quando o conseguir, vão ser horas de apanhar outra vez o comboio para voltar a Quipert, ao pé de Nantes. Onde agora é cozinheiro, sempre que sai ao mar, a pensar nos considerandos do salário que recebe.

Jorge Carvalheira

Um sociólogo com um discurso aterrador

Ele dá pelo nome de Alberto Gonçalves e é apresentado pelo Diário de Notícias de hoje como «um cronista reconhecido pelo seu estilo contundente». Não há exagero, pois a sua entrada nas páginas 8 e 9 do DN deste domingo fez mais estragos que um elefante numa loja de cristais.

O homenzinho usa um estilo («dizer mal de tudo») parecido com Vasco Correia Guedes (que assina Vasco Pulido Valente) e faz também lembrar um tal Pedro Arroja que nos anos 90 ficou conhecido por querer privatizar a PSP, a GNR e os Tribunais. Começa por se definir em relação aos americanos dizendo-se recém-chegado de Nova Iorque onde há tudo o que ele gosta numa grande cidade: «livrarias a sério, museus dignos desse nome e restaurantes abertos até de madrugada». Com este cartão de visita, já não estranho os insultos ao governo da Palestina, a José Afonso e à Brigada Vítor Jara. O homenzinho utiliza comas para a palavra antifascismo e finge nada saber sobre o Aljube, Caxias, Peniche e Tarrafal, mas já utiliza comas para se referir a José Afonso como «Zeca» e chama ociosos e desempregados às pessoas que se manifestaram em Viseu e Santa Comba Dão contra a construção do Museu de Salazar.

Está visto que com um cronista destes o Diário de Notícias está à procura de grossa polémica. Mas alguma coisa não bate bem nesta prosa: se o homenzinho gosta tanto de Nova Iorque e dos seus centros comerciais abertos toda a noite, então vá viver para lá e deixe em paz os leitores do DN não estragando a manhã a quem atravessa o Chiado para beber a bica, saborear o sol e ler o seu jornal.

Sociólogo ou suciólogo – eis a questão.

José do Carmo Francisco

Percurso

O Público de hoje traz um excelente texto de Rui Bebiano, «O concurso e a responsabilidade dos historiadores». Trata-se, percebe-se, do concurso «Grandes Portugueses» da RTP.

De assinalar é, não só o texto em si, mas ainda a circunstância de ter aparecido primeiro no diário As Beiras e seguidamente num dos blogues de Bebiano, onde eu o tinha lido já.

À atenção dos observadores de circuitos nos media, ficam a apreciação, mais a interpretação, deste percurso: Imprensa Regional, Blogosfera, Jornal de Qualidade.

Itálico Calvino

Quando li (a propósito de Comment parler des livres que l’on n’a pas lus? de Pierre Bayard) os exemplos citados por Pacheco Pereira (e pelo seu leitor José Carlos Santos) de livros que são discutidos por pessoas que nunca os leram, não consegui deixar de sorrir por dentro. Na verdade, quando se trata de literatura, continuo a achar que este é o melhor critério para identificarmos um clássico: todo o livro que conhecemos sem, para isso, precisarmos de o ler. E isto porquê? Porque são esses livros que assombram uma parte considerável da literatura que me interessa, são o seu ADN, a «tradição» no sentido eliotiano do termo. Já me aconteceu, de resto, ficar a conhecer menos um clássico após o ter lido. Ó heresia, dirão alguns. Talvez. Mas após ter lido A Divina Comédia, tive de voltar a Borges para resgatar o clássico que Dante me foi ursupando ao longo dessa leitura. O Hawthorne do Paul Auster, por exemplo, parece-me infinitamente superior ao Hawthorne by himself, insuportável com os seus moralismos de pacotilha. Não é a leitura que legitima o estatuto de um clássico: é a própria literatura – que também são leituras, é certo, mas é esse outro plural que faz toda a diferença. No fundo, a literatura é um sistema de textos cuja escrita nem sequer se sujeita à ordem do tempo. Eu, por exemplo, não duvido que o Kundera foi a influência fundamental de Diderot para a minha leitura desse clássico absoluto que é o Jacques Le Fataliste. Enquanto leitor, me confesso: não li uma parte considerável dos clássicos que mais amo. Mas li, e hei-de reler, todos os textos que me levaram a eles.

Um lençol português

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Texto sobre Miniaturas (Colibri, 2001) de Paulo Kellerman,
aparecido no «Expresso» de 16 de Junho de 2001.

Três livrinhos discretos, quase clandestinos, revelam um ficcionista desenvolto e cruel

Numa vida, o que não falta são desencontros. As oportunidades abundam, nisso a vida parece um paraíso, mas não tardamos a acordar, de encontro a mais uma parede, guardando agora debaixo do braço, ou sabe-se lá onde, esse novo peso, mais uma frustração. E, isso, em hipótese favorável. Porque, de um desencontro, pode bem simplesmente morrer-se.

Parece trivial. Até ao momento em que alguém achou forma de no-lo narrar com uma tremenda verdade e desarmante desprendimento. É o que consegue Paulo Kellerman (1974, Leiria). As suas histórias não podiam ser mais convincentes de que nascemos com o estranho dom de enganar-nos. E de que disso se definha. E, em casos graves, não se aguenta vivo. Não servir tanta tristeza para cansar-nos, e antes nos faça pedir por mais, é o mérito do artista e prova do nosso bom gosto.

De enganos está cheio o volume Pequenas Nuvens Solitárias Perdidas no Imenso Azul do Céu (Sem Editora, 2001). Enganos como o de Jorge, que ama desesperadamente a vizinha enfermeira, que nunca saberá a tempo que ele se chamava Jorge. Na sua última manhã, o rapaz tomará um café no exacto sítio onde o pai, ali empregado, servira a mãe, e de onde a levara para que Jorge fosse feito. Agora, na última tarde, um atraso irá, pelos melhores motivos, impedir a enfermeira de salvar o moço do suicídio.

Ou, então, o caso do homem que vive, e sabendo-o, o último despertar com aquela mulher, e da mulher que se prepara para não regressar à vida com aquele homem, e da casa a que, sabemo-lo só nós, logo à tarde ninguém regressará. Ou o caso do lençol de «As sirenes que tocam», que está sendo feito em Portugal por uma moça que o imagina cobrindo, um dia, orgasmos americanos (nada de assombroso, segundo um jornal em epígrafe «Dez por cento dos lençóis comprados nos EUA são portugueses»), o exacto lençol que vai tapar um corpo, sim, americano, mas esfacelado.

São episódios de intensa proximidade, os que povoam os contos de Paulo Kellerman. Daí a crueza dos desenlaces, impossível de prever numa escrita tranquila e quase inocente. Há aqui uma arte do decoro e, no fim, a ciência de um curto golpe. Há um quotidiano frustrante, comum a recentes narrativas, mas severo, quase brutal. Estamos a milhas do aveludado de Pedro Paixão.

Em colectânea anterior, Sete (Sem Editora, 2000), já os desacertos reinavam, já as situações terminais afluíam, com o assinalável virtuosismo de «Sexo», cadeia de dez histórias e um epílogo, por onde vemos passarem Silvestre, o taxista que não resiste a violar a virgem que traz, ébria, de uma despedida de solteira, ou Simão, que reencontra prostituta uma colega da escola, e se descobrirá, «embriagado de dor e desespero», seropositivo.

Reconhecimento público, obteve-o Paulo Kellerman (ligado, informa-se-nos, à rádio e a jornais) com Miniaturas, prémio «Manuel Teixeira Gomes», de Portimão. São 56 histórias curtíssimas, esguias de mais para o desenvolver de uma trama, mas, como uma boa piada, tirando forças da exiguidade. E, se é certo haverem-nas algo insulsas – outras, e não poucas, magnificamente engendradas, têm o certeiro e o assustador de um açoite, com o arguto expediente de usar termos que, por instantes, críamos metafóricos, e logo descobrimos arrepiantemente literais.

O jovem Paulo Kellerman mostra uma desenvoltura de temas e de processos que nos convencem e entusiasmam. E que só espantarão a quem pensasse que a ficção portuguesa já deu o que tinha a dar.

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O Mundo e o Tempo de Maria José

O modo como desenhas o teu sorriso no passeio desta avenida, entre a pressa sem sentido e o vazio projectado pelo caos do movimento do trânsito, cria, no meu olhar, um outro espaço como se, de súbito, nascesse uma serra por detrás da Fonte Luminosa. A tua serra. O teu espaço. A tua geografia. O teu lugar onde o tempo respira mais de acordo com o sol, com a água e com a terra.

Há no teu sorriso uma espécie de antecâmara de um mundo equilibrado entre silêncios e canções, entre frio e calor, entre fogo e água. Depois do sorriso vem a voz, hoje como sempre juvenil. Voz de menina em corpo de mulher. A empurrar as sombras, as tristezas desenhadas, os quartos e os corredores povoados pelo vazio e pela saudade. Sempre que tu trazes um garrafão com água da tua terra, eu sei e sinto que é tudo, todo um mundo, aquilo que trazes na água.

A água propriamente dita, o pó suspenso no ar depois da passagem de um automóvel veloz, a terra húmida depois da chuva, as pedras gigantes da serra, as pequenas ermidas onde os devotos vão entregar garrafas de azeite para alumiar a imagem da padroeira, o silêncio da noite, o escuro lençol que tudo tapa quando o sol dá a sua dádiva de luz aos que vivem do outro lado da terra. Todo o teu modo e todo o teu tempo. A tua geografia e o teu pensamento interior.

Um dia comerei contigo essa sopa feita com a água da tua terra trazida para Lisboa num garrafão. Para então poder apontar num poema de circunstância essa tua tão própria e pessoal arte do encontro. Ou seja, a tua capacidade para fazeres de uma refeição o lugar do encontro entre dois mundos separados pelas convenções, pelas conveniências e pela pressa sem sentido do nosso quotidiano citadino.

José do Carmo Francisco

Kapital

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No passado dia 19 de Março, a banda bielorrussa Lyapis Trubetskoy disponibilizou neste site o vídeo do seu novo single «Kapital», realizado por Alexey Terekhov. Logo no primeiro dia, o clip teve mais de 10.000 visualizações e foi de imediato proibido de ser transmitido na televisão bielorrussa. Nesse teledisco, vê-se Siargej Mikhalok feito Budda a ser transportado por diversos locais em torno do globo por um animal em perpétua metamorfose. No refrão, vão surgindo líderes do mundo «anti-capitalista» como Fidel Castro, Hugo Chávez, Aliaksandr Lukashenka, Mahmoud Ahmadinejad e Kim Jong-il. Para além da música (fantástica) e do inacreditável apuro técnico da animação, o que me parece verdadeiramente digno de nota é a complexidade desse vídeo musical, que, ao articular um número quase infinito de linguagens, obriga-nos a um esforço quase surreal de leitura ergódica (sugerido, de resto, pelos constantes zooms ao longo do clip). Apesar de já existirem diversas traduções sensivelmente coincidentes da letra na Internet, aconselho os não-falantes da língua russa (e eu sei que ainda somos alguns) a resistirem, pelo menos para já, à tentação de lerem essas traduções. Podem ter acesso a esta maravilha aqui (Quick Time) e ver alguns screenshots do mesmo ali (jpeg). E, por favor, não me venham falar de política. Obrigado.

Um fim-de-semana tranquilo

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Se tudo correr bem, muitos espectadores da SIC, sobretudo entre os mais tardios, vão entrar esta noite num fim-de-semana particularmente tranquilo. Razão? Digamo-lo já: Santiago vai mostrar-se a Laura.

Imagino um leitor – você aí, por exemplo – a perguntar-se sobre a transcendência disso: de Laura ir ver Santiago a descoberto. O seu mundo dispensou-os até hoje, e não se vê bem por que ele, o seu mundo, seria, por isso, menos perfeito. Na melhor hipótese, você está fantasiando algum filme soft porno, em que aparecem coisas, ou pessoas, a serem mostradas.

Pois engana-se. Trata-se de uma série que não atenta contra nenhum princípio moral, seja cristão seja burguês – e a diferença poderia ser especiosa. Baste-lhe saber que ali entra um padre, e nada modernaço, que resiste (até hoje eficazmente) contra as propensões da carne. Da carne. Você percebeu, não se faça sonso.

Pois bem. Se a série Vingança lhe é desconhecida, tenho a respeitar as suas prioridades – mas não as lamento menos. Você, verdadeiramente, não sabe o que perde.

Eu não vou aqui, claro, explicitar a sua perda. O seu tempo é precioso, já vi, e o meu, acredite, não o é menos. Mas convém-lhe, talvez, saber que, se você der amanhã, no centro comercial, ou na simples rua, com rostos desafogados, isso pode ter a ver com a descontracção que o primeiro-ministro acaba de comunicar a um País até hoje tão tenso. Mas pode também, e com maior probabilidade, dever-se a terem-se Santiago e Laura finalmente encontrado esta noite, ela que o julgava há dez anos morto.

A sério (e já se vinha falando muito a sério): aí está uma série televisiva portuguesa, numa só palavra, magnífica. Como diz? Há nela coisas inverosímeis? Decerto. Mas tem você visto séries brasileiras? E não se seguram elas por uma inverosimilhança a potes? E não são elas, sem favor, em questão de séries (bom, tirando CSI Miami), as melhores do mundo?

Um bom serão.

Num tempo sem blogs…

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Recebemos o texto abaixo, que com prazer reproduzimos, de Ana Francisco Sutherland, arquitecta e autora de Personagens para um Lugar Memorável (Black Sun Editores, Lisboa, 2003), livro sobre que, no saudoso Blogue de Esquerda, se falou com admirado enlevo.

Em 1935 é publicado um anúncio pessoal na revista “Nursery World”, no Reino Unido:

“Can any mother help me? I live a very lonely life as I have no near neighbours. I cannot afford to buy a wireless. I adore reading, but with no library am very limited with books… I have had a rotten time, and been cruelly hurt, both physically and mentally, but I know it is bad to brood and breed hard thoughts and resentments. Can any reader suggest an occupation that will intrigue me and exclude “thinking” and cost nothing! A hard problem, I admit.”

Este pequeno “recorte”, banal e perturbador ao mesmo tempo, é o catalisador para o início do CCC ou Cooperative Correspondence Club, uma iniciativa que durou 55 anos e acompanhou a vida de mais de 20 mulheres. A história do CCC foi recentemente escrita por Jenna Bailey e publicada pela Faber & Faber em Inglaterra, com o título Can any mother help me?.

Em resposta ao pedido de ajuda, várias mulheres decidiram começar a corresponder-se de um modo regular e assim, resolver a solidão da jovem mãe. E definiram uma séria de regras: de 2 em 2 semanas cada membro escreve um texto (sobre actualidades, eventos familiares ou outro qualquer interesses pessoal) e envia-o para a “editora” que compila os textos recebidos e os encaderna com uma capa (de linho e bordada). No dia 1 e 15 de cada mês envia o número completo para a primeira leitora da lista e através dos correios, a revista circula por todos os membros do club. A leitora final lê não só os textos originais, mas também os comentários que foram acrescentados nas margens, e devolve a revista à “editora” que por sua vez redestribui cada artigo às autoras originais.

Falta acrescentar que as mulheres decidiram usar pseudónimos (apesar das identidades reais serem evidentemente conhecidas) o que permitia maior liberdade na escrita. Algumas das “identidades” escolhidas foram: Ubique (do latim “em todo o lado”), Ad Astra, Cotton Gods (homenagem ao pai, trabalhador na produção de algodão), A Priori, Accidia (derivado do latim “accidie” ou preguiça), Sirod (reverso de Doris), Angharad (nome de um parque natural galês), Elektra (dos clássicos – apaixonada pelo pai e de más relações com a mãe) e Rosa (inspirada por uma personagem de Charles Dickens que ”precisava de saber tudo”).

Ana Francisco Sutherland

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TABACARIA

Ela, mascando a chicla de boquinha aberta, os óculos arrumados no toucado. Ele, a bermuda abaixo do joelho, de barriga precoce a desabar.
Ela vai à escola de Comunicação Social, ele à Sociologia.
– Tás a ver?! Álvaro de Campos! Não gostas?
– Quê, o das odes?! Não, sou mais o outro, o Caeiro! É mais coisa!
Ontem, na festa, ele bebeu, gritou, curtiu o homem do chapéu. Ela apenas riu muito, pulou, os braços a adejar.
Ambos são o futuro, mas ainda é cedo.

Jorge Carvalheira