Outro que também não anda nada bem

Jerónimo foi uma das duas pessoas no Hemisfério Norte que papou a tanga cobarde do Zé Manel quando este disparou contra o SIS, a outra vítima foi a Manela. Para Jerónimo, tal suspeita, de tão credível jornalista, era prova da governamentalização dos Serviços de Informação. Na sua alva cabeça, os Serviços de Informação eram concebidos à maneira do KGB, com capangas louros e maus prontos para todo o serviço, pelo que ele já estava a ver o filme do email gamado com soviética perspicácia. Agora, apareceu com outra declaração de igual calibre: é o Governo, acusado pela Presidência, quem deve esclarecer o Presidente. Imagino que o Jerónimo imagine que o Governo até poderá chegar ao ponto de assumir ter feito as escutas, só para descansar o Presidente. E pronto, o comunista mor resolve mais uma desvairada crise institucional com o seu marxismo metalúrgico.

Ó Jerónimo, chega aqui: larga a vodka, pá.

Vinte Linhas 416

«A casa e as sombras» de Joaquim do Nascimento

Este é um título feliz para o conjunto de 18 crónicas sobre uma aldeia do Alto Douro (Pereiros) e os seus quotidianos entre 1930 e 1980. A casa pressupõe sinais de vida; as sombras são sinais de morte. Entre a vida e a morte, estas crónicas são povoadas por pessoas e pelas suas memórias. Ou seja: «As casas fizeram-se para serem habitadas. Mas não chegaram a cumprir o seu destino, mudada que foi a sina de quem lá iria viver e, desabitadas, começaram a sofrer de frio, a criar fantasmas, a revelar segredos antigos. E o povo começou a olhá-las de lado.»

O autor domina a geografia do espaço («Esta rua, sem deixar de ser a mesma, toma várias designações ao longo da sua extensão: Fonte da Ladeia, Rua de Cima, Cômbaro, Fundo do Povo, Rua de Baixo, Acácias») mas também a dos afectos a partir dum retrato a enviar para Angola: «Vê lá tu António estão lindas as nossas filhas, olha como cresceram e se fizeram mulheres. Que mal te fizemos nós, António?» A partir de uma foto de estudantes surge outra memória: «Sinto um terno prazer em revisitar cada um de vós, nome, rosto, voz, a circunstância, a terra, já soube de cor a terra de cada um de vós, nesse tempo era mais natural perguntar a alguém donde és do que perguntar quem és porque o lugar onde se nascia era um elemento importante da identidade».

Entre a casa e as sombras fica o registo das tarefas agrícolas («Vindimas pobres, sem rogador, nem rancho, nem concertina, nem ferrinhos, nem bombo») dos artistas de ofício («carpinteiro, pedreiro, sapateiro, modista, alfaiate, tecedeira, ferrador, barbeiro») e das viagens: «Da Meda para o Pinhão era jornada de meio-dia. Antes do Vilarouco fica os Pereiros, aqui entrava pouca gente e saía ainda menos, mas quem quisesse ir dos Pereiros a Penedono ao mercado quinzenal subia a pé o Monte Airoso que começa nas margens do rio Torto, Póvoa, Bebezes, Granja, Santa Eufémia, o castelo sempre à frente, para descer à tardinha. A Fernanda sabe.»

(Editora: Padrões Culturais, Apoio: Associação Amigos de Pereiros, Capa: Mário Andrade)

Torres de marfim

Vivemos num Estado democrático, estamos sempre a reclamar transparência, as pessoas gostam de saber quais são as razões das decisões e a atitude humilde e democrática que um responsável deve ter é explicar, não fechar-se numa torre de marfim.

Declarações de Rogério Alves, aparentemente a propósito dum mísero jogo de futebol. Mas nós sabemos do que ele está a falar.

Como é que o vamos tirar de lá?

Cavaco Silva é uma ameaça para a segurança nacional, para além de ser origem de grave – e inadmissível – perversão política. Cada dia que se antecipar à data da saída regular, algures nos primeiros meses de 2011, será um dia em prol do interesse nacional. Façamos um resumo da situação:

– Membros da Casa Civil conspiram com meios de comunicação social, em contexto eleitoral, para denegrir Sócrates, Governo, PS e instituições de segurança do Estado.

– O Presidente da República é conivente com as conspirações lançadas pela Casa Civil.

– O Presidente da República perturba, decisiva e caoticamente, o decurso da campanha eleitoral para as Legislativas.

– O Presidente da República afecta a campanha para as Autárquicas, ainda com consequências desconhecidas.

– O Presidente da República desprestigia a imagem de Portugal a nível internacional, com consequências desconhecidas, embora inevitavelmente negativas no plano económico e de segurança.

– O Presidente da República atenta contra os próprios Serviços de Informação do Estado, caucionando difamações prontamente desmentidas pelos responsáveis civis e militares.

– O Presidente da República aumenta o clima da já intolerável suspeição na ocasião mesma em que os portugueses esperavam que acabasse de vez com ela.

– O Presidente da República opta por piorar o que já era mau nas condições de governabilidade e estabilidade, assumindo que a Presidência vai entrar no combate parlamentar com uma agenda secreta.

O problema acaba de sair das mãos dos partidos. Isto agora é connosco, com cada um.

Re-Intermitência

 

 

 

“Agora que te conheço tão bem, vejo-me forçado a admitir que tens toda a razão quando dizes que soubeste como envelhecer”, confesso, entre um beijo quente e outro, a M. “Mas, na realidade, prefiro aquelas que souberam como não envelhecer”, acrescento. E, delicadamente, retiro a minha língua de dentro da boca dela.

Os Silvas não são todos iguais

A noite eleitoral teve em Vieira da Silva o seu mais inesperado protagonista. Até este domingo, estava convencidíssimo que o Ministro do Trabalho e da Solidariedade Social era o que restava de uma chaimite depois desta ter vindo a rebolar desde o Monte Pico até à Manhenha. Eis senão quando me aparece para a primeira declaração do PS após a divulgação das projecções. E aquilo que se seguiu foi lindo, ou coisa ainda mais bonita. Porque fez uma declaração que foi um portento de sentimento contido. Ele estava como Buda, o qual teve de se sentar debaixo de uma árvore quando descobriu que não vale a pena continuar a viver nem vale a pena desistir da vida. Enquanto a coisa não se resolve, e sabiamente, o melhor é esperar sentado. Já o nosso Vieira tinha de estar de pé, mas em conformidade dilemática: não dava para mostrar nem para esconder o que lhe ia na alma. O resultado foi comovente. O seu espontâneo domínio das pausas e dos silêncios, em resposta aos aplausos e pontuando o que ficava por dizer, revelou o homem.

Grande Silva, este.

Delenda Cavaco

Nenhum comentador, escriba, analista se debruça sobre se Cavaco Silva, depois desta questão em que aparece envolvido, ainda pode ocupar o seu cargo em Belém.

Do meu ponto de vista, o actual Presidente da República está ferido de morte e devemos estar preparados para umas antecipadas eleições presidenciais.

Tanto mais que esteve envolvido numa venda de acções, a preço de favor, outorgada pelo então presidente do BPN, Oliveira Costa.

É urgente que o PS aclare a sua estratégia para as próximas Presidenciais.

Um abraço do

Acácio

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Recebido por email, a 18 de Setembro, do nosso amigo Acácio Lima. E agora recordado porque, diga Cavaco o que disser daqui por umas horas, não há condições morais para o Presidente da República continuar a exercer depois de ter faltado ao seu juramento. Para todos os efeitos, ele interferiu nas eleições legislativas de forma inadmissível e escandalosa. Fora.

Um livro por semana 141

folclore íntimo valter hugo mãe

«folclore íntimo » de valter hugo mãe

«Entre solidão e perplexidade» – poderia ser este o título desta recolha poética de valter hugo mãe (n. 1971) que engloba 13 anos de labor poético. Um ponto de partida possível é o Eu: «és um rapaz estranho, aí metido num amor nenhum que te magoa e espera ter lugar no mundo». A solidão desse Eu é atravessada pelas memórias de África («as mulheres excisadas alinharam-se perante eles e exigiram a morte») e da Europa: «o meu irmão dizia que havia fantasmas no sótão. eu via-os de encontro às paredes».

Perante a perplexidade do Mundo e da Morte («os homens mortos ficam a comer erva pela raiz. vi num sonho») só o Amor surge como resposta: «já reparaste na maneira engraçada como nos deixaram sozinhos. foi propositado. sabem enfim que gosto de ti e que poderemos casar, um dia, quando formos mais velhos». Apesar dos desencontros: «somos cruéis / tão imaturos no amor / que ele acaba por ir-se embora / talvez para nunca mais voltar / perdoa-me helena».

A vida («estou no enredo irrevogável da minha vida») não se esgota no quotidiano; há respostas nas artes e nas letras como no dia da morte de Mário Cesariny: «vamos levar-te para o panteão mas não sem antes surrealizar aos gritos os chatos que lá estão / traz mais dinheiro o que tenho hoje não chega para ser feliz / amanhã vendo algo e pago-te».

Entre a ameaça da Morte e o precário do Amor, a felicidade é possível: «quem deixou sobre o coração / um feixe de luz / não cega nunca».

(Editora: COSMORAMA, Capa: José Rui Teixeira sobre imagens de Nelson d´Aires e Isabel Lhano, Foto: Nélio Paulo)

Vitória

avançar portugal juntos conseguimos sócrates

Soares é fixe. Mas Sócrates é bué da fixe. Repare-se como se esteve a marimbar para a anomalia protocolar de falar antes de Portas. Só ele deixaria tal acontecer. Porque só ele, dos actuais líderes, é verdadeiramente um líder por vocação e talento. Depois, voltou a reduzir Louçã ao monte de merda que Louçã é. Até Ferreira Leite esteve melhor, muito melhor, do que o Anacleto do partido dos professores. Um partido tão ao mais parolo do que o parolo do Fazenda, feito que ultrapassa o impossível. Um partido que levou com outro sermão do Louçã, desvairado com a espectacular derrota que o BE teve nestas eleições. Acontece cada vez com mais frequência: Louçã debita sentenças, numa logomaquia imparável, e a malta afunda-se nas cadeiras, acabrunhada. Os pregadores só estão bem no púlpito, castigando os males infrenes.

Há uma simetria exactamente oposta entre BE e PS. O BE aumenta votos e deputados à fartazana, e ultrapassa o PCP, mas não consegue condicionar a governação. Pior, vê um pequeno partido da direita ficar à sua frente. Fodido para quem se sonhava chefe da oposição e prestes a passar o PSD. Já o PS perde votos e deputados à grande e à francesa, ficando com um Parlamento esquisito. Todavia, o PS foi decididamente escolhido para governar. Por quem? Pelo povo unido. Cidadãos unidos contra os pulhas que tudo (mas tudo!) tentaram para emporcalhar e corromper estas eleições. Foi bonita a resposta, pá.

Sócrates, no discurso de vitória, falou várias vezes nos independentes. É por aí que se deve ir. E também chamando muitos dos que estão afastados da política por razões diversas, mas que todas radicam na falta de identificação com a comunidade. Juntos conseguimos trazê-los à Cidade se dermos sentido à sua independência. Assim juntos, em liberdade, somos Portugal.

Em Madrid já passa das 8

Já podem anunciar quem ganhou em Madrid, é legal. Entretanto, voltei a cruzar-me com Jaime Gama e esposa, minha antiga professora de Português nessa mesma escola onde agora se vota. Da última vez, não lhe dei sorte nenhuma.

Mas votar é uma romaria. Tantas caras que não se vêem nem se esquecem, tantas memórias. Assim vai a nossa fome de sermos comunidade e estarmos em festa.

Vinte Linhas 415

«Você tem-me cavalgado, seu malvado / mas não me tem posto a pensar como você»

Passam dois anos depois do escândalo do golo fantasma que ditou a vitória do Porto sobre o Sporting por 1-0 com um árbitro do Belenenses a ir à televisão explicar tudo (Jorge Coroado) pois a palavra deliberadamente é chave na interpretação da letra da lei. Um jogador caído no chão só faz cortes; não faz passes. Dois anos depois aí está novo escândalo. O responsável pelos árbitros que se calou como um rato depois do golpe do Algarve com aquele penalty fantasma que levou o Benfica ao colo na Taça da Liga, afirmou agora que esta era uma nomeação «normal». Mentiu. Este árbitro Duarte Gomes está envolvido num processo pois agrediu o treinador de guarda-redes do Sporting antes dum jogo Sporting-Setúbal depois de ter entrado pela baliza dentro dos «leões» no aquecimento. Também empurrou o «segurança». Se houvesse uma réstea de bom-senso nesse trambolho (Vítor Pereira) não teria nomeado este Duarte Gomes pois só atirou petróleo para a fogueira. Ontem ele poupou a expulsão ao Raul Meireles e foi lesto em dar dois amarelos ao Miguel Veloso em duas faltas mas esqueceu-se de mostrar cartão ao Tomás Costa quando este trambolho deu uma joelhada ao Caicedo e não mostrou amarelos aos jogadores do Porto que fizeram faltas violenta e sucessivas. Sei que isto está tudo montado pois por um lado o Porto tem que «ganhar sempre custe o que custar e doa a quem doer» e o Benfica investiu mais de 50 milhões de euros em jogadores e, tal como se viu em Leiria, esse investimento não se pode perder. Lembro-me sempre dos versos do Alexandre O´ Neill – «Você tem-me cavalgado seu malvado / mas não me tem posto a pensar como você / que uma coisa pensa o cavalo / outra quem está a montá-lo».

Marafado

Quando, finalmente, for possível fazer perguntas ao Presidente da República, haja algum jornalista que queira saber qual a razão para se ter anunciado a visita do Papa com tanta pressa que até a Igreja portuguesa foi espezinhada. É só o que eu gostava de saber. Quanto ao Lima, não tenho curiosidade. O Zé Manel já confirmou que Cavaco é o mandante da conspiração, não tendo sido desmentido pela Presidência, pelo que o assunto apenas espera o seu inevitável desfecho.

Navegar é preciso

A presente campanha foi uma das melhores e mais entusiásticas de sempre. Eis o que há de mais revolucionário para dizer nos dias em que os revolucionários se aliam aos reaccionários e se afundam ambos numa depressão colectiva. E é também verdade nessa dimensão em que passamos por um período de convulsões inauditas na política nacional, com a decadência atroz do PSD, o crescimento imparável do BE e um PS que ousou combater o salazarento marasmo económico e social. Sócrates tornou-se o alvo obsessivo e delirante para a fúria da direita e da esquerda, que despejaram as armas que tinham, mais as que pediram emprestadas, em cima dele. Agora, até a Presidência da República se juntou à festa, cumprindo-se, para lá da conta, a profecia do Pacheco quanto a irmos viver tempos interessantes. É um rapaz bem informado, este marmeleiro.

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Um livro por semana 143

irene flunser pimentel história das organizações femininas do estado novo

«História das Organizações Femininas do Estado Novo» de Irene Flunser Pimentel

Os ideólogos do Estado Novo fizeram os possíveis por colocar as raparigas nas Escolas Técnicas de onde sairiam como assistentes sociais, professoras, parteiras e enfermeiras. A Obra das Mães pela Educação Nacional (OMEN) de 1936 e a Mocidade Portuguesa Feminina (MPF) de 1937 são estudadas neste volume de 456 páginas. Apenas três breves notas. Em 1938 a delegada de Braga da OMEN reclamava contra «a crueldade de certos capitalistas que rebaixa de forma aviltante o salário em favor dos seus lucros». Em 1941 o Boletim da MPF definia a rapariga ideal no texto «O que nós queremos que as raparigas sejam» nos seguintes termos: «verdadeiras, amáveis, sãs, novas, elegantes, activas, contemplativas e boas» enquanto a revista Menina e Moça alinhava as qualidades a possuir («simplicidade, elegância, boa educação e cultura») e os defeitos a evitar: «má-língua, vaidade, desleixo, cólera, curiosidade, tagarelice, indolência e arrogância».

A Menina e Moça, muito preocupada com a moral, publicava em 1958 uma curiosa «Carta a uma rapariga» dirigida a um casal visto no cinema que concluía deste modo: «não gostei do modo como quase te abandonaste sobre o ombro. Fiquei com a impressão que se ele te pedisse um beijo lho darias (…) pensas que te vais casar com ele mas talvez isso não aconteça. Não estou a chamar-te estúpida mas é que as teorias modernas têm o condão de tornar as raparigas inconscientes do bem e do mal. Precisas de alguém que te tire dessa onda de modernismos e inconsciência. Confia tudo à tua mãe».

(Editora: Temas e Debates, Capa: Fernando Rochinha Diogo)