Verdadinha – Essa palavra

MFL – […] Eu devo dizer que aquilo que mais me preocupou, que mais me espantou, é como é que foi possível que um primeiro-ministro ao falar do País, e ao falar do futuro do País, não pronunciou uma única vez a palavra que definia aquilo que é o problema do País. Como é que isso foi possível?…

AL – As pequenas e médias empresas?*

MFL – Não! O problema do País é o endividamento do País. Ele nunca pronunciou essa palavra. E, portanto, o Primeiro-Ministro consegue uma coisa absolutamente extraordinária que é falar da situação actual do País, perspectivar o País para a frente, sem falar neste ponto que é essencial. Ou seja, não tem como problema… como é… o problema do País. E, portanto, não vai nunca conseguir fazer crescer o País, só vai conseguir fazê-lo empobrecer, como de resto tem acontecido.

A Manela não tem qualquer solução para Portugal, mas tem uma palavra que os portugueses devem fixar: endividamento. Estamos tesos, diz ela. E estar teso tem vantagens, simplifica a realidade. Queres gastar? Não gastas. Queres investir? Não investes. Queres criar riqueza? Querias. Portugal é um débito, uma parcela negativa, um vazio. E é esse vazio que temos de respeitar, celebrar e adorar. Porque é ele que nos dá, bem lá no fundinho da alma salazarista, esse reconforto cálido, viscoso, de nos sabermos pobretes e alegretes, sem assumir responsabilidades, sem enfrentar riscos, fugindo das dúvidas ainda mais depressa do que das dívidas, e deixando aos outros, aos doutores que nos avisam pressurosos, a tarefa de nos manterem miseráveis e em paz. Já o Sócrates, esse malandro, tudo o que fez foi para empobrecer o País. Ele só pensa em gastar, gastar, gastar. Gastar o que tem e o que não tem. Gastar o que é nosso, o que pertence à gente séria e trabalhadora. Pois se ele nem fala no endividamento, que é um problema que se resolve fechando a torneira, como é que o estroina pode continuar a ser Primeiro-Ministro?!

A Manela não mente. Verdade verdadinha.

__

* Ana Lourenço propôs 5 palavras na tentativa de adivinhação da palavra que definia o problema do País. É um sinal. E bem bonito, por sinal.

Para um retrato a preto e branco

O teu sorriso aqui é apenas um esboço

Do arco que os teus olhos vão projectar

Entre as linhas tão perfeitas do pescoço

E a mancha de luz a envolver este lugar

Há sonhos perfilados em prateleiras

E memórias definidas nas lombadas

Á tua volta há as vidas verdadeiras

Nas páginas dos livros condensadas

E nas manhãs mais finas do Inverno

Teu sorriso enfrenta o peso da neblina

Hoje escrevo-te num tempo moderno

Tu continuas a ter um olhar de menina

Nem chega sequer a ser uma saudade

Porque a beleza do teu rosto é infinita

O teu sorriso ultrapassou toda a idade

Está intacto no rumo da minha escrita

Verdadinha – O meu projecto pró País

AL – Ganhar as eleições significa que primeiro tem de convencer os portugueses de que o seu projecto pró País é melhor do que o do engenheiro Sócrates. Quando é que vamos conhecer o seu projecto pró País…?

MFL – Bom, eu acho que o meu projecto pró País tem estado, …, durante, …, ao longo de todo este tempo em que estou à frente da liderança do partido, que tem estado a definir, verdadeiramente, quais são as diferenças. Eu julgo que neste momento existem poucas dúvidas acerca das diferenças de projecto que eu tenho e que tem o engenheiro Sócrates. Isso acho que é claro. Mas, evidentemente, que nós haveremos de concretizar mais pormenorizadamente quando apresentarmos o nosso programa eleitoral; que não deixaremos de apresentar, como calcula.

A Manela tem um projecto pró País. É claro que tem. Só precisa de um pequeno toque, algo como isso de se concretizar mais pormenorizadamente quando aparecer o programa. Até lá, esse projecto existe num plano abstracto, intangível, por isso inefável, o que não impede que seja claramente diferente do projecto do engenheiro Sócrates. Porque tem vindo a ser definido através da sua simples presença à frente da liderança do partido, é claro. Alguém vê o engenheiro Sócrates à frente da liderança do PSD? Alguém? Ninguém, pois não? Então, calai-vos.

A Manela não mente. Verdade verdadinha.

Re-Intermitência

 

 

 

 

 

 

 


 

“Posso roubar o seu par”, pergunto, em plena pista de dança, ao homem de aspecto jovem que dança com uma beldade espampanante. “Claro que pode”, diz-me ele, liberal e com um ar descontraído nos gestos. “Obrigado”, respondo. E começo, perante o olhar estranhamente surpreendido dele, a arrancar o fio de ouro e os brincos de diamante da mulher.

Contra o Ponto Contraponto

É bom que o programa do Pacheco exista, particularmente por aparecer em período eleitoral. É bom para estarmos contra o seu autor, o qual presta um mau serviço à cultura e sociedade portuguesas. E o mau serviço não resulta das suas opiniões estarem cheias da bílis gerada na cruzada contra Sócrates, nem de ser um dos mais importantes apoiantes e conselheiros de Ferreira Leite, nada disso. Esse é o lado legítimo e folclórico.

O problema com o Pacheco é a sua superficialidade e ignorância. Parece paradoxal, num ser que ganha a vida a transmitir informações, e cuja fama é a de ser um intelectual sofisticado. Só que não há outra conclusão a tirar, pois é ele que revela a sua inanidade. Por exemplo, um dos motes centrais na sua retórica é o de que vivemos tempos excepcionalmente adversos para a liberdade de expressão. Esta ideia é repetida à exaustão vai para três anos, com especial intensidade nos dois últimos. Com ela o Pacheco consegue manter um papel activo e relevante na campanha negra, explorando as zonas fronteiriças entre a insinuação e a insídia. Porém, o que ele nunca faz é demonstrar, apresentar nomes, dar elementos objectivos a montante da sua interpretação subjectiva. Quando fala de pressões a jornalistas, de que fala exactamente? Do que um jornalista lhe contou ou do que ele testemunhou? E como sabe ele que lhe estão a contar a verdade se for apenas essa a sua fonte de informação? E por que razão esse jornalista não formalizou a queixa junto das várias autoridades competentes? E por que razão, se o Governo é useiro e vezeiro nessa prática opressora, não há provas coligidas pelas vítimas e opositores políticos? Ou será que as pressões são do tipo que o Crespo descreveu, onde há um Ministro que lhe telefona para discutir um aspecto politicamente inócuo da sua prestação? Acima de tudo, e este é que é o aspecto decisivo na deontologia e honestidade intelectual do prolífico autor, quais os critérios com que aferiu ser este tempo pior do que tempos passados para a vivência da liberdade? Temos polícias políticas e ainda ninguém foi avisado? Há perseguições a quem ataca o Governo ou Sócrates, e por isso são muito poucos os que se atrevem a fazê-lo? Haverá menos meios de comunicação do que costumava haver a ponto de se ter reduzido a liberdade? É hoje o cidadão um ser que diminuiu as possibilidades de se ligar a outros cidadãos e comunicar interpessoal e publicamente? Está, no presente, a informação menos disponível do que no passado? Com Sócrates há menos liberdade de expressão do que no cavaquismo? Do que com Guterres? Do que com Sá Carneiro? Do que no PREC? De que estás a falar, Pacheco?

A leitura de um texto tontinho do pequenino foi o seu momento zen. E na abertura do Correio da Manhã esteve o grande acontecimento deste primeiro programa. Porque lhe deu para falar do putedo. Coisa de homem, e de homem na crise de ser homem. Então, anunciou aos telespectadores que vai para aí um putedo que faxavor. Desemprego, hipotecas e putedo, eis o retrato do Portugal de Sócrates visto da Marmeleira. E eu levantei os braços e gritei alarmado, a ponto de ter assustado a vizinha do 4º andar, quando ele disse que tinha sido só por causa da feitura do Ponto Contraponto que reparou no fenómeno de haver tantos anúncios de serviços sexuais nos jornais. É que se o Pacheco não sabia disso até finais de Junho de 2009, eu tenho agora a certeza de vivermos tempos infames onde a liberdade é algo só ao alcance de quem se prestar a fazer um programa de televisão, nem que para isso tenha de juntar mais uns trocos aos seus rendimentos.

Que putedo que anda para aí, sim senhor.

Abriu a bilheteira para o ticket Cavaco-Manela

A figura política que realmente mudou nos últimos tempos, desde o Verão de 2008, não se chama Sócrates nem Ferreira Leite, embora tenha mudado por causa destes. É uma figura que se imagina um predestinado, que alimentou o provinciano mito da infalibilidade e cuja ambição colide com os próprios fundamentos do regime: Cavaco.

A questão do Estatuto dos Açores, que se segue à alteração de liderança no PSD e marca o fim da cooperação estratégica, foi inteiramente criada pelo Presidente da República ao não ter enviado para o Tribunal Constitucional o artigo 114º. Ninguém entendeu o porquê desse absurdo, mas foi esse absurdo que levou à mais absurda declaração presidencial de que há memória em Portugal, em 31 de Julho de 2008. Seguiram-se meses de crescente conflito entre a Presidência e o Governo/PS — com constantes e obscenas intervenções de publicistas a promover cenários catastrofistas apenas salvos por Governos de iniciativa presidencial — culminando com o discurso de Ano Novo onde se fez da campanha negra o racional estratégico para o tandem Cavaco-Manela: falar verdade.

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Vinte Linhas 372

Em Alcochete não aconteceu nada

O «Diário de Notícias» proclamou hoje (28-6-2009) na sua página 8 que «Nada justifica o que ocorreu em Alcochete» mas o problema é que na verdade em Alcochete não aconteceu nada. O jogo estava ser disputado normalmente até aos 25 minutos e nada de especial se tinha passado. Era um Sporting-Benfica em juniores mas o local chama-se Barroca de Alva e não Alcochete. Alcochete fica a 11 quilómetros e é apenas o código postal. Não sei que estranha cegueira se apoderou dos meus colegas (camaradas) jornalistas do desporto tanto dos jornais como das rádios como das TVs que por norma se enganam no nome daquele espaço. Ao princípio ainda os interpelava explicando que o nome daquela herdade onde o Sporting foi autorizado a construir o seu espaço desportivo e hoteleiro é Barroca de Alva. Não é outro nem pode ser outro. Alcochete é muito longe, fica a 11 quilómetros mas a verdade é que nem mesmo ao longo de dez longos anos em que fui redactor efectivo do jornal «Sporting» consegui fazer perceber àquela gente que comigo trabalhava o óbvio. Mas aí foi diferente. Cheguei a um consenso com o Director: nem Alcochete (como alguém queria) nem Barroca de Alva (como é correcto). Por isso nas fichas dos jogos que me calhavam na agenda saía sempre «Academia Sporting – relvado principal» ou então «relvado nº 2».

Sinceramente nunca cheguei a perceber a origem daquela cegueira: chamar Alcochete a um espaço que de Alcochete nada tem a não ser o código postal. Seria um interessante tema para os jornalistas do «Diário de Notícias»: saber a razão pela qual o nome correcto e único daquele lugar foi rasurado e substituído erradamente por Alcochete.

Um livro por semana 125

pimenta-de-castro-rocha-martins

«Pimenta de Castro – ditador democrático» de Rocha Martins

O general Pimenta de Castro, sobre quem Machado Santos escreveu que «tomou a sério o seu papel de chefe do Governo de uma Nação livre; daí a sua queda, a sua prisão e o seu desterro» foi convidado pelo presidente Manuel de Arriaga em 23-1-1915 para formar governo e convocar eleições gerais: «O teu austero e belo nome servirá para garantir a genuinidade do sufrágio, a conciliação e a paz na República e no Exército. Peço-te em nome da República e da Pátria que não me abandones. Não te esquives, não venhas com evasivas».

E logo surgiu logo um problema: o Parlamento estava sem deputados e senadores, os eleitos de 1911 tinham mandato para três anos e não podiam continuar em 1915 mas com as eleições marcadas para 7 de Março de 1915, um grupo queria reunir-se em S. Bento a 4 do mesmo mês. O Governo tomou providências para que a reunião de 4 de Março não se efectuasse e logo surgiu a palavra «ditadura». Para alguns especialistas de Direito a passagem da Constituinte a Legislativa tinha sido uma fraude, além de que já há nove meses que a Câmara estava parada.

Este é o ponto de partida deste sexto volume da colecção «Ângulos da História», todos da autoria de Rocha Martins (1879-1952) de quem os ardinas de Lisboa diziam a vender o República: «Fala o Rocha, tá o Salazar à brocha!»

(Editora: Bonecos Rebeldes, Capa: Fernando Martins, Revisão: António Bárcia)

Não estou

Dentro de poucas horas lerei o Expresso, e haverá uma qualquer resposta de Sócrates, por isso resta um breve período de tempo em que estamos no limbo. Estamos, os que estão a pensar no assunto; outros já chegaram a conclusões, deixando aí de pensar. E pensar implica ter de relacionar Janeiro com Junho, o que dá seis meses, afiança a minha máquina de calcular. Seis meses em que se diz que um Executivo (ou seja, vários Ministros, muitos mais Secretários de Estado, muitíssimos mais funcionários menores) estaria em conversações com outro Executivo (é repetir o cálculo), e pelo meio ainda se envolviam dezenas de outros indivíduos ligados à PT e à Prisa, entre administradores, directores, esposas e criadagem. Este apenas o primeiro círculo, depois vem o do PS e PSOE, mais o de accionistas, jornalistas e conspiracionistas. Tudo somado, gente comó caralho.

Então, ’tá bem. Em Janeiro era assim, o baile armado. Que se deveria seguir? Algo lógico, sensato, inteligente, como isso de Sócrates introduzir o assunto no Congresso do PS. Obviamente. Se a intenção era a de afastar Moniz, ou controlar a estação, usando o genial estratagema de a comprar para a PT, é logo o que ocorre: transformar a TVI num incontornável opositor político. Por isso, não satisfeito com o número do Congresso, Sócrates voltou à carga em entrevistas, até disse que aquilo era um pardieiro de travecas. Isto foi feito assim, à doida, porque ele queria garantir que a ninguém escaparia a grandiosidade do seu diabólico plano. E toda a trupe que ia negociando a marosca ibérica estava de acordo, acharam impecável que Sócrates estivesse a criar as condições para uma explosão política quando inevitavelmente se soubesse da intenção das partes.

Até que saiu a informação cá para fora. E o Presidente da República terá sido informado só nessa altura, pois apesar de haver tanto cidadão português e espanhol a negociar a entrega da cabeça de Moniz numa bandeja a Sócrates, e durante meio ano, a Belém não chegou nem um vagido que fizesse Cavaco franzir o sobrolho. Coisas que acontecem aos melhores estadistas, mesmo aqueles que têm dezenas de assessores tão conhecedores dos mundos paralelos e oblíquos da governação. Seja como for, o Presidente chegou-se à frente com um salto felino e disse Pára tudo. E parou.

Sócrates, desde o pico do Inverno em conversas para abafar a Moura Guedes, com encontros às claras com responsáveis daqui e dali só para resolver esse assunto, alvo de uma extraordinária campanha de destruição de carácter onde o pintam como mentiroso, decidiu que a Assembleia da República era o melhor local da galáxia para declarar não ter sido informado do eventual negócio. E esta declaração é feita no final da Legislatura, a 3 meses das eleições. Porquê? Porque assim os veraneantes têm no que falar ao irem a banhos, a oposição fica animada, os jornalistas chafurdam e o eleitorado começa a escolher a árvore onde o vai enforcar. Pois, ó pá, esta situação é fatalmente decisiva para o futuro político nacional, até porque parece inverosímil, inacreditável e irreversível.

E agora, que vai Sócrates dizer e fazer? Não faço a menor ideia. Não sei se é culpado ou inocente, honesto ou mentiroso. Eu nem sei se ele tem sangue ou veneno nas veias. Mas sei isto: se há razões para sair, que seja rápida a transição para o novo chefe do PS. Até lá, ou até nunca, não quero estar ao lado de capas de jornais que entusiasmam pulhas e imbecis. E não estou.

Verdadinha – Ganhar as eleições é

MFL – […] Mas antes disso acho que… não nos vale a pena perdermos em preocupações que não são as fulcrais. As fulcrais, para mim, é ganhar as eleições. E ganhar as eleições significa ter mais votos que o Partido Socialista. Ganhar as eleições significa impedir que o engenheiro Sócrates continue à frente do poder.

A Manela tem uma concepção dupla do que seja a vitória nas eleições Legislativas. Pode ser ter mais votos do que o PS, mesmo que tenha menos votos do que outro partido qualquer. Pode ser afastar o engenheiro Sócrates, mesmo que tenha menos votos do que o PS. Tanto faz, uma das possibilidades chegará para se declarar vitoriosa. Por isso, fogo à peça, vamos a eles, esta merda é toda nossa. Ganhar não importa para quê, ou afastar o engenheiro não importa como, eis o fulcro das suas preocupações, eis a mensagem que importa passar aos portugueses.

A Manela não mente. Verdade verdadinha.

Verdadinha – A despeito dessa desunião

AL – Consegue contar com todos?… Luís Filipe Menezes desafiava, há poucos dias, numa entrevista, a mostrar que é capaz de unir o partido…

MFL – O partido tem sempre… toda a vida houve, e haverá sempre, uma ou outra pessoa que pode estar em discordância com a direcção do partido, mas isso não significa a falta de união do partido. Porque se houvesse desunião no partido, então eu diria que nós tínhamos ganho as eleições a despeito dessa desunião. E eu acho que não, eu acho que o partido esteve unido para ganhar as eleições.

A Manela limita-se a reproduzir a evidência: o partido está unido. É, de resto, o que todos dizem. Dirigentes, militantes, comentadores, jornalistas e opinião pública, incluindo a minha vizinha do 4º andar, fazem coro há 1 ano na mesma cantilena. Ninguém conhece desavenças dentro do PSD, nem antes da campanha, nem durante a campanha, nem logo após as eleições, nem quanto à política de alianças, nem quanto a cenários pós-Legislativas. O partido esteve unido para ganhar as eleições, afirma Ferreira Leite. Se alguém não acreditar nas suas palavras, é só por despeito.

A Manela não mente. Verdade verdadinha.

Vinte Linhas 371

Ainda a propósito da mais pequena livraria do Mundo

Aqui há tempos falei no nosso Blog daquela que pode muito bem ser a mais pequena livraria do Mundo e fica ali nas escadinhas de São Cristóvão à Rua da Madalena. Tem só um metro de comprimento por 3,80 metros de largura.

Nessa nota lembrava as livrarias que ficam entre o Camões e o Poço dos Negros. Uma delas é a Livraria – Alfarrabista Bocage. Começou na Travessa André Valente nº 8 quase ao lado da casa onde viveu os últimos anos e morreu o poeta Bocage. Por razões inesperadas esta casa passou temporariamente para o espaço apalaçado da Calçada do Combro nº 38. Agora, por razões igualmente inesperadas e insólitas, vê-se obrigada a suspender de novo a sua actividade.

Os clientes habituais desejam e esperam que seja por pouco tempo. Uma livraria a menos numa cidade é sempre uma derrota para a luz (as letras) e uma vitória para a ignorância (o vazio). Assim de repente lembro-me de livros importantes que ali comprei nos últimos tempo: literatura, história, memórias, poesia, antropologia, jornalismo, teatro.

Na história da Humanidade os dois factos mais importantes são a descoberta da roda e a invenção do livro. Com a roda todas as viagens do Homem passaram a ser possíveis, com o livro são as viagens do espírito que se tornam mais fáceis. Levamos todo o mundo debaixo do braço quando levamos um livro connosco.

Como o telefone (213 460 315) vai ficar agora desactivado fica aqui divulgado um ponto de contacto para os fiéis visitantes da Livraria – Alfarrabista Bocage no telemóvel 960 181 090. E que volte depressa – uma livraria a menos é mais uma coisa triste na cidade.

Verdadinha – Barões e baronetes

AL – Mas não houve esse empenho genuíno… Não foi transversal ao partido. O próprio Paulo Rangel, depois das eleições, disse aqui na SIC Notícias, num frente-a-frente, que a ausência, assim muito forte, de barões e baronetes, estou a citá-lo, acabou, se calhar, até por ajudar à campanha. Considera que é preciso afastar um pouco barões e baronetes, mostrar uma imagem completamente diferente do partido?

MFL – Não, não acho que seja essencial afastar-se… Quando se fala em barões e baronetes significa, enfim, pessoas com peso dentro do partido, pessoas que têm enorme peso na sociedade civil, que durante anos foram enormes contributos que muito prestigiaram o partido, que desempenharam funções importantíssimas no partido, no País, e eu acho que não os devemos desprezar, não devemos esquecer o seu papel importante.

A Manela está agradecida aos barões e baronetes. Porque pesam. Pesam dentro do partido, pesam fora do partido, são malta da pesada. Têm massa, deduz-se. A gravidade está com eles, a ligeireza com os outros que pretendem desprezar pessoas tão importantes [Rangel, espero que estejas a tomar notas]. O PSD pertence a essas pessoas, foram elas que fizeram o sucesso do cavaquismo, por exemplo, que tanta coisinha boa deu a ganhar a barões, baronetes, condes redondos, duques falidos, marquesas e marquises. Foi essa nobreza social-democrata que preencheu as vagas nos Governos Barroso e Santana; Governos bem bons, por sinal, cheios de pesos-pesados do coisa e tal. E são eles, coitadinhos, com quem a Manela conta para voltar ao poder, nada de caras novas que só poderiam causar estranheza e confusão. Alguns dos barões e baronetes estão com umas chatices legais e políticas, contratempos que só acontecem a quem ganha a vida a trabalhar honestamente, mas nada que não se resolva em família assim que esta voltar à casa donde nunca deveria ter saído.

A Manela não mente. Verdade verdadinha.

Verdadinha – A sondagem que eu fazia

AL – Considera, pela percepção que tem do País, que o País quer mudar de Governo?

MFL – Eu quando acabei a campanha para as eleições Europeias, a despeito das sondagens não apontarem para uma vitória do PSD, a sondagem que eu fazia do contacto com as pessoas indicava-me que não me espantaria nada que nós ganhássemos e ganhássemos com folga… em relação… à… nas eleições Europeias.

AL – Não ficou surpreendida com o resultado, então…

MFL – Não. Fiquei muito satisfeita, mas não surpreendida.

A Manela tinha uma sondagem na manga, feita em condições especialíssimas: só com a malta porreira que ia beber copos para os hotéis muita porreiros onde se fazia a campanha anti-comícios. Mesmo assim, ela não quis estragar a surpresa a ninguém e calou-se bem caladinha. Tanto que até o cartaz do dia a seguir à votação, a tal onde ela já sabia que iam ganhar e com folga, tinha um choramingas Não baixamos os braços.

A Manela não mente. Verdade verdadinha.

D. Cavaco I

O Presidente da República deu mais um contributo para a separação das águas, a clarificação do cenário político a 3 meses das Legislativas. Desta vez, meteu-se num braço-de-ferro que obriga à identificação de vencidos e vencedores. E ao castigo e expulsão dos vencidos. Nada de menos.

Ao pedir publicamente explicações sobre as informações contraditórias que indiciam haver interesse da PT em entrar no capital da TVI, Cavaco tem uma das suas mais espectaculares intervenções políticas desde que foi eleito Presidente, só comparável ao ambiente catastrofista que intencionalmente criou para a sua declaração de 31 de Julho de 2008 relativa ao Estatuto Político-Administrativo dos Açores. Então como agora, assistimos a um Presidente da República a ser agente de alarme social e político; coisa nunca antes vista em Portugal, registe-se. Ele próprio o reconhece, ao dizer que está a abrir uma excepção neste caso.

Muito bem. Então, decorre do mero bom-senso admitir que há matéria suficiente para este toque a rebate do Presidente da República em período eleitoral. E se há, isso significa que se valida em Belém a suspeita de cumplicidade entre a PT e o Governo para alterar e condicionar os critérios editoriais da TVI. Muito bem. Então, temos de agradecer ao Presidente por sair a terreiro na defesa do que ele chamou ser a transparência e ética nos negócios. E caso a PT e o Governo não consigam estar à altura desta exigência, as cabeças começarão logo a rolar. Por exemplo, Henrique Granadeiro será demitido e Sócrates acaba de perder aqui qualquer possibilidade de ganhar as eleições. A confirmar-se a suspeita de conspiração para ataque a Moniz e esposa, o PS terá o pior resultado eleitoral da sua história, provavelmente ficando atrás do BE e PCP. Muito bem. Então, o duelo é de morte. E Cavaco foi o primeiro a disparar.

Continuar a lerD. Cavaco I

Vinte Linhas 370

«Henrique Tenreiro – uma biografia política» de Álvaro Garrido

Foi apresentado por Fernando Rosas este livro editado pelo Círculo de Leitores e pela Temas e Debates. Depois de «O Estado Novo e a campanha do bacalhau» em 2004 e «Economia e política das pescas portuguesas» em 2006 Álvaro Garrido avança para a biografia de uma figura controversa do Estado Novo – Henrique Tenreiro, o patrão das pescas (1901-1994). Fazendo o perfil biográfico da personagem, o autor acaba por produzir uma criptobiografia do Estado Novo. Tenreiro assistiu em 2-8-1934 á chamada segunda posse de Hitler depois da morte do presidente Hindenburg, tendo assistido também ao juramento do Exército alemão ao Füher. Coincidência ou não, as liturgias de poder da Organização das Pescas hão-de combinar a mise em scène típica dos rituais cesaristas no nazismo e do fascismo com os recursos estéticos que a Marinha sempre usara nos seus desfiles de exaltação patriótica-colonial. Sempre organizadas por Tenreiro, as cenografias e rituais do regresso de Portugal ao mar farão uso, ainda, das imagens profanas e folcloristas de gosto popular e da sobriedade da celebração religiosa exigida pela participação da Igreja Católica. Salazar nunca escolheu Tenreiro para ministro nem para secretário de Estado mas nomeou-o delegado do Governo junto do Grémio dos Armadores de Navios de Pesca do Bacalhau. Entrou em 24-7-1936 para um modesto escritório no nº 24 da Praça Duque de Terceira, junto ao Cais do Sodré, onde se manteve 37 anos. Quando tomou posse nada sabia de pescas e contava apenas trinta e quatro anos de idade. Não por acaso Ruy Belo fala num seu poema do peixe «esse peixe que antes nos chegava directamente / e agora passa pelas mãos do almirante Henrique Tenreiro…»

Re-Intermitência

 

 

 

 

 

 

 

 

“É, efectivamente, a primeira retrete de forma rectangular que vejo na vida”, exclamo, entusiasmo e espanto, ao vendedor da loja do shopping. “Vou levá-la”, decido. E observo, com atenção, o televisor onde se podia vislumbrar um programa da TVI a ser desligado e colocado numa caixa.