Não estou

Dentro de poucas horas lerei o Expresso, e haverá uma qualquer resposta de Sócrates, por isso resta um breve período de tempo em que estamos no limbo. Estamos, os que estão a pensar no assunto; outros já chegaram a conclusões, deixando aí de pensar. E pensar implica ter de relacionar Janeiro com Junho, o que dá seis meses, afiança a minha máquina de calcular. Seis meses em que se diz que um Executivo (ou seja, vários Ministros, muitos mais Secretários de Estado, muitíssimos mais funcionários menores) estaria em conversações com outro Executivo (é repetir o cálculo), e pelo meio ainda se envolviam dezenas de outros indivíduos ligados à PT e à Prisa, entre administradores, directores, esposas e criadagem. Este apenas o primeiro círculo, depois vem o do PS e PSOE, mais o de accionistas, jornalistas e conspiracionistas. Tudo somado, gente comó caralho.

Então, ’tá bem. Em Janeiro era assim, o baile armado. Que se deveria seguir? Algo lógico, sensato, inteligente, como isso de Sócrates introduzir o assunto no Congresso do PS. Obviamente. Se a intenção era a de afastar Moniz, ou controlar a estação, usando o genial estratagema de a comprar para a PT, é logo o que ocorre: transformar a TVI num incontornável opositor político. Por isso, não satisfeito com o número do Congresso, Sócrates voltou à carga em entrevistas, até disse que aquilo era um pardieiro de travecas. Isto foi feito assim, à doida, porque ele queria garantir que a ninguém escaparia a grandiosidade do seu diabólico plano. E toda a trupe que ia negociando a marosca ibérica estava de acordo, acharam impecável que Sócrates estivesse a criar as condições para uma explosão política quando inevitavelmente se soubesse da intenção das partes.

Até que saiu a informação cá para fora. E o Presidente da República terá sido informado só nessa altura, pois apesar de haver tanto cidadão português e espanhol a negociar a entrega da cabeça de Moniz numa bandeja a Sócrates, e durante meio ano, a Belém não chegou nem um vagido que fizesse Cavaco franzir o sobrolho. Coisas que acontecem aos melhores estadistas, mesmo aqueles que têm dezenas de assessores tão conhecedores dos mundos paralelos e oblíquos da governação. Seja como for, o Presidente chegou-se à frente com um salto felino e disse Pára tudo. E parou.

Sócrates, desde o pico do Inverno em conversas para abafar a Moura Guedes, com encontros às claras com responsáveis daqui e dali só para resolver esse assunto, alvo de uma extraordinária campanha de destruição de carácter onde o pintam como mentiroso, decidiu que a Assembleia da República era o melhor local da galáxia para declarar não ter sido informado do eventual negócio. E esta declaração é feita no final da Legislatura, a 3 meses das eleições. Porquê? Porque assim os veraneantes têm no que falar ao irem a banhos, a oposição fica animada, os jornalistas chafurdam e o eleitorado começa a escolher a árvore onde o vai enforcar. Pois, ó pá, esta situação é fatalmente decisiva para o futuro político nacional, até porque parece inverosímil, inacreditável e irreversível.

E agora, que vai Sócrates dizer e fazer? Não faço a menor ideia. Não sei se é culpado ou inocente, honesto ou mentiroso. Eu nem sei se ele tem sangue ou veneno nas veias. Mas sei isto: se há razões para sair, que seja rápida a transição para o novo chefe do PS. Até lá, ou até nunca, não quero estar ao lado de capas de jornais que entusiasmam pulhas e imbecis. E não estou.

11 thoughts on “Não estou”

  1. Sócrates, sr. 1º Ministro: não dê mais pérolas a porcos.
    Este gente tem-lhe raiva e calendariza armadilhas para promover um golpe de estado.

  2. Ahahahahahah…… muito bom.
    Muito obrigado, pelas gargalhadas que larguei agora. Muito bem escrito e como sempre encontraste um angulo cómico, naquilo que na realidade nem tem grande piada.
    Um bom Sábado Valupi e um abraço!

  3. Alto! Pára tudo! O Valupi disse que não sabe se o Pinto de Sousa é «honesto ou mentiroso»! Notamos aqui uma evolução nas análises valupianas: desde sempre apostado em construir e transmitir uma imagem divina do ser supremo da imbecilidade, o especialista no esoterismo descobre agora a dúvida metódica cartesiana, e começa a dar sinais de romper com o dogmatismo que remetia o princípio e fundamento de tudo o que há de bom em Portugal para a personalidade e acção desse ser divino. O Valupi já não faz a menor ideia de nada: a dúvida hiperbólica e provisória levou-o a pôr a possibilidade de ser necessário encontrar um novo ser que seja um princípio claro e evidente da política. Porque, de facto, o anterior misturava e confundia as diversas substâncias que constituem a realidade politica: no ser supremo da imbecilidade misturavam-se e confundiam-se esquerda e direita; interesses gerais e interesses particulares, verdade e mentira, realidade e aparência. Porque, afinal, o deus do Valupi até pode ser um génio maligno que o anda a enganar!
    Mas, como nos diz o Valupi, esta dúvida tem um preço, e este é o solipsismo a que ele ficou preso: o Valupi, agora, está num limbo (como ele diz) e só tem a certeza de que não quer estar do lado de «jornais que entusiasmam pulhas e imbecis». Como saír deste isolamento a que ficou confinado? Parece que ele está à espera de um qualquer sinal e resposta do ser supremo da imbecilidade, de uma resposta que estabeleça, novamente, a sua ligação ao mundo e à verdade. Portanto, o agora «cartesiano» Valupi não deixou de ser crente no ser supremo da imbecilidade, pois ainda o vê como garantia da verdade na política. É que a «verdade» fundadora encontrada pelo Valupi (a de que os jornais vivem para os pulhas) é uma «verdade» absoluta que não foi produzida pelo seu intelecto finito, e portanto a sua causa tem de ser o próprio absoluto e infinito, que na crença valupiana é, desde sempre, o ser supremo da imbecilidade. E é isso mesmo que o ainda esotérico Valupi deixa a entender quando nos apresenta os seus «argumentos» para provar (ou defender) a existência inocente do ser supremo da imbecilidade, que entre outras coisas, e desde Janeiro até agora, até disse que a TVI era um «pardieiro de travecas».
    De qualquer forma, já há uma evolução nas teorias do conhecimento valupianas. Mas, pelos vistos, ainda vamos ter de esperar mais algum tempo até assistirmos a uma verdadeira «revolução copernicana» no seu intelecto, capaz de considerar inválidas as provas da existência inocente do deus supremo da imbecilidade.

  4. Lá estás a desatinar outra vez. Porque é que o Sócrates e o Zapatero, e mais um ou dois de cada lado “Tudo somado, gente comó caralho. ” ? Ou achas que essas coisas, nessas fases vão a Conselho de Ministros ou às reuniões dos Secretários de Estado?

    Lá que seria estúpido, muito estúpido, andar a tratar desse negócio e a mandar bocas contra a TVI ao mesmo tempo, estamos de acordo. O tempo dirá.

  5. Não tenho club politico. Mas revi-me no governo de Jose Socrates, que em quatro anos lançou as bases para um país do conhecimento e da inovação. Ele percebeu que seria o conhecimento e a revolução informática que iriam arrancar os portugueses do fado mole do deixa andar. Está a ser esmagado, por causa da sua ousadia. Os erros que terá cometido, como este de cair na esparrela PT/TVI diabolicamente montada ao mais alto novel, não apagarão da história a sua obra. O próximo governo tem as portas abertas para um País diferente. A não ser que aconteça um milagre, esse governo já não será dele, nem será de «direita» ou de «esquerda». Vai ser um governo que vai ter de singrar no caminho aberto por Sócrates, até porque os tempos são de viragem planetária.
    Os que querem tomar o poder, recorrendo ao mais infame dos processos, não pensarão duas vezes. O Freeport, como eu tinha alertado, há-de gerar um arguido por semana…enganei-me, afinal é um por dia, ou quase. O urgente processo disciplinar ao Mota, de tão complicado que é, ainda não passou dos preliminar, quanto mais estar próximo do orgasmo falhado. Do outro lado temos o silencio sepulcral sobre a maior burla da nossa história, à espera, simplemente, do sacrificio do bode expiatório, embora ciulpado quanto baste. Se um processo disciplinar, envovendo 3 procuradores e uma conversa de mesa de café entre eles, pode durar meses a fio a ser deslindada, bem podemos esperar que o bode espiatório do«não caso» BPN, já de saúde periclitante, vai morrer na cadeia, ou no sossego do lar, logo que se esgote o prazo de prisão preventiva.
    Esta intervenção do Valupi ainda mais me veio deprimir. Não sei se já leste o Expresso. Eu já ouvi dizer que o “negócio dos 30 por cento”, altamente vantajoso para a TVI (Moniz dixit) e que o Governo diz que não aprova, só «por causa das suspeições» (!!!), afinal nunca esteve a ser equacionado por ninguém! Afinal foi só armadilha mortal para Sócrates e para deixar o ministro Lino a gaguejar.
    Como é possivel tanta ingenuidade? E agora não se esqueçam de mandar o mesmo ministro Lino enrolar as palavras todas para explicar que a tal «fundação» não é vigarice nenhuma. Que leve o discurso escrito!
    Caso PT/TVI tempestade de Verão? De modo nenhum! É, isso sim, parto de cabrão.

  6. Caro Valupi, só para dizer que concordo em toda a linha: “Eu também não estou”.
    E mais, “regalei-me” ao ler o que aqui escreveu, porque só não vê quem não quer ver o que se está a passar em Belém…e nos jornais e telejornais do costume…!

  7. MARIA, Disse uma grande verdade, contudo incompleta!

    “…porque só não vê quem não quer ver …” que poderia se completada com -, outros vêem exactamente o que anseiam. (chama-se a isto ilusão) :-)

  8. Ópera Bufa, Julgamento de Joana D’Arc, Dansa das Cadeiras, Alto e para o baile.

    Estamos a assistir a uma ópera bufa. Ou uma espécie de Carmina Burana da desfiguração despudorada da democracia, da sua torção num esgar repelente. Ou um julgamento feito pela Inquisição, como por exemplo o de Joana d’Arc, em que os Juízes interpretam sempre ao contrário as suas declarações. Os figurantes (verdadeiramente os figurões), entram e saiem com rapidez crescente no palco.
    O caso Freeport ou o caso PT/Prisa, ou o caso BPN/SLN qual é a lógca que têm? Fortíssima. A de darem cabo de Sócrates. Elementar meu caro Watson. A máquina anti-Sócrates está cada vez mais bem oleada. Se não fez assim, tivesse feito assado. Se tivesse feito assado tivesse feito cozido. Merecem um destaque especial os requebros, ameaças, negaças cheios de graça de quem tem as mais altas responsabilidades. Ou do semanário que, no timing adequado, como jogador de futebol que é instruído para queimar o cartão amarelo que lhe acarreta um jogo de suspensão visto a data que se aproxima (27 de Setembro) ser aquela em que é preciso ganhar de qualquer modo. E então a isenção do semanário será provada para todos os inglêses do mundo vêrem: “eles até denunciaram em primeira página o mais alto magistrado!!!” Como diziam as tias do Vasquinho da Anatomia: ele até sabe o que é o esternocleidomastoideu!

    Muito, muito curiosa esta mascarada tão pouco veneziana. Não é que Pacheco Pereira até vai medir a utilização de meios da comunicação social, notícia da SICNotícias? E ninguém se lembra de denunciar que se trata de figuroníssima raposa a fazer de conta que toma conta do galinheiro? Não é que saiu um livro escrito por alguém com responsabilidades, tresandando no entanto a medronho de fim de semana, livro chamado A Ministra, que é denunciada logo na capa como a história de “uma mulher feia, cruel e ambiciosa”, que “distorce as estatísticas” para que os papalvos da OCDE engulam que afinal Portugal já não está tão mal colocado no ranking internacional da Educação? E que os zelotas do costume. brilhantes chorudos analistas, não se lembram de o felicitar pelo negócio do século, segunda as contas que deve ter feito, quanto ao nicho dos cem mil, duzentos mil, talvez um milhão de manifestantes putativos compradores do livro, isto é a maior de sempre, que antes de o ser já o era, como a pescada? Ou de o felicitar pelo bom gosto que deve partilhar com o cavalière, no reconhecimento da beleza fina de ministras e deputadas (assim é que é, abaixo quem é feio, porco e mau, no dizer dele, claro, bastante mais estrábico da alma e dos olhos do que se supunha e ele próprio deve supor). Isto não são temas de análise, de debate, de denúncia desta carnavalice sociológica mal cheirosa mas…eficaz.
    Eficaz? Talvez se enganem. Quando o vale tudo (como o catch, lembram-se?) se esfumar nas novas realidades que se perfilam, ah como Sócrates “é que era bom, que pena foi, o único primeiro ministro reformista que tivemos”. Como o Freeport se percebia que era um esturro. “Só não viu quem não quiz, e eu nunca me enganei” dirá o novo/velhíssimo analista, a tresandar a naftalina. “Como é incompreensível que ninguém se tenha apercebido das ligações BPN/SLN, um autêntico escândalo” dirá o denunciante de plantão das teorias da conspiração, cada vez a subir mais como socialite-foguete, que um dia destes fura o telhado…
    Mas pode ser que não. Pode ser que a vergonha impere, não a dos desavergonhados, mas a dos que, desavergonhadamente, se deixam desavergonhar. Percebendo a essência da opera bufa, a dansa das cadeiras que não chegam para todos: “ah cabrões, então era isto que eles queriam, ainda bem que abri os olhos a tempo”. E, com veementes murros na mesa: Alto e para o baile!

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