MARGARIDA REBELO PINTO NÃO É DESTE PAIS

Não sei se o título desta pequena crónica é verdade para alguém. Para mim é
quase. Tirando o impiedoso retrato que Mário Ventura Henriques fez da
criatura num dos seus livros, pouco conheço desta figura da chamada
literatura «light». Mas li no sábado pp. no Diário de Notícias o aviso de
que MRB vai lançar um livro com o título igual ao livro de Joaquim Pessoa
«Português Suave». Nem a autora nem a editora nem a entidade que lhe
atribuíu o «ISBN» perceberam que já existe em Portugal um livro com o mesmo
título. Essa editora chama-se Moraes, a colecção «Círculo de Poesia» O
desenho da capa é do José Escada. Sei do que falo; tenho dois livros nessa
colecção. Talvez a explicação esteja na expressão literatura light. Se a
coca cola light é coca cola quase sem coca cola, então literatura light é
literatura quase sem literatura. Decididamente MRP não é deste país. Do
país de Joaquim Pessoa, do país de Ruy Belo e de Jorge de Sena, do país de
Sophia e Vitorino Nemésio, do país de Pedro Tamen e de João Rui de Sousa,
do país de Cristovam Pavia e João Miguel Fernandes Jorge, do país de
Joaquim Manuel Magalhães e Alexandre O´Neil, do país de David
Mourão-Ferreira e Alexandre Vargas, do país de Fiama Hasse Pais Brandão.
Não, não é deste país, do nosso país.

A maior vítima da josémanuelfernandização

O Público é, actualmente, um jornal para imbecis dirigido por um irresponsável (para me restringir aos eufemismos). Como se explicará o apagamento de um evento de inquestionável importância política como aquele que reuniu Primeiro-Ministro, Ministra da Educação, Ministro das Obras Públicas, Bastonário dos Engenheiros e Bastonário dos Arquitectos na sexta-feira passada? O que se pode ler no DN, Expresso, Sol, SIC, RTP e TSF, por exemplo, não existiu para o Público. Mas tal apagamento não se deveu a um menor interesse pela temática da Educação, bem pelo contrário.

Na edição de sábado, a manchete foi feita com este simulacro de notícia: DREN quer excluir da correcção dos exames os professores que se afastam da média. Nela se relata que um professor protestou contra uma frase dita pela directora regional de Educação do Norte, Margarida Moreira. A frase tem a peculiaridade de, mesmo fora de contexto, ter um sentido neutro e legítimo. Também se pode ler a resposta dada pelo director do GAVE, Carlos Pinto Ferreira, que participou na referida reunião, o qual oferece um esclarecimento óbvio para a interpretação da dita. Isto é, nem sequer faltaram contributos racionais para que os responsáveis do jornal pudessem avaliar com algum rigor a relevância do episódio.

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Vinte Linhas 268

Uma Vespa de 1955 em Brighton

Primeiro ouvia-se uma música suave numa praceta. O som brasileiro de João Gilberto em Brighton com saxofone tenor, contrabaixo, fliscorne, viola baixo e voz. Gente do mundo comia a ementa internacional – pizzas, saladas, massas, lasanhas. A moça abandona o grupo e pede, num chapéu, uns trocos para a banda. Acabados de chegar, contribuímos seguindo o princípio de Fausto Bordalo Dias – aos músicos dá-se sempre. Mais à frente, na praia de seixos grandes como ovos, um carrossel antigo e parado faz-se ouvir em músicas do meu tempo de menino ao domingo à tarde antes das transmissões desportivas dos anos 50 e 60: as eternas marchas de John Philiph de Sousa como «American Patrol», «Washington Post» ou «Stars and Stripes for Ever». Na galeria de pintores locais, entre «provas de artista» e «gravuras» com e sem «passepartout», uma colecção de caderninhos de apontamentos tem na capa a célebre «Vespa» de 1955. Com esse caderno vem toda a memória de uma música de liberdade. Por toda a Europa, a partir de Itália, a gente nova que não podia ter um automóvel, comprava uma «Vespa» a prestações. Mesmo com o contratempo das chuvas no Inverno, havia uma música de liberdade nessas «Vespas» do meu tempo de menino. Tu nasceste em 1955, como a famosa «Vespa» e sabes bem o que quer dizer «cinturinha de vespa». Fazia as delícias das modistas e das costureiras. Poupavam-se os saiotes para «armar» saias e vestidos. Entre o pó e o sol das tardes de Verão, os vestidos de tafetá brilhavam como relâmpagos no arraial. E não havia fotógrafos para registar o momento. Apenas o coração. Como vês trouxe de Brighton muito mais do que uma «Vespa» e uma rapariga de perfil em cinturinha de vespa…

o balido dos inocentes

A mão pousava os dedos espalmados na beira do balcão, com o braço a sustentar o peso do corpo em fuga ligeira à ortogonalidade. Está tudo sempre a cascar nos militares, mas queria ver se viesse a guerra. Quando é a guerra, aí já nos querem. Aí é que ficam a saber o horror da guerra, não é como imaginam. Olhe, digo-lhe: o meu amigo se houvesse guerra até me confiava a sua mulher para eu dormir com ela! Nas bochechas do rapaz, de uns vinte anos, vê-se um esforço de contenção que obriga a substituição do riso por um esgar de cortesia.
O homem na reserva debruça-se para a frente, olha de esguelha para mim e levanta o tom de voz. E a corrupção? Andam todos a meter dinheiro ao bolso, mas quando são os militares cai tudo em cima. Nós que somos os primeiros a castigar os nossos, nós que temos uma ética! Agora os políticos, e as estrelas, anda tudo à solta. O único que foi dentro foi o Vale e Azevedo. É sempre assim: os grandes safam-se, quem vai dentro é a lana caprina.

O segredo da felicidade

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[toca na imagem para aumentar a felicidade]

Sou inimigo da ideia de felicidade. Por isso, repito as palavras de Flaubert, carta a Louise Colet em 1846, que permanecem definitivas:

Etre bête, égoïste, et avoir une bonne santé, voilà les trois conditions voulues pour être heureux ; mais si la première nous manque, tout est perdu.

Quem tem um inimigo, está abençoado. Pode lutar com ele, desenvolver as forças, crescer extraordinariamente. Descobrir que o Diabo só faz o que Deus lhe permite, e que todo o mal que nos acontece é para nosso maior bem, aprende-se na arte da guerra; hoje raramente ensinada, pervertida pelas suas imitações, estando os mestres incógnitos nas catacumbas da sapiência. Este paleio de paragem de autocarro só para introduzir uma ruiva americana: Gretchen Rubin. Esta senhora teve o discernimento de querer viver da escrita, e está num país onde tal é possível sem dificuldades de maior. Tanto assim que já guarda no bornal uma besta célere, e anda danada a tentar meter mão noutra. A data prevista para a prova dos 9 são os finais de dois mil e ditos. Contudo, o livro já se vende sem existir e sem que alguém tenha ainda dado um tusto por ele. Ei-lo: The Happiness Project.

Como se pode ler logo no cabeçalho, Gretchen está a escrever uma obra que vai misturar Aristóteles, Santa Teresinha do Menino Jesus e Oprah, entre muitas, muitas e muitas outras fontes. O tema em estudo é o Everest da arrogância e cowboismo imperialista: a felicidade. Entenda-se por felicidade, pegando nos três exemplos históricos indicados, a realização, a santidade e o sucesso. Vale tudo, pois. Estamos em pleno bacanal semântico. E como se não bastasse, provando que ainda não há tecnologia que consiga introduzir juízo no sistema neuronal de um americano, a autora propõe-se identificar as regras para alcançar a felicidade. Identificadas, vai testá-las. A sua vida passa a ser o laboratório da eficácia dos ensinamentos recolhidos, mas só durante um ano. Isto obriga a um qualquer calendário fechado de testes. Se, por hipótese, reunir 12 conjuntos de regras, poderia ter 1 mês para cada exercício. Se forem 52, uma semana. Mas talvez sejam centenas, como ela ameaça no topo da sua loja, e com durações variáveis. Por exemplo, os ensinamentos de Buda a serem testados durante 3 meses, de preferência no Verão; a biografia de Bill Gates levando a um fim-de-semana passado na garagem; e o caminho místico de S. João da Cruz apenas tendo direito a umas horas de gasto depois de um filme maroto à meia-noite, procurando aplicar o despojamento radical da Noite Escura no tempo que restar até o Sol nascer, et pour cause.

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Memória justificativa do livro «The Busby Years»

(a Francisco José Viegas, autor de «Morte no Estádio»)

A morte será também um fuso horário
Um meridiano de silêncio e de escuridão
Entre a água do rio e a madeira do bosque
Todos trazemos uma bagagem de mortos
Este livro evoca os jogadores do M. United
Perdidos num desastre aéreo em Munique

Há a nossa memória de Pavão nas Antas
No jogo treze e no minuto treze a morrer
Em Coimbra, Néne perdido num desastre
Quando o mini não desfez a curva grande
Em Lisboa Toni Kakinda a forte esperança
Da equipa de Caneira e de Simão Sabrosa
Antes Pepe em Belém de vinte e três anos
Com a mãe a trocar bicarbonato por potassa

Nunca se fala nos jornalistas também mortos
Os enviados especiais a esse lugar de morte
De onde já não é possível escrever notícias
Morreram todos assim no seu fato completo
Caneta de tinta permanente e bloco de notas
Cachimbo e todos eles de chapéu à Borsalino
Mas tirando as suas famílias e alguns colegas
Pouca gente recordará hoje os seus nomes
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O que é um pessimista?

A notícia, de ser Portugal o pardieiro onde há maior percentagem de pessimistas, não surpreende. É que Portugal é também um dos países onde é mais difícil encontrar portugueses. Se o português fosse pessimista, teria sido capaz de ir até às especiarias montado em cascas de noz? Esses portugueses eram optimistas. Conseguiam dar a volta às coisas, mesmo às coisas muito grandes.

Desde que se expulsaram e esconderam os judeus que a terra ficou entregue ao pessimismo. E é na sabedoria judaica que se encontra a definição acabada do pessimista:

Um pessimista é alguém que, perante duas más opções, escolhe ambas.

Eis Portugal no seu pior.

A terceira força de oposição interna no PSD

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Para além de um Passos Coelho que está a fazer tudo bem para suceder sem espinhas à Manela, para azar da política nacional, e de um Santana que está a fazer tudo o que pode para se suceder a si próprio, para sorte da nacional-politiquice, há uma terceira força de oposição interna no PSD: o ódio às mulheres. O PSD é o partido que mais exuberantemente representa o homem português medíocre e bimbalhão. Claro, homens medíocres e bimbalhões encontram-se em todos os partidos, mas não na frequência com que eles ocupam funções de militantes e dirigentes sociais-democratas.

O traço que consagra a mediocridade e bimbalhice do homem português comum é a redução da mulher a veículo sexual e mão-de-obra escrava, e esse processo mantem-se hoje igual ao que era no passado. Não é um acaso que, 34 anos depois do 25 de Abril, não se conheça da intelligentsia social-democrata qualquer especial preocupação com a condição feminina. De Marcelo a Pulido Valente, passando por Pacheco Pereira, José Miguel Júdice, Miguel Sousa Tavares e qualquer outro nome de referência, o estado calamitoso em que vivem as mulheres portuguesas é ignorado. Desemprego, diferenças salariais, acesso a cargos directivos, representação política, violência doméstica e abandono social, eis um primeiro rol de indicadores que não tiram o sono à social-democracia publicada. Sim, falar de mulheres enquanto cidadãs não tem graça nenhuma, quão mais agradável é continuar a vê-las como bonecas disponíveis e infantilóides ou mães solícitas e sacrificadas. Assim, ter 109 mulheres em mais de mil congressistas, em Guimarães, não incomoda ninguém. Esta proporção, 10 para 1, é o exacto retrato da realidade nacional no que diz respeito à influência política e cultural das mulheres.

Muita coisa mudou nos últimos 25 anos, muita. Há muito mais mulheres com muito mais dinheiro, liberdade, opções. E, por causa disso mesmo, a sua inércia e demissão em face da responsabilidade política própria é trágica para todos, até para os medíocres e bimbos. É a calamidade das calamidades, isto das mulheres não ambicionarem a mais do que serem omnipotentes consumidoras.

O que ganhou Portugal com o fracasso no Euro 2008

Ganhou um cronista de referência, Ferreira Fernandes. As suas crónicas na TSF foram o feliz abraço entre uma cultura jornalista clássica, hoje em extinção acelerada, e uma elegante e apaixonada coragem de exprimir, a marca de autor. Para além de saber escrever, e de saber pensar, também sabe falar e contar. As rádios e televisões têm ali alguém que agarra audiências pelas melhores razões e com as melhores consequências. É aproveitar, porque desta estirpe não tem aparecido ninguém nas novas fornadas.

Pelo menos 97% está contra o aborto

A conclusão a tirar desta notícia é a de que, podendo, os mais interessados na questão do aborto votariam* contra o mesmo numa percentagem de 97%. Pelo menos.

Quando leio estas notícias, para mais com o retrato sociológico estampado onde se vê maturidade nas mulheres responsáveis, fico sempre esmagado pelo absurdo: qualquer pessoa acorreria ao choro de um recém-nascido abandonado, e tudo faria para o salvar, não precisando para nada de conhecer a sua mãe e pai, nem se inibindo de procurar dar-lhe calor, alimento e protecção por não saber como o sustentar nos anos seguintes. Pura e simplesmente, esses outros problemas nem sequer apareceriam no momento de agir a favor do bem maior. Perante um bebé, o melhor de nós torna-se força e vontade. Mas perante esse mesmo bebé 7 meses mais novo, muitos nem o estatuto de ser humano lhe reconhecem. Tratam-no como uma doença. Que, só por azar, lhes aconteceu no corpo e na vida.

Isto de se querer abortar porque apetece é uma animalidade que desapareceria em 7 meses — aliás, menos; muito menos.

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* Ou delegariam o seu voto em quem os representasse.

José Manuel Fernandes Challenge

Desafio-te a descobrir quantos preconceitos serôdios e primários se encontram neste parágrafo — retirado completamente ao calhas — do editorial do Público de hoje, e onde se fala da Ferreira:

A vantagem de ser mulher é sentir-se que é directa, terra a terra, que sabe quanto custa o pão, o leite ou um quilo de carne numa altura em que a distância entre os políticos que passam no interior de carros de vidros fumados e o cidadão comum se agravou. Ter idade, cabelos brancos, rugas é, até porque ninguém os deseja ter, um factor de autenticidade que aproxima a nova líder do PSD de um eleitorado que não é tão novo como se julga (sobretudo se pensarmos que os mais novos se abstêm mais do que os mais velhos).

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Sim, estamos em época de exames, também por cá.

Scolari, vai-te embora – V

Um treinador que descura, desaproveita e diminui um jogador como Quaresma, merece um prémio: o de treinador mais imbecil do Mundo. Quaresma bate bem a bola, como raros, mas bate mal da bola, como tantos. Vê-se que há ali um Dani em potência. Só que o Filipão Sargentão era também o auto-propalado rei da motivação, até a sua psicóloga aparecia a botar sentenças. Cadê? Como é possível que Quaresma, Nani e Hugo Almeida não tenham lugar na equipa do Petit, Nuno Gomes e actual Sabrosa? No Entroncamento nunca se viu nada tão estranho.

Quando Mourinho foi para Inglaterra, ninguém acreditou que ele viesse a ter sucesso. Agora, passa-se o mesmo com Scolari. Só que agora vai tudo ter razão, e o homem não vai conseguir aquecer o lugar até ao Natal.

eu cá não dou um tostanito

No exame nacional de língua portuguesa, o meu filho não soube responder apenas à pergunta nº 7. Tive pena, porque o texto a que se refere* é belo e esperaria que ele tivesse sido capaz de uma qualquer interpretação do excerto apresentado, solicitação enunciada pela pergunta. Há tempos encontrei um apontamento dele, do ano passado, que rezava:

Eu acho que neste texto o autor brincou com a palavra «preciso», pois é preciso navegar para pescar no alto-mar, para haver peixe no mercado [ah, a actualidade desta frase…], para descobrir novas terras e para se viajar por mar para outros países. Além do mais se uma pessoa quer navegar tem que ser precisa, senão embate contra as rochas. Na minha opinião o verso «Navegar é preciso» é um verso interessante e bom e por isso concordo com ele. Já não concordo com o verso «Viver não é preciso», pois não há morte sem vida e o mundo seria uma desolação. Eu acho que este verso também tem um segundo significado, pois há pessoas que não fazem nada se não viver e outras que fazem tudo excepto viver. Por isso, apesar de não concordar com ele, acho que é um bom verso e merece ser explorado.

O puto tem indubitável paleio. Não entendo porque não terá ele sido capaz de engendrar uma resposta, por manhosa que fosse. E vós, mesmo de graça, quereis tentar?

7. No final do texto, o autor declara: «Sorrir assim, mesmo sem olhos que nos recebam, é o verbo mais transitivo de todas as gramáticas. Pessoal e rigorosamente transmissível. O ponto está em haver quem o conjugue.»

*Encontrei aqui o texto, embora não na versão mais extensa (e também não integral) que surge no enunciado de exame.

Scolari, vai-te embora – IV

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Pode ser que Portugal ganhe à Alemanha. E que ganhe os dois jogos seguintes. E pode ser que o faça com exibições notáveis. Se for assim, será uma desbunda que fará bem a toda a gente lusa, onde se incluem os que não nasceram cá, nalguns casos nem falando português, mas para quem o nome Portugal traz um sopro de alegria. Porém, os sinais esotéricos apontam para a derrota. Conjuga-se a húbris do seleccionador com a mística alemã e a tragicomédia nacional activada pela traição de Scolari. Antevê-se o desaire dentro de poucas horas. Mas seja o que for que aconteça, o resultado não será mais do que a expressão do destino — ou seja, da sorte.

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valhacoito

Andava eu à procura de uma palavrinha que rimasse com oito (não encontrei, tive de inventar uma), quando me deparei com a seguinte palavra:
valhacoito
de valer + coito
s. m.,
abrigo;
protecção;
defesa;
asilo.
Eu na verdade quando tinha 15 anos, e até ter prái 18, fazia-me bastante falta um valhacoito. À falta de valhacoito mais conveniente, tive que me valer de matas e cemitérios. O carro é o valhacoito clássico mas o travão de mão faz-me nódoas negras. Um amigo meu usa a casa dos pais como valhacoito, mas às vezes chega gente e é um valhacoito interrompido. Agora de valhacoito estou bem servida, pena é não lhe dar uso.

Sanjoaninas

Foi um destes sao Joões
P’rái em noventa e oito
Que baixei os meus padrões
E comi esse alcagoito

Este ano, ó meu santinho
A ver se me fazes o jeito
E arranja-me lá um mocinho
Que não tenha tanto defeito

É verdade ó São João
Eu sozinha não consigo
Dá-me la um empurrão
P’ra acabar com este castigo

Se nao for no São João
Que é do ano a maior noite
Não viro as costas ao colchão
Nem que vá lá de açoite

Uma campanha alegre

A revista Happy Woman está há uns meses com uma excelente campanha publicitária. Encontro-a nas carruagens do Metro e consiste em anúncios para ler. Só por isso, por não se limitar à convencional fórmula da frase em cima de imagem, tem um mérito que justificaria 3 ou 4 medalhas daquelas que os presidentes da República distribuem no 10 de Junho lá por razões que só eles entendem e que ninguém perde tempo a discutir. O mais importante nas peças da campanha, todavia, é o acesso à psique feminina. Os textos são listagens de gostos relativos a um universo de temas variados e contrastantes. E será preciso pertencer ao grupo de tontos que continua a festejar o resultado do referendo na Irlanda para não dar o devido valor às informações que estão a ser generosamente veiculadas pela revista. Da peça actualmente exposta, eis as 3 revelações que mais me impressionaram:

Gosto do Freud

Gosto de pensar alto

Gosto de dizer “panóplia”

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Vinte Linhas 267

Para ganhar não pode (de modo nenhum…) valer tudo

Fui jornalista profissional entre Janeiro de 1997 e Novembro de 2006. Durante esses dez anos de trabalho devo ter visto centenas de jogos ao vivo. Basta perceber que durante muito tempo «fiz» os juniores no sábado à tarde, os juvenis (ou iniciados) no domingo de manhã e o Lourinhanense (ou a equipa «B» do Sporting) no domingo à tarde. Pois vi tudo mas não tinha ainda visto tudo. Não vi mas falei com o meu amigo Sandro Baguinho que é jornalista e me explicou melhor uma coisa que não tem explicação. A situação insólita e quase inacreditável aconteceu no passado dia 10 de Junho no Seixal. O jogo era um Benfica-Sporting decisivo para a atribuição do título de campeão nacional de iniciados. Ao Sporting bastava um empate. Sendo a categoria denominada «Sub 14» percebe-se a idade dos miúdos envolvidos no jogo. Este começou de feição para os «leões» que marcaram logo aos 6 minutos por João Carlos. Mas no início da segunda parte (os jogos demoram 70 minutos) logo aos 40 minutos aconteceu um caso. Perante um jogador benfiquista estendido no relvado um jovem «leão» atirou a bola para fora para permitir a entrada da equipa médica dos «encarnados». No reatamento, para espanto de todos (ou de quase todos) o jogador do Benfica atira a bola para a grande área «leonina» e um avançado faz o golo em vez de devolver a bola ao adversário. Faltavam 30 minutos para o fim do jogo e as coisas ficaram complicadas. O SCP foi campeão. Que «pedagogia» permite atitudes destas num miúdo de 14 anos? Que escola se anda a formar ali no Seixal? Será que o miúdo não percebeu que nem todos podem ser Cristianos Ronaldos ou Moutinhos e que de cem jogadores sai um «muito bom» e de vez em quando? Bolas…

Um país sem interior

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Portugal é um imenso litoral. No princípio do mês, fiz uma viagem de carro que me levou de Lisboa a Miranda do Douro, passando por Portalegre, Castelo Branco, Belmonte, Foz Côa e tudo o mais que pude apanhar pelo meio. Missão secundária: chegar a Mirandela e fazer de comboio a linha do Tua. Missão principal: pegar no mapa, abrir os olhos, e ir para onde me desse na real gana.

A gana, se real, leva-nos longe. Foi assim que descobri um castelo a ser recuperado no Alegrete, um parque aquático em Mosteiros, uma casa de sonho na Esperança e um caminho mágico entre Rabaça e S. Julião. Tudo isto ainda na Serra de S. Mamede, estava no começo da viagem. No dia a seguir, Castelo Branco, iria para uma das regiões mais desertas no mapa. Malpica do Tejo, Soalheiras e Rosmaninhal, uma finisterra encostada à fronteira, uma fronteira de terra sem fim.

A gana, a minha, leva sempre para fora do alcatrão. Foi assim na travessia da Serra da Malcata, onde os pneus do meu bólide pertenciam agora à espécie mais ameaçada de extinção no território. Percorri veredas que deixariam tractores grandalhões com miúfa de lá poisar os rodados. E valeu a pena? Ora, tudo vale a pena quando se contempla a barragem da Meimoa. Ou a da Póvoa. Ou a do Maranhão. Ou a próxima.

A gana, afinal, aproxima. No Escarigo, ali mesmo ao pé de Almofala e da Vermiosa, ’tás a ver?, fica um dos locais mais belos da Galáxia. E eu tive o ranço de o apanhar aberto, sem saber ao que ia, incauto ao entrar, tendo lá parado num acaso. Duas senhoras faziam a limpeza e contaram-me histórias, falaram-me do tecto, levaram-me à sacristia. Disseram-me que a capital é Lisboa e não Escarigo só por causa de um grão de trigo — e como isso é tão delirantemente verdadeiro se escutado naquela igreja.

Passei por aldeias, estradas sem nome, montes e cabeços em parques naturais, vias terciárias, caminhos perdidos onde apetece procurar o destino. E concluí duas coisas: (i) o Portugal das estradas esburacadas acabou, mesmo no cu do mundo; (ii) e já não existe interior. Já não há distância, nem tempo de viagem, nem curvas. O que há é o outro lado do litoral.