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Revolution through evolution

Closing Gender Gaps in Career Advancement
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Fear may lead women and men to make different decisions when choosing short-VS-long-term rewards
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Landmark study shows that ‘transcendent’ thinking may grow teens’ brains over time
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Feeling apathetic? There may be hope
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Breathe, don’t vent: Turning down the heat is key to managing anger
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Beneficios del voluntariado para la salud
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Your dog understands that some words ‘stand for’ objects
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Dominguice

A democracia nunca existiu. Nem pode existir. Porque a multidão é vária, variada e avaria. O que pode existir, com o mesmo nome, é a escolha livre de uma oligarquia. Para que essa oligarquia transitória não se transforme numa oligarquia perene, a democracia impõe a lei como garante da liberdade. A lei nada mais é do que um texto onde permanece invisível o poder da turbamulta. Poder só no verbo inteiro e pleno porque intangível, imutável.

A democracia é um ideal impossível, e o que mais possibilidades cria para as comunidades e os indivíduos.

1.169.836

O Chega tem mais deputados e mais votos do que o PAN, Livre, PCP, BE e IL juntos. Em percentagem eleitoral, está muito mais próximo do PS e da AD do que dos restantes partidos, de facto acabando com o bipartidarismo. Conquistou o Algarve e o voto emigrante. Isto não é apenas uma curiosidade histórica, é uma profunda alteração no sistema partidário que só encontra um relativo paralelo nas eleições de 1985, onde o PRD obteve 45 deputados com apenas três meses de existência.

O futuro do Chega é evidentemente imprevisível. Parece ter chegado ao seu máximo possível mas será estulto perder tempo com esse cálculo. Importa é olhar para o seu presente. 1.169.836 eleitores merecem tanto respeito democrático como os restantes que foram votar. São parte da soberania, e uma parte que tem um peso que deveria ter consequências. São pessoas que não estão preocupadas com o Estado de direito, os valores humanistas, a própria democracia. Daí terem dado poder a quem ameaça esse regime nascido de Abril. Logo, justifica-se democraticamente que o seu voto tenha um efeito político relevante por serem tantos.

Umas já começaram, com a crescente exibição mediática da qualidade política e cívica desse grupo. Outras virão das posições que forem assumindo no Parlamento. E há ainda a esfera da relação pessoal com esses concidadãos, onde os podemos ouvir, questionar e compreender. Para os aceitar como actualmente são e às suas escolhas nos idos de Março? Não, pá, isso já está garantido pela liberdade de que desfrutam. Temos é de ir falar com eles para os ajudar a perceber a merda que fizeram.

A direita boazinha

Foram várias as pessoas que, nos últimos dias, vi duvidarem das contas públicas que o novo Governo herdará. O primeiro que vi duvidar descaradamente da existência de um excedente orçamental foi Pinto Luz, actual vice-presidente do PSD. O último foi Braga de Macedo, ontem, no Tudo é Economia, esse brilhante ministro das Finanças de Cavaco, que tantas saudades nos deixou, a dizer que isso das contas certas… enfim, logo se verá.  Pelo meio, vários comentadores e jornalistas a deixarem no ar a mesma dúvida.

Estas pessoas não estão apenas a denegrir o Governo de António Costa, estão a pôr em causa várias instituições nacionais e estrangeiras que fiscalizam as contas públicas.

Depois questionamos por que razão um partido populista como o Chega teve o resultado que teve nestas eleições. Porque será? Culpa destas personalidades da direita boazinha é que não é!

300 mil Augustos Santos Silvas

A patacoada de ter sido Augusto Santos Silva quem “fez crescer o Chega”, no cumprimento da sua responsabilidade como Presidente da Assembleia da República (2ª figura na hierarquia do Estado) a lidar com deputados arruaceiros e biltres, tem apenas racional persecutório. Os mesmos que a repetem seriam os primeiros a acusar Santos Silva de passividade e falha grave no seu dever caso ele não tivesse pedido e exigido respeito institucional a Ventura nas cenas insultuosas e injuriosas que protagonizou. Então, voltariam a dizer que tinha sido o socialista a “fazer crescer o Chega” ao aceitar e normalizar atitudes indecentes e aviltantes nas sessões parlamentares.

Mas o argumento, na sua piramidal estupidez, consegue ter graça. Dá para imaginar três fulanos a verem diariamente o Canal Parlamento em sessões contínuas na ânsia de descobrir em quem votar. Um deles inclina-se para o PSD, outro para a IL, e o terceiro tem sido abstencionista. Vão acompanhando os debates, interessam-se pela legislação proposta e aprovada, e tiram notas para avaliar qual o partido, ou coligação, que melhor defenderá os seus interesses. Nisto, apanham o Ventura no púlpito a cascar na ciganada. Que são bandidos, carimba, que é uma comunidade fora-da-lei, berra. Santos Silva interrompe-o para lhe dizer: “Não há atribuições colectivas de culpa em Portugal. Solicito-lhe que continue livremente a sua intervenção, como é seu direito, respeitando este princípio.” Que efeito teve nos nossos três indecisos concidadãos o episódio? Só um, garante a pulharia: irem a correr para os braços do Chega por não suportarem o pundonor e hombridade do Presidente da Assembleia da República face a um racista.

A direita acusa o PS de ser quem “fez crescer o Chega” para apagar ter sido o PSD quem fez nascer o Ventura, Passos Coelho quem o alimentou, Cavaco e Ferreira Leite quem lhe sorriu, e Rui Rio quem o tratou como coisa benévola. A direita que anda há 20 anos a criar as condições sociológicas para o aparecimento de um partido populista de extrema-direita com eficácia eleitoral não pode, obviamente, culpar-se a si própria. Seria um haraquiri.

Mas no campeonato de se identificar quem e o quê “fez crescer o Chega” aponto, por gozo analítico, para um insuspeito influenciador: Ricardo Araújo Pereira. Ao excluir Ventura das suas entrevistas aos líderes partidários, uma provável consequência terá sido a de reforçar o poder de atracção de Ventura junto dos eleitores não politizados. A mensagem transmitida pelo ostracismo era a de Ventura ser especial, tão forte que até uma das vedetas mais importantes em Portugal lhe dava um tratamento exclusivo. O que na intenção era um castigo acabava na lógica do fanatismo por ser um prémio, a prova de que Ventura metia medo ao humorista. Num quadro psicológico susceptível a dinâmicas de culto do líder, como será nos segmentos mais jovens e com menos habilitações, o Sr. Araújo poderá ter valido 300 mil Augustos Santos Silvas aos protofascistas.

Revolution through evolution

Gender Bias Negatively Influences Ratings for Female-Led Films
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It’s not just you: Young people look, feel older when they’re stressed
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Study identifies multi-organ response to seven days without food
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A few words can instantly boost sprinting speed by 3 per cent over 20 meters
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Small class sizes not better for pupils’ grades or resilience, says study
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Happiness can be learnt, but you have to work at it – study finds
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Information overload is a personal and societal danger
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Dominguice

Uma amiga minha vive no estrangeiro há mais de dez anos. Em Novembro, disse-me que a filha ia votar no Chega. A rapariga saiu de Portugal criança e só cá veio de férias com grande irregularidade. Mas na sua casa está sempre um canal de TV português a dar notícias, para além de se manter informada sobre o País pelas redes sociais. A sua identidade como portuguesa constrói-se na proximidade com a família, na comunidade com outros portugueses com quem comunica e na aceitação da versão dos acontecimentos nacionais que os jornalistas portugueses têm produzido ao longo dos anos. Ela não pode saber o que foi o 25 de Abril e como era o regime da ditadura. Ela nem sequer sabe o que foi o cavaquismo ou entende o que causou a vinda da Troika. O discurso de Ventura surge-lhe credível pois é a repetição do que os jornalistas mostram: o caos, a corrupção, o mal à solta a oprimir e explorar os portugueses de bem. É preciso fazer alguma coisa, é urgente lutar contra tanta miséria material e moral. Felizmente, existe o Chega para solucionar todos os problemas, graças ao excepcional carácter e talentos de Ventura — alguém que talvez tenha sido mesmo escolhido por Deus para pôr isto na ordem, como apregoa.

A notícia surpreendeu-me. Pela primeira vez, intui que havia um fenómeno de moda à volta do Chega que atingia muito mais gente do que supunha. Gente que estava agora a começar o seu processo de politização, e que não tinha qualquer defesa para o poder de persuasão de uma mensagem baseada apenas no pensamento mágico e nas técnicas de culto do líder. Mas, acima e antes de tudo, alegrou-me que ela quisesse envolver-se na política, quisesse votar, quisesse pertencer à comunidade dos cidadãos. É essa a superioridade da democracia, a sua visceral beleza: ser um caminho de inclusão radical que até aceita a ignorância inerente a quem está a crescer.

Palácio em ruínas

A direita tem tanta legitimidade para governar e presidir como a esquerda, é uma lapalissada. No que diz respeito ao legado dos eleitos para Chefe de Estado, porém, os exemplos não podiam ser mais contrastantes quanto à qualidade cívica e dimensão patriótica ao serviço do bem comum e do interesse nacional. Mário Soares e Jorge Sampaio terão inevitavelmente causado antagonismo político à direita mas não fizeram nada sequer comparável com a sombra do que Cavaco e Marcelo deixam como consequência de só se terem dedicado à intriga e à megalomania.

Cavaco usou a Presidência para tentar boicotar umas eleições legislativas, alimentando a judicialização da política e a politização da Justiça. Foi um ostensivo instigador da perversão das instituições judiciais desde 2008 até ao fim dos seus mandatos. Marcelo, depois de um primeiro mandato virado para a celebração popular da sua pessoa como presidente-rei, entrou em modo rei-presidente a partir da maioria absoluta socialista e não descansou enquanto não a dissolveu em ambiente de suspeição judicial.

Mário Soares e Jorge Sampaio são dois admiráveis exemplos de estadistas. Cada um deles, com estilos bem diferentes, honrou o cargo e respeitou a missão de ser o mais alto magistrado da Nação. Cavaco e Marcelo conspurcaram os poderes recebidos, foram um factor decisivo para a degradação da democracia. Democracia que acaba de ser atingida com um golpe até há pouco tempo considerado impossível.

O próximo Presidente da República vai receber um palácio em ruínas.

Eleitor-espectador

Ventura começou por ser uma criação do PSD de Passos Coelho – aliás, do próprio Pedro. Depois, continuou a ser uma recriação dos impérios de comunicação dominados sem excepção pela direita, os quais andam há 20 anos a vender sensacionalismo, tabloidismo e populismo de direita. Quando Marcelo premiou João Miguel Tavares com um raríssimo título honorífico, em 2019, estava a consagrar oficialmente a estratégia da terra queimada, onde se associava obsessiva e sistematicamente o PS a corrupção e desgoverno. Ventura repetiu essa cassete e acrescentou-lhe o folclore do fascismo, seguindo a fórmula de Trump. O seu triunfo é histórico.

O seu triunfo é histórico mas não tem qualquer relação com as acções e respectivos resultados que os sucessivos Governos socialistas registam. Aliás, a relação entre o conhecimento da realidade administrativa e executiva do Estado e um voto no Chega será absolutamente inversa. Vota-se no Ventura, se excluirmos os fanáticos e os maluquinhos, não porque se acredite nalguma das bacoradas que ele solta, antes porque as coisas estão a funcionar na sociedade. Porque não há problemas graves para resolver na vida dessas pessoas. É o voto do eleitor-espectador.

Narcisismo e imaginação

A estratégia de comunicação do PS para estas eleições limitou-se a apostar no páreo com o PSD, fazendo da campanha uma escolha do primeiro-ministro sobrepondo-se à escolha de projectos políticos. Provavelmente, tal resultou decisivamente dos estudos de imagem que davam a Pedro Nuno Santos uma vantagem relevante sobre Montenegro em características relacionadas com a percepção pública de competências executivas.

Foi uma boa aposta? Duas respostas contrárias são aceitáveis. Sim, porque o PS quase que ganhava claramente as eleições numa conjuntura social aziaga, valendo tanto eleitoralmente como a coligação da direita tradicional. Não, porque o líder do PS fez uma má campanha ao não ter mais nada para prometer do que a si próprio. Tal falência ficou patente no debate com Ventura, onde PNS não teve intuição política para ler o momento histórico que viria a provocar um abalo tectónico no sistema partidário. A sua prestação foi não só medíocre, ao não gerar qualquer ganho de causa, como pode ser mesmo rotulada de amadora ao nem sequer ter treinado a lide com um boicotador da racionalidade argumentativa. A ocasião pedia uma lição moral a quem faz terrorismo retórico. Os 50 anos do 25 de Abril mereciam outra postura do líder do PS frente a um tartufo que insulta a democracia e a liberdade. Azar o nosso.

O actual secretário-geral do PS tem narcisismo a mais e imaginação a menos. Nada que não possa ser corrigido.

Paulo Raimundo tinha razão

"Vamos ser a grande surpresa da noite eleitoral, não tenho dúvidas disso."

Paulo Raimundo

Podemos concordar com o acerto desta profecia. Se considerarmos que o PCP só consegue ser relevante em matérias de actualidade como defensor de Putin e do putinismo, é uma grande surpresa terem mesmo assim conseguido 4 deputados — os mesmo que o Livre, partido de um homem só sem meios nem estrutura.

Infelizmente, o peso dos 103 anos de história do partido não funciona como força que atrai esperança nos amanhãs que cantam. É antes o peso da inércia, do anquilosamento, do sectarismo.

Poderia ser diferente? Exemplos europeus mostram que não, que a renúncia à ortodoxia sagrada conduz ao abandono da fé. Mas não será impossível, não se vislumbra é com quem.

Apogeu da Operação Influencer

A Operação Influencer iniciou-se em 7 de Novembro de 2023. Cinco pessoas foram detidas numa investigação a actos governativos e autárquicos de eventual corrupção, um ministro foi nomeado suspeito formal e o primeiro-ministro ficou sujeito a uma investigação separada pelo Supremo Tribunal de Justiça. Desta situação judicial resultou o pedido de demissão de António Costa, a dissolução da Assembleia da República e a marcação de eleições.

A três dias da ida às urnas, o Presidente da República voltou a utilizar a jornaleira Ângela Silva (portanto, o Expresso e a SIC, assim alcançando toda a comunicação social) para anunciar que iria impedir o Chega de entrar num Governo da AD, mesmo numa eventual substituição de Montenegro em quadro de maioria AD + Chega. Dessa forma, Marcelo comunicou directamente com os indecisos de direita e de esquerda, no calendário mais eficaz para os influenciar: na véspera de irem votar. Aos de direita hesitantes entre Chega e AD, garantiu-lhes que só o voto na AD faria sentido caso quisessem afastar o PS da governação. Aos de esquerda hesitantes entre o PS e as diversas alternativas, garantiu-lhes que não se justificava o voto útil nos socialistas visto o papão do Chega no Governo estar afastado.

Um tipo que se limite a saber o que foi tornado público acerca da Operação Influencer arrisca-se a saber tanto como os procuradores à frente da investigação: que não há sequer indícios de crime. O cenário de ter sido tudo uma mistela de incompetência e justicialismo do Ministério Público tem altíssima probabilidade de ser apenas a versão mais benigna do que se passou.

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