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Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Calúnia de referência

«Ora, é aqui que é fundamental a memória. É essencial que o país e as pessoas que nele habitam não esqueçam o que são as imparidades, por que razão existiram e quem são os seus responsáveis. Fruto da promiscuidade que assolou durante anos a fio as relações entre os responsáveis políticos e empresariais, nomeadamente do sector bancário, a CGD – assim como bancos portugueses privados – foi o cofre de onde foi desviado dinheiro para crédito malparado, ou seja, que nunca foi possível nem será resgatar. Dinheiro emprestado a “amigos”, numa política de gestão facilitista que é claramente uma gestão de favoritismo e de falta de rigor a que estavam obrigados os seus administradores. E convém não esquecer que, no caso da CGD, há responsáveis com nome próprio, por exemplo Santos Ferreira e Armando Vara.»


São José Almeida

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Esta jornalista sabe que Santos Ferreira e Armando Vara são responsáveis pelas “imparidades” da CGD porque eram agentes da “promiscuidade” entre os “responsáveis políticos e empresariais”. E até sabe que a CGD emprestava dinheiro a «”amigos”», fazendo uma gestão “facilitista”, de “favoritismo” e de “falta rigor”. Ficamos assim com a ideia de que a senhora está muito bem informada sobre a CGD. Se não estivesse, não teria a lata de inventar estas causalidades e este descritivo. E, estando tão bem informada, a conclusão é a de que São José Almeida está pronta para ajudar as autoridades a apanhar pelo menos dois bandidos que identifica sem margem para grandes dúvidas. É que elas, as autoridades, ainda não o conseguiram fazer apesar do apoio dedicado, mesmo apaixonado, da “imprensa de referência”.

Eis o que nunca veremos esta caluniadora profissional a fazer:

– Identificar em que ano começaram na CGD a promiscuidade, o facilitismo e o favoritismo.
– Explicar exactamente como é que Santos Ferreira e Armando Vara fizeram o que ela garante que fizeram.
– Parar um minuto para pensar no volume das suas difamações e calúnias num exercício sistemático (o conjunto dos seus textos de opinião) onde nunca vai além do tiro ao alvo, nada demonstrando, nada concretizando.

Alinháceos

Criei agora este neologismo para designar as aves da capoeira que desde ontem cacarejam freneticamente para que o governo português alinhe com os nossos aliados e expulse imediatamente diplomatas russos.

Paulo Rangel e Fernando Negrão são os primeiros a merecer o crisma de alinháceos. Para eles, alinhar com a histeria de Teresa May é um dever patriótico de todo o bom português. Pensar, reflectir, usar de prudência, ponderar os nossos interesses de país independente é antipatriótico e indigno. Alinhar é que é baril — nem que seja alinhar com o MI-6, o serviço de espionagem de sua majestade.

É caso para o PSD apresentar rapidamente uma proposta de lei para a alteração do hino nacional. Onde originalmente estava, pela pena de Henrique Lopes de Mendonça, contra os bretões, marchar, marchar, que depois a República oportunista amansou para contra os canhões, marchar, marchar, espera-se que o PSD de Rangel e Negrão proponha agora pelos bretões, alinhar, alinhar.

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P.S. 1: Não faço a mínima ideia se Putin mandou envenenar aquele agente duplo russo que foi parar ao hospital. Quanto ao governo de Teresa May, penso que das duas, uma: ou também não faz a mínima ideia quem foi, mas convém-lhe enormemente que tenha sido o Putin, ou sabe perfeitamente quem foi, mas nunca o confessará. Num caso como no outro, o lema de Rangel e Negrão de “alinhar com os nossos aliados” é imbecil. Que é que Portugal tem que ver com essas merdas de espiões ingleses e agentes duplos russos?

P.S. 2: Lembre-se que a mais recente invenção da direita inglesa contra o popular líder trabalhista Jeremy Corbyn foi acusá-lo de ter sido colaborador dos serviços secretos da Checoslováquia comunista. O jornal Independent publicou sobre isso há um mês uma reportagem hilariante, recordando a velha história de acusações falsas com que a imprensa de direita britânica (quase toda a imprensa britânica!) sempre tentou difamar os dirigentes trabalhistas insinuando a sua ligação ao Kremlin. Depois de Harold Wilson, também Michael Foot e Neil Kinnock foram alvo dessas acusações porcas, vindas de gente ligada aos serviços secretos britânicos e disseminadas pelos jornais do costume. Assim, não me custa nada imaginar que por detrás da actual histeria de Teresa May esteja simplesmente um plano cozinhado por ela e pelo MI-6 para atacar a popularidade de Corbyn. Desde as últimas eleições, os conservadores ingleses estão mesmo assustados com a perspectiva de uma próxima vitória trabalhista.

P.S. 3: E porque é que foram Rangel e Negrão a cacarejar pela cor laranja? Não há galo naquela capoeira?

Eixo da Chinela

No último Eixo do Mal, ouve-se Clara Ferreira Alves a estabelecer um nexo entre a vida privada de Sócrates, com avultados fluxos de dinheiro pelo próprio descritos como empréstimos, e a “bancarrota” a que ele nos levou na sua douta opinião. Mais à frente, depois de ter sido tratada como crassa ignorante em Economia por Daniel Oliveira e Pedro Marques Lopes, disse que Sócrates passou “muito tempo a tentar fingir, ou a tentar deter, aquilo que era inevitável, e que conduz depois à guerra com Teixeira dos Santos“, e outras enormidades do mesmo calibre desmiolado à mistura com contradições em catadupa, a outrance, sobre o conceito de bancarrota. A suprema ironia que esta triste figura conseguiu provocar resulta de ter estado nos minutos iniciais do programa a fustigar os velhadas políticos, como Marques Mendes e Santana Lopes entre outros, que continuam por aí a comentar cheios de “vícios” em vez de se ir buscar sangue novo. Na petulância displicente com que varria os colegas do comentariado, o chinelo foi-lhe parar ao folclore queirosiano, polvilhado com Camilo, para satisfação do seu vício de épater les bourgessos. Se existisse uma ASAE especializada no âmbito da segurança intelectual e da fiscalização cognitiva, a senhora e o estabelecimento seriam inevitável e pesadamente multados dada a putrefacção dos ingredientes servidos aos clientes.

O Daniel esteve bem ao ensaiar uma crítica dos factores moralistas que explicam as deturpações que enchem o espaço público quando o tema é Sócrates e os idos de Março de 2011. Tudo o que disse a esse respeito é mera banalidade, mas a comunicação social está de tal modo intoxicada pela narrativa dos direitolas que até dá para fazer este tipo de brilharetes. Infelizmente, também a ele o chinelo escorregou para a deturpação, acabando a culpar a vítima. Desmontar a falácia do seu argumento é canja: antes de a Operação Marquês ter sido lançada publicamente passaram-se vários anos em que não se podia ir buscar matérias judiciais e éticas, agora estabelecidas como factos, para a confusão entre as dimensões políticas e económicas da sua governação e a dimensão da sua vida privada. E a que assistimos? Por um lado, desde 2004, a continuadas campanhas de assassinato de carácter. Por outro lado, em 2011, ao triunfo implacável dos traidores que viram na crise económica internacional a oportunidade suprema para alcançarem o poder governativo, triunfo só possível por contarem com a cegueira sectária da esquerda também então traidora do que, e de quem, alegava representar. De ambos os lados da traição, o discurso moralista foi usado caudalosa e obsessivamente. Sócrates, apesar de ter conseguido um acordo de financiamento que evitava o resgate e sua destruição, tinha de cair porque gastava de mais, porque gastava de menos, porque gastava ali em vez de acolá. Se o Daniel se recordar desse Daniel Oliveira de 2011, então a sua memória não o enganará: não era outra coisa senão um moralista.

Pedro Marques Lopes esteve igualmente bem ao apontar aos trafulhas da “bancarrota”. E igualmente nele vimos a chinela do preconceito a encher o ecrã. Ao estabelecer a conexão entre as questões políticas e as pessoas dos políticos, de imediato saltamos para a sua própria e admirável pessoa. Como é que conseguiu ser um público apoiante de Cavaco em 2011 depois do que viu tal pessoa ter feito na “Inventona das Escutas”? Como é que ele foi um público e entusiasmado apoiante de Passos em 2011 ao mesmo tempo que o viu a mentir desenfreadamente, já para não falar no afundanço do País com o chumbo do PEC, cujo exclusivo propósito se esgotava na agenda da oligarquia, do PSD e do próprio Passos? Apesar disso, o Pedro tem o mérito de muito rapidamente ter assumido os seus erros eleitorais, passando a ser uma voz de referência para quem prefere a decência ao ódio.

Luís Pedro Nunes foi a grande surpresa desta edição. Conseguiu falar de Sócrates sem espumar e guardou as chinelas na mochila. O que disse recomenda-se, não havendo lembrança de tal na matéria em causa.

E o Aurélio? É também um chineleiro. Que passa entre as gotas da chuva.

Rio, intuição ou estratégia?

Depois da novidade histórica que consistiu no apoio parlamentar dado pelo PCP e BE a um Governo socialista minoritário, anulando nesse passe de mágica a cultura de sectarismo que tinha feito a lei e a prática desde 1974 na esquerda “pura e verdadeira”, Rui Rio está também a protagonizar uma novidade que poderá igualmente inscrever-se na História. Por agora, ela inscreve-se apenas no tumulto com que a direita decadente reage à sua liderança do PSD.

A direita decadente, aquela direita que apenas procura o poder pelo poder ou que se fanatizou (duas tribos que vivem em natural simbiose), é também decadente por causa do império de que desfruta na comunicação social. De tão mimados estão completamente estragados, sendo um coio de medíocres. E que fazem os medíocres? Procuram as soluções medianas, aquelas que de tão batidas, tão banais, são fáceis e não parecem arriscadas. A competência dos decadentes mede-se pela capacidade de escolherem as melhores soluções para os seus interesses dentro do grupo das piores soluções. Rio apareceu com aquilo que se poderá vir a comprovar como uma das piores estratégias à sua disposição, mas entretanto já podemos reconhecer que ele rompeu com os decadentes ao procurar propostas políticas dentro do grupo das melhores soluções.

Quando, em plena campanha eleitoral para o partido, se lembrou de criticar Joana Marques Vidal e o Ministério Público por causa do deboche do segredo de justiça e da ineficácia de algumas investigações, uma onda de espanto atravessou essa mole que envolve deputados, vedetas do partido, jornalistas e publicistas decadentes. E quando, em coerência com a coragem demonstrada em campanha, foi buscar Elina Fraga para a sua equipa dirigente, isso equivaleu a ter ido meter a cabeça no vespeiro e lá ter ficado de olhos e boca aberta. Não sabemos, ou talvez eu seja o único a não saber, se a escolha de JMV como alvo nasceu de uma intuição, tão-só faro e manha para o escândalo como meio de notoriedade, ou se é plano nascido de crenças ou objectivos, o que faria dessa flamejante bandeira uma estratégia. Sabemos é que os decadentes estão em campanha para fazerem de JMV um trunfo político, aconteça o que acontecer no final do seu mandato. Se for renovado, irão celebrar uma vitória, fazendo dessa anomalia (à luz dos critérios para os últimos PGR) a prova de que a salvação do regime depende de uma certa orientação política no MP, a deles. Se não for renovado, irão igualmente celebrar, ainda mais esfuziantes, pois poderão voltar ao berreiro de estarem cercados pelos socialistas corruptos e o regime ter sido outra vez tomado pelos diabólicos socráticos. Rio não se limitou à demarcação desta sistemática degradação da contenda política e do espaço público, ele assumiu o combate contra ela, o que choca com o posicionamento do partido nos últimos 10 anos. E isto abre espaço para uma fascinante questão: saberá o homem no que se meteu?

Se não souber, terá sido apenas um caso de intuição e soberba, e iremos assistir a correcções de rumo ao longo do tempo, para tudo se desvanecer em nada num futuro próximo. Tem interesse psicológico mas não estimula qualquer reflexão no campo da ciência política. Se souber, se tiver antecipado as consequências e tiver traçado um rumo que implique tal confronto com a subterrânea e criminosa máquina mediática/judicial dos decadentes, então será um inaudito caso de estratégia. Este termo tem vários significados, sendo usualmente tomado como sinónimo de “plano”. No domínio da comunicação comercial, a estratégia passa inevitavelmente por ser um “posicionamento” de uma dada marca. No caso, Rio defronta-se com um posicionamento da direita portuguesa desde 2008 onde a judicialização da política e a politização da Justiça foram a principal arma de arremesso contra o PS. A mancha dos títulos e dos operacionais da opinião na imprensa assim o demonstra. Esta solução foi escolhida por ser a calúnia um modelo de ataque político que acompanha o próprio nascimento da democracia na Grécia. Corresponde a um impulso universal e incontrolável para destruir o adversário destruindo a sua credibilidade e poder de atracção, o seu nome e imagem. Só que a calúnia, podendo aparecer como a melhor solução num dado contexto para certos agentes, tem como limite pertencer ao grupo das piores soluções políticas à disposição das comunidades. Quando tem sucesso, apenas consegue derrubar um opositor, não cria qualquer relação com o acrescento de melhorias para as populações atingidas pela manobra. É uma escolha decadente, portanto. O grupo das melhores soluções políticas não admite calúnias, nem golpadas de qualquer espécie. A disputa política corresponde aqui ao esforço de utilizar a inteligência e a coragem para se vencer os adversários graças à qualidade das propostas e suas promessas de melhoria da vida das populações. O sentimento de comunidade fica integralmente protegido, nunca se tratando os adversários como inimigos. Neste terreno, a retórica bélica, o moralismo hipócrita e a difamação maníaca não se valorizam como características tribunícias; pelo contrário, ficam como a expressão de uma incapacidade, uma menoridade política e cívica. Isto liga-se com o que Rio parece estar a fazer.

A disposição para negociar com o Governo e com o PS, as declarações de apoio a posições institucionais de Portugal e a indiferença com que sofre diários ataques da direita e da classe jornalística por não estar a “fazer oposição” serão uma brilhante estratégia se continuarem e forem levados até ao limite do seu potencial. Ao contrário de Trump que aproveitou a voragem mediática para criar um nevoeiro de guerra favorável à sua imagem e ainda encobridor da imagem de Clinton, aqui neste jardim peninsular a lógica deve ser outra. O berreiro do império mediático dos decadentes poderá ser o vento que enfuna a sua vela. Rio, para ficar na História, não tem de vencer Costa, pois para tal inúmeros factores que não controla contam. Entrará seguramente na História, todavia, se resgatar o PSD, e a direita portuguesa de arrasto, da decadência onde chafurda boçal e violenta. O silêncio que tanto frustra os jornaleiros, os quais vivem de doses diárias e horárias de palha misturada com bosta, e que os decadentes adoram para mostrar as favolas, pode levar a sua marca para uma posição onde cada intervenção sua irá ganhando crescente importância. Importância essa potenciada pela atitude de sentido de Estado e serviço à comunidade que for exibindo. É precisamente o banzé dos decadentes que lhe oferece as condições para deslocar as percepções da sociedade e do eleitorado em direcção ao ponto em que, chegado o processo de escolher um partido que represente a segurança e a prosperidade para sempre ambicionadas, o PSD de Rio possa estar completamente credibilizado. Um partido que honre o seu passado naquilo em que ele foi um fruto de Abril e um instrumento da construção do Portugal onde queremos ser.

Revolution through evolution

Gendered Stereotypes Can Penalize Women for Having Good Grades
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Female CEOs Frequently Face Subtler Bias
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We start caring about our reputations as early as kindergarten
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Why it’s hard for democracies to erase wealth disparities
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How reciprocity can magnify inequality
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Volcanic eruption influenced Iceland’s conversion to Christianity
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Children of centenarians feel stronger purpose in life
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Política de terra queimada

Há muito se percebeu que a direita demagógica e incendiária se prepara para jogar forte, se não tudo, na questão dos incêndios. Basta ler o Expresso de hoje, onde se declara solenemente que o “futuro do governo” (eleições de 2019) depende do “êxito ou fracasso na luta contra os fogos”.

Segundo esta visão irresponsável do problema dos incêndios, é tudo uma questão da eficácia da “luta” que este governo lhe der. Em vez da anterior visão dos fogos florestais como desastre de raiz ordenamental, climatérica e demográfica, tenta agora impor-se a tese imbecil de que, se em 2018 houver fogos, a culpa será deste governo. A direita desesperada encara a coisa como um maná político, pois parece que não tem mais nada por onde pegar.

Para já, vai preparando o terreno: todas as medidas que o governo toma são estimadas como insuficientes, atrasadas ou inadequadas (veja-se o Expresso de hoje). Depois dirá que tinha avisado. Assim, bastará haver fogos este ano para se “provar” que tinha razão.

Se, porém, houver poucos fogos em 2018, a marosca irá pelo cano abaixo. Resta à direita rezar para que haja mais incêndios ou, quiçá, dar uma ajudinha. Bora atear incêndios para deitar o governo abaixo?

O CDS “moderno” – a sério?

O CDS adotou uma estratégia que poderá ter algum sucesso (para além da estratégia, o PSD está como se sabe).
Assunção Cristas afirmou-se como líder no seu Partido, sem se prestar a ser sombra de Paulo Portas, é jovem e é mulher.
Optou por apostar no “pragmatismo”, isto é, optou por renegar à ideologia para fins eleitorais.
Por quê? Porque a líder do CDS sabe que há um eleitorado flutuante – que vai da direita ao BE – que, precisamente, não é ideológico.
Assim, junta tudo no seu projeto de “pesca de votos a qualquer custo”: democracia-cristã; a direita de sacristia que está lá, mas que Cristas não evidencia; e, finalmente, as caras da “modernidade”.
Como o meu amigo Adolfo Mesquita Nunes: jovem, inteligente, liberal, com um historial de defesa, no Parlamento, com o seu voto, de todas as causas LGBT (e uma estranha abstenção em matéria de PMA para todas as mulheres).
O Adolfo tem um discurso fluente e com a técnica da advocacia toda nele. Consegue ser um defensor histórico da IVG (contra Cristas) e agora, como dirigente do CDS, acompanhar a rejeição da eutanásia, mas com o truque de o fazer com apelo à “liberdade negativa”.
O truque é fácil de desmontar, mas não o vou fazer aqui. Fica para outro texto.
A verdade é que consigo detetar a tática do CDS e, por isso, vejo ali o que sempre esteve.
Assunção Cristas pode ter deixado de falar no aborto, mas deve-se a ela, e a muita gente, a luta pela penalização da pobreza.
Deve-se ao CDS e ao PSD a escandalosa aliança com o grupo mais reacionário do país quando, em 2015, reverteram a lei da IVG.
O CDS continua a ser vincadamente contra todos os direitos das pessoas LGBT.
Todos.
De nada serve ter na sua liderança o Adolfo, porque há um diário da luta do CDS contra a igualdade, nas uniões de facto, passando pelo casamento igualitário, pela adoção, pela PMA e, nas próximas semanas, pela população trans.
O CDS continua a albergar gente que defende a “terapia gay”, gente que Cristas integrou na sua equipa (“moderna”, claro) na corrida à CML de Lisboa.
Cristas nunca desmentiu os fanáticos que dizem falar como gente do CDS.
Pelo contrário: contou com eles.
Conta com eles.
E com o Adolfo.
Esperta, não é?
De repente parece que não foi ministra de um Governo que nos convidou à decadência moral e social, todo um feito. Até se preocupa com o “interior”, imagine-se.
Mas tenho memória.
E tenho apego pela ideologia.
Cristas pode usar do pragmatismo, da aliança de tudo e do seu contrário, da semântica em tom doce que visa assustar o país (esquerdas unidas, radicais e encostadas, vai mudando).
Cristas pode continuar a ser uma populista descarada, apresentando projetos ignóbeis, mas que “enganam” ao ouvido (criminalização do abandono de iodos), reagindo a cada notícia com o dedo em riste e lendo relatórios de 300 páginas em dois segundos para culpar o Governo.
Sei o que é o CDS.
O Adolfo não o muda. Convive com o reacionarismo do seu próprio partido. É com ele.
Sei que nada há de moderno no CDS de Cristas. Está lá a direita de sempre.
Há uma novidade: a tática para apanhar o leitorado não ideológico e a excelente cobertura mediática de que o pequeno Partido goza.

Um que perdeu o pio

O catedrático de Direito e ex-consultor de Cavaco que em Outubro de 2015 alertava para o despautério de Portugal poder ser governado por “uma estranha aliança de derrotados” — e que também achava que o PR deveria poder dissolver o parlamento em qualquer momento do seu mandato — parece que perdeu o pio. Carlos Blanco de Morais só tem escrito sobre questões internacionais ou então sobre as lutas no seio do seu partido, o PSD, onde recentemente se atrelou a Rui Rio. Não diz uma palavra sobre o tal estranho governo de derrotados e “marxistas”.

Estará engasgado ou mudou de opinião?

Na prática, 80% dos incêndios de Outubro tiveram causas intencionais

O DN faz um resumo do relatório independente sobre os incêndios de Outubro do ano passado. A páginas tantas, lê-se que  “em termos de grandes grupos de causas (…) 40% tiveram origem em reacendimentos, 40% em causas intencionais e 20% em negligentes“.

Portanto, 20% deveram-se a comportamentos negligentes, como os da EDP ou queimadas irresponsáveis, mas 40% foram o resultado de crimes premeditados. E o mais extraordinário é que os outros 40%, segundo o relatório, foram reacendimentos. Em lado nenhum se fala do efeito da incidência dos raios solares (“nas margaridas”) ou da formação espontânea de chamas. Ou seja, em 40% dos incêndios houve alguém que quis provocar tragédias intencionalmente e conseguiu, e os 40% restantes foram reacendimentos dos primeiros 40% intencionais, depois de terem sido dados como extintos. Podemos, assim, afirmar que 80% dos incêndios foram propositados, se incluirmos os que foram consequência dos ateamentos iniciais.

Parece-me muito esclarecedor e sobretudo muito grave e implica sem qualquer dúvida que se enverede por um discurso diferente sobre os incêndios, que comece por não omitir este dado importantíssimo e acabe a falar de vigilância local e familiar e de penas pesadas para os criminosos. Há pessoas que não se importam de atear fogos apenas pelo prazer de ver tudo a arder e famílias em pânico, algumas das quais acabam mortas. E assim temos hectares e hectares de floresta ardida e centenas de vidas destruídas por crimes que não só não foram evitados ou sequer mencionada a sua possibilidade em alertas, como também nem sempre são devida e exemplarmente punidos. Resta a questão de saber quantos dos incêndios intencionais, se é que alguns, foram ateados com fins políticos. Morreremos na ignorância? (Eu sei que está lá dito o seguinte: “Os elementos da comissão técnica admitem que as causas intencionais “são as que apresentam maior dificuldade na compreensão e na antecipação, por não ser conhecido o seu móbil, exceto posteriormente, se capturado e obtida confissão dos autores“.  Pois capturem-nos!)

Que a floresta estava seca e a esmagadora maioria das matas (mas nem todas) por limpar é uma verdade incontestável. E que esse facto, aliado aos fenómenos meteorológicos extremos, facilitou a propagação das chamas e a dificuldade em apagá-las também não suscita dúvidas a ninguém. Assim como o dever permanente e eterno de melhorar a coordenação, a organização e o emprego dos meios de combate para estancar a devastação. Mas também é verdade que a intenção de provocar danos – materiais e/ou políticos – não pode estar ausente dos discursos nem do apuramento de responsabilidades. Este crime não pode ser “normalizado” nem esquecido como se fosse uma inevitabilidade.

Grande sorte ter descoberto este bacano

Eis algumas das razões que te vão deixar com um desejo indomável de ver o vídeo abaixo:

– O orador, Robert Frank, é alguém que já esteve morto antes de fazer esta palestra.

– Podemos ver um trecho, envolto num efeito sonoro marado que o torna quase insuportável, de uma conversa sua com um talibã da Fox News que vale cada segundo.

– Recorrendo a materiais gráficos primários, o nosso Bob conseguiu criar o argumento mais espectacularmente frisante acerca do que é uma política fiscal ao serviço do bem comum.

– É, ou foi, um praticante amalucado de windsurf.

– É um fã da melhor série televisiva de sempre (desculpa lá esta verdade, “Sopranos”).

– Tem a coragem de colocar a Mona Lisa no seu devido lugar.

– O que ele demonstra acerca da influência da sorte no destino individual é não só iluminativo como epifânico.

– O tempo acelera à medida que fala, fazendo com que termine o paleio parecendo que ainda estávamos só na introdução.

– Podes ligar as legendas automáticas, o que muito ajuda no entendimento e ainda tem o bónus de gerar disparates hilariantes na transcrição.

– A parte das perguntas da assistência é quase tão boa como o resto, e isto quase nunca acontece. Que sorte.

O que é um jornal?

A escolha de Ferreira Fernandes para director do Diário de Notícias é uma surpresa na história recente do título (pelo menos) e, quiçá, para a própria imprensa escrita portuguesa. Tal deve-se ao seu perfil de cronista, cuja marca distintiva se encontra na exaltação humanista dos temas tratados, invariavelmente servidos por um estilo de escrita cuja elegância delicada e eficácia literária não conhece rival na actualidade. Qual será a influência dessa sensibilidade, e dessa ética, nas decisões de carácter editorial que ficarão à sua responsabilidade?

Tenho a vantagem de não saber nada de nadinha de nada acerca da saída de Paulo Baldaia e da escolha do FF pela administração do jornal. Assim, ignoro se a sua posição será apenas decorativa ou se se espera que ele desenhe decisivamente o futuro imediato e de médio prazo de um órgão em graves apuros financeiros e de popularidade. O que sei remete para a minha experiência de leitor distraído e avulso. Consigo definir o tempo de João Marcelino como intriguista e sectário, tendo sido um aliado da subida de Passos ao poder no PSD e nas eleições de 2011. É ver quem eram os jornalistas e comentadores que faziam parte da “brigada laranja” do Marcelino e o que lhes aconteceu depois, isto se não se quiser perder tempo a analisar a forma ostensiva como assumiam editorialmente a sua agenda política. Consigo descrever o tempo de André Macedo como convencional e inconsequente, um falhanço estratégico nascido da errada formulação do problema: a concorrência não era o “Público”; era, e é, o esgoto a céu aberto. E consigo dizer que o tempo do Baldaia começou bem, com o chuto dado ao odiento Alberto Gonçalves, mas que depois patinou na indecisão estratégica de fundo (como agora se soube) e numa decadência opinativa onde a paixão política e sensacionalista, embrulhada na funesta soberba dos árbitros de bancada, tomou conta dos editoriais e quejandos a propósito dos incêndios, de Tancos e de Marcelo. Não faço a menor ideia do que se vai seguir com a dupla FF e Catarina Carvalho, podendo a encomenda ser mesmo a de fazerem a transição de diário para semanário em papel, a tal que o Baldaia não conseguiu (ou quis) realizar por razões que ignoro.

Os jornais em papel foram, até ao aparecimento da Internet, a melhor forma de consumir informação e reflexão quotidianas. A promessa, então cumprida, era a de acrescentar inteligência geral e especializada à inteligência empírica e individual de cada leitor. Até agora, que tenha notado, a crise resultante da ubiquidade e gratuitidade das fontes de informação digitais ainda não foi resolvida por ninguém na imprensa tradicional e profissional. Como em qualquer outra mudança de paradigma, vem o terramoto e suas inúmeras derrocadas e causalidades. Mas depois vem a fase da reconstrução. No campo dos conteúdos televisivos de entretenimento, a fórmula Netxflix aí está a mostrar como novas tecnologias geram novas formas de consumo adentro da mesma necessidade de fruição. Continuamos a querer ver televisão, a mergulhar na ficção, a definir a nossa identidade de acordo com os mundos paralelos da criatividade mediatizada. Para os jornais, a configuração do problema é análoga: continuamos a querer ser mais inteligentes, continuamos à procura de exemplos de liberdade e coragem para escolher e moldarmos o nosso destino.

Que belo, exaltante, desafio.

Revolution through evolution

Do Your Share: Perception of Fair Division of Housework Linked to Better Sex Among Married Individuals in Midlife
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While A Candidate’s Voice Pitch Sways Voters, It Doesn’t Result in Better Leaders
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