Alinháceos

Criei agora este neologismo para designar as aves da capoeira que desde ontem cacarejam freneticamente para que o governo português alinhe com os nossos aliados e expulse imediatamente diplomatas russos.

Paulo Rangel e Fernando Negrão são os primeiros a merecer o crisma de alinháceos. Para eles, alinhar com a histeria de Teresa May é um dever patriótico de todo o bom português. Pensar, reflectir, usar de prudência, ponderar os nossos interesses de país independente é antipatriótico e indigno. Alinhar é que é baril — nem que seja alinhar com o MI-6, o serviço de espionagem de sua majestade.

É caso para o PSD apresentar rapidamente uma proposta de lei para a alteração do hino nacional. Onde originalmente estava, pela pena de Henrique Lopes de Mendonça, contra os bretões, marchar, marchar, que depois a República oportunista amansou para contra os canhões, marchar, marchar, espera-se que o PSD de Rangel e Negrão proponha agora pelos bretões, alinhar, alinhar.

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P.S. 1: Não faço a mínima ideia se Putin mandou envenenar aquele agente duplo russo que foi parar ao hospital. Quanto ao governo de Teresa May, penso que das duas, uma: ou também não faz a mínima ideia quem foi, mas convém-lhe enormemente que tenha sido o Putin, ou sabe perfeitamente quem foi, mas nunca o confessará. Num caso como no outro, o lema de Rangel e Negrão de “alinhar com os nossos aliados” é imbecil. Que é que Portugal tem que ver com essas merdas de espiões ingleses e agentes duplos russos?

P.S. 2: Lembre-se que a mais recente invenção da direita inglesa contra o popular líder trabalhista Jeremy Corbyn foi acusá-lo de ter sido colaborador dos serviços secretos da Checoslováquia comunista. O jornal Independent publicou sobre isso há um mês uma reportagem hilariante, recordando a velha história de acusações falsas com que a imprensa de direita britânica (quase toda a imprensa britânica!) sempre tentou difamar os dirigentes trabalhistas insinuando a sua ligação ao Kremlin. Depois de Harold Wilson, também Michael Foot e Neil Kinnock foram alvo dessas acusações porcas, vindas de gente ligada aos serviços secretos britânicos e disseminadas pelos jornais do costume. Assim, não me custa nada imaginar que por detrás da actual histeria de Teresa May esteja simplesmente um plano cozinhado por ela e pelo MI-6 para atacar a popularidade de Corbyn. Desde as últimas eleições, os conservadores ingleses estão mesmo assustados com a perspectiva de uma próxima vitória trabalhista.

P.S. 3: E porque é que foram Rangel e Negrão a cacarejar pela cor laranja? Não há galo naquela capoeira?

18 thoughts on “Alinháceos”

  1. desta vez alinho consigo , Júlio :) parece que o Putin é o anticristo , coitado , não deve fazer um décimo do que a propaganda diz.

  2. “Que é que Portugal tem que ver com essas merdas de espiões ingleses e agentes duplos russos?”
    Nada!!! Se alguém usou agentes químicos (será?) em Inglaterra o problema é deles. Não foi cá …

  3. Exactamente, anónimo. O problema é rigorosamente dos serviços secretos ingleses, americanos e russos, todos grandes peritos no uso de “agentes químicos”. Por mim, que se fodam todos.

    Neste caso nem há vítima mortal nem ninguém sabe nada, ao certo, sobre a autoria do envenenamento. Mas querem que acreditemos nas aldrabices da Teresa May. Dás para esse peditório? Sê feliz.

  4. Francamente, Júlio, no caso Sergei Skripal, não percebo as tuas dúvidas sobre a culpabilidade da Rússia e do Putin. Na ‘jurisprudência internacional’ (criei agora o conceito, uma espécie de pot pourri de diarreias sortidas, nomeadamente de alinháceos cacarejantes) surgiu, qual ovo de Colombo flamejante, um não menos novo conceito (a febre criadora não chegou só a ti e a mim). É um conceito milagroso, que dispensa provas, julgamentos e outros preceitos e conceitos, serôdios e ultrapassados, como o famigerado ‘in dubio pro reo’, e dá pela graça de ‘altamente provável’ culpabilidade. No altamente excitante cacarejar de D. Theresa-à-rasca-com-o-Brexit-May, o maravilhoso ‘highly likely’, garantia de gigantescas poupanças futuras na administração ocidental da justiça, que lhe valerá, se em Oslo e Estocolmo não andarem distraídos, o próximo Nobel da Alquimia.

    Vejamos: o bendito Skripal foi preso em 2004 na Rússia, quando se descobriu que se tinha vendido ao MI6 britânico. Foi julgado em 2006, logicamente ainda na Rússia, condenado por alta traição a 13 anos de prisão, que começou a cumprir igualmente na Rússia, até que, em 2010, foi solto pela mesmíssima Rússia numa troca de espiões com os EUA. É absolutamente evidente que, tendo estado à mercê dos russos, com o diabólico Vladimir Putin à cabeça, durante uma carrada de anos, enquanto preso, só não o mataram por absoluta distracção e estupidez. Coisa de russos, topas? E só essa absoluta distracção e estupidez explicam que apenas em 2018, oito anos depois de o mandarem em paz e liberdade, se tenham finalmente lembrado de que, calhando, era capaz de ser boa ideia limpar-lhe o sebo, lá na casa do caralho mais velho onde ele estava agora. E ideia ainda melhor seria limpar-lhe o sebo com uma arma que identificasse imediatamente o limpador, topas? Que, dentro dessa lógica inatacável, tenham deixado no local do crime a dita arma cheiinha de impressões digitais, acompanhada por um cartão a assumir a culpa, com assinatura reconhecida e tudo, para imediatamente a seguir, inevitavelmente descobertos, negarem a autoria da assinatura, estava a tinta ainda fresquinha, explica-se do mesmo modo: coisa de russos, topas? Assim a modos que escorpião da anedota, não conseguem evitar. Fartinhos de saber que, sendo-lhes assacado o crime, lhes cairia toda a plastificada indignação ocidental em cima, inevitavelmente acompanhada de medidas altamente penalizadoras, nem assim aquele antro de lacraus resistiu, está-lhes na natureza, perversidade is their middle name!

    Francamente again, Júlio, o que esperavas tu da pérfida Moscóvia? A ponderação e bom senso de um Boris Johnson, um Donald Trump, um John Bolton, uma Killary Klingon ou outros altamente qualificados produtos destas nossas democráticas e ocidentais praias? É melhor esperares sentado!

  5. Quando a campanha é tão forte, retórica igual, acusação sem provas como a que destruiu o Iraque, euforia repetitiva contra a Grande Rússia, ciar de motivo saloio para boicote “diplomático” ao Campeonato do Mundo de Futebol, a racionalidade e informação disponível adota directo :
    ALINHÁCEOS.
    Retórica kakarejante associando a Grande Rússia Capitalista à esquerda mostra excitação em querer matar todos os medos duma bafienta aliança da kakarejo e agressão comprovada.
    O Global da comunicação ALINHÁCEA mata a Verdadeira Política.
    O rangel dá volta ao estômago de tão faccioso.
    Vergonha Global esta guerra fria dum Ocidente no Ocaso da política decente.

    PORTUGAL brilha na sua distância inteligente e SOBERANA.

  6. “SOLIDARIEDADE” com UK porquê?
    Foi alvo de alguma desfeita ao reino? Foi atacada? Um ex-espião russo e neta foram envenenados em casa, em Londres onde viviam? Quem foi quem não foi…???? nada provado e con tinuo a não perceber em que é que UK necessita de solidariedade. Portugueses emigrantes foram mortos (um de cada vez) em diferentes países da UE, na África do Sul, na Argentina todos de forma violenta por cidadãos desses países. Isto sim! Exige solidariedade com Portugal e os portugueses perseguidos e mortos. E se foi por ordem de Putin ou não …olhem vai ser como o asssasdinato de Kennedy. Pq a o tóxico foi inicialmente desenvolvido pelos russos? E que ninguem tem a fórmula? Mas solidariedade com UK POR ALMA DE QUEM?

  7. Concordo plenamente com o manguito aos bifes.
    Eles já nos “isolaram” muitas vezes,
    Nem que fiquemos novamente “orgulhosamente sós”.
    Os bifes sempre fizeram patifarias e nos abandonaram na hora H.
    Quando lhes dava jeito, apoiavam-nos, caso invasão do Napoleão, mas logo que este se foi embora, não lutaram por nós diplomaticamente com o caso de Olivença.
    Novamente com o caso do Mapa-cor-de-rosa.
    Novamente no caso de Goa, quando Haia nos dava razão, os bifes fizeram-nos o manguito.

  8. Só não acreditam na autoria russa do envenenamento do ex-espião os ultracépticos que teimam em negar a realidade indesmentível de que, quando as galinhas têm dentes, saem os pintos carecas. Como se atrevem?! A similitude entre as duas situações é, aliás, de tal ordem que tanto os calvos infantes galináceos como as suas pepsodênticas mãezinhas cacarejam em cirílico. Eu nunca ouvi, mas disse-me há tempos um passarinho e ontem um passarão que a coisa é “highly likely”, pelo que quem duvidar não é bom chefe de família, come criancinhas ao pequeno-almoço e merece malhar com os cornos em Guantánamo.

  9. Camacho: eu não acredito nem deixo de acreditar na mãozinha de Putin neste caso. Enquanto não houver provas fidedignas de que uma substância produzida na Rússia serviu para um envenenamento em Inglaterra, e que isso não poderia ter acontecido sem pelo menos o aval do governo russo, Portugal nem talvez devesse chamar o embaixador, quanto mais expulsar diplomatas. Corbyn, ainda que admitindo a possibilidade de origem russa do veneno, defendeu correctamente que a posição do governo do seu país não devia antecipar-se às provas (rush ahead of evidence), frase pela qual foi logo vilipendiado na imprensa de direita, que também exigem alinhamento canino ou galináceo com as teses de May. É claro como água que este caso está a ser explorado até ao tutano pelos conservadores para tentar descredibilizar e diminuir a popularidade do líder trabalhista, que em fevereiro passado foi miseravelmente acusado por um pasquim do Murdoch de ter fornecido informações a espiões comunistas. Portugal não tem nada que alinhar com manobras de propaganda e desinformação conservadora nem com presunções ditas “altamente prováveis”. Já fizemos triste figura quando o Barroso alinhou com a tese das armas de destruição maciça do Iraque.

  10. Ela, a personagem Rangel, continua cacarejando, completamente histérica.
    Quanto ao Negrão, tinha obrigação de ser mais inteligente.

  11. Amigo Júlio, pois eu não acredito mesmo, mas é que nem por um microssegundo! E tenho a certeza de que a Theresa May também não, nem o esgazeado Boris, o betinho Macron, o canastrão Stoltenberg da NATO, cuja confrangedora “representação” merecia um Razzie, ou qualquer outro dos ocidentais palhaços que têm acesso a muito mais informação sobre o assunto do que nós e fingem acreditar. Provocar uma crise internacional desta dimensão, com riscos evidentes de escalada incontrolável que pode mergulhar o planeta numa guerra nuclear, sem apresentar a mínima prova, apenas porque acham, ou afirmam achar, ser “highly likely” que a Rússia o tenha feito, é de uma irresponsabilidade total, absolutamente criminosa. “HIGHLY LIKELY”??? Mas que porra vem a ser essa? Está tudo doido?

    Os motivos do Governo May são evidentes. Primeiro, as negociações do Brexit estão a correr mal, o povo britânico apercebe-se disso e Theresa May e seu Governo estão em queda vertiginosa a nível interno. Nada melhor do que um papão externo, e o papão russo é o melhor dos melhores, para distrair o pagode e unir as hostes. Depois, com a jogada acreditam conseguir não apenas esta plastificada e fingida “solidariedade” ocidental mas sim concessões negociais no Brexit, agitando perante o resto da Europa a sua indubitável valia estratégica, nomeadamente a nível militar. É uma valia que agitam também freneticamente perante os olhos dos americanos, não vão eles esquecer a tremenda importância daquele gigantesco porta-aviões às portas da Rússia que as Ilhas Britânicas são.

    Não duvido que o Putin, se necessário for fazer barba e cabelo a um caramelo qualquer cuja existência prejudique gravemente os interesses da Rússia, seja capaz disso, mas podes ter a certeza de que nesse caso os indícios serão zero, menos ainda as “provas”. Teria o Putin de ser muito burro, mas mesmo muito muito burro, para mandar matar o Skripal com um “agente neurotóxico de nível militar” com uma letalidade dez vezes superior à do sarin, ou coisa que o valha, alegadamente produzido em exclusivo pela antiga URSS, afirmação que é ela própria uma mentira descarada, já que a fórmula é há muito do domínio público. Um dos criadores do famigerado Novichok, o cientista russo Vil Mirzayanov, presentemente a viver nos EUA, onde é professor universitário, escreveu um livro em que pespegou a bendita fórmula, que podes ver reproduzido aqui (até podes encomendá-lo!):

    https://www.amazon.com/Vil-S.-Mirzayanov/e/B0028S2QG8

    Como é que os britânicos poderiam ter identificado o químico, aliás, se não tivessem eles próprios conhecimento da fórmula? Não é esse conhecimento factor suficiente para a possibilidade da sua produção? Claro que pequenas variações podem contribuir para identificar o laboratório fabricante, e por isso os russos pediram uma amostra ao Reino Unido, ao abrigo das regras da Convenção para a Proibição das Armas Químicas. Os ingleses recusaram, o que é ilegal face à lei internacional. Porquê? O que têm a esconder?

    Este Vil Mirzayanov foi nos anos 90 preso e julgado na Rússia, ao que parece por ter denunciado a produção clandestina de agentes neurotóxicos (entre eles o Novichok) pelo seu país, mas foi posteriormente libertado e, como disse atrás, vive hoje nos EUA. E vê lá que os malandros dos russos também não o mataram, onde é que já se viu!? Aparentemente, não é um mercenário, um tipo que age apenas por dinheiro, o que fez foi denunciar o que considerava ser um comportamento errado do seu país. Aqui, na Euronews:

    https://www.youtube.com/watch?v=o1v3lVgJJYg

    E em 2009, a justificar a publicação do livro e da fórmula:

    https://www.youtube.com/watch?v=G9OOLBN0j7c

    Leonid Rink, outro russo que participou no programa de armas químicas da URSS e foi preso e julgado em 1995, na Rússia, por ter fornecido o veneno de aplicação militar usado para assassinar um banqueiro russo e a sua secretária, também tem coisas interessantes para dizer. Da Reuters:

    «Rink confessed to having secretly supplied a military-grade poison for cash that was used to murder a Russian banking magnate and his secretary in 1995. In a statement to investigators after his arrest, viewed by Reuters, Rink said he was in possession of poisons created as part of the chemical weapons program which he stored in his garage.»

    Tirado daqui:

    https://www.reuters.com/article/us-britain-russia-novichok-creator/soviet-era-scientist-says-he-helped-create-poison-in-uk-spy-attack-row-idUSKBN1GW1E1

    O russo atrás referido (Vil Mirzayanov) que vive nos EUA é professor universitário, trabalha, ganha a sua vida. O problema com os ex-espiões russos a viver no Reino Unido é que já foram úteis mas deixaram de o ser, e passaram a ser apenas um incómodo e uma despesa, porque recebem, como é sabido, uma subvenção do Governo de Sua Majestade (o Litvinenko, por exemplo, recebia à volta de dois mil euros). A sua morte matada é a maneira de se tornarem úteis ao Reino Unido uma última vez e deixarem definitivamente de ser um encargo, o resto são conversas da carochinha.

  12. Mais uma vez, aprende-se mais na caixa de comentários do Aspirina B do que em qualquer jornal do mainstream..

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