Na prática, 80% dos incêndios de Outubro tiveram causas intencionais

O DN faz um resumo do relatório independente sobre os incêndios de Outubro do ano passado. A páginas tantas, lê-se que  “em termos de grandes grupos de causas (…) 40% tiveram origem em reacendimentos, 40% em causas intencionais e 20% em negligentes“.

Portanto, 20% deveram-se a comportamentos negligentes, como os da EDP ou queimadas irresponsáveis, mas 40% foram o resultado de crimes premeditados. E o mais extraordinário é que os outros 40%, segundo o relatório, foram reacendimentos. Em lado nenhum se fala do efeito da incidência dos raios solares (“nas margaridas”) ou da formação espontânea de chamas. Ou seja, em 40% dos incêndios houve alguém que quis provocar tragédias intencionalmente e conseguiu, e os 40% restantes foram reacendimentos dos primeiros 40% intencionais, depois de terem sido dados como extintos. Podemos, assim, afirmar que 80% dos incêndios foram propositados, se incluirmos os que foram consequência dos ateamentos iniciais.

Parece-me muito esclarecedor e sobretudo muito grave e implica sem qualquer dúvida que se enverede por um discurso diferente sobre os incêndios, que comece por não omitir este dado importantíssimo e acabe a falar de vigilância local e familiar e de penas pesadas para os criminosos. Há pessoas que não se importam de atear fogos apenas pelo prazer de ver tudo a arder e famílias em pânico, algumas das quais acabam mortas. E assim temos hectares e hectares de floresta ardida e centenas de vidas destruídas por crimes que não só não foram evitados ou sequer mencionada a sua possibilidade em alertas, como também nem sempre são devida e exemplarmente punidos. Resta a questão de saber quantos dos incêndios intencionais, se é que alguns, foram ateados com fins políticos. Morreremos na ignorância? (Eu sei que está lá dito o seguinte: “Os elementos da comissão técnica admitem que as causas intencionais “são as que apresentam maior dificuldade na compreensão e na antecipação, por não ser conhecido o seu móbil, exceto posteriormente, se capturado e obtida confissão dos autores“.  Pois capturem-nos!)

Que a floresta estava seca e a esmagadora maioria das matas (mas nem todas) por limpar é uma verdade incontestável. E que esse facto, aliado aos fenómenos meteorológicos extremos, facilitou a propagação das chamas e a dificuldade em apagá-las também não suscita dúvidas a ninguém. Assim como o dever permanente e eterno de melhorar a coordenação, a organização e o emprego dos meios de combate para estancar a devastação. Mas também é verdade que a intenção de provocar danos – materiais e/ou políticos – não pode estar ausente dos discursos nem do apuramento de responsabilidades. Este crime não pode ser “normalizado” nem esquecido como se fosse uma inevitabilidade.

8 thoughts on “Na prática, 80% dos incêndios de Outubro tiveram causas intencionais”

  1. Abandonou-se o país há muitos anos.
    Ser rural ninguém quer mais ser.
    Planta-se eucaliptos e prontes!
    É preciso celulose para limpar o cu a meio mundo.
    Lavrar semear, aterra que me dá pão?
    Lá vai o tempo!

  2. Nessa altura não havia por aí gente a clamar pela vinda do diabo? É fácil a dedução: o dito, ouvindo o clamor, infiltrou-se em muitos ouvidos, para isso disponíveis, dando, assim, cumprimento a essas vozes que clamavam pela vinda. E qual o melhor meio para o dito se manifestar? Ateando um inferno de chamas pela maior parte do País, utilizando, para o efeito, as mãos dos que ouviram as vozes de todos esses que tanto clamaram por essa vinda. Esta será a versão dos crentes, sendo curioso que seja eu, um ateu confesso, a dizer isto. Mas, à bon entendeur , … esta é a minha opinião sobre a origem da calamidade.

  3. o acaso malvado e intencional é sempre um Deus justo para alguém de má fé. temos de nos rir da desgraça ou morremo-nos na alma queimada. :-)

  4. Ai é ? Esta bem.

    Nesse caso, talvez pudéssemos acabar com essas tretas de politicas de prevenção e de ordenamento do territorio, limpeza e mantimento das areas florestais, diversificação da flora e reconstituição da floresta “primitiva”, que custam balurdios e implicam uma enorme chatice em termos de organização ? Para quê chatear as pessoas com estas merdas perfeitamente inuteis, a não ser para os casos muito excepcionais em que o fogo cai directamente do céu ?!? No fundo, seria muitissimo mais simples e eficaz criar uma cadeira suplementar no ensino obrigatorio para explicar aos Portugueses que devem ser bonzinhos e deixar de fazer maldades. Uma coisa que poderia representar, sei la, 3 horas por semestre, se tanto ? Sairia incontestavelmente mais barato. Que tal achas ?

    Boas

  5. só faltava o viegas a reclamar a liberalização dos incêndios. estão abertas as inscrições para catedráticos na universidade de massamá, manda o currículo à atenção da joana vidal, pode ser que cole.

  6. O caro Senhor Viegas. Como explicar que, quase em simultâneo, ou com breves intervalos, tenham havido centenas de ignições, em locais estratégicos para criar muros de fogo? Como explicar que o incêndio no pinhal de Leiria tenha tido quatro ignições, igualmente estratégicas, praticamente em simultâneo? É que isto foi confirmado por filmagens aéreas que, na altura, percorreram diversos blogs. Não vê aqui intervenções de mãos humanas?

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