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A crise global provocada pelo coronavírus só encontra paralelo, nas suas dimensões económicas e sociais, com as duas Grandes Guerras do século XX. Daí o conceito de “guerra” ser uma imediata referência de contextualização para a gravidade da situação, dá sentido tangível à ameaça. Porém, como estamos a ver e só vamos no começo do processo, esta crise consegue ser ainda muito mais ampla na geografia dos seus efeitos ao não poupar literalmente nenhum continente, nenhum país, nenhuma cidade e, fatalmente, nenhum agregado humano. É só uma questão de tempo. Tempo medido em semanas, desde o registo do primeiro caso até à declaração de um qualquer tipo de estado de emergência pelas autoridades políticas respectivas.
Esta guerra tem três linhas da frente. A primeira é a do tratamento dos infectados que desenvolvem complicações graves e desviam recursos humanos e logísticos dos já sobrecarregados e/ou carentes serviços de saúde. Aqui, como vemos horrorizados em Itália e veremos em muitos e muitos outros países, a Convenção de Genebra está invertida. O inimigo ataca preferencialmente os médicos, os enfermeiros, os hospitais, os assistentes sociais de qualquer tipo que estejam em acção. Quão mais civil mais apetecível como alvo. A segunda é a economia, a qual se afunda a pique ao se interromper a vida social obrigando as populações a meses de clausura doméstica. Aqui o inimigo é convencional, pois em todas as guerras se tenta destruir a estrutura económica do adversário. A resposta dos Estados e das sociedades, a reconstrução, vai exigir respostas historicamente originais. Finalmente, mas não least, a terceira linha da frente corresponde à linha dos olhos daquele com quem comunicamos. Pode ser um familiar, amigo, colega, vizinho ou estranho. Estar no seu campo de visão corresponde a estar em comunicação. E a estar em combate pedagógico, o qual começa em nós, no mais íntimo de cada um: a vontade. A tal vontade que é sempre expressão da biologia, depois da antropologia, a seguir da psicologia e sociologia, e só por último da ética. Daí a pulsão inicial para não gastarmos recursos com ameaças distantes no espaço, no tempo e na tribo. A pulsão que desperta o pensamento mágico onde nos cobrimos de superstições mesmo que não saibamos terem esse nome nos dicionários e nos tratados de saúde mental. A pulsão de servirmos, adorarmos, o nosso incontornável e lógico egocentrismo.
A ética pode ser vista como a dimensão onde a vontade cumpre a resposta a esta pergunta: por quem sou responsável? Isto é, à luz implacável da consciência de mim, sozinho perante o absurdo e a glória de me saber vivo, que me pertence absolutamente? Não o corpo, muito menos o mundo. Só posso reclamar como meu, ontologicamente original, o que consiga fazer com esse corpo recebido nesse mundo. O meu corpo é o suporte, ou o lugar, de uma corrente de consciência no espaço e no tempo onde exerço influência sobre o mundo. Posso deixar que uma borboleta bata as asas no parapeito da minha janela e ficar tranquilo à espera do que tal acontecimento vai provocar nos boletins meteorológicos da China. Ou posso dizer a alguém para não sair à rua ou para se manter fisicamente distante mesmo que precise de sair à rua, e continuar a olhar para a China à espera dos boletins de saúde. Ser ético quando por causa de mim há quem fique em risco de adoecer e morrer parece tarefa fácil. E esse é o mais ardiloso plano do inimigo.
Antropomorfizar o vírus não tem nada a ver com a metáfora e seus modos. Antes, estamos no domínio da metonímia, onde o referente semântico tem relação directa, íntima, com o termo usado num outro contexto alternativo. O contexto da reacção ao coronavírus que nos invade os corpos e as comunidades é o de uma guerra não só pela evidência das consequências pelas quais a humanidade colectivamente está a passar; também, e ainda mais profundamente, pela necessidade de disciplina militar para reduzir ao máximo a severidade das investidas inimigas e a extensão dos combates. A disciplina é uma preciosa virtude quando defende o que mais importa – como todos os dias de todos os dias se sabe acontecer na actividade de médicos e enfermeiros, para só dar o exemplo mais consensual.
Na terra onde se inventou a democracia deixou-se na mão, nas lanças, dos cidadãos a responsabilidade de defenderem a liberdade. Defenderem em batalha. A disciplina guerreira não é incompatível com a liberdade – precisamente ao contrário para quem colocar a ética como bem mais valioso do que o egoísmo rapace e irresponsável.