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Dias solarengos

Na TSF, um locutor (jornalista?) abriu o noticiário das 8 e 30 da manhã dizendo que este era um dia pouco solarengo. Depois fez umas referências obscuras à meteorologia, para concluir, já animado, que os próximos dias seriam mais solarengos. Como se trata da TSF, a notícia parece-me credível. Mesmo assim, não consegui evitar o rapto para uma funesta nostalgia. É que eu nunca tive um dia solarengo na vida. Nem um. E não acredito que venha a ter. Será, a essa luz, uma existência cinzenta.

Belo Encanto

Imitando o meu primo, atentai como este vídeo atenta contra a arte e a artista. Desde a completa ausência de ideias na realização aos movimentos de câmara enjoativos, passando pelo cenário pindérico. Esta peça é até uma justa homenagem à qualidade da equipa que criou e produziu o original, pois apresenta uma falha de sincronização. Mas que se lixe o vídeo. É a ária que importa. Esta precisa e preciosa ária. Uma das provas de que Deus existe, é siciliano e gosta de mulheres.

Angela Gheorghiu não é consensual. Há quem nos mande callar se a elogiarmos. Para mim, que sou bruto, podem vir as duas.

Reflexão no dia da dita e no fim do dito

Daqui a umas horas abrem as mesas de voto em Lisboa. A abstenção será a vencedora destas eleições, e creio que a culpa é da candidatura de Helena Roseta. Trata-se do maior fiasco dos últimos anos, pois muito se esperava da mulher. O que se viu é igual a zero. E o zero começou a fIcar redondo na recusa de coligação com o José Sá Fernandes. Curiosamente, o meu desejo de 11 de Maio não era assim tão alucinado, pois a Nogueira Pinto admitiu apoiar Roseta. Perdeu-se uma rara oportunidade para se renovar a democracia e promover a cidadania.

Acreditando que vemos no exterior o que somos no interior, que os trafulhas vêem trafulhas em todo lado e os anjinhos se imaginam no céu, envaideço-me a pensar que Sócrates foi inteligente e responsável na escolha de António Costa. Não é comida para a minha dieta, mas foi socrático. Foi bom para a Polis.

Um misto, ou mistela, de sentimentos patéticos com raciocínios abstrusos preenche o fenómeno da popularidade de Carmona Rodrigues. Os seus apoiantes dividem-se por dois influentes e retro-urbanos grupos: as donas-de-casa e os fogareiros. A uni-los, um único argumento a favor do bisonho anti-PSD e anti-partidos: ele é boa pessoa. E quanto menos falar de política, ou quanto mais falar contra os políticos, mais melhor-boa a sua pessoa ficará. Claro, também com patarecos se faz uma eleição.

Sobra o Sá Fernandes. Um lírico. Um bravo. Vai ter o meu voto.

Derrelictos — Helena Roseta

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Na política ainda há surpresas. Mesmo que pareça impossível. No caso, até um calcinado cínico se baba de espanto com a pergunta desta peça de propaganda. E largará automaticamente o seu mais genuíno parece impossível! De todas as questões decisivas, de todas as questões relevantes, de todas as questões meramente sensatas que se poderiam colocar ao eleitorado alfacinha, a candidata escolheu o custo dos cartazes. Os seus, para cúmulo. E agora, que fazer? É que o problema não está em mandar uns números para o ar. O que deixa o eleitor desamparado é a certeza de a pergunta estar toda armadilhada. Vai na volta, neste domingo vamos descobrir que o cartaz custou muito, demasiado.

Derrelictos — Garcia Pereira

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Soteriologia e marxismo-leninismo são termos que não costumam aparecer juntos na boca do homem da rua. Refiro-me ao homem que lê jornais desportivos. O homem que guia táxis e tem barriga de grávida. O homem que sabe de ginjeira onde fica a SOREFAME. Este homem usa a palavra soteriologia no seu discurso político com o cuidado que outros põem na mistura do ácido sulfúrico com o ácido nítrico. E o caso é mesmo para mais: qualquer revolucionário sabe que a soteriologia é um terreno onde ninguém se salva, que a salvação vem é do comunismo. O candidato revela-se, assim, ao apelar à salvação, um verdadeiro doutor da Igreja Proletária.

Derrelictos — Pedro Quartin Graça

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O sonho de uma Lisboa verde parece glauco. Se realizado, teríamos flores em cada esquina, fontes de cristalina água de cem em 100m, um carvalho na sala de jantar de todo o lisboeta com cartão de eleitor. A Lisboa verdadeiramente natural, ecológica, prístina, seria um Monsanto a multiplicar por 10, uma Sintra de beira-rio, a Amazónia dos pequeninos. Viveríamos de pinhões e esquilos assados. Este candidato sabe o que quer para Lisboa. É de deixar o eleitorado verde de inveja.

Derrelictos — José Pinto-Coelho

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Muito antes dos Fedorentos criarem cartazes em estilo PNR, já o PNR criava cartazes fedorentos. Fedorentos e PNR, pois, um caso de atracção mútua. Em resultado, agora o candidato considera-se colega de profissão, privilégio da deferência felina. Gozar com os políticos é legítimo e a malta aplaude, revelou o Marquês de Pombal. A lição pombalina aplica-se nas eleições em Lisboa, a tal que é cidade portuguesa. Neste exemplo, está-se a gozar com o Zé.

Derrelictos — José Sá Fernandes

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A política é feita por pessoas. As pessoas têm nomes. Os nomes podem ter diminutivos. Os diminutivos fazem falta? Admitindo que sim, qual a falta que um diminutivo pode fazer? Quais as ocasiões em que o diminutivo cumpre uma função fora do alcance do nome original e grandalhão? Será ao falar, se calhar estar com pressa? Será ao escrever um telex? Será para pedir um cortador de relva emprestado? E quem serão os que lhe sentem a falta? Alguns poucos, alguns muitos ou todos? Mais as mulheres do que os homens? Mais as namoradas do que as sogras? Duvido que alguém duvide da falta que o Zé faz. Mas, e que mais é que o candidato sabe fazer?

Derrelictos — Manuel Monteiro

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Uma nova democracia precisa de se conseguir distinguir completamente da velha democracia. Mas precisa ainda mais, muito mais, de se conseguir distinguir da recente democracia. Que fazer? O candidato tem mostrado possuir o segredo dessa alquimia. Sempre que pode, anuncia estar em ruptura com o sistema vigente. Este, intentava questionar, sugerir e debater. Os prejuízos para a democracia advindos de tais práticas velhas e recentes estão à vista. Com os neo-democratas acaba-se o forrobodó, vai-se directo à essência das coisas. Eleitor, Lisboa é Capital, ’tá?

No comments

O sistema em que o Aspirina habita está sujeito a caprichos. Desta vez, ficámos mais de 12 horas sem poder comentar. Com o tempo, descobrimos que as perturbações são como os tigres de Borges. Aparecem sem sabermos porquê, e acabam por se tornar parte do ritual.

Derrelictos — Telmo Correia

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Se há algo de que Lisboa precisa, sem margens do Tejo para dúvida, é de competência. Porque a competência é aquela coisa que serve sempre para alguma coisa. A competência tanto pode ser discreta como espalhafatosa, mas é invariavelmente eficaz. A competência alcança, realiza, faz milagres. E a competência tem essa graça acrescida de ser imune à incompetência. Nem todos terão competência, diz-nos o candidato no acto de anunciar a sua posse. E agora é com o eleitor, e é tudo muito simples: acaso não seria útil ter na Câmara a equipa da competência?

A falta que elas fazem

Falo delas, o gajedo. Falhada a contratação da Ana Cristina Leonardo (a qual teve juízo, e supino bom gosto, preferindo criar a mui recomendável Meditação na Pastelaria), fomos aos despojos da feminina e feérica SOCA convencer uma das estrelas da companhia — cecília r. — a juntar-se a este grupo de tontos. Não foi fácil, pois esta casa não tem acomodações para senhoras, mas a sua generosidade (de mulher?) venceu montanhas de dúvidas. Ficam as certezas de o Aspirina B ficar um local muito mais bem frequentado.

Susana, instala-te onde quiseres.

Luís Graça & Rui Unas

O Show do Unas é uma coisa que falhou, não se tendo chegado a saber o que pretendia ser. Como já o amaldiçoei, estou à vontade para louvar o exercício supra. Um poeta de plurais qualidades encontrou um interprete que lhe fez jus. É acontecimento raro. E, ó Unas, que tal largares a pseudo-radicalidade adolescente e ocupares o lugar deixado vago pelo Mário Viegas?

Derrelictos — Carmona Rodrigues

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Lisboa é um encanto, cantada por poetas, louvada por turistas e arruinada por presidentes da Câmara. Mas faltava-lhe o je ne sais quoi das grandes capitais do Mundo. Isto foi assim durante séculos. Uma apagada e vil tristeza no meio de tanta luz. Até que, em 2007, um candidato defenestrou os limites do bom-senso e fez de Lisboa o seu partido. Inovação internacional. Perguntarão: qual o projecto político de Lisboa? Que ideias defende Lisboa? Lisboa é de esquerda ou de direita? Perguntas asininas, escusado seria dizer. Como se ainda alguém perdesse tempo a ler o programa dos partidos.

Derrelictos — Fernando Negrão

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O Governo não manda em tudo. Muitos se queixam da arrogância do Governo, da prepotência do Governo, até da perseguição do Governo, mas ‘pera aí, alto! O Governo não manda ali. Ali, onde? Ali onde manda o Presidente. Esclarecidos? Avancemos. Então, e de que presidente estamos a falar? O da República? O da Junta? Algo pelo meio? Isso já não interessa ao candidato estar a detalhar. Interessa é saber que ali, algures, o Governo não bota faladura nem mete o nariz. Ali, é tudo nosso, é à brava. Ou seja, é do Presidente, desgovernado.

Derrelictos — Ruben de Carvalho

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Quem é o senhor na fotografia? Será o senhor CDU? Ou o senhor PCP-PEV? Não é possível descobrir. Seja quem for, tem uma solução para Lisboa. Solução única? Ou a única solução? Não é possível saber. Seja como for, seja qual for, a solução existe, e é para Lisboa. Nesta informação, está outra: a de que Lisboa tem um problema. Lógico. Foi para garantir este grau de certeza na mensagem que se fez uma coligação. E não passará pela cabeça do eleitor pôr em causa o superior mérito desse esforço.