A Revolução dos Cravinhos

Quando João Cravinho foi para o BERD, alguns cínicos de serviço viram nessa decisão a prova de que havia silenciamento, compra de carácter, desonra. Os cínicos têm este problema: imaginações raquíticas. Que sentido faria, logo após o extraordinário feito de ter colocado o tema da corrupção nas prioridades legislativas, e sendo um dos raros senadores da República, estar a virar a casaca? Só concebível, a suposta ignomínia, para quem se projecta nos projécteis que dispara contra a virtude alheia.

Cravinho é único. É o único político que assumiu o combate à corrupção. Isto é mais do que notável, entra na classe dos milagres. Pois temos de reconhecer o grau de improbabilidade de alguém no PS, um partido conivente com a corrupção ao longo dos 30 anos de democracia, arriscar afrontar colegas de militância, de bancada, de mesa. Santos da casa são surpresas desagradáveis, e é isso que se comprova sem surpresa.

No CDS e no PSD não há ninguém — mas ninguém de ninguém! — que tenha revelado estar, sequer, preocupado com a corrupção. É estupendo. Estranhamente no caso do CDS, por geografia ideológica. Mas talvez ainda mais assombroso seja constatar a repetida falência, a miséria, da relação do PCP e BE com o fenómeno. No caso dos partidos à esquerda, a perfídia será, presumivelmente, maior, posto que seria obrigação mínima serem coerentes com as doutrinas de que são putativos representantes.

Cravinho diz o que todos sabem: que o Estado é usado para o proveito de alguns, não para o bem comum. Quem o manipula vem dos partidos, está nos tribunais, passeia-se pelo Parlamento, tem lugar nos Governos, compra as polícias. E fá-lo com a conivência de todos, pois para todos a corrupção é sistema, jogo, cultura, tácita lei. Este anúncio deixa o País indiferente. Porque o cidadão também ambiciona uma malga de corrupção. O cidadão é apenas mais um abutre, no fim da lista, invejando o festim dos que estão à sua frente.

Os que aplaudiram a manha egocêntrica e narcísica de Santana, estrela do sistema e galáxia de irrelevâncias, deviam ser proibidos de falar de Cravinho. Mesmo que fosse para o elogiar. Ou especialmente se for para o elogiar. Por uma questão de salubridade ética.

16 thoughts on “A Revolução dos Cravinhos”

  1. Ó filho, mas Democracia sem corrupção não é Democracia nem é nada, não sabias? Além disso, a corrupção que dói mais nem é a dos negócios chorudos, é a Política, a de vassalagem às entidades misteriosas de vestes pretas!

  2. Este teu texto é lapidar, Valupi. Não tenho palavras, infelizmente também não tenho solução.

    —-

    mandaram-me este sms:

    2ª feira das 19h às 21h concentração na estátua do marquês de Pombal a propósito da Birmania e da defesa dos direitos da população civil

  3. Gostei do seu post, caro Valupi.

    Fica bem escrever, falar ou argumentar contra essa evidência das democracias modernas. E claro, também fica bem ao PS ter um cravinho como o Cravinho… ficamos por aí?
    É o que parece.
    Palavras leva-as o vento.
    Acção, sff!

  4. As democracias são mais corruptas? Estamos a falar de quê? A única comparação lógica é com os regimes não democráticos. Ora todos os regimes não democráticos que houve no último século foram mil vezes mais corruptos do que as democracias actuais ou passadas. O regime comunista, por exemplo, foi a corrupção organizada em máxima escala, com todos a roubar o Estado, do secretário-geral do partido ao mais modesto trabalhador. O mesmo, ou parecido, para os fascismos, salazarismos, franquismos, etc, todos regimes corruptos por natureza e onde nem havia liberdade para denunciar a corrupção. O único antídoto eficaz contra a corrupção não é a pena de morte que certos regimes comunistas inventaram (para quem roubava sem licença do partido), é a liberdade e o funcionamento livre do mercado com regras transparentes. O regime que até hoje melhor garante estas duas coisas chama-se democracia. A democracia moderna funciona melhor do que há cem anos. Por isso, não sei de que estão a falar.

  5. De corrupção!
    Nik, julgo que vivemos no mesmo planeta, no mesmo continente e no mesmo grupo de países, o dos mais ricos mundo. Então devia saber do que estamos a falar.
    Repito, corrupção!
    Esse conjunto de acções e circunstâncias que minam por dentro o tal sistema politico que ambos tanto prezamos.

  6. Não minam nada. A corrupção é como a droga, os acidentes de trânsito, a pobreza, a depressão, o cancro, as doenças cardiovasculares. Combate-se, nunca desaparece. A democracia é o sistema que melhores condições assegura para o combate à corrupção. Se os responsáveis não a combatem, é denunciá-los e mudá-los. Acusar a democracia é suspirar por soluções piores. Ponto, parágrafo.

  7. Que a corrupção seja inevitável, é assunto que nem merece referência. A corrupção (e mesmo que não precisemos de qualquer definição técnica a respeito) decorre da liberdade, da natureza humana. E também é consensual que a democracia (mais uma vez, sem se invocar uma definição política) é o regime que melhor lida com a corrupção, por ser o regime que melhor lida com a liberdade. Tudo isto são banalidades, e superficiais.

    Gustava, o que há fazer – antes de mais, ou no mínimo – é pensar. Estar atento e pensar. Pensar e falar. Depois, com sorte, encontrar outros com a coragem para agir. Só que nada garante que eles se encontrem. E mesmo que nós sejamos o que nos imaginamos antes da peleja.

    Uma coisa é certa: a realização da democracia, na sua promessa de justiça, pede um salto ético que não se vê na sociedade. Só nos raros.

  8. A democracia não promete coisa nenhuma, não é um programa. Isso será a chamada “democracia popular”, que não é coisíssima nenhuma, a não ser um engano fatal. A democracia é, antes de tudo, um regime que permite ao povo desfazer-se dos governantes que não quer. Não é a escolha dos melhores. Não é a escolha de qualquer utopia. É uma garantia essencialíssima do povo contra tiranos. Bibliografia: Karl Popper.

  9. ó Nik a minha aposta é na democracia, detesto totalitarismos e delação.

    Quando eu digo que não tenho solução significo solução prática. Por exemplo não consegui firmar juízo de valor sobre a iniciativa do Cravinho que inplicava a inversão do ónus da prova. Vocês têm opinião sobre isso?

    Podemos influenciar os acontecimentos a partir daqui…

  10. A democracia, não tendo um programa político, pode contudo aparecer como programa para quem não a tem, obviamente. Por isso a oposição à ditadura em Portugal se chamava Oposição Democrática: o programa principal dela era a instauração da democracia. Embora talvez o não fosse, já então, para os marxistas (do PCP e outros), que punham o acento noutras coisas: na chamada “democracia económica”, nas nacionalizações, na luta contra os “monopólios”. Isso para eles é que era a “verdadeira democracia”, taxando o resto de “democracia formal”. A aldrabice ainda passou durante uns anos, pelo menos na cabeça de muitos militantes de esquerda, mas acho que hoje nem esses a compram já como costumavam.

    Cravinho é um herdeiro da concepção “antimonopolista” e anticapitalista da democracia. O ex-conselheiro de Vasco Gonçalves para as nacionalizações de 1975 – e também directo responsável por elas – nunca deixou de pensar que a corrupção é inerente ao sistema capitalista. Capitalismo igual a corrupção. Para ele, só com transformações radicais do sistema é que se combate a “corrupção”, porque os monopolistas (embora agora lhes chame lóbis) “se apropriaram dos órgãos vitais de decisão” (entrevista à última Visão). As nacionalizações de 1975 foram decididas, é bom lembrar, sob pretextos muito parecidos, por vezes iguais aos agora invocados para o combate à corrupção: acabar com a “sabotagem económica”, impedir a fuga de capitais, assegurar o “predomínio” do poder político sobre o poder económico, etc., etc.

    Ao combate à corrupção por outros métodos chama Cravinho a “concepção policial”, fatalmente votada ao insucesso, segundo diz. A corrupção não é, segundo ele, “um conjunto de factos isolados”. É um “sistema”. Em linguagem de 1975, uma conspiração, uma sabotagem… Não se vai lá com repressão, diz Cravinho. Faz lembrar os líricos que defendem o mesmo para o combate à droga: nada de repressão do tráfico, mas sim medidas estruturais, como ajuda aos países do terceiro mundo produtores de cocaína e opiáceos, etc.

    A democracia, sendo essencialmente um antídoto permanente contra tiranias, garante que se possam apresentar e discutir diferentes programas políticos. A democracia toma forma num conjunto de instituições que asseguram primordialmente 1) o poder de o povo por maioria escolher quem governa, 2) as liberdades, 3) a prevalência do Estado de Direito. Fora disso, assegurado isso, a democracia não tem programa. Há é várias concepções políticas que por uma questão de marketing se rotulam de “democracia”: a democracia orgânica do Salazar, a democracia cristã, a democracia popular, etc., cujos programas já foram suficientemente desacreditados, todos eles, pela prática histórica.

    Vou almoçar, beijinhos.

  11. Nik, é um ponto de vista que permite uma discussão, sem dúvida, esse do passado gonçalvista de Cravinho. No entanto, a discussão versaria exclusivamente sobre a importância que lhe conferes, importância essa totalmente errada. Tal nexo não explica o zelo com que Cravinho assumiu a pasta das Obras Públicas, levando a compreensão do seu actual combate para outros territórios mais sérios do que os da tua bacorada.

    Também anoto que és casmurro (e nada de novo com esta nota, claro). Eu escrevi que a democracia promete um ideal de justiça. Este, inerente ao conceito: poder/Governo do povo. Se queres falar de Popper (e porquê só de Popper, ou especialmente de Popper?…), então concordas que a promessa da democracia é a anulação da violência, obtida pela transição pacífica dos governantes.

    Isto não é um programa, é uma promessa genérica que decorre de um regime. No caso, o democrático. Quanto à justiça, não se esgota na anulação da violência, exigindo ainda a prevalência do bem comum; ou, até, a excelência (no que se tornaria aristocracia – no fundo, o horizonte pelo qual aferimos as imperfeições da democracia).

    No entanto, também se pode considerar como violência tudo o que não seja prevalência do bem comum ou excelência, o que faria da corrupção uma forma de violência. E violenta é ela, de facto.

  12. Tu não és casmurro, Valupi, és outra coisa acabada nas mesmas letras e começada por B maiúsculo, como o da Aspirina! Por conseguinte, não consegues dizer bacoradas, ficas-te pelas burradas. Não queres ver o nexo de coerência com o passado que há nas propostas actuais do Cravinho, problema teu. Já te expliquei que o homem quer atacar os problemas da corrupção, hoje, com a mesmíssima mentalidade “antimonopolista” de 1975. Não queres ver isso, não vejas. Põe palas e toc, toc, toc, moleirinha toc.

    Como não consegues perceber o que a democracia é, nem com a ajuda da definição do Popper (não foste ver a bibliografia), ficas sempre à espera das promessas dela. Promessas que tu ouviste, certamente, em vozes interiores, mas que ela não te fez nem te faz. São meras alucinações auditivas tuas. A única promessa da democracia, e não é pequena, é a de livrar o povo de governantes indesejáveis, garantir que não haverá tirania. Para isso institui e garante também as liberdades e o primado do Direito, sem os quais a democracia não pode funcionar.

    O resto é com o povo, com a sua vontade, a sua inteligência e a sua acção permanente. O próprio aperfeiçoamento da democracia depende do povo, da sua inteligência, da sua vontade, da sua acção permanente. A democracia, por si só, nem reformar-se sabe. Nada está nunca garantido nem prometido em democracia. Usas figuras de estilo e deixas-te levar por elas. Ficas à espera das promessas da democracia e ela põe-te os palitos.

    Nas propostas de Cravinho (mais legislação, muita legislação – que depois não é cumprida, como ele próprio reconhece na entrevista à Visão) há apenas uma única ideia válida, mas muito genérica: não basta reprimir a corrupção, é preciso dar-lhe menos oportunidades. A maneira como ele quer conseguir isso é gonçalvista sem mistura. Disso não fala o VPV… Foge! que ele não é estúpido. Vê lá se o Vasco elogiou alguma das medidas que o Cravinho propõe. Nem uma! Nem se lhes refere, tampouco. Porque o VPV nunca foi gonçalvista – entendes isto, ó meu B maiúsculo?

  13. Isso já entendo. Pois se foi tão bem explicado, ia lá agora não entender.

    Mas continuas casmurro. E, se pensares um bocadinho concordarás, quem fica a perder és tu. Mais ninguém.

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