Génio, Loucura ou Marketing

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Ignoro se outros têm medos recorrentes. E ignoro-o porque a malta é basto discreta em matéria de humanidade. Mas eu, eu tenho um medo recorrente. E é este: chega meados de Outono, o Nobel da literatura calha a António Lobo Antunes e eu sou chamado à televisão holandesa para um entretém a propósito.

Nada impensável. Aconteceu-me em 98, com Saramago. Nessa altura, ainda El Ibérico não tinha escrito os seus piores romances, e eu podia expor algum entuisasmo. Mas o Antunes… chegarão os seus dois únicos bons livros, Explicação dos Pássaros e O Manual dos Inquisidores, chegarão eles para atear uma minúscula chama telegénica? Talvez. Mas as reservas hão-de assomar demasiado ao ecrã para a coisa me sair festiva.

Será então agora? As estatísticas não jogam, para meu sossego, a favor do Antunes. E, pessoalmente, preferiria, de longe, um prémio para a literatura brasileira (para Rubem Fonseca, de quem acaba de sair, de novo, em Portugal A Grande Arte, na Campo das Letras) ou para a flamenga (para Hugo Claus, autor do magistral O Desgosto da Bélgica, na Asa) ou para a moçambicana (para Mia Couto, que escreveu um portentoso O Último Voo do Flamingo, na Caminho).

Como se não bastasse, as coisas estragaram-se mais nos últimos dias, desde que Lobo Antunes declarou à Visão esta modéstia: «Não tenho a menor dúvida de que não há, na língua portuguesa, quem me chegue aos calcanhares. E nada disto tem a ver com vaidade porque, como sabe, sou modesto e humilde».

Há anos, um dos romances do Antunes saiu com uma cinta em que a Dom Quixote o proclamava «um génio». Um génio não é, sobre isso podemos tranquilizar-nos. Será então um louco? Talvez. Mas até nisso não é peculiar, pois tem muitos, e bons, colegas.

Fiquemos pelo marketing. Falta agora o senhor arranjar, nisso, melhor conselheiro.

Fique, também, o desejo de que viva muitos e muitos anos. Não que a literatura ganhe grandemente com isso. Mas sempre lhe dará tempo para ir lendo romances alheios. Por exemplo, em língua portuguesa.

Actualização

Li as primeiras páginas de O Meu Nome é Legião, o romance de Lobo Antunes que acaba de sair. Sei, por críticas em jornais, como vai desenvolver-se. Por uma coisa e por outra, tenho a impressão de que é absolutamente espectacular. Lembra muito – o que só é uma recomendação – a Balada da Praia dos Cães, de Cardoso Pires, seu amigo e mestre. Não no brilho da linguagem, mas na esperteza dela.

Se o Nobel vier, estarei menos desabrigado. Mesmo não indo à televisão, claro.

32 thoughts on “Génio, Loucura ou Marketing”

  1. Pensa ele que é modesto e humilde. Adorava ter estômago para acreditar nisso, em nome da paz entre os homens de boa-vontade. Infelizmente, virtudes dessas em melros como esse só começam a desenvolver-se saudavelmente quando os cancros da próstata já estão em estado adiantado.

  2. Fernando, você é dos raros portugueses que escrevem sobre literatura e que dá mesmo gosto de ler; pelo menos a mim dá-me.

    O Lobo Antunes tem umas saídas esquisitas de vez em quando. Habituámo-nos a isso. A primeira de que me lembro li-a no DN Jovem em finais da década de 80, numa mini-entrevista ao então colaborador do suplemento (como eu) José Riço Direitinho. Dizia o Lobo Antunes a certa altura algo mais ou menos como isto (cito de memória): «Os escritores são todos uns chatos, eu se fosse mulher não ia para a cama com nenhum.» Ele lá saberia. Sobre as escritoras não se pronunciava.
    Quanto aos livros, aqueles dois títulos de que você fala, a esses eu não cheguei. Eu gostava dos livros do Lobo Antunes, e um deles, talvez o mais esquecido, «As Naus», é mesmo um dos livros da minha vida (e ainda por cima é divertidíssimo) – por esse dava-lhe eu um nobel ou dois, pelo resto não. Mas um dia parei. Estava a ler uma edição do Círculo de Leitores, novinha em folha, de «Tratado das Paixões da Alma», já andava desconfiado, e então, ainda aí na página trinta e tal dei comigo a pensar: «mas isto é tão triste! Como é que eu estou a ler isto podendo ir fazer, ou ler, tantas outras coisas?». Foi nessa altura que deixei de ler o Lobo Antunes. Mas ainda me apareceram depois alguns livros dele cá por casa (inclusive o do génio – não lhe chamavam génio, diziam é que o romance era genial – «um romance genial», mas pronto, se era «genial», pressupõe-se que tinha sido escrito por um génio, mas também podia ser editado por uma editora genial, feito numa gráfica genial, distribuído de uma forma genial e por aí adiante).

  3. Mourinho diz-se “o” especial e perde em curriculum para muitos treinadores. Ninguém se incomoda com isso. Lobo Antunes tem a sua postura e as suas convicções. Basicamente, são homens de convicções.
    Também me parece redutor tomar em consideração apenas dois livros da sua obra. Evidente é que há muitos outros nomes merecedores de detaque por parte da academia Sueca.

    Saudações

  4. Fernando: este teu post falas muito pouco de literatura. Sobre a do Lobo Antunes, apenas há uma frase – o que torna o comentário do António Manuel Venda bastante irónico.

    (E A Ordem Natural das Coisas? E o Auto dos Danados? E o Fado Alexandrino? E O Esplendor de Portugal? – para mim, são tudo obras-primas. O que me interessa são os livros e não as figuras tristes do autor.)

  5. Fernando
    Do Lobo Antunes até eu gostava de ter continuado a gostar. Tanto mais que fui eu que fiz o seu elogio na inauguração da Livraria Sol Mar, em Ponta Delgada, de que ele foi “padrinho”. Reconheço que o rapaz tinha uma capacidade absolutamente notável de criar metáforas. Uma vez, em viagem comigo de Ponta Delgada para vir passar um serão na Maia, referindo-se a um casal com cujo marido (homem de enorme talento) tivera uma discussão tremenda numas jornadas literárias, ele definiu ambos dizendo: “Ele parece o pai dela, e ela parece a mãe dele.” Nunca ninguém terá definido essa parelha tão bem. Mas, ao contrário do João Pedro, só consegui ler ALA até ao “Auto dos Danados”. Personagens demasiado doentias para o meu gosto. Gosto de mais vida. Por isso um dos meus livros preferidos é “Rosinha, Minha Canoa”, do José Mauro de Vasconcelos. Para mim, isso é o génio disfarçado de humildade. Sublime.

  6. Concordo com o João Pedro Costa (nunca pensei concordar com o JPC!). Os livros valem mais do que os seus autores. A entrevista à Visão não pode ser resumida tão só e apenas a esse “deslize” a que, convenhamos, A.L.A já nos “habituou”.
    “Não sei se morremos assim. Não sei se não ficamos cá. Não sei se Camões está morto. Mas isso não tem importância, eu não sou importante, os livros é que são importantes.” – disse-o também na mesma entrevista.

  7. Sem tempo – de momento – para mais…

    Anónima,

    O JP não sabe do que se livra. Eu também não.

    Dada a tua anónima frontalidade, podemos imaginar das boas.

  8. Com gente como vocês a frontalidade só pode ser mesmo anónima.
    Mas, tudo bem. Como sei do que me livro, não volto mais à caixa de comentários do Aspirinab.

  9. “…chega meados de Outono, o Nobel da literatura calha a António Lobo Antunes e eu sou chamado à televisão holandesa para um entretém a propósito. Nada impensável. Aconteceu-me em 98 com Saramago…”, confessa FV neste poste.
    E depois ainda critíca colaboradores seus “que vêm para aqui contar as suas vidas ou episódios particulares que só aos próprios dizem respeito”!
    Com esta tirada, todos ficámos a saber a figura importante que representa este português na holanda…

    Já agora, Daniel de Sá, acha, então, as personagens do Lobo Antunes “demasiado doentias para o seu gosto”?
    Pois não parece. Para quem faz um poste, como você fez, servindo-se da campa de uma criança, com foto, e um poema da sua própria lavra, olhe que não parece mesmo!

  10. Caro Ó PRA/ELES, a inveja é, já se sabe, uma coisa feia. Não tão feia como o anonimato cobarde numa caixa de comentários. O mais hediondo é quando ambos se unem numa só – chamemos-te assim – pessoa.

  11. Ó Pra/Eles,

    A tua intervenção contradiz-se estupidamente. Assim: se eu tivesse criticado a «campa», seria agora dos bonzinhos, mas critiquei (nem mais, tu dirás onde) e mesmo assim sou dos mauzinhos.

    Felizmente, Confúcio falou. Com sempre, sábio.

  12. António Manuel Venda,

    As «saídas» do Antunes começaram cedo. Logo na primeira entrevista que deu, em 1979, limpou a feira a varapau. Como happening, magnífico. Comentei a coisa na crónica «O jovem príncipe», que está em Maquinações.

    De resto, já falámos do escritor aqui no Aspirina.

    E tem razão. A cinta da Dom Quixote dizia «genial», não «um génio». Afinal, sim, modestos!

    JP,

    Interessam-te os livros, dizes. Não as figuras tristes dos autores. A mim (que tento escrever – aos pedacinhos dispersos – uma história contemporânea da nossa literatura), têm de interessar-me as duas coisas…

    Depois, no teu rol de «obras-primas» do autor, ouço um «et cétera». Ter-me-ei enganado? Qual é o autor, nacional ou mundial, de quem as obras-primas mereçam «etc.»? Cuidado. Entusiasma-te, mas com moderação. Isto é certo: não és o único na desmesura.

    Anónima,

    «Com gente como vocês», escreveste.

    Gostei. Finalmente, reconhecidos.

  13. Fernando,

    fui à estante buscar, aqui a uns dois metros, buscar o «Maquinações…» e reli o texto do jovem príncipe (consigo voltar facilmente a estes textos da mesma forma que não consigo entrar – incapacidade minha, por certo – na grande maioria dos que Prado Coelho escreveu).
    Lá dei com a referência à célebre entrevista de 79 (na altura eu ainda tinha 11 anos e por isso era como o Cavaco, não lia jornais). Só uma observação: mas você chega ao pé do Lobo Antunes e diz-lhe logo depois de que tem muito gosto em cumprimentá-lo «às vezes escrevo coisas a seu respeito, nem sempre com entusiasmo»… Lembra-se de que cor é que ele ficou?

  14. Ana,

    Gostei sempre muito das tuas recensões. Mas, nesta, há um exagero de erudição, que, para mais, serve para tudo: até para falar dum romance… De que, na realidade, só falas explicitamente em cerca de 1/10 do teu texto.

    Além disso, citas o (poeta) Pessoa, o (poeta) Herberto, citas Le Clézio, referes Joyce, Faulkner, Salinger, Updike, citas Borges, referes Coltrane, citas de novo Borges, referes Tolstoi.

    E eu pergunto-te: em que literatura se insere Lobo Antunes? Não há na ficção portuguesa, actual ou não, nada que Antunes te lembre? E, se de facto assim é, não te parece que o facto é tão gritante que precisa de ser referido?

  15. Não se pode ser, em simultâneo, nem sequer à vez, modesto e humilde. Quanto ao teu medo, Fernando, és um afortunado.

  16. Fernando, não sei se consigo seguir, com tanta exactidão como a tua, a contabilidade que fazes ao meu texto mas gostaria de dizer-te o seguinte:
    1. Sou uma estrangeirada
    2. Acho o António Lobo Antunes um escritor sério e a sério
    3. Cito no referido texto Le Clézio, Borges e Faulkner (frases sintéticas e que vinham a propósito do que pretendia dizer – e que eles já tinham dito de uma forma bem melhor e mais precisa do que eu algum dia serei capaz)
    4. Reproduzo excertos de dois poemas: Pessoa e Herberto, por acaso 2 portugueses (para os relacionar com Lobo Antunes)
    5. Refiro os nomes de Joyce, Faulkner, Salinger e Updike (a propósito do famigerado «fluxo de consciência» e não para provar qualquer erudição da minha parte – aliás, a associação desses nomes à referida técnica literária vem em qualquer vulgata, nem precisava de os ter lido)e de Tolstoi na conclusão (a propósito da compaixão pelos personagens e porque, pessoalmente, o considero o Grande romancista, aquele a partir do qual o romance só podia reinventar-se… ou morrer. Felizmente, não morreu. Além disso, gosto de citar Tolstoi a propósito de tudo. Posso?)
    6. Tento explicar (porventura mal) que ALA se foi aproximando cada vez mais da poesia e é preferível lê-lo assim do que tentando aproximá-lo do romance tout court (seja lá o que isso for)
    7. Refiro o nome do Coltrane porque as arritmias do seu jazz me parecem próximas das arritmias literárias de ALA, e porque uma boa música vale às vezes mil palavras
    8. Não sei onde foste buscar esse 1/10 em que dizes que falo explicitamente do livro do ALA, mas, permite-me:
    a) explicitamente é o quê?
    b) explicitamente é melhor do que implicitamente, metaforicamente, tacitamente, etc?
    Eu achei, e acho, que estive sempre a falar do livro.
    8. Na tua contabilidade esqueceste-te da Alzira Seixo, que tb. cito
    9. Já que me perguntas, talvez ALA tenha a ver, além do Herberto, com Raúl Brandão
    10. Não pretendo iniciar qualquer polémica (pelo que me fico por aqui) e sobretudo não desejo obter qualquer visibilidade à custa de um romance que acho belíssimo e que resulta do trabalho de uma autor que respeito muito
    10. Quanto a mau feitio, humildade e etc. deixo-te com esta: «If a writer has to rob his mother, he will not hesitate: The “Ode on a Grecian Urn” is worth any number of old ladies», Faulkner. Pior do que isto é impossível. Então, porquê fazermos de virgens púdicas, ofendidas porque um tipo diz em público aquilo que pensa em privado?
    Na tua opinião ele conhece mal a literatura portuguesa? E então? Manda-lhe umas quantas obras para casa.
    Devia ser mais humilde? Não há grandes romancistas humildes. Ninguém humilde aguentaria ser romancista, e até Tolstoi, que era quase um santo, teve grandes dificuldades. E humilde, em quê? Na vida ou em relação à obra? E o que é que isso interessa quando falamos de um escritor? Biografias e juízos de carácter resume-se, a maior parte das vezes, ao que disse uma vez Margaret Atwood: «Interessarmo-nos pela vida privada de um escritor porque gostamos (ou não, acrescento eu agora)de um livro dele é como interessarmo-nos por gansos porque gostamos de foie gras»

  17. Ana,

    Estiveste sempre – dizes – a falar do romance. Essa era a maneira de que tu achaste dever falar dele. Isso só demonstra a tua honestidade. E essa nunca esteve em causa. Eu sempre te admirei muito, bem sabes. Quando queres, fazes críticas com grande fibra, que são verdadeiras intervenções cívicas.

    E, sim, falaste da Alzira Seixo. Esqueci-a, desculpa.

    Mas vejo que tenho de repetir uma pergunta – a única que te fiz -, a que, nem de perto nem de longe, deste resposta. Copio do comentário acima:

    E eu pergunto-te: em que literatura se insere Lobo Antunes? Não há na ficção portuguesa, actual ou não, nada que Antunes te lembre? E, se de facto assim é, não te parece que o facto é tão gritante que precisa de ser referido?

    Tu não és, Ana, o único crítico português que assim procede: falando dum romance português, é capaz de aludir a tudo menos à ficção portuguesa, actual ou passada.

    A mim, ficção portuguesa lembra-me, antes de qualquer outra coisa,… a ficção portuguesa. Olha, Raul Brandão. Bem visto.

  18. Fernando, não o relacionei com a ficção. Relacionei-o com a poesia: herberto. Era essa a linha de raciocínio do texto. Podia ter seguido outra. Há milhares de maneiras de abordar um autor, umas mais interessantes do que outras, certamente. Esta foi a minha. E não tenho nada contra a ficção portuguesa. Se tenho alguma coisa contra é contra a má literatura, portuguesa ou não. E já falei demais, porque tinha afirmado não querer polémicas. O que reitero. Só te respondi, porque achei ser falta de educação não o fazer. Espero que percebas.

  19. Meu caro Z,

    Obrigado pela referência.

    A «Associação de Amizade Portugal/Galiza» é um minúsculo grupo ideologicamente extremista (as pessoas são simpáticas, mas falo das ideias), que nada de representativo tem da Galiza, mesmo da Galiza realmente próxima de Portugal.

    A «Academia Galega da Língua Portuguesa» é o nome pomposo para um grupo de indivíduos (também um mimo de pessoas, garanto-te) encravados entre o oficialismo, que assim desafiam, e o lusitanismo, com que não fazem amigos nas elites portuguesas.

    Repara em como Malaca Casteleiro (pelo menos segundo o «Sol», mas eu pasmaria de fosse de outro modo) não fala em difundir o português na Galiza, mas em Olivença…

    Não que não fosse bom (seria óptimo) difundir o português na Galiza. O facto é que os linguistas portugueses não apoiam a marginalidade galega.

  20. eu disso não percebo nada Fernando, acho bem que se façam polos múltiplos de conviviabilidade e depois logo se vê. Visitemo-nos mais uns aos outros e etc.

    Pelos vistos ainda anda aí a Guerra das Laranjas… Aquela Maria Luísa de Parma era tramada e é porque estou a ser educado.

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