Epifania lexical

Desde o ano 2000, ao fim da tarde, que ando vexado com o termo clique e respectivas variações verbais, clica, clicar. Tenho-lhe ódio, quando aplicado ao comando do computador. E só agora descobri o substituto perfeito, depois de já me ter batido (e com sucesso) pelo substituto imperfeito, a palavra entra, e o entrar — a que se junta também uma elegante solução adverbial, o aqui. Acontece que a nobreza de entrar não cobre todas as situações. E isso derrotava-me, levando a ter de escrever os nojentos clica e clicar. Pois ontem, dia lindo de Verão como este Agosto não conheceu, desceu sobre mim a inspiração só ao alcance dos eleitos, e descobri o vocábulo que irá substituir o barbarismo: tocar.

Toca aqui, toca ali, toca para isto e para aquilo. Toque, e toc toc. Sim, é também uma palavra onomatopaica. É curta. É forte. É nossa. É digna.

24 thoughts on “Epifania lexical”

  1. Parece-me razoável. Vou adoptar o toc.

    E vou já dar o toc aí em baixo. Mas…não será melhor retocar o “força”, passando a “toc”?

  2. Aprendi a gostar de sexo na puberdade, clicando-me no pénis ao sabor das mais arrojadas fantasias virtuais.
    Olha que nem soa mal, se um gajo tiver um automatismo em condições e que reaja como a tecla de Enter quando lhe tocam… (na tecla, quero eu dizer)

  3. Clicar é perfeito. Clic ou clique imita bem o som do rato.

    Toque ou toc, só se for um rato com botas de sola.

    Premer? E porque não espremer? Esprema aqui, esprema ali…

  4. Temos soluções de compromisso em cloque ou ploque ou tloque (cloc, tloc, ploc), etc. Tloque aqui, ploque ali… Ou tlique, plique. Até se pode reservar tlique para a tecla direita, plique para a esquerda. Já viram a poupança de palavras?

    E nique ou nic? Nique aqui, nique ali… Para os meus fans podia ser com k. Pensem bem.

  5. Já sei: AFINFAR.

    “Para fazer o download, afinfe aqui”. Ou simplesmente: “afinfe-lhe!” Muito português, cá nosso do torrão.

    “Dê-lhe agora” também não seria mau.

    “Dê-lhe agora que está de costas” seria demasiado longo, mas vocês dirão.

  6. Download é descarga, mas confunde-se com a do autoclismo.

    É uma ideia: “Para fazer a descarga, puxe aqui o autoclismo”!

  7. Ó primo, que seria do edifício judaico-cristo-greco-romano sem uma quantidade suficiente de títulos infelizes? Foi esse o preço a pagar pela vitória sobre os bárbaros. Mas a luta continua.

  8. Recebi em tempos na empresa um fax que começava assim: «Olá, teclo-vos de Luanda…» Não achei que fosse a opção mais feliz do mundo (lusófono), mas pelo menos era em português. Este «tocar» é um bom achado. Do «clic» não gosto lá muito, mas reconheço que o som dos dedos nas teclas tem qualquer coisa de clic (desde que não seja num portátil).

  9. Prefiro clicar a tocar. Ça fait plus joli et plus sexy.
    Observem só um falante a pronunciar “clicar”, desenrola a língua custosa e sensualmente.
    Gosto de onomatopeias.

  10. Fernando: aí é que está a beleza. «Epifania» não veio directamente do grego para o Português (como «Lexico» por via erudita), mas através do Latim: epipháneia (gr) > epiphania (lat) > epifania (por.)

  11. Clique é um problema computacional (que eu tive de estudar na disciplina de Complexidade) que se insere na categoria dos NP-completos, isto é, é NP (Não determinista Polinomial), o que significa que não podendo ser resolvido em tempo polinomial pode uma sua solução ser testada em tempo polinomial, e é completo, isto é, é possível através de uma transformação polinomial reduzir todos os problemas da categoria NP a ele.
    Assim, sugiro que se use outra palavra para traduzir click (que, em inglês, já é diferente de clique), ou que se mantenha a forma original, click, como acontece com o software e blog (cuja tradução para blogue é absurda).

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