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Politicopsicose – II

A crise financeira internacional é de ridícula dimensão quando comparada com a crise na direita portuguesa. Quem diria que, 6 meses depois de ter sido corrido do PSD, esse deslumbrado do Menezes estaria a pedir a cabeça da discípula dilecta de Cavaco? Para isto poder acontecer, uma calamidade carece de ter acontecido. E aconteceu: chama-se direita portuguesa.

A direita portuguesa não tem para onde se virar. As figuras que aparecem, tanto nos partidos como na imprensa, são nulidades, sem excepção. A verdade é a de que ninguém estava preparado para a eficácia e coragem política de Sócrates. Nem o PS. Mas é um facto, e um novo ciclo começou na democracia portuguesa, onde o nível de profissionalismo e responsabilidade subiu e se estabelece agora como referência máxima. E é por isso que as declarações de Menezes – até há bem pouco tempo o chefe do maior partido da oposição – espelham com detalhe o estado de um grupo de portugueses que enlouquece um bocadinho mais a cada dia que passa:

Esta forma austera, distante, pseudo-rigorosa em excesso do Eng. Sócrates exigia agora distensão, alegria, um guterrismo competente social-democrata. Como a seguir ao cavaquismo o país aspirava a um guterrismo, a seguir ao socratismo aspira a um guterrismo competente, de rosto humano, social-democrata. Só que, paradoxalmente, o guterrismo que se está a perfilar é um socratismo metamorfoseado, e o PSD está a tentar imitar o Eng. Sócrates dos primeiros tempos, com a sua circunspecção.

A influência do Sporting nas eleições americanas

Não é segredo para ninguém que tanto Obama como McCain têm interrompido as respectivas campanhas para acompanhar de perto a crise entre Paulo Bento e Vukcevic. Vale tudo como desculpa, desde dizer-se que se tem de ir a correr para o Congresso ajudar o Plano Polson até utilizar o estado de saúde da querida avó; só para se ficar um dia inteiro a ler os jornais desportivos portugueses em segredo. E este desvario justifica-se, pois muito do que vai ser o Ocidente, especialmente no que concerne à economia, vai sair deste conflito entre um jogador da bola e o seu treinador.

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Serradura

Na última edição da Quadratura do Círculo, o TAC semanal ao Estado de direito mantém o diagnóstico: metástases folgazonas. Aquele bando dos quatro imagina-se num senado, falam com o à-vontade de quem não está a decidir seja o que for. Conhecem de ginjeira os mecanismos do poder, e exibem com vaidade pacóvia esse estatuto, mas estão resignados perante a impotência inerente à sua sobrevivência como políticos e jornalista mansos. Embora cada um deles tenha percurso e méritos distintos, todos se igualam por terem capitulado cinicamente. Bem cedo nas suas carreiras, passaram a fingir, ou a acreditar, não haver mal na troca do ideal pelo conforto, da coragem pela segurança, da comunidade pela família e amigos. Exagero? Vejamos.

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Maldades que os tiranos da Igreja obrigam os fiéis a ler

23. Num certo sábado, Jesus e os seus discípulos atravessavam umas searas. Enquanto caminhavam, os discípulos começaram a arrancar espigas para comer.
24. Então os fariseus perguntaram a Jesus: “Olha lá, por que é que eles, ao sábado, fazem aquilo que a lei não permite?”
25. Mas ele respondeu-lhes: “Não leram já o que David fez um dia, quando ele e os seus homens estavam com fome e não tinham o que comer?
26. Entrou na casa de Deus, no tempo em que Abiatar era chefe dos sacerdotes, e comeu com os companheiros os pães consagrados. Segundo a lei só os sacerdotes podiam comer aqueles pães.”
27. E disse-lhes ainda: “O sábado, como dia de descanso, foi criado para benefício das pessoas, e não as pessoas para benefício do sábado.
28. Por isso, o Filho do Homem tem autoridade sobre o próprio sábado.”

Marcos, 2

Não é preciso convocar Lanza del Vasto para entender a radicalidade deste episódio. Um judeu insurge-se contra autoridades em judaísmo a propósito de uma lei judaica. O reagente é a fome, a mais urgente das pulsões corporais. Jesus lembra aos fariseus que o biológico vem primeiro, só depois o cultural. E, de caminho, anuncia a mais perigosa das revoluções: o domínio da lei não é a própria lei, antes o seu recipiente – ou seja, a lei é uma imitação, uma sombra ou reflexo. A única lei absoluta, ou a lei de todas as leis, é a que for ditada pela consciência.

O sábado foi feito para o Homem, não o Homem para o sábado, ’tá? Entretanto, consta que a Igreja força os crentes a ler e ouvir coisas destas todas as semanas, algumas bem piores como convite à liberdade. Felizmente, há muitos que não perdem ocasião para avisar os católicos dos riscos que correm se continuarem a dar atenção à diabólica Igreja. E têm razão, não vá algum fiel começar a imitar Jesus; e depois já ninguém o segura, sabe-se lá que sarilho poderá provocar logo no sábado seguinte.

Pegar no facho

Freitas do Amaral não tem igual. Esta entrevista à RTP, hoje, é um documento histórico, político e antropológico que devia passar nas escolas. É a confirmação do seu trajecto de independente; ou, como explicou para quem tiver ouvidos, de centrista. Tudo se encaixa: a mesma coragem com que aceitou apoiar o PS, e fazer parte do seu Governo, foi o que o levou a opor-se à invasão do Iraque, e, para atalhar, a ser contra o totalitarismo planeado pelo PCP, alguns militares e outros grupelhos congéneres, logo após o 25 de Abril.

Freitas do Amaral, com o seu fácies, porte e maneirismos de arcebispo, era o político mais caricaturável à direita. Nas presidenciais de 1986, gozava-se com o seu sobretudo verde-queque e os sinais exteriores de betice. Quando discursava, o registo era de homilia. Tinha a imagem acabada de um reaças, em versão culta e católica. Depois desapareceu de cena, entraram os putos estarolas no CDS. Regressou em 1995 para assumir a presidência da Assembleia-Geral das Nações Unidas. Renasceu.

Freitas está melhor do que nunca. É uma memória viva da democracia. Um leal servidor da comunidade, um corajoso patriota. É sábio e sage. E talvez seja o único político independente em Portugal. Quem é que pega neste facho?

O Procurador do Zé Manel

O Público tem um Provedor, e este tem um blogue. Curiosamente, é um blogue onde os leitores não se pronunciam, apesar da sua missão blogosférica: este espaço tem ainda como função primordial recolher e divulgar comentários dos cidadãos, procurando estimular o debate e a discussão em torno da qualidade do jornalismo praticado pelo PÚBLICO. A manifestação da generosidade, contudo, não chega para generosas manifestações dos leitores. A maior parte das caixas de comentários são embaixadas do vácuo cósmico. Nem os assuntos mais escabrosos convocam vivalma. Ocasião para uma resposta rápida e entusiasmada, pensei na minha ingenuidade. E lá fui desflorar uma dessas caixas desoladas, deixando este pedido. Até agora, nicles batatóides.

Mas vamos ao que interessa:

Se um alto agente do Estado invoca o seu relacionamento com um accionista de um jornal (embora não saibamos com que intenção), podemos considerar estar-se perante uma pressão ilegítima, à luz da Constituição. Pelo menos, essa dúvida persiste.

Dou como certo que o Provedor tinha presente, ao escrever este passo, aqueloutro do outro:

Permito-me ainda sublinhar a falta de frontalidade com que a insinuação é transmitida, reconhecendo o seu autor tratar-se de “uma interpretação subliminar“, deixando, assim, a pairar uma suspeita indefinida, agravada pelo facto de se tratar de uma conversa entre duas pessoas, impossível de reproduzir ou de provar documentalmente o que foi dito.

É inegável: o Provedor está conscientemente a tomar partido pela versão subliminar. Porquê? Estará na posse de informação que não foi publicada, a qual validará a suspeita? Ou será um caso de simpatia/antipatia? Tendo em conta que o Provedor se apressa a corrigir o leitor – Ao contrário do que afirma o leitor, o telefonema foi do primeiro-ministro para JMF (embora sugerido por JMF, «insistentemente» segundo o PM). –, não citando a carta de Sócrates – A conversa telefónica referida pelo Senhor director do Público – única que tive com ele – não foi de minha iniciativa, foi antes insistentemente pedida por ele, como ele próprio reconheceu no depoimento em causa. –, é lícito concluir que não estamos perante tratamento igual das fontes. Tudo o que venha de Sócrates é, para o Provedor, algo que não chega como testemunho fiável.

E então é isto, e nada menos do que isto: até ao dia 13 de Outubro de 2008, provavelmente ultrapassando essa data, o Provedor do Leitor ao serviço do Público admite que Sócrates pode ter exercido uma pressão ilegítima sobre um órgão de comunicação social, à luz das informações que possui. Acontece que Sócrates afirmou por escrito o que por escrito afirmou. E acontece que o Zé Manel não se lembra do que disse, nem do que ouviu, nem onde estava a papelada. Nem lhe ocorreu que era porreiro para o seu carácter ter desmentido o Expresso no dia em que saiu a acusação. Nem que podia ter evitado entalar o Provedor com as suas declarações inacreditáveis, as quais foram engolidas sem mastigar. Se isto é assim, e é mesmo assim, temos que o Provedor do Público acumula com o cargo de Procurador do Zé Manel.

7 provas de como se vive cada vez melhor em Portugal

O preço dos combustíveis baixa todos os dias.

A oposição anda tão encantada com o Governo que se confessa sem palavras.

O Porto perdeu em casa e ficaram a ver a qualificação por um canudo.

Dois meses depois do acidente na Linha do Tua, os peritos não fazem ideia do que aconteceu. É possível que venham a concluir pela inexistência de acidente.

O Presidente não precisa de concordar com as leis que promulga.

O dinheiro é tanto que se fala em voltar a ser possível entregá-lo aos partidos embrulhado em papel pardo ou dentro de sacos de plástico do Rei dos Frangos.

Roubaram o computador ao Miguel Sousa Tavares e o único ficheiro do seu próximo romance, quase acabado, estava lá.

Leite derramado

Ferreira Leite critica “fantasia tremenda” de Teixeira dos Santos

Manuela Ferreira Leite sustenta que depois de ter assumido a liderança do partido “já não se fala no esboroamento do PSD”, que é visto “como alternativa ao poder” e “tem um nível de intenção de voto nas sondagens que é o mais alto dos últimos anos”.

20 de Outubro de 2008 assinala o fim político de Ferreira Leite como dirigente de quem se espera responsabilidade. Ela começou por ser vista como a melhor possibilidade de resgate do partido face à loucura de Menezes, mas a seguir só cometeu erros, graves e imperdoáveis. A exibição de ontem à noite consagra o diagnóstico: autismo, estado de negação, projecção neurótica, disfuncionalidade executiva, delírio. Esta mulher é uma senhora que se comporta como menina, recusa-se a crescer. Não há mistério ou profundidade no seu silêncio, há capricho e snobismo. E quando fala, reduz-se à sua insignificância.

A crise do PSD começou com a fuga de Cavaco, como se sabe. A procissão de figuras tristes e toscas que temos visto passar, de Nogueira a Barroso, de Mendes a Santana, de Menezes a Ferreira, não parece ter fim. Porque Rio e Passos, Borges ou Sarmento, são mais do mesmo, apenas o pacote varia. Quando alguém no PSD conseguir vencer o Adamastor da Madeira, teremos fumo branco. Sem essa prova de coragem, será mais uma figurinha para esquecer.

Ainda não têm nome, mas já te podes filiar

É uma das frases de Chandler mais citadas:

Chess is as elaborate a waste of human intelligence as you can find outside an advertising agency.

Por experiência pessoal, de jogador de xadrez e animal de agência, posso confirmar a exactidão do apontamento. Todavia, tivéssemos o Raymond connosco e já teria adaptado a boquinha à blogosfera. Porque aqui o desperdício de inteligência é ainda mais torrencial, incomensurável e necessariamente catastrófico. Mas o caos é apenas um estado de organização; e particularmente fértil, como se deixou escrito faz tempo. Talvez desta reunião de intelectos e vontades nasça finalmente um movimento cuja ausência está a deixar os sociólogos impacientes: um partido político com inspiradores, dirigentes e base de apoio provenientes inicialmente das redes sociais da Internet.

Daí, estas ideias quentes e boas para a renovação da classe política:

Partido sem ideologia – Estado de permanente abertura à inteligência, sem qualquer pressuposto teórico, histórico ou axiológico. As propostas dos partidos concorrentes seriam copiadas à má-fila, no todo ou na parte, à esquerda e à direita, caso tivessem os mínimos, idealmente os máximos, de proveito.

Partido com maioria de mulheres – Adequação metodológica, nos instrumentos de decisão, à psicologia feminina; esta muito mais colaborativa, horizontal. Sendo o primeiro partido preparado para o feminino, teria crescimento fulminante nesse grupo demográfico. As mulheres são mais capazes do que os homens quando se trata de gerir, proteger, reforçar.

Partido da ontologia extremista – Culto do tempo vivido e por viver, da profundidade e da amplitude, da sabedoria e da brincadeira. O programa político teria como única meta levar os nossos velhos a passar tempo com as nossas crianças. Fosse nas famílias, escolas ou ruas. Todos os dias celebrando juntos o espanto de ser.

Partido que estaria sempre na oposição à estupidez – Fazer oposição ao Governo só porque não se faz parte do Governo é uma das mais espectaculares exibições de estupidez. Quem não está no Governo deveria honrar o seu compromisso patriótico ajudando quem governa, sugerindo melhores alternativas, aplaudindo a boa obra. Este partido, mesmo que fosse Governo, ou especialmente se o fosse, continuaria a ser o maior partido desta oposição por inventar.

Partido com castigos atrozes para os cínicos – Os cínicos são a pior espécie de imbecis, devendo ser perseguidos, sovados e sumariamente expulsos desta organização. À porta dos locais onde se reunissem elementos do partido, haveria aparelhos detectores de cinismo, os quais fariam muito barulho e acenderiam luzes no caso de apanharem algum rasto de cinismo escondido nos neurónios dos participantes.

Partido cuja liderança fosse alcançada através de provas de pentatlo cívico – Os candidatos seriam aconselhados a irem para o congresso com fato de treino e sapatilhas confortáveis. Provariam o seu valor em cinco provas:

– Discurso de improviso.
– Danças de salão.
– Venda de atoalhados aos congressistas.
– Explicação da Teoria da Relatividade e definição do Bóson de Higgs.
– Confecção de sopa de legumes.

A escolha seria por aclamação. Eventuais casos de empate seriam resolvidos por sucessivas provas de confecção de sopa de legumes, sempre diferentes. Em caso de urgência, moeda ao ar.

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Sim, podes inscrever-te já.

Entre homem e mulher, mete garfo, faca e colher

Portugal, país de cobardes, não se enoja com a violência doméstica, talvez até esteja a tomar-lhe um renovado gosto: em 2007, os casos declarados subiram mais de 6% – do total dos casos, a maior incidência estando nas zonas urbanas, Lisboa à frente. Um aspecto crucial do fenómeno é o de ser transversal à sociedade, mesmo que haja factores de risco a remeter para diferenças de educação, valores e condição social. A transversalidade institui a violência doméstica como característica de identificação de género, gerando cumplicidades psicossociais que oprimem ainda mais as vítimas. A cultura de promoção da pornografia e da sexualidade irresponsável também reforça o potencial disfuncional das carências e deformações afectivas na origem dos comportamentos violentos, possível explicação para o crescimento a par da violência doméstica com os casos de assédio sexual no local de trabalho. Temos assistido, igualmente, à legitimação da prostituição como recurso legítimo e amoral, até complementar de relações estáveis e igualmente satisfatórias no acesso à actividade sexual. A prostituição como moda teve o seu momento de glória com os rumores, ou denúncias, relativos a Cristiano Ronaldo e suas animadas festas em hotéis ingleses; um rapazinho que, diríamos, não teria qualquer dificuldade em arranjar uma namoradinha descomplexada e descomplicada. O circuito da prostituição é ancestral, mas agora tem a sua promoção na cultura popular, gerando padrões de comportamento nos homens que validam a sua impulsividade e procura da gratificação instantânea a uma escala nunca antes vista. Por sua vez, este reforço do instinto animal e da psicologia primária é contrário às exigências cognitivas, afectivas, intelectuais e volitivas que se requerem numa relação monogâmica e civilizacional. Finalmente, a tentação de reduzir as mulheres à sua dimensão de fêmeas – anulando-as como cidadãs e pessoas, os únicos planos onde a igualdade é plenamente realizada – leva a que os seus óvulos sejam tratados como subproduto, até empecilho, da sua função como instrumentos sexuais e força de trabalho escravo ou explorado. Os defensores do aborto livre, e todos os que persistem em considerar que a educação sexual se resume à distribuição de preservativos e pílulas a crianças a partir dos 14 anos, são os algozes desta desumanização.

Precisamos de inteligência, precisamos do que se está a praticar na instituição House of Ruth, a qual desenvolveu o Gateway Project. Constata-se que os casos de violência doméstica implicam as duas partes, havendo ciclos de violência mútua em que as mulheres agridem os parceiros. As agressões podem ser físicas, mas a maior parte das vezes são verbais e emocionais, suscitando episódios sucessivos e escalados de mútua violência. O novo enfoque está em reconhecer que os violentadores também são violentados, e, a partir desta realidade bem mais interdependente, disponibilizar programas capazes tanto de tratar os agressores, como de ver os agredidos como vítimas também responsáveis pela situação que vivem.

Não precisamos de mais preconceitos e ideologia, de mais aproveitamentos da miséria para repetir alucinações políticas de que se desconhece a origem ou consequências. Precisamos é de mais ciência e de alguma, mínima que seja, coragem. Quando o amor é louco, não devemos continuar a fazer tão pouco.

Educação sexual? Concerteza!

Visitando o PCP digital, constatei que os comunistas portugueses não tem qualquer posição política quanto à sexualidade. Porém, buscas por sexo e sexualidade trazem um sortido de discursos avulsos e desconexos. Num deles, Luísa Mesquita sugere que a educação sexual nas escolas é uma matéria que se deve centrar na arte de bem colocar todo o preservativo, assim como na generosa distribuição à juventude de tão urgente artefacto. Não achei digna de censura essa ideia, a qual tem méritos inquestionáveis. O que me escandalizou foi o concerteza com que a Luísa achou por bem medalhar o seu texto, e que nenhum camarada terá ainda tido tempo de corrigir. A suspeita agora cobre como uma película protectora a minha adesão às ideias do PCP: estarão eles, mesmo, com a certeza certezinha de que a educação sexual que as famílias portuguesas desejam nas escolas públicas deve ter como principal objectivo a destreza manual, ou bocal, na colocação do preservativo?

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Politicopsicose

Politicopsicose não era termo que o Google conhecesse, logo, não existia no Universo conhecido; e até um pouco mais além. Faz falta? Nenhuma. Mas dá jeito quando se vai botar faladura sobre este manifesto de gravíssima perturbação mental.

É muito difícil escolher a passagem mais hilariante, registo só comparável ao que se escreveu na imprensa inglesa antes da primeira viagem de comboio, mas vou arriscar:


O que é que estará naquele ecrã? Não deve ser nada de interessante visto que nem as crianças que não levantam o braço, olham para lá.

O Pacheco está a precisar de tirar umas longas férias. A sua sócratesmania queimou-lhe os fusíveis todos.

Nos extremos é tudo mais simples

Um dos aspectos mais interessantes dos debates entre McCain e Obama está na interpretação do acontecimento feita pelos profissionais da opinião. No caso da CNN, onde os tenho visto, constata-se que os comentadores do lado Republicano são os mais pobres na argumentação, o que pode resultar tanto da fraqueza do candidato como da cultura política dos Republicanos. De facto, a caricatura usual de um Democrata, no imaginário americano, é o de um intelectual, enquanto um Republicano aparece como um jogador de futebol norte-americano ou militar. Tendo em conta que, para um europeu, até os Democratas serão de direita, ou centro-direita, isso colocará os Republicanos na extrema-direita. Os extremos são sempre mais redutores, pois seguem uma lógica de exclusão, enquanto o centro é inclusivo, seguindo uma lógica de negociação.

Já como epifenómeno, temos o caso do Ricardo Lourenço, jornalista do Expresso, o qual assinou um incrível disparate, e agora regressa com mais um arroubo. Escreve:

Deu para vencer o debate por curta margem. McCain apostou na forma mas também na substância. Explicou como governará com menos Estado e, claro está, menos impostos e aprimorou a proposta (adiantada no segundo debate, há uma semana) de renegociar os créditos à habitação de milhões de famílias necessitadas. Tudo em forma compactada, numa primeira meia hora de arraso.

Factos: é opinião unânime em toda a imprensa, nacional e internacional, que Obama ganhou, e os dados das sondagens revelam que ele teve neste os melhores índices de sempre dos 3 debates. Mas para o Ricardo Lourenço, não. Porque ele arrasa, até as evidências.

Pessoal do marketing: stop

A indústria da comunicação é igual em todo o Mundo e desde sempre. Em Portugal, dada a ausência de uma cultura competitiva e criadora de riqueza, ela tem sido uma das áreas mais profissionais e produtivas. Trabalha-se em alta velocidade, fora de horas, em dias de descanso e em ambientes disfuncionais. A seguir à falta de capacidade de gestão por parte da maioria dos patrões de agência, que não sabem como gerir e aproveitar o talento intelectual, o maior problema é o dos clientes. Os profissionais das equipas de marketing procuram sistematicamente boicotar o trabalho das agências, anulando o seu capital de experiência e capacidade criadora. Há excepções, mas o mais frequente é aquilo que este filme revela.

A tragédia de uma equipa de flores

No empate com a Albânia, ganhou o demónio. O rosto de Carlos Queiroz, na segunda parte da segunda parte, vendo o azar a encher o campo, era o de um autêntico possuído – ou encavado, é escolher que o coitado não está em condições de se importar. Depois do jogo nem apareceu para as declarações da praxe à TV, nem ninguém por ele, um técnico ou anjo. Também não apareceu jogador. Apareceu o demónio, sempre pronto a ocupar os espaços donde a palavra está ausente.

Futebol é sorte. Mas que é a sorte? É a matemática. Se uma equipa está com pouca sorte pode ainda ganhar, tem é de superar o azar. Se o azar corresponder a 90%, 9 em cada dez oportunidades de golo vão ser falhadas. Logo na oportunidade seguinte, a bola entra, e seja lá como for. Calhando entrar por cabriola nunca antes vista e que desafie as leis da física e a vocação dos guarda-redes, isso será apenas o espectacular efeito de simples aritmética. Se a equipa apenas dispuser de 9 oportunidades, ou menos, irá no máximo empatar. O problema é o de não se poder saber à partida qual seja o total de oportunidades, porque esse conhecimento anularia a própria sorte. Como se criam as oportunidades de golo? Eis a pergunta sacramental. Que não espante a resposta: sendo receptivos à graça. Isto é, jogando à bola porque é engraçado, não porque seja obrigatório ganhar. Falhar obrigações é assunto sério, mete medo, gera violência, anula a criatividade. Para aceder a todas as possibilidades da consciência, é preciso agir não agindo, como ensinam os taoístas (pelo menos, enquanto a bola não chega aos pés, porque depois toca é a agir com imediata rapidez e intenção, e que se confucem os taoístas).

Carlos Queiroz tem azar. Teve azar na Selecção, no Sporting, na África do Sul, no Real Madrid e de novo na Selecção. É o preço a pagar pelo sucesso inicial que o levou a convencer-se de que o futebol não precisava da sorte, apenas de um caderno de notas. Neste momento, a Senhora de Caravaggio está a rir-se de braço dado com o demónio de Queiroz. Se é para termos uma equipa de flores, os narcisos que hoje se cansaram para nada devem ser substituídos pelos lírios que não trabalham, nem fiam; mas têm sorte.

Larguem o vinho

Quem utilizar o Multibanco, nem que seja para verificar o dinheiro que não tem, depara-se com esta frase publicitária:

É uma casa portuguesa, concerteza.

O espírito do Acordo Ortográfico é o de aproximar a escrita da oralidade, livrando a Língua dos inestéticos e trabalhosos sinais da sua história, mesmo que para isso arrisque dar cabo da semântica e da sintaxe. Nesse sentido, o neologismo concerteza deveria ser aceite. Ele é usado por um número crescente de personalidades, algumas delas insignes figuras públicas. O mesmo fenómeno ocorre com o também publicitariamente famoso benvindo, o qual pede aprovação institucional. E por aí fora, dando-se carta de alforria ao povo que não está para canseiras. Aliás, que se espera para começar a grafar outras variantes, como as tão úteis sencerteza, concertezapoucochinha, tácertoentão, acertaláissoópá, maisdoiseuroseficacerto, eugostomaisédopreçocertoporqueogordodofernandomendesédemijararir?

Nota: a campanha do Multibanco promove a Adega Cooperativa de Pegões.