Todos os artigos de Valupi

Assinar ou assassinar

As testemunhas abonatórias de Vítor Magalhães e António Paes Faria não terão dificuldade em encontrar as suas assinaturas nesta declaração conjunta com Cândida Almeida. O que recoloca a questão no seu ponto inicial: a decisão de incluir as 27 perguntas a Sócrates no despacho, assim como a invocação do argumento da falta de tempo para as efectuar, são, em si mesmos, actos irregulares ou ilegítimos. Que tal tenha sido feito com autorização de Cândida Almeida, eis algo que não vai ser a comunicação social a conseguir explicar. Continuamos a precisar de assinaturas.

São as assinaturas que nos salvam, são os boatos que nos assassinam.

Charco

Primeiro, promiscuidade e perversão

Depois, caladinha, chiu

Agora, promiscuidade e perversão, take two

Fernanda Câncio mandou uma pedrada no charco. O charco é o Público, onde Cerejo se fez assistente do Ministério Público para continuar uma cruzada. O resultado da sua actividade promete: ainda podemos vir a descobrir que os titulares do processo assinaram um despacho de acusação, ao fim de seis anos de investigação, em que concluem não terem encontrado indícios suficientes para acusar quem quer que fosse pela prática dos crimes de corrupção, tráfico de influência, branqueamento de capitais ou financiamento partidário ilegal no processo de licenciamento do centro comercial Freeport, em Alcochete.

Alice

O número 2 desta revista digital dedicada à cultura da criatividade – logo, à criatividade da cultura – continua a ser publicado todas as semanas, quais pedaços de chocolate. O mais recente artigo é a apresentação do áudio-livro Alexandre O´Neill Dito por Sinde Filipe, pela mão e ouvido de Maria João Freitas.

Oiçam lá do O’Neill.

A corda

Os roteiros estavam feitos, os actores sabiam de cor e salteado as falas de que foram incumbidos. Mal se soube que o despacho do MP tinha poupado José Sócrates no caso Freeport (e todos aqueles com responsabilidades públicas à data dos factos) foi o próprio a dar o mote – na alocução ao país de 28 de Julho, quando disse esperar que aquela fosse “a última vez que falava no assunto”-, Sócrates disparou o tiro de partida para uma operação político-mediática bem urdida cujos efeitos se pretendiam estender para além do Verão.

Carlos Abreu Amorim

*

Assim abre um texto que é paradigmático da crise da direita portuguesa e sua falência intelectual e ética. Repare-se no sofisma: haveria um plano montado pelos poderosos e terríveis socráticos para lançar uma campanha de vitimização, mas a qual foi logo por água abaixo porque… eles nem sequer conheciam o que constava no despacho… Esta contradição, de tão básica e vinda de quem vem, é linda. Entende-se ainda melhor à luz da reacção de Mário Crespo no próprio dia em que se publicaram as conclusões da investigação. Crespo, num espaço pseudo-jornalístico, afirmou à boca cheia que Sócrates devia ter conhecimento ilícito do teor do despacho por ter feito uma declaração onde manifestava o seu alívio pelo fim da suspeição que sobre ele pendia há anos. A calúnia como espasmo que se lança em soberba impunidade é a marca desta direita decadente a que pertence Carlos Abreu Amorim. E o que diz do Procurador-Geral da República segue a mesmíssima lógica, apodando de incompetência o que começa, objectivamente, por ser independência da investigação, não interferência da hierarquia máxima e delegação de poderes nos responsáveis. De resto, foi ordenado um inquérito, o que irá aumentar a transparência do caso.

O combate político pode gerar monstros de impiedade. Não ter empatia pelo sofrimento que o Freeport causa nos alvos de suspeições só se explica pela convicção de culpa associada à bestialidade. Para quem ataca Sócrates por se congratular com a notícia de que o seu nome deixava de estar relacionado com as fases seguintes de um processo judicial, o apuramento da verdade é algo desnecessário. O que os seus inimigos e os aproveitadores mediáticos disseram é que conta, chega e sobra. O mesmo para as reacções da comunidade, onde os Carlos Abreu Amorim da triste cena publicista só conseguem detectar marionetas. O cinismo é tal que vivem num mundo onde apenas reconhecem liberdade, vontade, carácter – portanto, natureza humana – a quem pensa como eles. É um mundo tóxico, sulfúrico, asfixiado.

A civilização também se fez contra esta turbamulta desembestada. Estes são os mesmos que sempre preferiram fazer justiça ao pé das árvores, e ainda não acordaram.

E nada mais

Para quem só conhece os bastidores da política e da Justiça através do que chega à comunicação social (o meu caso, o de quase todos), o entendimento da actualidade passa por estabelecer uma hierarquia de sentido. Por exemplo, faz sentido que existam provas criminais, em sede policial ou judiciária, contra um primeiro-ministro e tal informação não chegar logo à oposição, ao partido do próprio e ao Presidente da República? Tendo em conta a quantidade de indivíduos implicados nessa recolha, posse e gestão, é assim a modos que impossível não acontecerem fugas de informação endereçadas, em primeiro lugar, aos maiores interessados. Vai daí, se esse mesmo primeiro-ministro não se demite apesar da quantidade, duração e gravidade das suspeitas lançadas contra ele, temos um sinal que torna credível a sua inocência. Se a isto se soma a inexistência de confirmação das suspeitas pelas autoridades, então estamos apenas no combate político, muito provavelmente. Um combate político ínvio, sórdido e sinistro.

Muito provavelmente, mas não absolutamente. É que há sempre espaço para dúvidas. Consoante o posicionamento político, a educação e a capacidade cognitiva, escolhem-se as interpretações que confirmam os preconceitos e os objectivos. Por mais evidentes que sejam os factos, haverá quem os recuse, quem se negue até a reconhecê-los. Neste caso do Freeport, o que tem mais importância, em tudo o que até agora foi sendo conhecido, vem dos procuradores Vítor Magalhães e Paes de Faria: as suas assinaturas no despacho que conclui pela acusação de Charles Smith e Manuel Pedro por tentativa de extorsão – e nada mais.

Miguel Serras Pereira, és um labrego

Miguel Serras Pereira, no dia 28 de Julho falaste comigo pela primeira vez em mais de 100 ou 200 anos. O Luis Rainha fez uma ligação a um texto meu, por isso fui conversar com ele, e só com ele, a propósito do que escreveu. Isso quer dizer que não fui lá falar contigo, nem de ti, nem de nada que te dissesse directamente respeito. Pois tal não te impediu de invadir a conversa, tinhas considerações importantes a meu respeito para divulgar:

– Que eu não dava a cara nem o nome.
– Que eu era anónimo.
– Que o meu anonimato estava ao serviço do poder, defendia o poder do momento e consistia na denúncia dos opositores desse tal poder.
– Que o meu anonimato era uma auto-destituição da cidadania e dos meus essenciais direitos de defesa.
– Que eu podia ser acusado de agir a mando, ou por encomenda, do Governo de Sócrates e não teria como me defender enquanto anónimo.
– Que, ao escrever o nome de terceiros em opiniões que sejam insultuosas, tenho o dever de escrever o meu nome.
– Que eu sou um agressor anónimo.

Tendo em conta que nunca antes havíamos trocado uma palavra, e que “Valupi” é um dos meus nomes, concluí estar perante um labrego. Um labrego, no significado que lhe dou nesta problemática das identidades no meio digital, é alguém que prefere a aparência à confiança, um palonço que dispara primeiro e nem sequer chega a perguntar depois. Alguém como tu, Miguel Serra Pereira. Mesmo assim, respondi-te – mas deixei-te a falar sozinho porque tinha bem mais o que fazer com o meu precioso tempo.
Continuar a lerMiguel Serras Pereira, és um labrego

Corrijam a realidade, vá lá

Uma das cenas mais curiosas da opinião publicada, profissional ou amadora, diz respeito às proclamações do fim político de Sócrates e da ruína do PS. Essa mania, esse autêntico culto de personalidade a contrario, dura desde os princípios de 2008; com a crise na Saúde, as coboiadas na banca laranja e o começo das movimentações conspirativas com origem em Belém ou círculos próximos. É espasmo ancestral, a projecção mágica no adversário de uma maldição. Há quem a lance com regularidade diária, estão viciados.

Pois bem, vamos lá ver. Vivemos o pleno apertar do cinto com as medidas de austeridade em acção, prevê-se um 2011 tão ou mais rigoroso, o desemprego é o que é, consta que o Governo não governa, o desgaste do PS não pode ser escondido, o PSD tem uma cara nova, está fresco e diz-se capaz de nos salvar a todos com umas alteraçõezinhas na Constituição, o CDS é um poço sem fundo de virtudes, o BE espalha soluções geniais para resolver qualquer crise que se lhe ponha à frente, o PCP é aquela máquina que não pára de crescer fruto da superioridade do seu projecto de sociedade e o Freeport vai ficar connosco por mais um lustro, pelo menos.

Só falta que aqueles que andam há anos a avisar a malta do fim de Sócrates venham agora explicar à realidade que ela está enganada. É que é muito chato quando a realidade se engana, uma pessoa pode até nunca mais conseguir encontrar o caminho de casa.

Afinal – II

Afinal, exulta Cerejo, os titulares do inquérito foram mesmo impedidos de chegar à verdade pelos ditames sinistros de Cândida Almeida. As suas 27 inúteis perguntas não puderam ter as 27 inúteis respostas, o que os deixou em modo de vendetta. Foi por isso que assinaram um despacho daqueles, aquele despacho que assinaram. Poderiam ter batido à porta de Pinto Monteiro para se alargar o prazo? Não, a Cândida não deixava. Poderiam ter denunciado, na ocasião, um impedimento tão grave à sua investigação como este para o Sindicato, o Conselho Superior ou o Cerejo? Não, a Cândida não deixava. A única coisa a fazer era chapar com as perguntas e dizer ao mundo que o Ministério Público português concluía pela eterna suspeição de José Sócrates, actual primeiro-ministro de Portugal. Essa vergonha, já a Cândida deixava.

Lá para terça ou quarta-feira, voltaremos a ter uma peça do Cerejo, o Cruzado. Dirá aos leitores do Público que os procuradores têm fotos de Sócrates a receber envelopes castanhos num tasco do Montijo. Até convidaram Cândida Almeida, várias vezes, para ir ao seu gabinete ver o álbum de fotografias, mas ela fez sempre cara esquisita e abalou espavorida. Será o Afinal – III.

Se está partido, chamem os partidos

O Ministério Público está partido. Por causa de uma entrevista e de uma carta aberta? Não, pá… É a Judiciária, estúpido! Como explica o inefável Rui Cardoso, em Março passado, há muito que o Sindicato dos Magistrados sabe que a Judiciária se deixa governamentalizar – portanto, que está corrompida e é corruptora. Solução: ir parar às mãos do Ministério Público. Membros ilustres dessa instituição já mostraram todo o potencial da sinergia: passa-se a poder fazer, com regularidade, escutas ilegais a um primeiro-ministro, as quais podem decorrer sem informação, nem pedido de autorização, ao Presidente do Supremo durante meses. Se isto se faz ao chefe de Governo, imagine-se o que não se fará ao porteiro do Ministério. Que tal? Dá ou não dá jeito? Como são os próprios magistrados a alimentar os jornalistas que fazem as campanhas de difamação e calúnia, ao ponto de já se falar num negócio chorudo de venda de informações em segredo de justiça, o entusiasmo do SMMP ganha sugestivos e abismais contextos.

De facto, Aveiro provou que se pode dar um golpe que decapite um Governo, ou um partido, com toda a facilidade e, pasme-se, legitimidade. A partir do momento em que se dispõe de elementos relativos à privacidade de um político, até uma conversa com a sua avó querida pode ser usada para manobras de assassinato de carácter. Não terá essa conversa sido feita em código e diga respeito a casas oferecidas pela máfia? Tem de se investigar, mas sem pressa, devagarinho, de modo a não assarapantar a ladroagem. Para obter os lúbricos segredos de um governante basta ter um pretexto, uma razão inquestionável; por exemplo, escutar um seu amigo de plena confiança, comunhão política e frequente contacto. Não irão os cabrões dizer alguma coisa que se pareça com um atentado ao Estado de direito? Olá se não vão, passam o dia a pensar nisso! E mesmo que legalmente a operação seja um fiasco, que apareça alguém a defender a Constituição e a democracia, o alvo nunca mais consegue limpar as nódoas. A porcaria continuará a ser lançada pelos porcalhões.

O PSD aproveitou ao máximo a espionagem política que lhe foi oferecida, como reagiria se fosse a vítima? Com histerismo e violência, claro. Dada a quantidade de advogados, magistrados e professores de Direito que são de direita, calhando apanharem uma conspiração contra políticos socias-democratas feita à maneira dos casos Freeport ou Face Oculta, o banzé seria tal que poria em risco a estabilidade dos anéis de Saturno. Assim, como não é com eles, estão calados a gozar o prato ou berram no coro. São raras as vozes à direita que se respeitam, que não abdicam da defesa da honra alheia, o que também explica muito dos últimos 25 anos em Portugal. Agora, o PSD volta a ter uma oportunidade de se regenerar: conseguir sanear o Ministério Público. Para isso, terá de se unir ao PS no essencial. É no Parlamento que está a sede primeira da Justiça, e cada cidadão deve exigir dos partidos que estejam à altura da gravidade do momento.

uma pergunta a revolucionários que talvez por aí andem

Trata-se de uma pergunta a que os revolucionários não vão responder. Eles estão preocupados é com o Estado de direito em Gaza. Por essa causa, sim, vale a pena lutar e salivar. Já em Portugal, um território americano, os atentados contra a Lei e a Justiça são zangas das comadres capitalistas, imperialistas e fascistas. Venham as golpadas, que reine o vale tudo. Essa será a via mais rápida para a construção do homem novo, o rapazola.

Fala José Sócrates, o PM, pode passar-me ao PGR?

Há quem culpe Sócrates por ser inocente. Afirmam que é culpado de não ter interferido nos procedimentos do Ministério Público. Chegam ao ponto de dizer, numa sonsice alarve, que lhe competia ser ouvido mesmo que não existisse razão policial ou judicial para tal. Um pândego sugeriu que o Primeiro-Ministro devia ter solicitado ser constituído arguido de modo a poder limpar o seu nome. Presume-se, pela lógica do argumento, que devia ser Sócrates a dirigir a investigação, caso contrário estaria a deixar dúvidas no ar. Já só falta ser acusado por não existirem provas contra ele. Estamos em pleno delírio laranja.

Mas a Isabel Moreira trata do assunto brilhantemente.

A Cândida e o cândido

Marcelo Rebelo de Sousa tem 61 anos. Encontramos no homem uma raríssima síntese: genuína elite genuinamente popular. Isso faz dele, virtualmente, um mediador inigualável entre os poderes fácticos e o Povo. Está à-vontade com os mais ricos e os mais pobres, os mais cultos e os mais ignorantes, os extremistas e os moderados. Com todos consegue comunicar, a todos consegue entender. Ainda por cima, pelo berço, transporta um pedaço do Estado Novo, o que lhe permitiu estabelecer ainda mais pontes e consensos. Já era uma estrela em ascensão na política antes do 25 de Abril e nunca mais se afastou da ribalta. Pergunta que nos interessa: que tem feito com tamanho tesouro cultural, social e político à disposição? Face ao que o vemos fazer na televisão, nas homilias, faz manigâncias. Tão-só.

No domingo passado, assistimos a mais uma. Falando de um caso que tem uma pública origem política, e alimentou caluniosamente dois ciclos eleitorais, Marcelo nem sequer toca ao de leve nessa teia de causalidades. Não pede responsabilidades, não identifica cúmplices. E pior, muito pior: ao falar da estratégia da asfixia democrática, a qual estava montada em cima do aproveitamento dos ataques ao carácter de Sócrates, mostrou-se pesaroso por ter falhado. Foi esse o único problema, o azar de o eleitorado não ter engolido as patranhas. Nenhuma censura de ordem moral há a fazer, depreende-se tanto do tom como do silêncio. É isto a política para o Professor e para a direita sem alma – os truques, as rasteiras, os golpes palacianos que mantêm a dopamina em níveis suportáveis.

A respeito do despacho dos procuradores desasados, Marcelo apontou as armas num único alvo: Pinto Monteiro. O actual Procurador-Geral da República é persona non grata junto dos sociais-democratas desde que resolveu cumprir a Lei e a Constituição, recusando entregar Sócrates aos carrascos da Lapa. Está marcado para cair por ter ousado fazer frente aos barões do PSD. Só isso explica o extraordinário de ouvirmos um dos portugueses que mais e melhor conhecerá os bastidores do Ministério Público, e a complexidade e melindre dos seus conflitos internos, a aumentar o clima de intriga à volta do caso. A sua referência a Cândida Almeida, sugerindo que ela aprovou a inclusão das perguntas por fazer, não tem como objectivo esclarecer seja o que for, é apenas o instinto do escorpião a picar o sapo que o carrega até à outra margem. Cândida, também alvo de difamações por se dizer que protegeu Sócrates nestes anos todos, ficou de repente como cooperante da armadilha que o quer continuar a entalar. Como é óbvio, Marcelo não tem medo que a Procuradoria se afunde ainda mais em suspeições e boataria, quer é gerar a maior confusão para castigar Pinto Monteiro. Candidamente.

Combate de Blogues 17º

Esta edição do Combate de Blogues tem a boa novidade da presença da Ana Matos Pires. Para além disso, permite voltar a constatar que a direita portuguesa é um deserto de talento político até nas gerações mais novas. Rodrigo Moita de Deus canaliza o seu cinismo para tentativas de humor, a sua verdadeira vocação. Miguel Morgado transforma o seu cinismo em sectarismo e vulgaridades emocionadas, pecha ainda mais infeliz por vir de um académico. Ambos são cínicos, descrentes de um acordo com os opositores, soberbos no seu conservadorismo. Isso leva-os para um estado de permanente frustração e primarismo intelectual. Em vez de começarem por reconhecer o que é comum – no caso do Freeport, por exemplo, que há uma responsabilidade moral do PSD e do CDS na conspiração inicial e no aproveitamento subsequente, e que não há provas de ilegalidades, apenas boatos – partem para as vantagens imediatas que descortinam nas situações e para o mecânico denegrimento dos adversários. Nada mais lhes ocorre. Não pensam a comunidade, apenas reagem ao conflito.

Esta forma de fazer política está caduca. Ou talvez nem tenha já nada a ver com a política, apenas com o espectáculo.