Todos os artigos de Valupi

Cegos a conduzirem cegos

FátimaPorque é que confia tão cegamente em Pedro Passos Coelho?

NobrePorque, pelos contactos pessoais que eu tive com ele, vi nele as características humanas que me tranquilizaram…

FátimaQuais são essas características, sotôr?

NobreDe serenidade, de preocupação com o outro, de preocupações sociais, de preocupação com Portugal e com os portugueses mais frágeis. E isso é o que me importa. Porque se tivesse talvez sido outro líder do PSD com outras características, eu não teria aceite pensar durante uma semana, eu teria respondido no momento. Pois bem, essas conversas prolongadas que eu tive permitiram-me identificar uma pessoa com a qual eu sinto empatia pessoal, e em quem eu confio, e em quem eu acredito que pode e será a mudança. Porque, repare, o nosso país precisa de começar um novo percurso. […]

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O que Nobre nos está a descrever, se tomado como um relato fidedigno, dá-nos conta de uma ingenuidade manipulável misturada com uma soberba manipuladora. Pelos vistos, quer-nos fazer crer que ignora ser todo e qualquer líder partidário, à direita ou à esquerda, um paladino da preocupação com o outro, das preocupações sociais, da preocupação com Portugal e com os portugueses mais frágeis. Porém, de todos, foi logo escolher aquele que tem repetidamente anunciado querer trocar essas preocupações pela redução dos apoios do Estado e promoção de uma cultura da esmola. Numa outra faceta, assume que os seus compromissos políticos não passam de afectos criados por uma subjectividade que abdica de qualquer justificação intelectual ou mera racionalização objectiva. Como Nobre candidamente revela, as ideias e projectos do agente político que lhe apareça à frente são irrelevantes, a única dimensão que tem valor é a da empatia e seus encantos inefáveis. O mundo reduzido ao reflexo de si próprio num espelho, eis a explicação para as escolhas políticas do rei da cidadania.

Diz ele que Portugal precisa de começar um novo percurso. De facto, ver Cavaco, Nobre e Passos como as três principais figuras do Estado seria, inquestionável e desvairadamente, um novíssimo percurso em mais de 800 anos de História.

Os vice-presidentes também são homens invulgares

Diogo Leite de Campos surge como a figura mais patusca do actual PSD. Sendo um dos vice-presidentes do partido, é uma janela aberta falante para os bastidores da rambóia em que se transformou a liderança de Passos. Tendo em conta que neste momento as ordens na São Caetano são para mandar calar todo e qualquer hominídeo com protagonismo na campanha, de Relvas a Nobre, tantos os disparates expelidos por aquelas bocas, temos de agradecer ao Câmara Corporativa o inestimável trabalho de recolha e arquivo das performances deste senhor que não tardará a sair de cena. Pode começar-se por aqui:

Passos Coelho amigo, o Sol está contigo!

Geração de heróis

O documentário 48, de Susana de Sousa Dias, estreou nesta quinta-feira em Portugal; naquela que é uma óbvia e legítima intenção de se colar à data e simbolismo do 25 de Abril. Aposto é que realizadora e distribuidora decidiram o calendário de lançamento antes de saberem de dois acontecimentos imprevistos até há poucas semanas: a manifestação de 12 de Março e as eleições a 5 de Junho. No meio destes extremos temporais, já de si ligados dialecticamente pois se apresentam simultaneamente como divergentes e complementares, temos agora uma obra que liga estas polaridades e as radicaliza; isto é, unifica-as numa sua invisível raiz. Os gregos têm uma palavra feliz para esta felicidade: kairos – o ponto de tensão entre o demasiado cedo e o demasiado tarde, exactamente o momento certo para o humano se cumprir ou o desígnio divino se realizar.

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É matemático

O João Galamba tenta mais uma vez – e que nunca desista – ter uma discussão minimamente objectiva acerca do legado de Sócrates enquanto governante reformador. Porém, depara-se-lhe um problema terrível. É que não existe ninguém no PSD que esteja em condições de perceber a importância desta notícia, quanto mais conceder mérito a quem de direito, ou sequer expressar regozijo por algo tão decisivo para todos os sectores da economia e da cultura estar a acontecer:

Portugal é o país da UE com mais progressos na educação

O relatório sobre o progresso da educação mostra que a União Europeia foi bem sucedida no objetivo de aumentar o número de diplomados em matemática, ciência e tecnologia, com um crescimento de 37 por cento desde 2000, uma área em que Portugal surge entre os melhores desempenhos.

Portugal é o país com maior crescimento, seguido da Eslováquia e da República Checa. O número de diplomados em matemática, ciência e tecnologia em Portugal cresceu 193,2 por cento entre 2000 e 2008 e a percentagem de mulheres passou de 41,9 para 34,1.

Fonte

Do PSD, um partido actualmente decadente e antipatriótico, o partido do chumbo eleitoralista da avaliação e do ataque aos resultados do PISA, ou sua desvalorização pelo silêncio, só podemos esperar burrice e desonestidade intelectual. É matemático.

Uma casa portuguesa, com certeza

FátimaO sotôr não tem um currículo parlamentar. Muitos políticos criticaram-no justamente porque o senhor não tem essa passagem pelo Parlamento, não conhece os mecanismos, não conhece os meandros da Assembleia. O que é que o senhor mudaria se for Presidente da Assembleia da República? Vai mexer nos regimentos, por exemplo?

Nobre – […] Eu costumo dizer: eu se fui capaz de aprender e de estudar tratados de medicina, de cirurgia e de urologia, sou capaz de aprender o Regimento da Assembleia da República, e rapidamente. E, por outro lado, o Presidente da Assembleia da República tem um gabinete de aconselhamento, tem assessores de aconselhamento. O que eu faria é aproximar os cidadãos da Assembleia da República. A Assembleia da República é a casa da democracia portuguesa mas tem também de ser a casa da cidadania dos portugueses. […]

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Ou seja, por um lado, Nobre avisa que vai para o Parlamento estudar como é que essa caranguejola funciona, dando como prazo máximo para o processo estar concluído os anos que levou até se especializar em cirurgia e urologia. Por outro, ele nem precisará de perder tempo a marrar aquelas parvoíces porque terá um gabinete com uns tipos que são pagos para saber dessas coisas, podendo Nobre assim cumprir a sua vocação descansado – a qual consiste em ir para a rua e passar o dia a tentar convencer os transeuntes a entrarem na Assembleia da República; desde que façam a devida prova de serem cidadãos, bem entendido, que aquela é uma casa séria.

Vodka laranja – edição internacional

Numa bela tarde de Primavera, as borboletas vermelhas juntaram-se às borboletas laranjas e azuis para chumbar o PEC sem terem apresentado qualquer alternativa e sabendo das consequências catastróficas para a economia nacional de tal decisão. Por causa disso, o Governo deixou de ter condições para seguir a sua política, tendo sido obrigado a demitir-se. Por causa disso, o Estado está obrigado a aceitar as condições que o FMI vier a impor. Por causa disso, os países europeus irão participar na ajuda externa a Portugal. Por causa disso, na Finlândia o partido nacionalista de extrema-direita Perussuomalaiset (Verdadeiros Finlandeses) fez a sua campanha eleitoral tendo como bandeira principal a recusa da contribuição finlandesa para os cofres portugueses. Por causa disso, a extrema-direita finlandesa teve oito vezes mais votos do que em 2007, obtendo 19% dos votos e 39 assentos parlamentares.

Moral da história: o bater de asas dos comunas portugueses é tal forma regido pela teoria do caos que consegue provocar o crescimento triunfal dos reaças na longínqua Finlândia.

O Viegas é um bacano, o pior é o resto

Lourenço Ataíde Cordeiro (cuja existência desconhecia até ontem) diz que não sabe quem sou (embora omita que nunca o tentou saber) mas sabe que escrevo de uma secretaria de Estado qualquer (assim expondo os limites da sua imaginação). Não satisfeito, acrescenta que eu represento o PS (denunciando que nem me lê a mim nem está para se maçar à procura das opiniões do PS).

Ora, vou aproveitar a atenção para repetir o que disse, agora usando outras palavras: que Francisco José Viegas odeie Sócrates, ou o PS, ou o PS de Sócrates, isso não merece qualquer censura nem justificaria reparo, e que pretenda ser deputado, é de aplaudir e louvar; já que o PSD queira independentes com um perfil persecutório, tal como tem deixado fartamente publicado por escrito e enquanto comentador político televisivo, eis o erro da estratégia social-democrata.

(não, Lourenço, não espero que desta vez tenhas entendido, também não pedia tanto)

Cidadania da linhagem de Octávio Machado

Nobre atingiu aquele grau de alienação onde já nos desperta a misericórdia. A figura outrora incensada está agora reduzida a um farrapo, como se vê do princípio ao fim da entrevista. Mas tendo em conta que este populista vem de arrebanhar 600.000 votos, e que o PSD lhe ofereceu o cargo de vice-Presidente da República sem ter sentado o traseiro numa cadeira de deputado, há o imperativo de o denunciar até se ir embora ou se converter à democracia.

Veja-se esta declaração:

A página do Facebook, não sejamos ingénuos, eu sei bem que foi montado um ataque concertado, sectário, partidário, e foi a razão pela qual foi fechada […]

Estava uma jornalista à frente dele quando revelou ter sido alvo de um ataque partidário que o obrigou a abdicar de um dos seus canais de comunicação, logo aquele onde tinha anunciado a entrada nas listas do PSD. Também não consta que tenha saído do estúdio da RTP de helicóptero para se voltar a refugiar numa estrada do Sri Lanka após a entrevista. Pois ninguém da comunicação social – ninguém, senhores ouvintes! – quis saber qual o partido, ou partidos, responsável pelo dito ataque concertado e sectário.

Em relação à imprensa portuguesa, não surpreende o vazio deontológico, dado que ela não existe. Mas em relação a Fernando Nobre, avançámos bastante no conhecimento do que entende pelo termo cidadania, o seu conceito fetiche. É algo pleno de originalidade e já consagrado nos meios desportivos, pois radica no contributo de Octávio Machado para a gestão de conflitos no espaço público, a famigerada expressão Vocês sabem do que estou a falar. Funciona assim: os que sabem, sabem; os que não sabem, têm vergonha de perguntar. Daqui resulta uma pacificação imediata das contendas, visto que ninguém fica chateado nem se perde tempo a investigar do que se tratava afinal.

Se os deuses estiverem loucos, ainda veremos Nobre ser confrontado pelos deputados acerca do Regimento, e demais protocolos e minudências da Assembleia da República que ignora por completo, e a despachá-los com uma versão adaptada da fórmula octaviana: Se vocês sabem do que estou a falar, ajudem-me, por favor.

De facto, um homem invulgar

Passos é aquele líder da oposição que pensou ser necessário pedir a ajuda externa logo em Outubro mas que, não se sabe porquê ou a mando de quem, resolveu prolongar a agonia das contas públicas viabilizando o Orçamento só para, afinal, derrubar o Governo assim que este consegue um acordo na Europa que acabava com o espectro da ajuda externa e seus colossais prejuízos.

Seja qual for o ângulo de análise, estamos realmente perante um homem invulgar.

Da arte de bem castigar

O PS é neste momento o único partido que leva às costas a responsabilidade de garantir a qualidade da democracia e a viabilidade do regime – por razões antigas, umas, e recentes, outras. Umas, aquelas que resultam do papel histórico do PS na defesa e consolidação de uma sociedade livre e autónoma, ainda antes do 25 de Abril e até hoje. À sua volta, vemos os extremismos anti-regime do PCP e BE, o oportunismo do CDS e a decadência do PSD. Outras, aquelas que nascem da excepcionalidade de Sócrates, cuja liderança dotou o partido com a melhor inteligência estratégica disponível entre os quadros socialistas. À sua volta, vemos líderes sem projecto e sem carisma, incapazes sequer de compreender o eleitorado.

O congresso do PS, em Matosinhos, foi uma exibição disto mesmo: profissionalismo, inteligência e carisma. Resultado: partido unido a menos de dois meses das eleições. Venham elas, cumpra-se a democracia na festa do voto, foi a mensagem transmitida para o exterior e gravada em todos os que participaram. Imaginemos, como exercício pedagógico, que o congresso tinha mostrado um elenco significativo ou avassalador de vozes discordantes da actual estratégia, que Sócrates se tinha apresentado com discursos confusos ou cobardes, e que até a organização tinha falhado no básico, dos meios audiovisuais às bandeirinhas. Que diriam os que recorreram à noja desmiolada das comparações com Hitler, IURD e Coreia do Norte? Louvariam a abertura democrática e derramariam ternura por cima da modéstia amadora do evento? Ou entrariam desvairada e freneticamente em modo de carnificina, declarando a morte política de Sócrates e a iminente derrocada eleitoral para números abaixo dos dois dígitos?

Há mais de 3 anos que, diariamente, há quem anuncie que Sócrates está acabado, que o PS se vai render às chantagens. Para estes infelizes, a liberdade e força dos militantes socialistas torna-se assim num doloroso, humilhante, castigo.

Será verdade?

Pelo José Albergaria, Passos Coelho: prova não superada, fiquei a saber de algo que me escapou na imprensa e cuja fonte continuo a desconhecer: na reunião com o Governo para preparar a negociação com o FMI, a 13 de Abril, Passos sentou-se, entregou as 27 perguntas farsolas e terá ameaçado sair logo a seguir, tendo Catroga de o chamar à razão para que tal não acontecesse. A reunião demorou 20 minutos.

Se isto é verdade, este gajo ainda está pior do que eu pensava.

Vodka laranja

PCP e BE aliaram-se ao PSD para chamarem o FMI, agora vão barricar-se e disparar contra a invasão imperialista até às eleições e nos anos seguintes.

Conclusão: também os nossos revolucionários estavam a desesperar pela ajuda externa dos capitalistas.

Freitas do Amaral ataca o Aspirina B*

“O doente tinha uma pneumonia e precisava de antibióticos e a análise que o Governo fez foi que o doente tinha uma gripe e só precisava de aspirinas. Foi dando umas aspirinas de três em três meses, mas não serviu para nada”, disse ainda Freitas do Amaral à RTP, acrescentando que, “a partir de certo momento, José Sócrates começou a viver num mundo irreal”.

Fonte

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Freitas do Amaral é um dos meus heróis do regime democrático. E o que mais admiro nele é a sua independência, a qual tantos incómodos, calúnias e desgostos lhe deu desde que saiu do CDS. Neste momento, últimos 2 anos, meteu na cabeça que Sócrates devia ser afastado do Poder e tem trabalhado para isso. O modo como o faz, porém, é sectário e fulanizado, roçando o difamante para Sócrates e para o PS, o que anula a pertinência – até a mera razoabilidade – de algumas das suas intervenções.

Isso leva-nos para o apoio, dito incondicional, que Freitas deu a Cavaco nestas eleições presidenciais. O qual aconteceu depois de nada termos ouvido da sua boca acerca da Inventona de Belém, o que é absolutamente espantoso tendo em conta que não se inibiu de tomar posição no caso Face Oculta, aí para insinuar favorecimento do Procurador-Geral da República a Sócrates. Saltemos para o discurso de vitória de Cavaco e comentário de Freitas a respeito, onde o desvalorizou por completo, dizendo que não se devia dar importância às palavras ditas naquela circunstância, até porque o que contaria mesmo seria o discurso da tomada de posse. Explicou que, por tradição, é nessa ocasião que os grandes estadistas assumem o papel unificador que se espera de um Presidente da República. Pois saiu um comício que valia por uma moção de censura, partindo em dois o Parlamento e o País, e Freitas voltou a ficar calado. Nesta entrevista, referindo-se ao episódio, deixa um comentário que é pura e simplesmente absurdo, se não for vexante, mais valendo que tivesse continuado calado.

Sou um dos portugueses que não podia ter maior curiosidade para conhecer as aspirinas com que Freitas do Amaral trataria do estado infecto e putrefacto em que se encontra o Cavaquismo.

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* Adivinhaste, é uma ironia.