Geração de heróis

O documentário 48, de Susana de Sousa Dias, estreou nesta quinta-feira em Portugal; naquela que é uma óbvia e legítima intenção de se colar à data e simbolismo do 25 de Abril. Aposto é que realizadora e distribuidora decidiram o calendário de lançamento antes de saberem de dois acontecimentos imprevistos até há poucas semanas: a manifestação de 12 de Março e as eleições a 5 de Junho. No meio destes extremos temporais, já de si ligados dialecticamente pois se apresentam simultaneamente como divergentes e complementares, temos agora uma obra que liga estas polaridades e as radicaliza; isto é, unifica-as numa sua invisível raiz. Os gregos têm uma palavra feliz para esta felicidade: kairos – o ponto de tensão entre o demasiado cedo e o demasiado tarde, exactamente o momento certo para o humano se cumprir ou o desígnio divino se realizar.

Deste filme vai nascer uma torrente de escritos biográficos, fundamentados, dilacerantes, belos. Vai chamar a atenção para o valor do que se faz na associação Não Apaguem a Memória e noutras entidades congéneres. Vai despertar vocações, quiçá dando origem a um Giacometti com a paixão pela recolha dos testemunhos dos presos políticos do fascismo ainda vivos ou cujas experiências estão conservadas nos seus textos privados ou nas memórias dos seus próximos. Vai, acima de tudo, permitir a dezenas, centenas, milhares ou milhões de portugueses e africanos colonizados terem um contacto directo, porque pela voz dos que sofreram, com uma força espantosamente poderosa que moldou a vida de sucessivas gerações desde 1926. Uma força que continua a influenciar política e sociologicamente Portugal, 37 anos depois da Revolução dos Cravos, por via da herança de anulação cívica e dos traumas individuais e orgânicos que deixou inscritos e calados na sociedade.

O que a autora fez, se algo imperfeito no domínio da linguagem estética e seu acabamento, é de uma absoluta perfeição conceptual. Prova suprema de que não faltam temas e materiais para, com orçamentos ridiculamente pequenos, se fazerem obras que entram directamente para a nossa memória colectiva e abrem vias de afirmação criativa que são tão vanguardistas como populares. Mas quão populares?

É aqui que voltamos às nossas queridas balizas, 12 de Março e 5 de Junho de 2011. De um lado, uma manifestação que já vai em 500 mil participantes, de acordo com os organizadores. Se cada um destes bravos visse o filme no cinema, quanto mais não fosse para descobrir uma outra perspectiva do que seja estar à rasca, isso faria de 48… o filme português com mais espectadores de sempre, 120 mil entradas acima do Crime do Padre Amaro! Está, pois, ao alcance, e facilmente. Mas porquê alimentar falsas modéstias? Como suportar ver a nossa mais crua viagem ao passado de torturas e opressão ficar abaixo de vacuidades como Anjos e Demónios (504 704), O Panda do Kung Fu (605 124) ou Mamma Mia! (851 681)? Eis aqui o outro lado da questão, o total de eleitores votantes a permitir superar o filme estrangeiro mais visto de sempre, Avatar (1 206 162). Se conseguirmos convencer os cidadãos a passarem uma hora e meia a olhar para as caras a quem devem a liberdade e democracia que hoje desfrutam ou desperdiçam, então, e a números de 2009, teríamos… 5 683 967 espectadores! Precisamente o número de entradas que começava a fazer justiça ao que o documentário dá a ver, a pensar e a sentir.

No final da sessão das 21.30, nesta quinta-feira, uns quantos bateram palmas. É algo que irá repetir-se enquanto o filme estiver em exibição. Mas eu não o fiz. Não queria sacudir assim a dor feita de admiração pelas vítimas e piedade pelos carrascos. Queria era juntar-me àqueles heróis e chorar com eles. De agradecimento.

13 thoughts on “Geração de heróis”

  1. Este esplendoroso e lancinante texto deveria ser divulgado em todo o país! É mesmo necessário que os mais novos – os da actual geração à rasca – percebam o que é o essencial na vida, que nada tem a ver com os “rodriguinhos” de “show off” em que a vida deles se vem transformando, graças à “ajuda” de toda a comunicação social!

    E quando ouço as declarações do desvairado Otelo S. C. fico mesmo com muito medo da repercussão que a desinformação actual pode ter nas jovens cabeças que não conheceram o que é viver SEM LIBERDADE!

  2. muito eu gostava de te ver a chorar e a cagar, Val. e não é por ser sádica ou perversa, não: imaginei, de repente, talvez por eu cheirar a revolução, um documentário sobre ti – o que é ser herói e fazer uma reValução. :-)

  3. …”Queria era juntar-me àqueles heróis e chorar com eles”…

    a luta de um povo, com os seus “herois”, é sempre uma gesta linda…
    com avanços, recuos,
    derrotas, pequenas vitorias,
    ate a liberdade
    em varios continentes e povos…
    muitas vezes de modo contraditorio…

    são milhares de pequenas, grandes, intervenções
    que fazem, criam, cantam, essa gesta
    nunca em absoluto, terminada…

    daí
    a “luta continua”…

    abraço

  4. Parabens pelo magnífico texto. Conheci alguns em VFXira que ali foram parar vindos do Couço porque dali era mais fácil apanhar o comboio para Caxias com passagem por Santa Apolónio e Cais do Sodré para visitar os pais na cadeia.

  5. Couço…
    conheci há 46 anos, no Aljube
    um resistente do Couço
    alcunhado, suponho de “Lagarto”…
    tipo duro
    com um sorriso espantoso
    determinado naquelas ambiencias..
    conhece-lo JCarmo Francisco?
    gostava de poder dar-lhe um abraço…
    abraço amigo

  6. Quem poderá ignorar o heroísmo, o sacrifício de tantos e tantos amigos a quem devemos, sem margem para dúvida, a liberdade de que hoje gozamos?! Mas poderá isso impedir-nos de lamentar que hoje, a sua cegueira ideológica esteja OBJECTIVAMENTE (para utilizar um termo muito usado por aquelas bandas) a entregar direitinho o país à direita mais direita que se pode conceber?!
    Do meu ponto de vista é precisamente o heróico combate que travaram os que os antecederam que lhes devia trazer responsabilidades acrescidas a que estão longe de dar resposta!

  7. Caro Amigo Aires: a pessoa do Couço que melhor conheci porque fomos colegas de turma durante 3 anos chama-se Horácio Rufino e fundou depois a JCP. Numa reportagem realizada por Adelino Gomes para a revista do jornal «Público» esteve o Alvaro Pato, o Carlos Lilaia, o Vidaúl Froes Ferreira. o Arnaldo Ribeiro e eu mas o Horácio não pode vir do Algarve.

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