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Por Toutatis, mas o que é isto?


“Nós temos que continuar a confiar no diálogo entre as forças políticas. Este é um tempo que requer muito bom senso e muita serenidade. A Europa vive um tempo muito, muito, muito complexo e Portugal até este momento está a ser olhado de forma positiva no que diz respeito a esses dois ativos que já hoje sublinhei, o ativo do consenso político e o ativo do consenso social.”

[…]

“Eu, até por aquilo que aconteceu hoje aqui, onde foram atribuídos prémios de inovação, de empreendedorismo e de conhecimento, e também pelos indicadores que tenho recolhido nos meus encontros com empresários no país, tenho a esperança – eu disse também que não posso garantir – que no segundo semestre, lá pelo fim, possa ocorrer uma inversão da tendência da produção nacional”, esclareceu.

“Deus queira que seja assim”, sublinhou.

Do fulano cuja hipocrisia e soberba são um insulto diário à República

Good food for good thought

The reason I like talking about fear is that it’s a human experience. We know that security is important, and it’s only going to get more important. So as we look 10 to 15 years out, what I want to do is to think: What do we really need to be afraid of? I’m on sort of a personal campaign against fear. When we talk about what it means to live in a safe and secure world, there’s a lot of misinformation and a lack of information out there. Because of that, people are creating bogeymen. We’re creating these irrational things, and that’s very dangerous—especially when we’re making decisions, whether it’s hardware design or something else. We need to take a fact-based approach to what should we be afraid of and what shouldn’t we be afraid of. And the stuff that we shouldn’t be afraid of, we need to push that aside. The stuff we should be afraid of, we really need to dig into.

What’s frustrating is that talking about this fear is not usually a technology question; it’s a cultural conversation. When I’m out teaching or lecturing, 50 percent of the questions I’m asked have to do with fear, something that someone is worried about. Let’s find out what people are afraid of and attack it. I’m an incredibly optimistic person. The problem with fear is that fear sells. It even has policy implications. I want to pull people away from the fear because otherwise people will gravitate toward it. Very few innovations have come out of being fearful.

Intel Futurist Discusses Data’s Secret Life, the Ghost of Computing and How We Should Attack Fear

Temos uma direita de bimbos

A intenção de acabar com feriados alegando que tal contribui para o aumento da produtividade é a ideia mais estúpida do século XXI em Portugal. Evidentemente, o século está apenas a começar e a sua actual posição de topo não deverá manter-se, mas não vai ser fácil destronar esta aberração que ofende ao atingir duas datas que, pelo contrário, ganhariam era em receberem investimento festivo. Sintomaticamente, as alimárias que se lembraram disto passeiam-se com a bandeira nacional na lapela para todo o lado. Não tenho a certeza, porque não percebo muito desses assuntos difíceis, mas dá ideia de estarmos perante o 1º Governo pós-moderno da História de Portugal, onde as grandes narrativas míticas que estruturam a vivência cultural e social do Povo, celebradas em datas solenes, são substituídas pela semiótica do crachá. Se juntarmos a patetice das viagens em económica, a parolada das gravatas e os regulares espectáculos da decadência e perfídia cavaquistas, grandes símbolos do poder triunfante, temos que a presente direita reúne o que de mais bimbalhão se encontra nesta terra à beira-mar atrofiada.

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E o Vaticano ao preferir manter o 15 de Agosto, uma data sem relevância popular, assim abdicando do Dia de Todos os Santos, uma tradição profundamente enraizada na sentimentalidade pátria? Que não haja dúvidas, insondáveis são os caminhos destes senhores.

Chá, café ou laranjada?

“São momentos de angústia para muitas pessoas em Portugal, é preciso dizer que nós não nos deixamos vencer por essas dificuldades”, disse hoje Passos Coelho, discursando na sessão do 38º aniversário do PSD.

“Mais, as pessoas esperam que quem está no Governo não ande a chorar, mas, pelo contrário seja mobilizador, para que aqueles que têm capacidade para acrescentar valor e para mudar as coisas no país se sintam mais confortados, mais confiantes de que esse é o caminho que vale a pena fazer”, frisou.

Fonte

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Com o PSD no Governo, as pessoas esperam força, virilidade, garbo, diz-nos Passos. O discurso tem de ser mobilizador, de forma a confortar aqueles que acrescentam valor e mudam as coisas, esses heróis da revolução laranja. São esses que têm de se encher de confiança de forma a conseguirem resistir à angústia dos outros e evitarem o contágio da sua fraqueza, esses muitos que não acrescentam valor e não mudam as coisas.

Com o PS no Governo, as pessoas esperam a verdade e nada mais do que a verdade. A verdade, como se sabe, não é bonita quando governam os socialistas, porque os socialistas estragam tudo, desperdiçam recursos, abandalham a fazenda pública, mentem, roubam e levam o País à bancarrota.

E é isto. O PSD é isto e não mais do que isto.

Espera, afinal a Grécia é Portugal

André Freire considera que o governo socialista de José Sócrates foi um executivo centrista, por opção do líder. Era uma versão mais próxima da social-democracia à inglesa. O investigador considera que, após as eleições de 2009, Sócrates estava disponível para dialogar com quem quisesse para que fosse possível formar um governo de minoria socialista. “E ninguém quis. O mínimo que a esquerda radical (PCP e BE) devia ter feito era testar se Sócrates estava a falar a sério, dizendo ‘o nosso caderno de encargos é este’, e ver o que aconteceria. Não fizeram isso. Portanto a situação entre 2009 e 2011 foi de deterioração política. Mas não era obrigatório que assim fosse, podia ter sido de outra maneira”, refere.

Fonte

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Logo a seguir às eleições de 2009 e respectiva constituição de um Governo minoritário, ainda com a sucessão de Ferreira Leite em aberto, chegou-se a falar que o Orçamento de 2010 poderia não ser viabilizado pelo PSD, o que levaria à necessidade de repetir as eleições de imediato dada a impossibilidade do PS em governar. Claro, tratava-se apenas de retórica para os fidalgotes laranjas brincarem à política, sendo que a Manela rapidamente impediu essa fagulha de alastrar. O plano era todo outro, e passava por duas datas: a eleição do novo presidente do PSD, que os cavaquistas estavam seguros e desejosos de ser Paulo Rangel, e a reeleição de Cavaco. Pelo meio, Sócrates, Governo e PS continuariam a ser queimados num fogo cada vez mais intenso, boicotados no Parlamento, perseguidos na Justiça e emporcalhados na comunicação social. Era simples e foi feito com plena eficácia, mesmo com essa mudança de casting que a vitória de Passos introduziu.

Hoje, há quem diga que Sócrates devia ter-se demitido após a moção de censura apresentada por Cavaco na Assembleia nos idos de Março, outros chegam ao ponto de dizer que Sócrates nem sequer devia ter aceitado formar um Governo minoritário. São treinadores de bancada, francos no lamento mas reduzindo a complexidade daquelas situações ao seu quadro emocional presente. Caso Sócrates se tivesse demitido após a golpada de Cavaco na sua tomada de posse, de imediato seria apodado de irresponsável, cobarde, calculista, maquiavélico, doidivanas. Certo? Certíssimo. E ainda pior seria a decisão de se recusar a governar em minoria, numa altura em que se estava a conseguir resistir à crise económica e ainda antes de rebentar a crise das dívidas soberanas. Em ambos os casos, os portugueses não conseguiriam compreender, muito menos premiar, tais espadeiradas nesses nós górdios. E os adversários, à direita e à esquerda, entrariam em êxtase com a oportunidade de devassarem o eleitorado socialista, urrando que ficava provado ser Sócrates um tirano que precisava da maioria absoluta para conseguir exercer o poder.

Este é o cenário onde a reflexão de André Freire se destaca com cristalina nitidez. E este é o mesmo cenário que acontece na Grécia, onde os partidos à esquerda poderiam somar mandatos para uma solução governativa, mas onde o sectarismo alucinado prefere o caos ou a repetição do acto eleitoral. Por cá, de 2009 a 2011, o BE e o PCP preferiram trabalhar alegremente para a vitória da estratégia da direita, alinhando em todas as suas acções e golpadas. Foi, como agora sabemos e sentimos no lombo, o seu contributo para o caos.

Chungaria & Bezana

Se vir as reacções, vê-se que metade do PS, a chamada ala de José Sócrates, está histérica com este processo. Hoje [ontem] foi Augusto Santos Silva, que conhecemos pelas intervenções na Assembleia da República a defender coisas indefensáveis… É preciso ver uma coisa: o ACP está-se nas tintas para a política, ao contrário do que dizem esses socráticos. Não estamos contra o PS nem contra o PSD. Temos dialogado com todos os partidos e não enfio o chapéu de que estou a fazer favores ao PSD. Sempre fui e sou independente. Percebo que estejam enervados com alguma coisa que se possa descobrir, mas os portugueses estão a pagar milhões à custa dessas negociações, portanto estou tranquilo, e os comentários desses senhores, desses rapazes, batem completamente na carapaça da minha indiferença.

Carlos Barbosa, um gabiru que foi corrido do Sporting em Fevereiro por incompetência – sim, esse mesmo Sporting que mantém em funções essa personagem indescritível chamada Paulo Pereira Cristóvão

Revolution through evolution

Little Sisterhood Among Women Executives
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Shut Off E-Mail to Ease Work Stress
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Adolf Hitler’s ‘messiah complex’ studied in secret British intelligence report
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Light Weights Are Just as Good for Building Muscle, Getting Stronger
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Weight Loss Led to Reduction in Inflammation
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Mutltitasking Hurts Performance, Makes You Feel Better
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Computer Use and Exercise Combo May Reduce the Odds of Having Memory Loss
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Eating Fish, Chicken, Nuts May Lower Risk of Alzheimer’s Disease
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Happiness Model Could Help People Go from Good to Great
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Are You a Facebook Addict?

Stop the press: Seguro defende a separação de poderes!

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A iniciativa do ACP ao fazer uma participação criminal contra ex-governantes do PS não é só uma originalidade nascida do ar empestado do tempo, é igual e simultaneamente uma acção política com natureza e objectivos precisos. Por um lado, escolhe um só Governo e um só partido como alvos, deixando de fora tantos outros casos de tantos outros Governos e respectivos partidos que entrariam dentro dos critérios aludidos para a acção. Por outro lado, quem dá a cara pela manobra repete a cassete laranja da procura da “verdade” e ainda tem o topete de fazer uma associação canalha entre as SCUT e os cortes dos subsídios e restante austeridade. Mensagem: a culpa dos males que se abatem sobre a população é do anterior Governo e seu bando de criminosos. Para que ninguém tenha dúvidas acerca do que está aqui em causa, os burlescos Medina Carreira e João Duque estão indicados como testemunhas de acusação.

Perante este número, qual deveria ser a posição do PS, que devia Seguro dizer? Bom, deixa cá ver assim de repente: podia começar por desmontar a hipocrisia política inerente, depois expor a sua lógica partidária e por fim referir o absurdo legal que se esconde no ataque calunioso. Porém, contudo, todavia, Seguro não fez nada disso. Preferiu dizer isto:

Como sabe, eu defendo uma separação entre aquilo que é político e aquilo que é da Justiça. À política o que é da política e à Justiça o que é da Justiça. Se houver nessa matéria motivos para a Justiça agir, então a Justiça tem que agir. Mas esse, como sabe, é um critério que utilizo em tudo na vida pública. Quando há dúvidas, a Justiça que investigue.

É uma reposta que, se a sonsice pagasse imposto, deixaria Portugal com superavit para as próximas décadas. A Seguro não ocorreu mais nada do que falar de si e apenas para tranquilizar os indígenas acerca da sua crença na separação de poderes teorizada por Montesquieu no século XVIII, tópico que a sua equipa de estratégia e comunicação sabe andar a ser discutido acaloradamente à boca pequena nas paragens de autocarro e mijatórios públicos. Poderemos então antecipar que em futuros processos contra ex-ministros socráticos, venham do sindicato dos rebocadores liderado por Carlos Barbosa ou de qualquer outra entidade da sociedade civil já encorajada por Passos Coelho, teremos direito a receber de Seguro esclarecimentos definitivos a respeito da sua posição face à escravatura nas Américas, a Guerra do Ópio e o exílio da família real para Inglaterra.

Como é óbvio, a declaração de Seguro revela uma cumplicidade moral com a acusação lançada. Por isso o DN a fez manchete na edição de domingo, fanáticos como são nos continuados ataques a Sócrates e apenas se distinguindo do Correio da Manhã como o softcore se distingue do hardcore na indústria pornográfica. O homem é tão transparente naquilo que se esforça tanto para esconder que chega a sorrir de satisfação no meio das vacuidades que largava em modo de vingança passivo-agressiva. Seguro, o impoluto, o socialista que jurou limpar o partido da porcaria que teve o desplante de o ignorar, refulge de santidade graças ao mais baixo da mais baixa política.

Precisamos é de ajuda interna

Não há nenhum mal em pedir ajuda externa, o mal é não corrigir aquilo que nos conduziu ao pedido de ajuda externa.

(minutos ou segundos depois)

A imagem de Portugal foi abalada pelo facto de ter recorrido à ajuda externa. Isso é inabalável. Quando se pede ajuda externa, a primeira confissão que se faz é que alguma coisa correu realmente mal e não conseguimos dominar o problema sozinhos.

Passos, teórico da ajuda externa

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Uma das mais comuns características nos manipuladores, tanto em casos de violência doméstica como num qualquer grupo onde tal se exerça, é a duplicidade do discurso, as repetidas contradições, o paradoxo como lógica ao serviço do manipulador. Neste exemplo, Passos Coelho, o principal responsável ao nível parlamentar pelas condições que tornaram inevitável o resgate financeiro, começa por dizer que a ajuda externa é algo neutro e o seu pedido normal ou até bondoso. Está a falar de si, do seu partido e do seu Governo. Logo depois, afirma que a ajuda externa aumentou gravemente os problemas de Portugal, equivalendo a uma declaração de falência política, sendo algo moralmente vergonhoso, uma tragédia para a Pátria. Agora, está a falar de Sócrates, do anterior Governo e do PS. Desta forma, utiliza a mesma situação para se ilibar de responsabilidades e para castigar os adversários, não fazendo qualquer referência ao contexto onde foi um protagonista decisivo e intencional. Podia ter evitado o pedido de ajuda externa? Podia, mas não era a mesma coisa…

A retórica da direita partidária actual é básica e é para básicos. A realidade educativa e cultural do País dá-lhes toda a razão em manterem essa estratégia, pois o português adora a sarjeta do Correio da Manhã e tem em Cavaco o seu mais alto magistrado. Reduzir a política a uma farsa moralista debochada inclusive permite chegar às audiências da esquerda imbecil, aliadas no tiro ao xuxa e mantidas num estado de democracia vegetativa. Para PSD e CDS, a degradação cívica, a apatia moral, o afastamento da política – enfim, o suporte psicossociológico do populismo – são factores que protegem os seus interesses por levarem a uma redução do debate e do escrutínio, restando-lhes só continuarem a diabolizar Sócrates e quem com ele esteve, até ao limite do possível. Nesse propósito, qualquer processo que se consiga abrir no Ministério Público e nos tribunais é garantia de meses e anos de ataques venenosos contra a credibilidade, o bom nome e a honra dos envolvidos. Que depois acabem todos inocentes será o que menos importa, pois o trabalhinho estará feito e o povo já selou a sentença.

A tentativa de criminalização de políticos não vem dos direitolas por acaso. Velhos hábitos tarde ou nunca desaparecem nos velhacos.

Falar Verdade aos Portugueses – Florilégio

O Presidente da República preferiu esta sexta-feira não comentar a «corrida» dos portugueses às lojas do Pingo Doce, no dia 1 de maio, considerando que «não deve tomar posição» quanto «à decisão de uma empresa e dos consumidores que decidiram aproveitar a promoção».

Salientando que não teve a «oportunidade de ver as imagens», mas leu «o que aconteceu»

Fonte

Para uma República dos Taxistas

“Acórdãos como este têm o resultado de anular qualquer esforço que a sociedade portuguesa faça para combater a corrupção, porque quem combate a corrupção pode acabar liquidado às mãos de juízes como estes”, alertou Sá Fernandes, defendendo que “é preciso combater a corrupção mas também estes juízes”. “Pessoas como estas não têm perfil para serem juízes e com esta postura não o deviam ser”, considerou o advogado. Em declarações à Lusa, Ricardo Sá Fernandes acusou os magistrados, entre os quais Rui Rangel, de terem “uma atitude de complacência com a corrupção e de enorme exigência com aqueles que a combatem”.

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Perante as criticas, o juiz Rui Rangel admite avançar com um processo contra o advogado: “Irei analisar o conteúdo das declarações e se entender que a minha honra e dignidade são postas em causa pela associação que é feita, de que a justiça protege os corruptos e não as vítimas, naturalmente que agirei em conformidade dentro daquilo que é um estado de direito responsabilizando criminalmente quem fez as declarações”.

Para Rui Rangel, as afirmações de Ricardo Sá Fernandes são “um chorrilho de disparates e ofensas gratuitas de quem não sabe conviver com as decisões dos tribunais”.

O desembargador lembrou que “as decisões dos tribunais não se comentam, recorrem-se”. Rui Rangel sublinhou que “os tribunais analisam a justiça com base nos factos que estão no processo. Não fazem rigorosamente mais nada e portanto todos os cidadãos são iguais perante a justiça e todos são tratados de forma igual, não há cidadãos de primeira nem cidadãos de segunda”.

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Esta polémica envolve duas figuras que pertencem à elite da Justiça portuguesa, por isso as declarações acima são do maior interesse para o taxista que há em mim. De um lado, temos um advogado que conhece tão bem o sistema que se permite acusar os juízes de cumplicidade com a corrupção. Do outro, temos um juiz que adormece tão levemente nos seus lençóis que nem se permite reconhecer alguma falha nalgum juiz. Esta polaridade é extremada pelo aparato das suas figuras públicas e mediáticas, onde aparecem, cada um a seu modo, como cidadãos íntegros e empenhados nas causas superiores da Justiça.

Eis a questão: um dos dois tem de estar errado ou podem estar os dois a expressar convictamente as suas mais cristalinas percepções e experiências? Se é fácil ver no angelismo de Rui Rangel apenas a projecção de um formalismo, mesmo que fundamental, já as considerações de Sá Fernandes, e descontando a sua veia desbocada, não deviam passar sem consequências, pois o que elas implicam é equivalente a declarar a abolição do Estado de direito. O bom senso, então, recomenda que se fundam as duas visões para aprendermos algo de útil com estes dois passarões.

Consoante a mistura, conforme se ponha primeiro os ingredientes do Sá ou do Rui no panelão, tanto podemos obter um retrato onde se vejam juízes humanamente volúveis, cedendo aqui e alinhando ali com a corrupção, mas onde a enorme maioria seria impoluta e o Sá Fernandes tinha tido apenas azar no processo que o deixou desvairado, como podemos obter um retrato onde toda e qualquer decisão dos juízes é, ontologicamente, um arbítrio impossível de anular sem com isso se anular o próprio acto judicativo.

Para o crescimento comunitário em dimensão cívica, é o segundo retrato o de mais férteis consequências. A Justiça, repetindo o estafado e inquebrantável cliché, é importante de mais para ficar apenas nas mãos dos magistrados e advogados. Há que começar por a sujeitar a um golpe implacável, mas não chegando ao ponto de partir costas aos juízes, que estilhace a redoma onde se esconde do contraditório. Manter, como Rui Rangel, que as decisões dos tribunais não são passíveis de comentário é insultar a inteligência dos taxistas que percorrem a cidade dia e noite, medindo com precisão as distâncias e os tempos da viagem. Quando os taxistas passarem a reflectir sobre o vazio onde se encontram os alicerces do edifício da Justiça, Sá Fernandes poderá, finalmente, sorrir consolado.

Como estás crescido e sábio, YouTube

Celebrou-se há dias o sétimo aniversário do YouTube, o momento em que o primeiro vídeo foi publicado. Nele se vê Jawed Karim, um dos três criadores da coisa, a disparatar durante 19 segundos. Não parece o começo mais auspicioso para a plataforma que viria a ser comprada pelo Google por 1.65 mil milhões de dólares um ano e meio depois, mas espelha a exacta essência do que estava em causa.

O YouTube tornou-se imediatamente uma marca doadora de estatuto global, onde estar ou não estar lá era a diferença entre existir e não existir para um qualquer conteúdo vídeo. Geraram-se fenómenos de fama mediática instantânea apenas pelas visualizações geradas dentro do ambiente youtubeano, e vingaram os temas ligados ao satírico, ao voyeurismo, ao burlesco, à nostalgia, ao circense, ao erótico e ao musical. Como o João Pedro da Costa poderá confirmar, ele que será quem em Portugal mais e melhor investiga o assunto, o YouTube tornou-se muito mais importante do que a MTV para a fruição, recriação e invenção do vídeo musical. Aliás, a MTV involuiu para uma mistela de reality shows destinados a sopeiras entre os 10 e os 14 anos.

Pois bem, creio que atingimos um novo estádio civilizacional quando o YouTube se torna a fonte de horas e horas de um seminário de Agemben. E de outros cromos que tais. Mas de este aqui, assim, com o som fanhoso, uma câmara fixa mal posicionada, um inglês literalmente macarrónico. E um aviso logo a abrir, atirado contra a vaidade dos jornalistas: só se chega ao presente pela arqueologia. E outro lá para o meio, ou pairando no ar de todas as sessões: a mente dos modernos adora a vontade, a alma dos clássicos cultivava a δύναμις – traduzindo para estupidez, este é o tempo da expressão das violências, outrora o da construção do mundo interior.