Espera, afinal a Grécia é Portugal

André Freire considera que o governo socialista de José Sócrates foi um executivo centrista, por opção do líder. Era uma versão mais próxima da social-democracia à inglesa. O investigador considera que, após as eleições de 2009, Sócrates estava disponível para dialogar com quem quisesse para que fosse possível formar um governo de minoria socialista. “E ninguém quis. O mínimo que a esquerda radical (PCP e BE) devia ter feito era testar se Sócrates estava a falar a sério, dizendo ‘o nosso caderno de encargos é este’, e ver o que aconteceria. Não fizeram isso. Portanto a situação entre 2009 e 2011 foi de deterioração política. Mas não era obrigatório que assim fosse, podia ter sido de outra maneira”, refere.

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Logo a seguir às eleições de 2009 e respectiva constituição de um Governo minoritário, ainda com a sucessão de Ferreira Leite em aberto, chegou-se a falar que o Orçamento de 2010 poderia não ser viabilizado pelo PSD, o que levaria à necessidade de repetir as eleições de imediato dada a impossibilidade do PS em governar. Claro, tratava-se apenas de retórica para os fidalgotes laranjas brincarem à política, sendo que a Manela rapidamente impediu essa fagulha de alastrar. O plano era todo outro, e passava por duas datas: a eleição do novo presidente do PSD, que os cavaquistas estavam seguros e desejosos de ser Paulo Rangel, e a reeleição de Cavaco. Pelo meio, Sócrates, Governo e PS continuariam a ser queimados num fogo cada vez mais intenso, boicotados no Parlamento, perseguidos na Justiça e emporcalhados na comunicação social. Era simples e foi feito com plena eficácia, mesmo com essa mudança de casting que a vitória de Passos introduziu.

Hoje, há quem diga que Sócrates devia ter-se demitido após a moção de censura apresentada por Cavaco na Assembleia nos idos de Março, outros chegam ao ponto de dizer que Sócrates nem sequer devia ter aceitado formar um Governo minoritário. São treinadores de bancada, francos no lamento mas reduzindo a complexidade daquelas situações ao seu quadro emocional presente. Caso Sócrates se tivesse demitido após a golpada de Cavaco na sua tomada de posse, de imediato seria apodado de irresponsável, cobarde, calculista, maquiavélico, doidivanas. Certo? Certíssimo. E ainda pior seria a decisão de se recusar a governar em minoria, numa altura em que se estava a conseguir resistir à crise económica e ainda antes de rebentar a crise das dívidas soberanas. Em ambos os casos, os portugueses não conseguiriam compreender, muito menos premiar, tais espadeiradas nesses nós górdios. E os adversários, à direita e à esquerda, entrariam em êxtase com a oportunidade de devassarem o eleitorado socialista, urrando que ficava provado ser Sócrates um tirano que precisava da maioria absoluta para conseguir exercer o poder.

Este é o cenário onde a reflexão de André Freire se destaca com cristalina nitidez. E este é o mesmo cenário que acontece na Grécia, onde os partidos à esquerda poderiam somar mandatos para uma solução governativa, mas onde o sectarismo alucinado prefere o caos ou a repetição do acto eleitoral. Por cá, de 2009 a 2011, o BE e o PCP preferiram trabalhar alegremente para a vitória da estratégia da direita, alinhando em todas as suas acções e golpadas. Foi, como agora sabemos e sentimos no lombo, o seu contributo para o caos.

10 thoughts on “Espera, afinal a Grécia é Portugal”

  1. Pelo meu comentario no post chungaria & bezana, não posso deixar de subscrever na integra o texto de André Freire.

  2. O papel histórico da «esquerda» BE/PCP e seus congéneres europeus tem sido, nos últimos anos, precisamente esse: manter (ou repor) a direita no poder enquanto o capitalismo se conserta. Mas continuo a conceder-lhes o benefício da dúvida: não o fazem por convicção – é apenas imbecilidade.

  3. “… caso Sócrates se tivesse demitido após a golpada de Cavaco na sua tomada de posse, de imediato seria apodado de irresponsável, cobarde, calculista… e ainda pior seria a decisão de se recusar a governar em minoria…”
    O grande erro de Sócrates e do PS foi, após se ter gorado qualquer hipótese de formar um governo de coligação, e após a golpada de Cavaco, foi não ter apresentado uma moção de confiança na Assembleia e, assim, deixar à oposição a responsabilidade pela queda do Governo e o Presidente com a inevitabilidade de ter de assumir todas as responsabilidades pela sua actuação. O Governo e o Partido ficariam, assim, isentos de qualquer dever para negociar com a troika e deixariam roda essa responsabilidade nas mãos de TODA A OPOSIÇÃO e do Presidente. Foi um erro não o ter feito. Gostava de ver o que é que teria acontecido. Possivelmente nem acordo com a troika teria havido, o que até, talvez, não tivesse sido nada mau.

  4. é um cenário interessante esse que colocas, José. Talvez tenha sido um erro ter dignidade pessoal e política (erros em que os líderes actuais , definitivamente não incorrem) e passar essa rasteira, mas depois de tantos nãos à solução, a qualquer solução e depois da ameaça pública de que seria promovida moção de censura caso ele não prescindisse de propor o PEC IV, uma pessoa fica a pensar. Terá sido erro ou virtude (que tardiamente será reconhecida?) Ne sais pas. Estávamos no nosso sofá a assistir – já aqui o disse e não me envergonho de o repetir, chorei nessa noite de suicídio em tom leviano, percebia-se o que aí vinha e agora, que vivemos o pesadelo, parece mais simples: é vivê-lo.

  5. A nossa política cinge-se a merda. Merda e mais merda. Guerras palacianas de merda.
    Ninguém está interessado em governar o país.

    Puta que os pariu a todos.
    Deviam, simplesmente, arder.

  6. Realmente dá que pensar essa notável semelhança entre os sistemas partidários português e grego.

    Quanto ao essencial, concordo bastante com os comentadores “dsm” e José.

    Quanto ao Dr. André Freire, parece-me que simboliza na perfeição toda a Academia portuguesa, sobretudo na área das tais “ciências” ditas sociais e que se pode resumir num único e simbólico nome: o Narciso. Porque só sabe e consegue falar quando já não é preciso…

    Não é quie não esteja carregado de razão, apenas porque agora é tempo para falar grosso relativamente à situação presente, não sobre o leite já derramado.

    Mas teremos talvez que aguardar mais uns dois anos, quando todos já tiverem tirado as suas próprias conclusões (na sua maioria provávelmente erradas), para ouvirmos então os senhores Doutores Sociais portugueses falar daquilo para que deveriam estar a alertar-nos agora. Obrigadinho, ó Narciso, fino (filho)…

  7. Socrates negociou a vinda da troika porque sabia o que aí vinha, o que esta gentalha que nos desgoverna queria fazer e o que iriam aproveitar para meter no acordo, metendo depois as culpas no FMI.
    Até nisso o homem teve sentido de estado e cuidado com o país : negociou , onerando a sua própria imagem, um acordo que teria sido dez vezes pior se tivesse sido deixado nas mãos da oposição.
    Um dia isso lhe será reconhecido.

  8. Citando o “Gato Vadio”: «Um dia isso lhe será reconhecido» (a José Sócrates).

    Sem dúvida que a História o registará, isso e muito mais (ou seja, tudo aquilo que lhe devemos)…

  9. Tudo isso parece muito lógico, mas…

    Vou-vos contar uma anedota, assim é mais fácil de explicar. Se coubesse ao José Sócrates retirar os subsidios isso seria feito assim: 50% seriam confiscados no 1º ano, com José Sócrates a dizer (sabemos que com razão) que se fosse a direita seria muito pior. No ano seguinte retirava metade dos outros 50%, e assim sucessivamente. Ao fim de 5 anos, quando só restassem alguns euros de subsídio, o José Sócrates exclamaria que já não ia tirar mais, e que tinha salvo os subsídios.

    Moral da história: o resultado final seria o mesmo, mas José Sócrates tudo faria para evitar o choque e as convulsões sociais.

    Creio que a discussão se deveria centrar no facto de terem sido cometidos erros no nosso processo de integração europeia, não se tendo acautelado suficientemente a necessária expansão do nosso aparelho produtivo. Isso, em conjunto com o facto de a UE ter sido instrumentalizada para servir os interesses económicos de alguns dos seus estados membros, nos conduziu ao estado actual. Infelizmente, os partidos que se comprometeram com o projecto europeu aprisionaram as suas estratégias a isso, tendo falhado rotundamente em termos de discussão pública, referendos aos tratados e à moeda, etc.

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