Todos os artigos de Valupi

Microcosmo e macrocosmo

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Quando o Aspirina B foi criado, em 2005, já havia muito boa gente farta da blogosfera política e a declará-la acabada. O mundo não iria mudar pelo prolixo teclar; e entretanto há coisas que mudam, apetece fazer outras. Também por essa altura era patente o sentimento de se ter esgotado o ideal primevo do convívio entre bloggers e entre autores e comentadores. Apareciam cada vez mais blogues privados ou sem caixas de comentários.

O modo como a direita chafurdou na sua decadência durante os Governos PS fez da blogosfera um lugar infecto, um esgoto para a indústria da calúnia e para a cultura do ódio. Os bravos da esquerda pura e verdadeira alinharam entusiasmados nas campanhas negras, felizes da vida numa união nacional com a escória da direita portuguesa para esse supremo combate histórico contra o imperialista Sócrates. O racismo ideológico nunca descansa e faz os mais estranhos companheiros de alcova.

O sucesso do Twitter e do Facebook retirou aos blogues o papel de espaço de habitação onde se celebrava a novidade do poder de comunicação digital e se estabelecia uma socialização entre autores e comentadores pelas mais variadas afinidades. A consequência foi o abandono da enorme maioria dos participantes e sua migração para as novas plataformas onde recriaram as suas afinidades com total autonomia e desvairadas potencialidades expressivas.

Dito isto, há que dizer isto: os espaços comunitários livres são aquilo que as comunidades quiserem que sejam – se um estúpido conseguir aborrecer e afastar muita gente com as suas palavras, isso apenas significa que esse estúpido está a ocupar um lugar abandonado. Esta constatação tanto vale para caixas de comentários como para templos e cidades.

Nuno Melo estudou o assunto e partilha connosco o que descobriu

Consta que Nuno Melo vai tomar conta do que restar do CDS quando Portas iniciar o processo da substituição de Marcelo no papel de grande coqueluche da direita nos sermões dominicais. Faz todo o sentido. Este homem do Norte nunca se atrapalha e consegue despachar socialistas com a facilidade com que um camionista vira imperiais ao balcão a ver a bola. Eis um belíssimo exemplo:

[debate completo aqui]

Para além de apelar agora à união entre a oposição e o Governo PSD-CDS em nome do interesse nacional quando no passado apelou ao derrube do Governo PS em nome do mesmíssimo interesse nacional, para além de citar Vítor Constâncio como autoridade abonatória quando no passado o acusou de ser incompetente, indigno e criminoso, para além de não fazer referência a qualquer enquadramento internacional do aumento da dívida no Governo PS e recorrer ao enquadramento internacional para explicar as dificuldades do Governo PSD-CDS, Nuno Melo vai mais longe e chega à 1ª República: desde o fim dessa época que não se tinha visto algo tão mau a mandar na Grei como Sócrates.

Sócrates, e compreende-se bem, justifica os mais desvairados ódios na gente séria. É que nunca haviam levado tanta porrada naqueles coiros. Também vai sem discussão que os grunhos têm direito à sua grunhice. Mas isto de ficar sem consequências dizer-se publicamente, e logo num debate político com alguém que fez parte dessa equipa, que o Governo de Portugal entre 2005 e 2011 foi pior – seja lá qual for o filha-da-puta do critério ou ponto de vista – do que a governação de Vasco Gonçalves, Marcelo Caetano e Salazar é uma ofensa sem perdão.

A política tem um lado lúdico e folclórico que a direita portuguesa, na sua cultura oligárquica e na sua decadência, habita com desespero, vício e bazófia. Porém, o facto de estas declarações terem passado sem qualquer vestígio de indignação e exigência de reparação, sequer do interlocutor Zorrinho, expõe uma sociedade em estado de anemia e anomia. Não admira, pois, que este seja igualmente o país do Cavaco, do Passos, do Relvas e do Gaspar. O país onde os Nunos Melos valentões escarram do alto dos seus privilégios para cima da memória dos vivos e dos mortos.

Finalmente, regressámos à credibilidade

A direita portuguesa, nos idos de Março de 2011, estava muito desgostada com o Governo socialista. Porque este não tinha credibilidade. Era um Governo que apenas conseguia reunir o apoio dos parceiros europeus, da Comissão Europeia, do Banco Central Europeu e de Merkel. Um grupo não representativo da credibilidade de um país, portanto, especialmente calhando ser um país pertencente à União Europeia. Ainda por cima, essa gentalha estava decidida a apoiar o tal Governo socialista a manter a soberania e a lidar com a inevitável austeridade da forma menos penosa que fosse possível dado o contexto internacional. Mais uma vez, a direita portuguesa recebeu esse plano como péssima notícia para a sua fome de credibilidade. É que se há assunto de que a direita portuguesa perceba e esteja em condições de dar lições a respeito é o da credibilidade; atente-se à História e às suas magnas figuras.

Nesse tempo, a direita portuguesa telefonava amiúde para os mercados a dar conta dos terríveis problemas de credibilidade que a Nação enfrentava. Ele era o Freeport com os seus envelopes castanhos a serem distribuídos nos tascos da Margem Sul. Ele era a Manuela Moura Guedes a ser assediada pelo Rei de Espanha. Ele era o Mário Crespo e a asfixia democrática que mal lhe permitia ter um bloco noticioso na SIC dedicado às suas perseguições. Ele era o Granadeiro e o Bava a fazerem das suas para oferecerem a TVI ao anticristo. Ele era a chatice dos telefonemas de Sócrates para certos jornalistas, porque depois tinham de ficar a falar com ele e a dizer-lhe coisas em privado e isso às vezes durava mais de uma hora. Ele eram umas casas que ofendiam o apurado gosto estético da gente séria e dos imbecis com cartão de imbecil. Ele era aquela cena da licenciatura ao domingo que muito prejudicava a economia e a moral durante o resto da semana. Ele era uma autêntica desgraça para a credibilidade, era o que era.

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Não dá para manter uma magistratura activa quando se ganha apenas 10.042 euros por mês

Cavaco Silva, depois de ter passado três anos a espalhar que o Governo socialista não falava “verdade aos portugueses”, depois de ter encomendado/patrocinado/inspirado (é escolher) o maior escândalo político que se associa à Presidência da República em democracia, depois de ter exibido sem um frémito de vergonha as viscerais ligações políticas e pessoais aos escroques do BPN, depois de ter deixado o País com um Executivo sem maioria parlamentar para que fosse sistematicamente boicotado pela coligação negativa dos direitolas com os esquerdolas e desse modo sendo queimado em fogo lento até à altura certa para a golpada final, ainda fez uma campanha eleitoral onde afiançou ser ele o único garante da tão necessária estabilidade face à gravíssima crise e em que prometeu uma “magistratura activa”.

Cavaco é o político mais poderoso em Portugal, aquele que está há mais tempo em funções e aquele que teve a maior influência negativa no destino do País. Sendo um dos maiores manipuladores do atraso nacional e seus miseráveis, agitou a bandeira branca da “estabilidade” para captar votos do centro e acendeu a fogueira da “magistratura activa” para transmitir à direita que a vingança contra o anticristo seria servida de imediato. Como a imbecilidade de Louçã conseguiu levar o PS a enterrar-se alegremente (o que, simultaneamente, coloca Sócrates como um líder que estava longe de ter o partido na mão), o resultado foi a incrível reeleição de alguém que ofende a inteligência e a ética republicana.

Pois bem, Cavaco foi um dos principais agentes que abriram a crise política que levou ao chumbo do PEC IV, à demissão do Governo e à perda da soberania. E Cavaco, agora que a loucura da dupla Passos-Gaspar só consegue criar devastação económica e crueldade social, está completamente desligado do Povo que jurou defender.

Se a questão da legitimidade dos órgãos de soberania for para levar a sério, que se comece pelo caso mais escabroso de todos. Consta que visita diariamente um palácio ali para os lados de Belém.

Think reality

Mesmo para aqueles que detectem erros nas contas (é sempre possível encontrar erros nos números escolhidos e por escolher, por isso fogo à peça), mesmo para os fanáticos do anti-“socialismo” (grupo que reúne reaças e comunas por igual), mesmo para quem está num estado tão alienado que julga ser preferível não ligar à política (oh, seus infelizes…), esta peça é um magistral exercício de comunicação no campo dessa tão antiga e tão nova disciplina: a infografia.

E fica o desafio: faça-se uma versão europeia que consiga explicar aos europeus a crise na Europa.

Good food for good thought

Stacked against the expediency of most American commerce, Whole Foods is a stand-out: It rewards its employees reasonably, emphasizes their autonomy and creativity, pays its execs at non-plutocratic multiples, sets standards for animal welfare, gives a leg-up to artisan producers, has strong environmental commitments, uses 100% renewable power. And so forth. It is also profitable. Last year, Whole Foods had sales of $11.7 billion, and income of $744 million.

Is it a model for the future of capitalism?

John Mackey, who founded the supermarket in the late ’70s, thinks so. And his new book, Conscious Capitalism, written with the marketing professor Raj Sisodia, lays out the plan in great detail. According to the authors, Whole Foods is in the vanguard – along with Google, Amazon, Starbucks, Panera Bread, UPS, and others – of a new type of business: purpose-driven, inclusive of stakeholders, capable of “doing what is right because they believe it is right.” And they want others to join them, not only because it’s the right thing, but because capitalism itself needs saving.

“Businesspeople have allowed the ethical basis of free-enterprise capitalism to be hijacked intellectually by economists and critics who have foisted on it a narrow, self-serving, and inaccurate identity devoid of inherent ethical justification,” the authors say. Capitalism has an “intrinsic goodness and virtue” – but too many managers operate with “low-consciousness,” and believe “profit maximization” is their only responsibility. The result has been significant environmental impacts, “stressful and unfulfilling working conditions,” “unhealthy appetites and addictions,” and a fall in business’s social legitimacy.

The solution is “conscious capitalism,” which involves companies appreciating their “higher purpose,” so that stakeholders are “less likely to care only about their immediate, narrowly defined self-interest.” It means integrating stakeholders to “create win-win-win-win-win-win … solutions to transcend … conflicts and create a harmony of interests.” It means developing leaders with “finely developed systems intelligence” that “transcends the limitations of the analytical mind that focuses on differences, conflicts and tradeoffs.” And it means a work environment based around “decentralization, empowerment, and collaboration.”

Is Whole Foods A Viable Model For The Future Of Capitalism?

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Tradução: há que voltar a Keynes, mas só se a ideia for mesmo a de salvar o capitalismo de si próprio.

Aguiar-Lava-Mais-Branco

Aguiar-Branco é um dos mais castiços passarões do laranjal. Para ele a política não passa da chungaria embrulhada em paleio causídico de taberna ao serviço da conquista do poder pelo poder. Em 2009 fez este número:

“Suspeita-se do que está por detrás dos contratos dos contentores de Alcântara, suspeita-se do que está por detrás do financiamento dos computadores Magalhães, suspeita-se do que está por detrás da Fundação das Telecomunicações para as redes móveis, suspeita-se do que estaria por detrás do negócio da TVI, suspeita-se porque há alegadas pressões sobre magistrados no chamado ‘caso Freeport’ e que deu origem a processo disciplinar. Temos em Portugal um Governo sob suspeição e isto corrói as instituições e mina a autoridade do Estado”

PSD usa caso Freeport para atacar governo de Sócrates

Há dias saiu-se com outra verrina, das que larga como Ministro da Defesa sempre ao ataque, dirigida a Seguro:

Segundo Aguiar-Branco, o líder do principal partido da oposição, António José Seguro, está “a fazer agora aquilo que fez durante seis anos na Assembleia da República, que é estar calado, cúmplice”.

Ora, apesar de estarmos perante a única estratégia que funciona na política de comunicação do Governo e da coligação – a maníaca perseguição a Sócrates seguida sem um momento de descanso por governantes, deputados, dirigentes e jornalistas engajados, depois replicada pela arraia-miúda – neste caso temos de dar razão ao advogado tripeiro. De facto, Seguro bem que nos podia explicar o seu silêncio durante seis anos, a que se segue o actual período do literal nojo que mostra sentir em relação ao passado recente do seu partido e de quem o representou ao mais alto nível da governação. Afinal, que pensa ele do que foi feito? Será que nada diz porque pensa o mesmo do que um Aguiar-Branco? Ou será que nada pensa por não se conseguir decidir a respeito do que pensar? O mais opaco político presentemente em funções, sendo concomitantemente o rei dos pedidos de transparência, vai levar esses segredos para o túmulo.

Aguiar-Branco também é um dos tais que considera ter Sócrates começado logo em 2005 a trabalhar para a desgraça nacional e que nada se aproveita desses seis anos. Quem o diz foi ministro do Governo de Santana Lopes. E, súbito, tudo faz sentido.

Digam o que quiserem, não digam que não foram avisados

Até que podíamos aceitar a golpada de Março de 2011, como se fosse algo inevitável no “fazer política”, desde que tivessem a solução. Mas não só não a têm como agravaram de forma colossal os problemas que já tínhamos. E ainda nos insultam e desprezam. São mentirosos, burros e canalhas.

Oferta da nossa amiga Inês B.

Adenda: o Luís Gaspar escreveu-nos a reclamar a paternidade do comentário da Inês B., como se pode ler em Cala a boca, eu sou tão democrata como tu

Inspirações para o 2 de Março

Cometeu-se um erro de irresponsabilidade. Os partidos levantaram-se em conjunto para chumbar o PEC para agora ter um programa pior que o anterior. Isso é que eu não consigo compreender. O PSD actuou por cobiça de poder, achou que esse era o momento para ganhar eleições.

Se o PSD queria eleições, podia ter viabilizado o PEC e depois, mais à frente, quando já não causasse prejuízos, provocava uma crise política. Cometeu-se um erro de pura leviandade que ficará nos anais da história política portuguesa.

Sócrates a clamar no deserto, Abril de 2011

Calma aí, senhores juízes, quem decide dessas coisas é o órgão oficial do laranjal

Os três arguidos do caso Cova da Beira foram nesta sexta-feira absolvidos dos crimes de corrupção e branqueamento de capitais, no processo relacionado com a construção da central de compostagem daquela região do distrito de Castelo Branco.

O colectivo de juízes do Tribunal Criminal de Lisboa decidiu absolver o engenheiro António José Morais, a arquitecta Ana Simões e o empresário Horácio Carvalho, por considerar que não ficou provada a tese da acusação.

A juíza que leu a sentença, ao início da tarde, disse também que a central de compostagem “continua a funcionar bem” na actualidade e “resolveu o problema da região” ao nível do destino a dar aos resíduos.

Fonte

Novas da década perdida

Solar has reached residential parity in many regions, and utility-scale parity will follow over the next few years. Some U.S. utilities are already choosing to build solar farms instead of gas plants to deliver peak loads based on pure economics.

In Germany, Spain, Portugal, Australia and the South-West of the U.S., residential-scale solar has already reached grid-parity with average residential electricity prices,” Citigroup analysts Shar Pourreza, Jason Channell and Timothy Lam wrote in their report. “In other countries grid parity is not far away. We forecast that grid parity will be attained by Japan in 2014-2016, South Korea in 2016-2020 and by the U.K. in 2018-2021.”

On the other hand, China, India, Russia and Saudi Arabia will not attain grid parity until after 2020, despite good solar conditions in some regions, due to their low residential electricity prices, which are subsidized by the state, the report says.

Can Solar Challenge Natural Gas?

A democracia é simples

O João Pinto e Castro escreveu um oportuno e sugestivo texto – Legitimidade – onde defende a posição daqueles que consideram ilegítimo este Executivo PSD-CDS. O desencontro entre as promessas eleitorais e a prática governativa teria retirado a legitimidade e deixado só a legalidade.

É uma ideia corrente, e até crescente, a qual foi igualmente usada para justificar o episódio no ISCTE com Relvas. Porém, é simultaneamente uma ideia ferida da mesma ilegitimidade se tivermos em conta o seguinte:

– Passos anunciou publicamente, e logo em 2010, a sua intenção de alterar a Constituição com o fim de reduzir o Estado Social a uma triste caricatura ou mera lembrança. Até lançou um livro a respeito do que lhe ocupava o bestunto que só um homem veramente invulgar conseguiria dar à existência.

– O maior partido da oposição ainda não apresentou, nem consta que vá apresentar, uma moção de censura.

– O Presidente da República tem a obrigação constitucional de dissolver o Parlamento quando os Governos perdem a legitimidade; seja lá qual for o critério da mesma e atente-se no histórico de Sampaio, tanto na polémica investidura de Santana como no seu desfecho.

A considerarmos este Governo como ilegítimo, então, e por inerência, temos de estender a ilegitimidade ao PS, ao Parlamento e ao Presidente da República. Este caminho não conduz a nenhum lugar habitável. Pelo contrário, exigir responsabilidades aos representantes legítimos – precisamente por deterem uma inquestionável legitimidade – seria a via mais rápida para uma alteração política na direcção do bem comum. E que seria preciso para tal acontecer? Apenas isto: que todos aqueles que apareçam nas manifestações de 2 de Março continuem a manifestar-se quando entrarem em casa, quando forem trabalhar, quando estiverem no café. Obviamente, nesses outros ambientes deixa de ser necessário gritar e não dará jeito estar sempre a descer avenidas e calcorrear ruas. Será, pois, o momento de pensar e falar. Pensar e falar. Pensar e falar. Pensar. E falar.

A democracia é simples. Os que não querem ser cidadãos é que dão cabo dela.