Microcosmo e macrocosmo

10yvf8m

Quando o Aspirina B foi criado, em 2005, já havia muito boa gente farta da blogosfera política e a declará-la acabada. O mundo não iria mudar pelo prolixo teclar; e entretanto há coisas que mudam, apetece fazer outras. Também por essa altura era patente o sentimento de se ter esgotado o ideal primevo do convívio entre bloggers e entre autores e comentadores. Apareciam cada vez mais blogues privados ou sem caixas de comentários.

O modo como a direita chafurdou na sua decadência durante os Governos PS fez da blogosfera um lugar infecto, um esgoto para a indústria da calúnia e para a cultura do ódio. Os bravos da esquerda pura e verdadeira alinharam entusiasmados nas campanhas negras, felizes da vida numa união nacional com a escória da direita portuguesa para esse supremo combate histórico contra o imperialista Sócrates. O racismo ideológico nunca descansa e faz os mais estranhos companheiros de alcova.

O sucesso do Twitter e do Facebook retirou aos blogues o papel de espaço de habitação onde se celebrava a novidade do poder de comunicação digital e se estabelecia uma socialização entre autores e comentadores pelas mais variadas afinidades. A consequência foi o abandono da enorme maioria dos participantes e sua migração para as novas plataformas onde recriaram as suas afinidades com total autonomia e desvairadas potencialidades expressivas.

Dito isto, há que dizer isto: os espaços comunitários livres são aquilo que as comunidades quiserem que sejam – se um estúpido conseguir aborrecer e afastar muita gente com as suas palavras, isso apenas significa que esse estúpido está a ocupar um lugar abandonado. Esta constatação tanto vale para caixas de comentários como para templos e cidades.

22 thoughts on “Microcosmo e macrocosmo”

  1. pois serão as pessoas, e não os lugares, a estarem infectos ou a se deixarem infectar – isto para explicar, não o lugar abandonado, o abandono. e só cada um sabe o que o move nisto que é o único espaço comunitário capaz de me seduzir. depois há a parte da selecção electiva directamente proporcional tanto para posts a serem escritos como para posts a serem comentádos: é o interesse, e a sua manutenção, que determina o abandono. talvez seja um caminho árduo mas feliz esse do autor puxar pelo comentador e vice-versa; talvez valha muito a pena conservar tanto as próprias ideias e missão do blogue tanto quanto lhe aparar o brilho com lufadas de leveza, entenda-se leveza como fruição simples sem cariz intencional de luta, porque até os blogues – os excelentes blogues políticos – precisam de rir, e fazer rir; de chorar, e fazer chorar;de sonhar, e fazer sonhar.

    o Aspirina B é o único blogue político que frequento e tenciono frequentar – isto pela única razão possível: fui progressivamente conquistada pela produção, não por tudo nem por todos obviamente, mas pelo poder de uma espécie de medicina nuclear sem alternativa e, por isso, única no exercício que é – saindo de casa – tratar das ideias sobre o mundo.

    e é por isso que não te deixarei morrer, Aspirina B. :-)

  2. Val

    Continuarei por aqui com todo o gosto. Prefiro estar rodeado de pessoas que têm ideias diferentes das minhas. Para pensar como eu, já basto eu. Estou habituado a conviver com a adversidade e a concorrência. E mais, só melhoramos com a crítica construtiva que os outros possam fazer às nossas ideias.
    Tenho pena que a Gabriela tenha desaparecido do blog, tal como outros que, também, por cá gravitavam quando eu aterrei na Aspirina B.

  3. «Prefiro estar rodeado de pessoas que têm ideias diferentes das minhas. Para pensar como eu, já basto eu» (francisco rodrigues)

    Muito bem. Faço minhas as palavras do francisco.

  4. ando há pouco tempo nos blogues.iniciei a minha actividade “blogal ” no camara corporativa,no periodo referente ao segundo mandato de socrates.neste blogue ,li muitos textos do valupi na rubrica “viagens na minha terra” se não estou enganado.com o seu encerramento temporario sem nada nos dizerem,parti para outro e não estou arrependido por ter optado pelo aspirina. muitos anos de vida ao blogue e a todos os participantes.

  5. lamentavel este texto apresentado pelo ignatz.quem afastou os dadores e disso não se lembrou o presidente por ser sabujo,foi ocorte de direitos atribuidos aos dadores. no tempo da direita na saude lembro-me dos hemofilicos terem sido infectados por um produto importado para as transfusões de sangue.a incompetencia demonstrada,não teve o devido castigo para leonor beleza e sua mãe,pela atitude negligente denunciada pela a associaçao de hemofilicos portugueses.o poder tem muita força.

  6. Quando entrei pela primeira vez aqui na Pharmácia, ainda o feijão catarino se vendia a 10 cêntimos o litro, o dito frade se degustava com atum e uma quarta de manteiga custava 20 cêntimos; o Cavaco subia aos coqueiros, comia bolo-rei à “foçanga” e a D. Maria ensinava Português; o Portas osculava as velhinhas, acariciava os contribuintes e defendia a hortaliça nacional bem como as frutas e legumes; as reformas milinionárias de 1000 € não eram, usando a linguagem actual, tributáveis em sede de IRS; o Dias Loureiro iniciava-se nos negócios e não pensava vir a ser Conselheiro de Estado; o Duarte Lima líder parlamentar do PSD era uma sua referência entre sonatas de Bach e as Variações Goldberg; pensava-se em construir qualquer coisa na Coelha.
    Enquanto esperava para ser atendido, soube que o Sócrates tinha declarado o geocentrismo, vendido a um ditador da América Latina, acérrimo inimigo de Portugal, umas merdas que davam pelo nome de Magalhães; o Borges era um banqueiro de sucesso; o Moedas no infantário trauteava o “Era uma vez um Rei com um grande barriguinha…”; O Relvas completava em horário nocturno o 12ºano; o Coelho estagiava nas empresas do Ângelo; o Gaspar ainda falava depressa; o Mota não andava de Lambreta.
    Foi há taaaaaanto tempo que o Daniel de Oliveira ainda falava às massas nos comícios do BE.
    Agora que já cheguei ao balcão e espero para ser atendido olho à minha volto e vejo a guida, a penépole, o júlio, a Dª Isabel Moreira com quem a D. Rosa se cruza no ginásio e me diz cheia preocupação estar muito magrinha. A idade fez-me piegas, tão piegas que até tenho saudades do José do Carmo Francisco.
    Um Abraço para ti Val.

  7. Tal como o nuno cm cheguei aqui via câmara corporativa, por altura do segundo governo do Sócrates.

    Concordo com o texto, apesar de ser relativamente novo na blogosfera tenho a sensação que o boom já passou. Mas, considero que é neste meio, e neste blogue em particular, que se acede ao melhor comentário político, a milhas da mediocridade da televisão.

  8. Os blogues:
    São a forma de tornar a democracia mais ampla e participativa. Assim o entendo e assim o faço. Mas também nos traz um valor acrescentado. No meu caso, não me julgo um burro, trouxe-me uma forma de me dedicar à escrita. O mal de muitos portugueses é não se darem à literacia. Preferem outros passatempos.
    Quando cheguei ao Aspirina B a única forma era ler os textos dos vários “Taumaturgos” que aqui colaboravam e colaboram. No primeiro texto que enviei em forma de comentário andei uns dias entre o mandar ou destruir. É verdade que ninguém se conhece mas em tudo o que faço gosto de pôr a minha alcunha. Assim, o meu receio para a crítica mais voraz porque vivemos num mundo de maledicência. Não foi o caso. Pelo contrário. Recebi logo o beneplácito de Valupi. Quando assim é e, a forma elogiosa como me tratou, deu-me incentivos para continuar a enviar textos. Em boa hora o fiz e assim reganhei mais instrução e experiência.
    Até que um dia me aconselhou e animou a criar um blogue e ali expor os textos enviados para o Aspirina B. Não me sentia capaz porque administrar um blogue tem que se lhe diga. Com a ajuda da Anita, minha amiga, lá consegui pôr de pé o “Coisasquepodemacontecer”. Ganhei experiência na maneira de escrever e comunicar. Hoje não passa um dia em que não vá basculhar no Aspirina B os textos e comentários. Em conversa com um amigo, ou outro, especialmente o Miguel Brito, não leve a mal esta revelação, tecemos elogios ao Valupi e à forma como escreve. Para mim há dois expoentes máximos na literatura portuguesa e na construção de textos e artigos de opinião que são: Valupi e Miguel Esteves Cardoso.
    Por isso acho a visita diária no Aspirina B como obrigatória. Diz a sabedoria popular: “o saber não ocupa lugar, é bendito e bem certo o ditado que, depois de se aprender, sente-se resultado”.

  9. Olá Val,
    como o tempo passa!

    In illo tempore, tinha-se finado o BdE e procuravam-se os artistas que se apreciabam. Já muito se tinha discutido, mas ainda havia muito para discutir, Julgava-se então que o tempo nunca voltaria para trás, o que, pelos vistos, qed.

    Perdeu-se de facto o convívio e até alguma elegância, mas ao não se ter usado com eficácia a de Rio Maior ,estamos para aqui a apanhar no lombo daqueles que, ainda há pouco, se escondiam nos esgotos afirmando-se democratas desde sempre.

    A polémica dos crucifixos nas escolas estava no auge, discutia-se a criação de partidos regionais, o Vaticano afirmava não admitir nos seus quadros homossexuais e a OMS negava-se a contratar fumadores.

    Muita da gente que por aqui passou, anda por outras paragens, outros cansaram-se (pois isto também cansa), há quem desistisse exangue e até a falta de tempo e disposição, por vezes, ajudam ao silêncio.

    Espero continuar a passar por aqui, mesmo que não diga nada, pois há sempre algo de interessante para ler, sorrir ou mesmo rir a bandeiras despregadas.

    Um abraço.

  10. Eu acho que a retórica, particularmente a de um blogue de natureza política circunscrito à realidade portuguesa, deve ser exemplar. E deve ser exemplar porque alguém terá que servir como exemplo da importância do debate das coisas públicas, justamente neste espaço público que é a internet.
    Não estou a viver em Portugal, pelo que o distanciamento que tenho dos espaços públicos de discussão, sejam eles a imprensa ou o café, permite-me ver de outra forma ou que antes já sabia, mas porventura persistia em ignorar. As democracias, e a sua saúde, têm uma relação simbiótica com a comunicação social. Com o tempo secalhar o tipo de relação foi-se modificando, pelo que em vez de simbiose agora temos relações parasitas (no caso Português teremos ainda para mais o canibalismo no horizonte, se formos a pensar nas conversas da “privatização” da RTP), mas de todas as formas a ideia a reter é esta: basta passar uma hora a ver os noticiários e ler, sei lá, 10, 20 notícias de jornal para se perceber que Portugal está de pantanas. Numa terra de cegos quem tem olho é rei, mas mesmo assim…
    Enfim, o que vinha aqui dizer é isto: semeias ventos, colhes tempestades. Se os posts forem uma bela merda, se sirvirem para gozar com fulano, e por aí adiante, é evidente que as caixas de comentários tornar-se-ão numa espécie de feira dos horrores dos tempos modernos. Ou, por outras palavras, não me parece boa ideia que se comecem já a cortar: aceitemos a responsabilidade de moderar pedagogicamente o debate político.

  11. Caros amigos, o sentido do texto está condensado na última frase. E podemos ficar com as palavras do Manuel Pacheco – a respeito da sua aprendizagem neste meio – como magnífica ilustração do que está em causa.

  12. Val

    Não necessitavas de fazer o boneco porque todos compreeendemos isso. Mas eu faço uma leitura diferente.
    Acho que o afastamento de muitos participantes deste blog, tem a ver com outras razões.
    A primeira é o facto deste blog ser constituido por muitos socraticos e todo o discurso deles se basear na defesa e justificação de Socrates e das suas políticas. Além da linha editorial do blog ser, também, essa.
    Ora, hoje, principalmente depois do desfecho, mais que esperado, do episódio “Antonio Costa” e do reforço da posição de Seguro na liderança do PS, o tema “Sócrates” deixou de estar na moda. Mais, tornou-se incómodo para muita gente do PS. Acredito que haja socialistas que escreviam aqui, sintam, hoje, pouco à-vontade em continuar a dar as suas opiniões. Muitos porque razões “profissionais” os obrigam a estar alinhados com o novo sultão do PS, outros porque querem estar sempre de bem com o “poder” vigente no PS.
    Tive a oportunidade de escrever aqui, numa Segunda, logo pela manhã que nao falaria mais de Socrates. Para vos situar, foi depois de terem posto aqui um post da primeira página do Correio da Manhã que dizia que Socrates tinha arranjado um tacho numa farmaceutica e de ter saido, também, nesse fim-de-semana, o livro da biografia de Soares, em que este fala de certos episódios com Socrates. Disse, também, devido às circunstancias que o Governo deveria de se concentrar no combate politico contra Seguro e que os socraticos, ou começavam a alinhar ao lado de Seguro, ou faziam-se à vida tal como o lider tinha feito.
    Começo a achar que muita boa gente seguiu o meu conselho.

    abraço,

  13. O Sócrates é, de facto, uma personagem fabulosa: para além de ter causado a crise europeia e mundial, é o responsável por uma menor participação no Aspirina.

  14. cá me parecia que era o consultório sentimental do popcorn que fazia o alinhamento editorial da aspirina b, não bastava circularmos todos à volta do umbigo do xico como ainda nos guia espiritualmente com os seus conselhos matinais. um grande bem haja para tão poderosa benesse.

  15. julgo que muitos de nós estão no aspirina ,não por socrates, mas por tudo que ele representa para o ps e para muitos milhares de portugueses. não ´são este tipo de comentarios que me condicionam..por vezes ficar calado é pior do que mentir e isso eu não gosto de fazer.

  16. bem , jamais um estúpido me afastaria de um lugar onde eu quero estar . nem sequer um peixeiro ou um desenho animado. às vezes os lugares perdem interesse , ficam tipo Restelo , com uma resistência à mudança maluca. nem vêem o Renascimento , o ressurgir dum homem completo e a morte dos especialistas.. e procuramos outros lugares , alguns estão no face e na bloga tb. alguns dos que gostamos agora até são muito tradicionalistas , outros muito práfrentex , mas une-os um sentido prático e a procura duma saída dum sistema podre. ideologias ? passo. não preciso que construam sociedades idílicas para mim através dum qualquer legislador a soldo . uac , que horror.
    vai um bocadinho de xarope ?

  17. E que faz um tipo como eu, aquí, pesquisando diariamente opiniões e comentarios dos que muitas vezes tenho desconhecemento total, comentado algo de quando em vez?,um lugar que nem posso partilhar com conhecidos que o conoscam? serei um friki, um outside?.
    Resposta: desfrutar e sob de tudo aprender. A min da-me bem mais do que eu posso dar-lhe, sem duvida.
    Aquí cheguei navegando e fiquei encantado com à escrita do Val, desfrutei sempre muito com à escrita do Manuel Pacheco, com claridade e sossego, alías das suas ensinanzas, para quem mando saudações, e tamtos outros por não nomear mais.

    Em nehum lugar, similar, aprendi tamto e poucos lugares vi tão interessantes como este, que conseguessem manter a minha curiosidade continua. Parabens. Iste è um templo aberto, com muito boa companhia. Se não fosse interessante eu ja ter-me-ia escapado. O blogue tem força, raça, e está vivo.Informação nã falta e reflexão tampouco. Podemos não concordar as vezes, só faltaria, mas no profundo eu acho um manto de pensamento comun . Muito do que se di ainda parescer local-português é calcaldinho ao que se passa uns kilometros o norde, só há que cambiar uns nomes por outros e eu atopo os mesmos problemas o meu lado.

    Recordar:”Conto o que sei por ter vivido .Conto de acontecidos verdadeiros. Quem não quiser ouvir pode ir embora, minha fala é simples e sem pretensão”. ( Jorge Amado)

  18. Reis:
    Obrigado pela deferência. Os blogues – os ditos democráticos – são regra geral, um café ou um ponto de encontro em que qualquer um pode entrar sem ser convidado. Não precisa fazer despesa, – está tudo pago – pode permanecer o tempo que quiser e não precisa que lhe digam: neste estabelecimento está reservado o “direito de admissão”.
    Pode falar do que lhe dá prazer ou criticar o que julga incorrecto. Têm toda a liberdade do mundo. Por isso é que muitos jornalistas ficam irritados pela concorrência. Julgam-se os únicos sapientes e quando algum blogueiro o contraria dizem cobras e lagartos sobre a liberdade de imprensa e que esta está em causa. São os Relvas deste País.
    Gostam de agradar aos seus patrões e tudo fazem para desvirtuar a realidade. Sempre houve em Portugal, Veras Lagoas. De Alberto Gonçalves está o Diário de Notícias e Correio da Manhã apinhado.
    Por isso vamos basculhando e comentando no nosso Aspirina B e é como diz o cabeçalho: “não mata mas alivia”.
    Mais uma vez obrigado.

  19. reis, és um mar de generosidade. A tua presença entre nós é um enorme prazer e uma subida honra.

    Grande abraço para ti e para a Galiza

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