Finalmente, regressámos à credibilidade

A direita portuguesa, nos idos de Março de 2011, estava muito desgostada com o Governo socialista. Porque este não tinha credibilidade. Era um Governo que apenas conseguia reunir o apoio dos parceiros europeus, da Comissão Europeia, do Banco Central Europeu e de Merkel. Um grupo não representativo da credibilidade de um país, portanto, especialmente calhando ser um país pertencente à União Europeia. Ainda por cima, essa gentalha estava decidida a apoiar o tal Governo socialista a manter a soberania e a lidar com a inevitável austeridade da forma menos penosa que fosse possível dado o contexto internacional. Mais uma vez, a direita portuguesa recebeu esse plano como péssima notícia para a sua fome de credibilidade. É que se há assunto de que a direita portuguesa perceba e esteja em condições de dar lições a respeito é o da credibilidade; atente-se à História e às suas magnas figuras.

Nesse tempo, a direita portuguesa telefonava amiúde para os mercados a dar conta dos terríveis problemas de credibilidade que a Nação enfrentava. Ele era o Freeport com os seus envelopes castanhos a serem distribuídos nos tascos da Margem Sul. Ele era a Manuela Moura Guedes a ser assediada pelo Rei de Espanha. Ele era o Mário Crespo e a asfixia democrática que mal lhe permitia ter um bloco noticioso na SIC dedicado às suas perseguições. Ele era o Granadeiro e o Bava a fazerem das suas para oferecerem a TVI ao anticristo. Ele era a chatice dos telefonemas de Sócrates para certos jornalistas, porque depois tinham de ficar a falar com ele e a dizer-lhe coisas em privado e isso às vezes durava mais de uma hora. Ele eram umas casas que ofendiam o apurado gosto estético da gente séria e dos imbecis com cartão de imbecil. Ele era aquela cena da licenciatura ao domingo que muito prejudicava a economia e a moral durante o resto da semana. Ele era uma autêntica desgraça para a credibilidade, era o que era.

Não. Para o País recuperar a credibilidade tinha primeiro de perder a pouca credibilidade que tinha, qual raspagem dos tecidos infectados pelo vírus do socialismo descredibilizado e descredibilizador. Foi por isso que a direita portuguesa chumbou o PEC IV, de modo a poder mostrar ao Mundo como é que se conquista a boa credibilidade, aquela mesmo boa, de família. E pensaram “‘Pera aí, temos tantos gajos credíveis, e alguns até super-credíveis, a quem é que podemos entregar a Pátria nesta altura do campeonato?“. A resposta surgiu fulminante: “Ao casal Passos-Relvas, óbvio, que eles depois tratam do resto“. Dito e feito. De imediato juraram haver limites para os sacrifícios pedidos aos portugueses, pelo que a solução era cortar gorduras e baixar impostos – ou, vá lá, não os subir, isso é que não, ui cóhorrrrrooooor, subir impostos? mas isso é tara de socialista, não, não e não, disparates.

Esse discurso da credibilidade durou até ao dia 5 de Junho de 2011 às 20 horas. Logo depois, surgiu outro, completamente contrário. A recuperação da credibilidade entrava na sua fase 2.0, consistindo na subida violenta dos impostos, no corte violento nos salários, no empobrecimento violento da classe média, no aumento violento do desemprego, na redução violenta das ajudas sociais, na convite violento à emigração, no desaparecimento violento da actividade económica. Tratava-se da receita secreta da direita portuguesa para a obtenção da credibilidade, a via da penitência por tanto pecado acumulado. Os portugueses eram madraços e estroinas, tendo contado com a cumplicidade dos socialistas para se perpetuarem e reproduzirem nessa vil condição. Mas esse tempo tinha acabado, finalmente existia um Governo em Portugal que tinha coragem para falar verdade aos portugueses, de caminho mostrando aos mercados e demais estrangeiros interessados no nosso dinheiro que a velha receita do chicote resulta sempre, assim haja força no braço e pachorra para suportar os guinchos da ralé malcheirosa.

Chegados a 2013, o insigne programa de recuperação da credibilidade levado a eito e na mecha pela direita portuguesa revelou-se um tremendo sucesso, como se reconhece publicamente aquém e além fronteiras:

Economia portuguesa é a pior depois da Grécia

Desemprego dispara, défice derrapa, dívida cresce e crescimento encolhe

Pois bem, que fazer com tamanha credibilidade? Repetindo o que repetem ministros, dirigentes e deputados da direita portuguesa, essa credibilidade toda é o que nos permite estar agora em óptimas condições para admitir que a política seguida até aqui não é assim a modos que credível. E se aparecer algum português meio aturdido com esta lógica, basta perguntar-lhe se é socialista. Em caso afirmativo, esse indivíduo não é credível e o assunto fica logo encerrado. Em caso negativo, que tenha cuidado com o que anda para aí a dizer, não vá um dia acordar e descobrir que perdeu tudo o que tinha e o que não tinha, incluindo a credibilidade.

16 thoughts on “Finalmente, regressámos à credibilidade”

  1. olha aqui uma choca em finanças a fazer pelo rating de portugal em vésperas de uma emissão de dívida. ESTES CABRÕES NÃO TÊM VERGONHA NA CARA. fizeram tudo o era possível para foder o país e meter cá o fmi e agora que estão no poder atiram com as culpas para o governo anterior e dizer que se querem ver livres da troika. este vídeo deveria ser guardado para julgamento desta vaca por prejuízos à nação.
    http://video.cnbc.com/gallery/?video=1734159793

  2. chapeau. reencaminhado para os de direita – mas também os da verdadeira esquerda (PC e BE) que assumiram o mesmo papel de afundamento do país por questões táctico-partidárias.

  3. Sim, as vacas e cabrões que nos puseram onde estamos por questões de táctica de tomada do poder têm de ser chamados pelos nomes – e pelas palavras que disseram no momento crucial- bravo, ignatz. Acresce que aos da direita estiveram os da “verdadeira esquerda” com o exactíssimo discurso. Só que esses só ganharam um prémio: vingarem-se do seu inimigo número 1: o PS. Mas preferem ir para o fosso com os aliados da direita e com todo o país atrás deles a perder o sharing de audiência à esquerda. Política mias merdosa esta, até quase me faz admirar o execrável e defunto Chavez.

  4. edie,como pode ser execravel um homem que tem o povo todo do lado dele,e que tomou as redias de um pais que era dos mais pobres, corruptos e desiguais da america latina mesmo tendo petroleo.até os empresarios portugueses iam para la explorar aquela gente.houve execessos,não tenho duvidas,mas estão desculpados,pela politica de justiça social que levou a cabo.

  5. pelos vistos não te cansas de “a culpa é do governo anterior”, questões de gosto que o maralhal percebe.

  6. o jb é pra bieber on the rocks ou straight from the neck? e no jornal de negócios o que é queres que leia? o xico franklim a trabalhar de pára-raios dos bpn(s) ou o outlook chanel da tia fmi, não tás bom do coco, experimenta com mambo #5.

    http://www.jornaldenegocios.pt/empresas/banca___financas/bpn/detalhe/franquelim_alves_arrolado_como_testemunha_de_acusacao_e_de_defesa_no_caso_bpn.html

    http://www.youtube.com/watch?v=_bmGOW11JRw

  7. Mula cansada

    Estava-me a referir à noticia sobre o S&P. Claro que usas uns óculos especiais para censurar todo o tipo de notícias que sejam favoraveis ao Governo, próprio de uma mula fina.
    Estive a falar com o comissário cultural do PCP sobre um dos pontos que ainda estava em aberto e concluimos que o Carlos do Carmo nao era uma boa escolha. Decidimos enviar-te para o festival da eurovisão. Com o nível dos teus posts no blog, achamos que tu recolhias os melhores skills para a interpretação deste tema:

    Vai treinando tótó! Achas que eu ia deixar passar aquela das tranças pretas sem resposta?

    http://www.youtube.com/watch?v=DTyCpLw6rq4

  8. “Com o nível dos teus posts no blog, achamos que tu recolhias os melhores skills para a interpretação deste tema:”

    achamos? não me digas que andam a fazer reuniões para discutir o nível dos meus postes e não me dizem nada ou encarnaste interprete oficial da opinião dos comensais?

    prefiro o original do maximiliano (http://www.youtube.com/watch?v=jnkcxqgqd4c) e se vês notícias favoráveis ao governo numa subida de rating que se mantém na mesma, era bb e continua bb, porra para o houdini e devolvam-me o dinheiro do bilhete. ah… e tal a treta do outlook, era de risco e passou a ser estável, pois antes era lixo especulativo à vista e agora que o bce ancorou a coisa passou a lixo especulativo a boiar longe da costa. tá bom de ver que o mérito é do capitão gaspar que até-nem-queria-mas-já-que-tanto-insistem venha lá mais uma rodada de prazo para ver se o governo não cai até à próxima avaliação ou se o povo de marinheiros se cansa de marés a desaguarem à porta do ministério da finanças.

    tens razão numa coisa, não há imbecil marialva que resista às tranças pretas.

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