Não sabemos quando irá acabar o actual período histórico da política portuguesa, mas sabemos quando começou: 23 de Março de 2011. É a própria direita partidária que o atesta diariamente. Até aos princípios de 2012, o chumbo do PEC 4 era festejado como uma vitória do bem sobre o mal, a via mais rápida para a salvação nacional. Pintava-se a Troika como um grupelho de tímidos e caretas, destinados a receberem lições sobre ajustamentos a mata-cavalos por parte do casal Passos-Relvas. Ao perceberem que nem o perfeitinho Gaspar acertava com as contas, Governo e maioria passaram a apostar tudo no regresso da diabolização de Sócrates e na culpabilização do PS pela entrega de Portugal aos estrangeiros. Se mais não houvesse, bastava este registo para considerarmos estar ainda no ciclo aberto pela traição ocorrida na Assembleia da República por gula de uns e desprezo de outros.
Mas há mais. A assinatura do Memorando configura – senão de iure, certamente de facto – um estado de excepção justificado por um estado de emergência. Este contexto perverte o jogo institucional e o combate político, pois oferece a um poder canalha e fanático a cobertura suprema para os seus planos não sufragados. Por outro lado, uma oposição que não demonstre a viabilidade e consequências de uma qualquer política alternativa estará só a reforçar a crença antidemocrática de não existir alternativa. PCP e BE são exímios nessa arte de fugirem à responsabilidade da governação, e o actual PS, embora com outra motivação, segue-lhes os passos. Para cúmulo, o Presidente da República é cúmplice impávido e soberbo da incompetência e perfídia dos talibãs de S. Bento. Pior era impossível.
Vivemos o tempo que se abriu como possibilidade só por causa do chumbo do PEC 4. Esse acontecimento de repercussões trágicas obriga a uma tomada de posição, servindo de teste à honestidade intelectual e à inteligência. Aqueles que o evocam para reduzirem a crise portuguesa, europeia e mundial à pessoa de Sócrates são desonestos ou/e broncos. Aqueles que declaram ser indiferente ter-se chumbado o PEC 4 porque ele não chegaria para resolver os problemas e que outras medidas teriam de ser apresentadas são desonestos ou/e burros. Aqueles que repetem não valer a pena falar mais do PEC 4 por ser algo pertencente apenas ao passado são desonestos e retintamente estúpidos. Na próxima campanha eleitoral para as legislativas, caso não haja regeneração nas lideranças partidárias, PSD e CDS irão fazer o possível e o impossível para exploraram o resgate como arma de arremesso contra o PS, vendo aí o duplo benefício de apagarem as suas responsabilidades enquanto oposição e a colossal incompetência e violência enquanto governação. Caso seja Seguro quem apanhem pela frente, essa sórdida tarefa estará logo à partida extremamente facilitada.
Na tarde de 23 de Março de 2011 fizeram-se variados discursos no Parlamento. Com os sectários da esquerda pura e verdadeira nem vale a pena perder um segundo, dada a absoluta inutilidade do que expeliram. Do que PSD e CDS disseram, chegando ao ponto de se reclamarem como os verdadeiros defensores do Estado social e falando na necessidade urgente de baixar impostos e subir salários, cada um que faça o favor de descobrir se está a gostar de ser tratado como gado para abate. E perante o que o Governo e o Partido Socialista declararam – onde se incluía a evidência de o chumbo do PEC 4 ir piorar drasticamente os nossos problemas e a denúncia da agenda secreta do PSD nessa golpada – a História confirmou tudo daquilo que todos os oradores disseram. Tudo, do princípio ao fim, de Teixeira dos Santos a Pedro Silva Pereira.
Destaco agora uma dessas intervenções, de Francisco Assis, sem qualquer propósito de a relevar acima das outras quanto ao conteúdo. Chamo é a atenção para ela dada a felicidade de reunir a exposição da decadência da direita partidária, condensada na podridão de ver um partido a pôr os interesses próprios à frente do interesse da comunidade, com um ímpeto tribunício de essência patriótica que ilustra brilhantemente a máxima latina Vir bonus dicendi peritus atribuída a Catão:
