Todos os artigos de Valupi

Foi para isto que o Al Gore inventou a Internet

Alguém que assina “Carlos Guimarães Pinto”, e que tenho a sorte de não conhecer pessoalmente ou sequer ter ideia do que faça na vida, acaba de publicar um excerto de um texto meu no blogue O Insurgente – O Insurgente memória 2. O texto é de 2010 e numa das passagens seleccionadas consta uma lista de nomes ligados à exploração política do caso “Face Oculta” através das escutas e subsequente tese de ter havido uma conspiração para levar a PT a comprar a TVI em ordem a mudar a linha editorial da estação. Na outra passagem está uma alusão à participação de António Costa na “Quadratura”.

O Carlos não acrescenta qualquer palavra da sua autoria, a citação reina monopolista no ecossistema hermenêutico dos iluminados leitores do Insurgente. Pelo que se deve estar perante alguma coisa simultaneamente importante e evidente, e a qual leva este autor a sentir a necessidade de me promover como referência que merece chegar ao maior número de cidadãos. Mas que será? Estará relacionado com a notícia da saída de Zeinal Bava da Oi? Estará relacionado com os infortúnios da família Espírito Santo? Ou estará relacionado com alguma coisa que o autor comeu ao pequeno-almoço?

Inspirado pela temática, vou também desenvolver uma teoria da conspiração. Para mim, este Carlos Guimarães Pinto intenta subverter o blogue O Insurgente através de passagens seleccionadas onde se faça a defesa do Estado de direito e da decência no espaço público. Tendo em conta que estamos no Insurgente, essa operação não pode ser feita às claras sob pena de originar uma caça às bruxas, pelo que tem de recorrer a tácticas de dissimulação. Assim, simula um ataque contra um inimigo identificável só para levar os seus companheiros de armas para uma armadilha. A armadilha do pensamento.

Pela tua bravura e engenho militar, Carlos, as minhas saudações de caserna. Quem sabe, poderás sair vitorioso e o Insurgente ainda se irá orgulhar do trabalho cívico que fizeste nessa casa.

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Adenda

Afinal, era uma brincadeira. Qual Estado de direito, qual decência, qual quê. O Insurgente resiste invencível e a brincadeira não tem fim. A tradição continua a ser o que era, valha-nos isso.

O triunfo da ausência de marketing

Amorosa, e deliciosa, realização da RTP: Sapataria Cassiano vende sapatos com mais de 40 anos

Fui lá hoje. Os sapatos à venda são horríveis (ou não), caríssimos (sei lá) e a loja é inenarrável na sua falta de conforto e de sentido comercial. O próprio Cassiano comunga da inefabilidade própria àquilo que aquilo é, soltando resmungos avulsos se obrigado a falar. Só uma coisa é certa, a de o desolador registo das vendas que se vê na peça estar agora completamente desactualizado depois da divulgação da RTP, a que se seguiu a da SIC.

A sapataria do Cassiano não é um museu nem uma viagem ao passado. Trata-se de uma singularidade onde o espaço e o tempo deixam de fazer sentido. É altíssima a probabilidade de sairmos de lá descalços.

Audaces fortuna juvat

«O que temos de fazer não é guerrear entre nós, é cada um dirigir-se ao eleitorado e aos cidadãos que pode mobilizar, aumentar a participação porque é a participação que dá vitalidade e a vitalidade que dá movimento. Esse movimento permitirá construir a alternativa.»

«A direita facilmente se junta, a esquerda facilmente se divide. Aquilo que temos de encontrar é o ponto de equilíbrio em que, respeitando as diferenças que existem entre nós, que vêm muito de trás e seguirão muito para diante, encontrar a capacidade de fazer algo em comum.»


António Costa, Congresso LIVRE

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Costa fez bem em ir falar de esquerda para as esquerdas, e esteve melhor ao nada dizer de substantivo que ultrapasse a propedêutica para qualquer eventual acordo seja com quem for: ide a votos e logo se vê.

Costa não teoriza para além da utilidade que esse exercício tenha para o processo da tomada de decisões. É uma característica típica dos gestores e dá a ver donde vem a sua autoridade política. Não de um carisma de líder visionário, que ele não tem e nunca terá, mas de uma solidez pragmática que inspira confiança também por se anunciar prudente, conservadora e conciliatória. A receita ideal para segundas figuras, braços direitos de príncipes, ou para regentes em períodos especiais de decadência das elites. O nosso tempo, pois.

Que farão as esquerdas com um PS disposto a partilhar o eventual poder com elas? PCP e BE, para já e quiçá para sempre, nada de nadinha de nada. Os racistas ideológicos não se podem deixar contaminar, dependem do sectarismo fanático para conservarem a sua identidade. Restam fragmentos irrelevantes, os grupúsculos que se originaram na ressaca da embriaguez inspirada pelo jovem Louçã. O jovem Louçã conseguiu um feito que muitos pensavam impossível depois de uma ascensão romântica e heróica, isso de ultrapassar o PCP numas eleições legislativas. Mas só o conseguiu por causa do PS. Foi a circunstância de se ter um Governo socialista apostado em reformas tão difíceis como a da avaliação de professores, juntamente com um clima de ódio furioso alimentado tanto pela direita como pela esquerda contra Sócrates, que levou ao transvase de votos do PS para o BE em 2009. Votos esses que se iriam evaporar dois anos depois.

O problema dos restos dessa esquerda é o de continuarem a pensar como essa esquerda pensa, adaptando o lema de Costa. Uma esquerda que vê no PS o seu principal inimigo precisamente porque vê no PS a sua única fonte de crescimento. É uma lógica que resiste imune à evidência de o eleitorado do PS ser do centro, o que o levará instintivamente a recusar qualquer proposta da extrema-esquerda. Só em condições extraordinárias de voto de protesto haverá um número significativo de eleitores a castigarem o PS pela esquerda – situação que aconteceu em 2009 apenas para se revelar completamente inútil, ao princípio, e depois trágica, quando a esquerda pura e verdadeira, engordada pelo voto dos enganados, preferiu dar o poder a esta direita.

O combate do Rui Tavares – o qual fez um discurso fraco porque ambíguo e manhoso no Congresso do LIVRE – ou o da Ana Drago e Daniel Oliveira, antigas estrelas fulgurantes dos sonhos megalómanos de Louçã, pode seguir por dois caminhos. O primeiro, onde parece que querem ficar, é o de continuarem à espera que venha do PS o capital eleitoral que lhes dê existência parlamentar. Por exemplo, o LIVRE ficou orgulhoso com a votação nas europeias e começou logo a extrapolar os números para um cenário legislativo, sem parar um segundo para reconhecer que esses votos tinham vindo quase todos do eleitorado socialista e que poderiam com a mesma facilidade desaparecer numas eleições a sério. O segundo caminho será o de finalmente se enfrentar a partir da esquerda o sectarismo da esquerda. Indo por aqui, os alvos passariam a ser o BE e o PCP. Seria nesse eleitorado que o LIVRE tentaria encontrar votos, o que implicaria uma revolução cognitiva e estratégica para esse tipo de campanha. Caso tivessem sucesso, não só ganhariam peso eleitoral próprio como estariam a diminuir a representatividade do PCP e do BE; factor essencial para o desbloqueio da governação à esquerda, permitindo eventuais alianças com o PS que o puxem para o lado esquerdo do centro.

Coragem, façam algo de esquerda.

Revolution through evolution

Women Face Dishonesty More Often Than Men During Negotiations
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Power can corrupt even the honest
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Are the World’s Religions Ready for E.T.?
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What Makes a Song Sing?
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Jewish Persecution’s Economic Effects Linger, Study Finds
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In A Bad Mood? Head to Facebook and Find Someone Worse Off
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Neurobiological basis of human-pet relationship: Mothers’ brains respond differently to images of their child and their dog

A queda de um santo

2. António José Seguro abandonou com dignidade a liderança do Partido Socialista. O País fica a dever-lhe uma forma assaz responsável de exercício de liderança da oposição. Foi firme sem soçobrar no sectarismo, revelou sentido do compromisso sem resvalar para o oportunismo, optou pelo interesse geral em prejuízo das suas ambições particulares. Não era fácil a sua tarefa: estava incumbido de dirigir a oposição democrática num país sob assistência financeira. Essa circunstância obrigava-o a um difícil equilíbrio que, no essencial, conseguiu assegurar. Numa época de radicalismos, simplismos e exibicionismos, um político crente nas virtudes da moderação corre sérios riscos de fracasso. Foi o que aconteceu. Porém, António José Seguro tinha razão no fundamental. Fez bem em não votar contra o primeiro orçamento da responsabilidade da actual maioria; privilegiou os princípios do compromisso europeu quando apoiou o Tratado Orçamental, esteve à altura das suas responsabilidades no momento em que rejeitou a proposta presidencial de um entendimento iníquo com a actual maioria. Enganam-se os que se aprestam a declarar a sua morte política. Enganam-se sempre, ainda que por razões diferentes, os cínicos e os ingénuos.


Francisco Assis

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Uma das maiores vítimas de Seguro dá pelo beatífico nome de Francisco Assis. Que aconteceu a este homem? Que motivação o levou para o sacrifício da sua honestidade intelectual? Mistério antropológico que, como mistério que é, nunca encontrará explicação. Resta-nos lamentar a perda de um dos melhores tribunos que já passaram pela Assembleia da República.

Analisemos:

António José Seguro abandonou com dignidade a liderança do Partido Socialista.” – A dignidade de não ter dado os parabéns ao adversário e se ter limitado a constatar a evidência do resultado, a que se seguiu a dignidade do discurso narcísico que é o seu mais brilhante legado, antecedida pela dignidade de uma campanha feita de assassinatos de carácter, calúnias, difamações, ameaças e ódio contra o próprio PS, seus quadros e sua História.

O País fica a dever-lhe uma forma assaz responsável de exercício de liderança da oposição.” – A tal oposição que foi o melhor presente que esta direita decadente e este desgoverno de traidores poderiam ter recebido, uma oposição que gastou mais energia a combater políticas e governantes socialistas do passado recente do que a combater a loucura além-Troika.

Foi firme sem soçobrar no sectarismo, revelou sentido do compromisso sem resvalar para o oportunismo, optou pelo interesse geral em prejuízo das suas ambições particulares.” – Como é que é? Seguro terá abdicado das suas “ambições particulares” em prol do interesse geral e por isso merece ser elogiado? Minha nossa senhora do Caravaggio, ergam uma estátua desse líder exemplar em Montalegre e que se façam romarias diárias do bom e honesto povo. E, por favor, haja alguém que o ajude a realizar as suas “ambições particulares”, coitadinho.

Não era fácil a sua tarefa: estava incumbido de dirigir a oposição democrática num país sob assistência financeira. Essa circunstância obrigava-o a um difícil equilíbrio que, no essencial, conseguiu assegurar.” – Não, Assis, é precisamente ao contrário: a assistência financeira – para mais tendo sido uma imposição da direita e estando ao serviço da sua agenda não sufragada – era a situação que simplificava a acção da oposição, pois estava em causa fiscalizar a sua aplicação e as transgressões a esse contrato. Se dizes que Seguro conseguiu equilibrar-se com um Governo que violou o Memorando sempre no sentido do empobrecimento, deixo para ti a sugestão do nome, ou nomes, com que devemos carimbar tal parceria.

Numa época de radicalismos, simplismos e exibicionismos, um político crente nas virtudes da moderação corre sérios riscos de fracasso. Foi o que aconteceu. Porém, António José Seguro tinha razão no fundamental.” – Um político que se apresenta como farol da ética, como exemplo moral para toda a classe política, como sendo o fundador de “uma nova forma de fazer política”, como o higienista que vai purificar o seu próprio partido e obrigar os seus camaradas a assinarem papelinhos onde jurem resistir à tentação do mal que os consome, pode ser qualquer coisa menos uma coisa crente nas virtudes da moderação. Assis, respeita a nossa inteligência – ou a tua.

Fez bem em não votar contra o primeiro orçamento da responsabilidade da actual maioria; privilegiou os princípios do compromisso europeu quando apoiou o Tratado Orçamental, esteve à altura das suas responsabilidades no momento em que rejeitou a proposta presidencial de um entendimento iníquo com a actual maioria.” – E também fez bem quando tentou impedir que os deputados da sua bancada denunciassem as inconstitucionalidades do primeiro Orçamento? Esteve bem quando alinhou com os ataques ao trabalho e quando foi complacente com o esbulho fiscal? Esteve à altura da sua responsabilidade quando vestiu a camisola de um populista sem escrúpulos e apostado em destruir o PS só para se manter na ribalta?

Enganam-se os que se aprestam a declarar a sua morte política. Enganam-se sempre, ainda que por razões diferentes, os cínicos e os ingénuos.” – Nisto, concordamos. Seguro jamais desistirá de tentar voltar ao poleiro dessa gaiola dourada. Pela simples razão de ele não ter vida fora do PS. Portanto, este período ficará como uma aprendizagem, uma experiência que o deixará mais forte. Por esta altura já terá um plano esboçado e vai recomeçar o circuito dos abraços e dos beijinhos a tempo de apanhar a quadra natalícia. Quando voltar a apanhar um elevador disponível, daqui por uns 10 anos, os jornalistas serão os primeiros a saber.

Quanto a ti, Assis, que te declaras imune ao cinismo e à ingenuidade, podes sempre reler o que já escreveste, recordares com quem estiveste, contemplares o que defendeste. E pensares com coragem. Era algo que muitos admiravam em ti.

Pacheco cheio de saudades do animal feroz

A campanha foi confrontacional e isso foi positivo e muito eficaz. Aliás, os aspectos mais interessantes da campanha foram esses mesmos, os momentos em que em vez de dois monos a recitar frases feitas que passam por ideias, os dois homens se atacaram um ao outro, revelando-se como personalidades políticas. Personalidades políticas é personalidade+política, e isso mobilizou as pessoas exactamente em relação inversa à beatice hipócrita com que se recusava a “campanha pessoal”. Em inglês há uma palavra para isto, “sanctimonious”. Os nossos costumes oficiais de salamaleques, uma herança maldita do salazarismo e da censura na nossa vida colectiva, considera o confronto uma baixaria indigna da pompa do estado. Deviam ir ao Reino Unido, o país com mais forte tradição parlamentar, para ver o que é dureza nos debates. Nós cá somos uns anjinhos. O problema destas campanhas, de frente a frente, é que mobilizam a empatia, a simpatia e a antipatia, e isso é melhor do que as estratégias de plástico das agências de comunicação. Revelam logo quem é medíocre e fraco, ou quem é arrogante e ignorante, ou quem é hipócrita e genuíno. São duras porque são cruéis.

Pacheco

Louçã e o princípio da saída da crise

Louçã anda a escrever todos os dias e a fartura é tanta que até lhe deu para explicar o PEC IV à esquerda pura e verdadeira. Vindo do homem que declarou ser a sua recusa o “princípio da saída da crise“, está bem de ver que é prosa de especialista. Mas as ocasiões para discutir o PEC IV com os responsáveis pelo seu chumbo são tão raras que esta merece a nossa mais dedicada atenção. Bute lá.

Tudo se resume a um ponto: o PEC IV ser um conjunto de medidas de austeridade que jamais o BE e o PCP poderiam aprovar sem com isso estarem a abdicar dos seus programas e identidades. Esta lógica é indiscutível, vai por isso sem discussão, mas é também, e pela mesmíssima razão, um sofisma. Para se manter internamente coerente precisa de se separar da situação concreta onde historicamente se realizou, precisa de se transformar numa abstracção.

Abstracção é igualmente a acusação que se faz ao PCP e ao BE de se terem aliado à direita no chumbo do PEC IV para derrubarem o Governo socialista. É uma abstracção por não atender à anterior abstracção com que Louçã responde a esta. Quem tem chamado à sua responsabilidade BE e PCP, todavia, está a apontar para a situação concreta onde se decidiu ser preferível entregar o poder à direita do que continuar com ele nas mãos da esquerda – ou que fosse só nos dedos, no mindinho.

O argumento de Louçã é básico e não pode deixar de o ser sob pena de se esboroar. Louçã não se relaciona intelectualmente com o contexto de Março de 2011 e seus inerentes constrangimentos: Governo minoritário + pico da crise europeia das dívidas soberanas + política europeia sob domínio ideológico e formal dos fanáticos da austeridade radical + oligarquia portuguesa interessada no derrube dos socialistas assim que Cavaco fosse reeleito + oligarquia portuguesa interessada na vinda da Troika nas condições mais leoninas que fosse possível conseguir para a imposição do ataque ao Estado social. Louçã apaga a realidade por uma simples razão: apesar de tudo, é um rapaz que tem vergonha na cara – prefere esquecer que ele sabia de ciência certa que Sócrates estava coberto de razão quando, ainda a tempo, anunciou quais seriam as consequências reais da entrega do País à direita mais decadente que já apareceu nesta terra de marinheiros e fadistas.

A vitória de Costa deixou os sectários da esquerda pura e verdadeira num estado febril. Jerónimo começou logo durante a campanha das primárias a gritar que vinha aí o Belzebu, um taralhouco na bancada do BE convenceu-se de que alguém está interessado no seu ódio ao PS, várias figuras menores não se têm cansado de agitar as bandeiras do asco que sentem pelos socialistas, e Louçã foi pelo mesmo caminho, embora com mais originalidade, aqui ligando Costa ao PEC IV. O que estão a dizer em coro é que só aceitariam negociar com o PS caso este partido de direita assumisse que estava há 40 anos no lado errado da barricada. Ou tudo ou nada, propõem os guardas da revolução.

Teria sido, de facto, impossível aprovar o PEC IV com os votos do PS, BE e PCP? Estará para nascer duas vezes quem diga que seria possível. Mas podemos imaginar as condições de tal milagre. Começaria por uma reunião. Ou começaria por muitas reuniões. As reuniões serviriam para se fazerem trocas. As trocas teriam de ser exequíveis. Por exemplo, querer trocar o voto favorável ao PEC IV pela saída de Portugal da zona euro e da União Europeia não seria exequível. Querer trocar o voto favorável ao PEC IV por medidas que reforçassem o Estado social e a condição dos trabalhadores seria exequível. Exequível mas não imediatamente, pois o PEC IV estava a ir na direcção contrária por força de factores que escapavam ao domínio da soberania nacional naquela situação. Então, quando? Quando pudesse ser, é a resposta. E para o poder ser, os partidos que estariam a negociar esse acordo estariam no mesmo passo a negociar um acordo de Governo para o restante daquela legislatura e para a legislatura seguinte. O ganho imediato, portanto, era o de evitarem entregar o pote aos bandidos. O ganho mediato, o de se ver pela primeira vez em Portugal a esquerda a governar com a extrema-esquerda.

Mas milagre por milagre, teria sido muito mais fácil fazê-lo logo em Setembro de 2009. Nessa altura, houve mesmo reuniões. Uma com cada partido da oposição. Ainda não se sabia do estouro que a Grécia estava para dar e do terramoto que tal gerou na Europa. Apenas se sabia que PSD, CDS, BE e PCP concordavam no essencial: os portugueses iriam ser carne para os canhões dos traidores e dos sectários.

Manela, a técnica e a forma

Manela e a construção de histórias
Manuela Ferreira Leite disse esta noite no programa Política Mesmo da TVI 24 que se recusa a "participar na construção de histórias", manifestando "relutância em falar de assuntos que ainda não são factos". A antiga presidente do PSD referia-se ao "caso Tecnoforma" em que Passos Coelho enfrenta suspeitas, oriundas de uma queixa anónima que chegou à Procuradoria Geral da República, de fraude fiscal e de se ter aproveitado de uma situação de "exclusividade" no Parlamento, que não se terá verificado.

Manela e a destruição de pessoas
Ferreira Leite estranhou que "este tema venha para a praça pública numa altura em que estamos a entrar em campanha eleitoral" e que o caso "cheira a histórias anónimas que surgem nestas alturas para destruir pessoas".

Manela e os assuntos importantes
A social-democrata lamentou que não se estejam a discutir assuntos importantes para o País e disse que o Governo devia estar a ser julgado pela sua atuação e não pelo passado do primeiro-ministro.

Manela e os sinais exteriores
A ex-líder laranja destacou o dinheiro em causa (1000 contos, equivalente a 5 mil euros, por mês) tornariam qualquer um "riquíssimo". Ora, Passos Coelho não corresponderá ao perfil, pois, "não vejo [no primeiro-ministro] esses sinais exteriores de riqueza".

2014

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Manela e a construção de histórias
Referindo-se à intervenção que fez a 11 de Novembro no Parlamento, exigindo que o primeiro-ministro esclarecesse o conteúdo das escutas de conversas suas que motivaram certidões judiciais, Manuela Ferreira Leite declarou: "O que foi dito na Assembleia é que o primeiro-ministro está sob suspeita e essa suspeita é lançada por entidades judiciais".

E ele, ao não desfazer essa suspeita, significa que temos um primeiro-ministro sob suspeita, o que não é bom para o país", rematou a presidente do PSD, escusando-se a prestar mais declarações.

Manela e a destruição de pessoas
No final de um debate sobre os 35 anos do PSD, promovido pelo Instituto Francisco Sá Carneiro, em Lisboa, Manuela Ferreira Leite foi questionada sobre a acusação do PS de que teve acesso prévio ao teor dessas escutas. “O problema que está em causa não tem a ver com o acesso às escutas - tem exactamente a ver com o facto de o povo português não conhecer o conteúdo das escutas”, respondeu a presidente do PSD.

Manela e os assuntos importantes
Manuela Ferreira Leite afirmou, hoje, no Parlamento, que o processo "Face Oculta" está a "ganhar contornos políticos" e que, por isso, José Sócrates deve prestar esclarecimentos sobre o caso. "O Primeiro-Ministro tem consciência da necessidade de esclarecer o país. As dúvidas políticas não se resolvem adiando investigações e destruindo provas", frisou a líder do PSD.

Ferreira Leite considerou ainda "lamentável o espectáculo que os órgãos superiores de justiça deram ao longo da semana", reportando-se a declarações do Procurador-geral da República e do presidente do Supremo Tribunal de Justiça a propósito da validação ou anulação das referidas escutas.

"O que se está a passar é inadmissível", disse a líder do PSD, referindo-se ao processo "Face Oculta" e aludindo à anulação das escutas da conversa telefónica entre Armando Vara e o primeiro-ministro. Manuela Ferreira Leite reclamou a José Sócrates "que tome a iniciativa de esclarecer a opinião pública, já que a justiça não consegue esclarecer".

Manela e os sinais exteriores
Para a líder do PSD a "actuação da justiça neste processo e o silêncio do primeiro-ministro transformaram esta matéria, que poderia ser apenas jurídica, numa questão política". E, nesse contexto considera que "as questões políticas não podem esconder-se atrás das explicações jurídicas" e que "as dúvidas políticas não se resolvem adiando os problemas e eliminando provas".

Ferreira Leite fez mesmo alusão ao teor das escutas considerando "inadmissível" a "intromissão do Governo na área da comunicação social".

2009

A bandidagem que se cuide

Seguro vai continuar como deputado, consta. Eis os direitos dos deputados:

a) Adiamento do serviço militar, do serviço cívico ou da mobilização civil;
b) Livre trânsito, considerado como livre circulação em locais públicos de acesso condicionado, mediante exibição do cartão de Deputado;
c) Passaporte diplomático por legislatura, renovado em cada sessão legislativa;
d) Cartão de Deputado, cujo modelo e emissão são fixados por despacho do Presidente da Assembleia da República;
e) Remunerações e subsídios que a lei prescrever;
f) Os previstos na legislação sobre protecção à maternidade e à paternidade;
g) Direito de uso e porte de arma, nos termos do n.º 7 do presente artigo;
h) Prioridade nas reservas de passagem nas empresas públicas de navegação aérea durante o funcionamento efectivo da Assembleia ou por motivos relacionados com o desempenho do seu mandato.

O que a situação configura é de uma transparência cristalina. Seguro vai usar todos estes recursos, incluindo o porte de arma e a prioridade nas reservas de passagem nas empresas públicas de navegação aérea, para lançar uma perseguição implacável ao PIIN (Partido Invisível dos Interesses e Negócios). A podridão do regime, que acaba de aumentar com a escolha de Ferro para liderar uma bancada cheia de corruptos, irá ser alvo de um combate feroz e literalmente sem quartel.

Donde vem esta certeza? Do facto de Seguro só prometer o que sabe ir cumprir e de ser um político como nenhum outro que a memória dos vivos conserve, um daqueles que honram a sua palavra. Pelo que, daqui até ao fim da legislatura, a higienização que Ana Gomes e Carlos Abreu Amorim queriam para o PS vai mesmo acontecer – nem que para isso Seguro tenha de sacar da pistola e mandar uns balázios a partir da sexta fila.

Coisa linda de se ver: os direitolas estão de regresso ao Estado de direito

"Já tenho anos suficientes na política, em Portugal, para não acreditar que isto é apenas uma coincidência", começou por dizer à comunicação social, à margem de um seminário sobre "Competitividade Regional", organizado pela Associação Comercial e Industrial do Funchal (ACIF).

"Agora, do meu ponto de vista, há um aspeto muito negativo nesta questão, nós não podemos deixar de perceber que estas acusações ou estes rumores sobre eventuais delitos fiscais ligadas a figuras do PSD acontecem pouco depois de ter havido condenação de figuras do Partido Socialista", recordou.

O fiscalista considera ser "lamentável que, num país, exista a possibilidade de algum modo instrumentalizar os segredos fiscais, os segredos dos processos para fazer compensações políticas desta natureza".

"Obviamente os delitos fiscais ou de corrupção são iguais para todos qualquer que seja a sua origem ideológica mas temos a sensação, nós, cidadãos, que pode haver algum conluio entre instâncias judiciais, jornalistas e políticos, conluios que não percebemos, que não sabemos como atuam", disse.

"É um fator de insegurança enorme e isso preocupa-me muito mais do que o delito fiscal em si", concluiu.

Lobo Xavier

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O progresso mede-se assim: há cem anos, para derrubar um governo, ia-se a um quartel; agora, vai-se ao tribunal. O golpismo mediático-judicial é a versão democrática do golpismo militar da primeira república. O caso da Tecnoforma lembrou-nos, a semana passada, como estas coisas se fazem. Depois do procedimento judicial, que pode consistir apenas no arquivamento de uma carta anónima, há a fuga de informação, calibrada para que a oposição e a imprensa possam gritar por “esclarecimentos” que, venham quando vierem, já se sabe que serão sempre “tardios” e “incompletos”. Ao visado, de nada serve “mostrar tudo”. Resta-lhe subir a parada, como Passos Coelho terá feito na sexta-feira, e colocar o caso no plano da conspiração. A partir daqui, cada um acredita no que quiser.

Há muito tempo que em Portugal, como noutras democracias, o debate de políticas públicas ou de princípios doutrinários conta menos na disputa política do que a esgrima dos escândalos. As primárias do PS confirmaram a tendência, quando Seguro tentou pregar Costa à cruz do “partido invisível”. Para qualquer concorrente, a esperança nunca é convencer os eleitores com um argumento, mas comprometer o rival num escândalo ou submetê-lo a uma súbita luz melindrosa.


Rui Ramos

Revolution through evolution

Fear of failure from a young age affects attitude to learning
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Cheater, cheater: Study shows what happens when employees feel excluded at work
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We drink more alcohol on gym days
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Video Blinds Us to the Evidence
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Walking Off Depression and Beating Stress Outdoors? Nature Group Walks Linked to Improved Mental Health
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Nine Tips to Achieve an Amicable Divorce
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‘The Process by Which Drugs Are Discovered and Developed Will Be Fundamentally Different in the Future’

Quando o telefone não toca

No discurso de derrota, Seguro disse, e mais uma vez, que tinha feito História. Será até provável que já tenha perdido a conta às vezes em que fez História só nestes três anos de poleiro. E disse que a sua campanha tinha sido “memorável”, algo que ninguém se atreverá a contraditar. E mais disse que vai continuar a lutar pela separação entre a “política” e os “negócios”, o que será especialmente interessante de acompanhar caso Costa não o inclua na lista de deputados para a próxima legislatura. O que Seguro não vocalizou foi a declaração convencionada de etiqueta democrática entre rivais políticos no desfecho da contenda: “Telefonei ao fulano e dei-lhe os parabéns.” Ou seja, antes e depois, acima e abaixo, do páreo está a comunidade, é o que esse ritual celebra e consagra.

Terá telefonado? Terá mandado alguém telefonar por ele? Ainda não li nenhuma referência a esta questão. Porque é uma questão. A qual aponta, se ficarmos apenas limitados ao espectáculo mediático, para uma ausência de contacto pessoal. Contudo, se Seguro telefonou a Costa, não o ter referido na sua declaração de derrota continuará a ser relevante para as contas finais deste longo e destruidor ciclo no PS – e na oposição – que começou em Setembro de 2011.

Por sua vez, Costa dirigiu-se a Seguro com pujantes gestos políticos. Primeiro, quando apareceu de cravo ao peito. Depois, quando lançou o cravo para a plateia, ridicularizando o ridículo vídeo do ridículo Seguro. Por fim, quando se dirigiu ao Rato e se passeou triunfal no que poucas horas antes tinha sido o quartel-general do seu adversário. Foi uma humilhação à antiga, de sabor e requinte clássicos, mas a qual só foi possível de aparecer como oportunidade pelo absoluto desrespeito de Seguro pela democracia interna do partido nascido da confusão que fez até ao último momento entre a sua carreira política e a sua vidinha.

Para o meu palato, teria preferido que Costa falasse de Seguro. Para o pendurar na parede, em nome do partido. E para o expor como um pulha, em nome da cidade.

A vitória das vitórias nestas primárias

As primárias nasceram tortas e por péssimas razões, permitindo a campanha negra de Seguro. No balanço final, o seu maior mérito não diz respeito aos números da participação, os quais não comparam com nada e que tenderão a ter a mesma dinâmica avulsa dos referendos. Ao se repetir o modelo, eventualmente, e sem a novidade e dramatismo das actuais, poderão ser um completo fracasso representativo. O seu maior mérito está é no chumbo do populismo básico e tosco de Seguro, juntamente com a sua estratégia de emporcalhamento do espaço público e de degradação insanável do partido. Isso recoloca o PS como baluarte da cultura democrática e republicana em Portugal depois da maior ameaça de sempre à sua identidade e função no regime.

Quando se fala do afastamento dos cidadãos face à política, a resposta dos populistas e dos broncos é invariavelmente a de tentarem destruir a política, naquilo que não passa de uma gula ditatorial ou de uma pulsão suicidária. Porém, também invariavelmente, os cidadãos mostram que respondem com o seu voto aos discursos que os tomam como seres inteligentes e decentes. É um fenómeno já com mais de dois mil e quinhentos anos.

Começa com um desperdício

Seguro não quis falar com os jornalistas depois da declaração de derrota. Compreende-se e agradece-se. Costa não quis falar com os jornalistas depois da declaração de vitória. Uma declaração sem qualquer balanço do processo e sem qualquer indicação acerca do futuro próximo. Compreende-se e não se agradece.

Começa com um desperdício o primeiro dia dos últimos dias deste desgoverno.

Primários

Seguro e João Soares anunciam que pretendem voltar à carga numa próxima oportunidade. Unidos à volta das mesmas propostas, e do mesmo fel, que exibiram nestas primárias. Num certo sentido, é muito útil saber que eles vão manter-se juntos e a salivar.