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Carlos Alexandre e o seu quintal

Carlos Alexandre voltou à ribalta a propósito de mais um encobrimento da Justiça, a recusa de afastamento pelo Tribunal da Relação de Lisboa pedido pela defesa de Sócrates, e com as suas declarações sobre Orlando Figueira no tribunal por causa da “Operação Fizz”. Esta pacóvia e tenebrosa pessoa já tem obra publicada que chegue para se declarar um estado de vergonha nacional.

Sobre a recusa de afastamento, e esquecendo os motivos precisos apresentados nesta ocasião, fica a esperança de que um dia alguém faça uma tese de doutoramento numa faculdade de Direito (ou/e de Psicologia, ou/e de História, ou/e de Antropologia) à pala deste espectáculo de vermos um juiz a dar uma entrevista onde ataca um arguido cujo processo está à sua responsabilidade e depois assistirmos a tal conduta, tão imoral quanto ilícita, ser validada pelo Conselho Superior da Magistratura. Quer dizer que a doença não é só nem principalmente de um indivíduo isolado, antes fica indelevelmente como uma disfunção aberrante da própria Justiça como instituição pilar da República – logo, uma disfunção aberrante do regime, posto que a soberania está a ser usada para permitir a violação dos direitos de um cidadão e da própria comunidade.

Sobre as declarações em tribunal a respeito de Orlando Figueira, estamos face a um vendaval de libertinagem. Recordemos: este Figueira é o tal amigo que emprestou, em 2015, dinheiro ao tal juiz que, em 2016, declarava pimpão a um canal de TV não ter amigos que lhe emprestassem dinheiro. Registemos: a situação, por si admitida, é exactamente igual àquela que Sócrates descreve na sua relação com Santos Silva, ao ponto de nos relatos de ambos se apontar para a longevidade das amizades em causa e para o nível de vida desafogado de quem emprestou como razões para justificar os pedidos ou a aceitação dos empréstimos. Com esta diferença, ter um juiz com essa tipologia de promiscuidade com um procurador e a mentir deliberadamente a um órgão de comunicação social no acto mesmo de abandonar a sua imparcialidade sobre um dado arguido à sua responsabilidade judicial é muito mais grave do que qualquer eventual mentira de um político envolvido em processos judiciais.

A libertinagem torna-se feérica ao sabermos que o mesmo Figueira recorreu à mulher do juiz vedeta incensada no esgoto a céu aberto, a qual trabalha nas Finanças, para obter um qualquer favor fiscal, enquanto o currículo do jovem Alexandre ia parar ao amigo Figueira para este lhe encontrar trabalho em Angola, a mesma Angola donde veio dinheiro para o Figueira levantar em Andorra. Mas esta rede de cumplicidades, favores e segredos não consegue beliscar a perfeição moral do orgulho de Mação. Ele desenvolveu uma teoria que se baseia num método infalível: “Almoçávamos juntos muitas vezes. Conheço-o bem.” E quão bem conseguiu Carlos conhecer Orlando após o ver tantas vezes de boca aberta? Bom, que cada um julgue por si: “Quero assegurar ao tribunal que nunca encontrei um traço na personalidade dele que coloque em causa a sua confiabilidade e honradez.” Ou seja, este juiz está munido de uma concepção que relaciona a “personalidade” e seus “traços” com a “confiabilidade” e a “honradez”, e vai para os tribunais apregoar essa insanidade matriz de todos os despotismos. Pior, aplica-a no trabalho diário que lhe foi confiado pelo Estado.

A par da entrevista à SIC, há uma peça deste grotesco simulacro de isenção que expõe o tortuoso labirinto onde a sua perdida integridade se arrasta: O discurso de Carlos Alexandre inspirado no antigo presidente do PS. O tema é “corrupção”. Eis como começa:

«Antes de mais, quero esclarecer quem me escuta sobre a forma como aqui apareci. Há quase um ano, um amigo meu, Rogério Jóia [quadro da PJ], referiu-me ir sugerir o meu nome, para figurar neste painel, aos distintos organizadores. Embora sejamos oriundos das serranias, lá onde 'até as silvas dão rosas', ele da campina de Idanha, eu de Mação, na que era do Pinhal, tentei dissuadi-lo. Disse-lhe, e é o que mantenho, que tem razão a senhora; perdão, têm razão todos os que dizem que sou uma mente simples, um homem 'sem mundo'.

Na altura eu não sabia, não intuía, quem eram as pessoas que vinham apresentar comigo neste evento. Sendo eu um cidadão comum que deve à divina providência a graça de ter chegado até aqui, muito por força e em razão do lugar onde, já há mais de doze anos, exerço funções e ao favor dos média, pensando eu que esse favor dos média, dos tablóides como alguém já disse, só pode ocorrer porque traduzo e postulo as preocupações dos meus co-cidadãos perante o passado e o presente de cada um deles. Eu em mim não sou nada!

Mas enfim. Dizia Francisco Serrano um velho maçanico letrado: 'Quem muito quiser saber corra o mundo ou aprenda a ler!' As minhas condições materiais de existência, conhecidas da generalidade dos interessados porque eu próprio as divulguei e nada oponho a que sejam públicas, não me permitem correr mundo. Vou como Xavier de Maistre 'ali até ao quintal'. E leio, ouço, vejo.»

Que caralho é isto? É uma ameaça genérica embrulhada num autopanegírico. Carlos Alexandre, o justiceiro que vê nos tablóides a prova de estar ao serviço do povo, imita os aviões de combate que lançam flares para despistar eventuais mísseis inimigos enquanto se dedicam ao bombardeamento dos alvos. Ele é o super-juiz que tudo lê, tudo ouve e tudo vê lá na sua saleta do DCIAP, e que depois não se esquece de nadinha, nem as alcunhas da malandragem apanhada no seu quintal escapam.

Saltemos para o fim da charla:

«Minhas Senhoras e meus Senhores. Este pequeno contributo não é auto promocional. Tenho estado sujeito a muita exposição pública, que não fomento.

Tomei boa nota da principiologia e regulamentação, quer a nível de leis atinentes, quer de critérios interpretativos sobre o que disse em espaço público noutras ocasiões. Ao longo da consulta dos livros que referi, encontrei muitas situações e capítulos de vida que parecem ser figurino comum.

Nada do que disse, no meu espírito, nas minhas palavras, pode ser assacado a um caso concreto qualquer que tenha em mãos!»

Não se pense que se trata da manifestação de um primarismo chocante numa figura com a sua função e responsabilidades a conclusão autoreferencial e rasteira do seu discurso. O que aqui temos é antes uma exibição de ironia soberba (mas não de soberba ironia), a qual atravessa todo o discurso e que explica a escolha de Almeida Santos como veículo de colagem do tema da corrupção a Sócrates e ao PS. Carlos Alexandre diverte-se a exibir um poder que declara radicar não na Constituição, não no Estado e não no Soberano mas na “divina providência” e sua “graça”. É por isso que não quer abandonar o combate ao mal que o entusiasma tanto, lá onde lhe dão a conhecer diariamente e com todos os detalhes a podridão dos corruptos da política e da banca (mas só se esta cair em desgraça, atenção, nada de disparates). E ele há tanta porcaria por aí, tanta, que se não fosse a força divina que o anima e guia nada mais teríamos para nos salvar do que o corrupto Estado de direito democrático e sua satânica defesa da liberdade.

Tratar com justiça a Justiça

O último Expresso da Meia-Noite foi fértil em informações com proveito público. Eis algumas:

– Que os jornalistas responsáveis pelo programa, presentes em estúdio, promovem entusiasmados o tal slôgane do “acabou a impunidade”, criado por uma ministra da Justiça que o usou para atacar adversários políticos a partir de matérias judiciais, e o qual voltou a ter gasto caudaloso para continuar a usar a Justiça para a luta política tendo Joana Marques Vidal como arma de arremesso contra o PS.

– Que o juiz convidado, acumulando com ser secretário-geral da Associação Sindical dos Juízes Portugueses, declarou ser-lhe inconcebível que Pinto Monteiro tenha impedido ou condicionado qualquer investigação no Ministério Público dada a sua estrutura e procedimentos.

– Que o mano Costa reagiu como um alarve quando Maria José Morgado lhe disse que ele fez um trabalho jornalístico deturpado no processo Melancia.

– Que Marinho e Pinto foi o único a relacionar o aparecimento dos casos mais mediáticos na Justiça com as alterações legislativas que deram mais poderes à investigação (é ver quem e quando esteve na origem dessas novas leis), não sendo o efeito de um qualquer voluntarismo, ou santidade, de fulano ou beltrana.

– Que Marinho e Pinto foi o único a relacionar a violação do segredo de justiça e o uso da comunicação social como estratégia para influenciar e pressionar magistrados e penas.

– Que Marinho e Pinto foi o único a lembrar os actos suspeitos de Cavaco na sua relação com a SLN como exemplo de duplo critério no Ministério Público quando comparado com a “Operação Marquês”.

– Que Marinho e Pinto foi o único a denunciar a perseguição judicial (ou seja, política) a Sócrates por ter sido detido e preso para ser investigado, não havendo ao tempo qualquer ideia acerca dos actos de eventual corrupção que pudessem estar em causa.

– Que Maria José Morgado é uma figura fascinante, na exacta medida do que diz e do que cala.

Quem sabe, talvez um dia a Justiça consiga ser tratada na imprensa com o rigor e a coragem que merece.

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Daniel Oliveira no Reino da Cobardia

Na passada quinta-feira foi publicada uma entrevista com Pinto Monteiro. Qualquer entrevista com esta figura é da maior importância para quem se preocupe com a integridade do regime. Não só exerceu o cargo de procurador-geral da República como, por isso mesmo, tem sido um alvo político da corporação sindical no MP e da direita decadente e sua (de ambas) indústria da calúnia. Acresce serem raras as suas intervenções públicas se as compararmos com a quantidade de ataques que recebe. Para cúmulo, está montada uma campanha para tentar forçar a renovação do mandato de Joana Marques Vidal, campanha essa assente na deturpada e suja comparação com o exercício de Pinto Monteiro adentro da sistemática exploração política da “Operação Marquês”. É difícil encontrar assunto mais ponderoso do que o da suspeita de corrupção – ou qualquer tipologia de ilegalidade – no Ministério Público, não carece de explicação.

Assim, seria de esperar que o comentariado, podemos até esquecer o jornalismo, pegasse nas inerente e inevitavelmente gravíssimas declarações do ex-PGR para as analisar, para as comentar, para as citar, para as criticar, para as denunciar, para com elas fazer alguma coisa de interesse para a comunidade, a sociedade, o espaço público. Debalde. Provavelmente, terei perdido fugazes intervenções, mas nem na “Quadratura do Círculo”, nem no “Bloco Central”, nem no “O Outro Lado”, nem na “Prova dos Nove”, nem no “Sem Moderação” o assunto foi sequer tocado pela rama. Onde não faltou a indigência e pulhice do costume foi no Observador e no “Governo Sombra”. Resta um só exemplo de aproveitamento construtivo da entrevista, embora num contexto sem condições para estender e aprofundar as questões em causa: “Eixo do Mal“.

No quarteto, o Luís Pedro Nunes representou com zelo o papel de bronco raivoso, a Clara Ferreira Alves exibiu desabrida a sua desonestidade intelectual quando o tema mete Sócrates, Pedro Marques Lopes esteve igual a si mesmo na boa-fé e decência das suas posições e ao Daniel Oliveira deve-se o único exercício de pensamento que encontrei até hoje a respeito da entrevista de Pinto Monteiro. De facto, ao Daniel não é possível carimbá-lo como “socrático” ou “socialista”, pelo contrário. Daí a força das suas palavras, força aumentada pela acutilância e relevância dos três primeiros pontos em que tocou: (i) a ambição ilegítima, perversa e respectivo dano político do sindicato do MP, (ii) o escândalo de regime em que se transformou a violação do segredo de justiça e a cumplicidade activa da comunicação social com esse crime e seus prejuízos e (iii) a evidência de que nenhum processo relativo ao mandato de Pinto Monteiro que tivesse qualquer relação com Sócrates foi reaberto ou aproveitado pela equipa da “Operação Marquês”, sendo a conclusão inevitável a de nada terem de aproveitável por quem esteve a montar um megaprocesso onde se pretendeu maximizar a acusação por qualquer ponta possível. Aliás, no ano passado foi noticiado que as suspeições relativas ao negócio PT-TVI tinham ficado definitivamente encerradas e não mais seriam investigadas – o que é fonte de boa risada tendo em conta que esse negócio nunca sequer existiu nem ninguém sabe como se iria concretizar e quais as suas consequências. Basta lembrar que também se dizia, em 2005, que a Prisa vinha transformar a TVI num canal do PS e depois foi o que se viu com o casal Moniz, idem para o Grupo Lena e o que foi o jornal i. Como se sabe, em Portugal, canais mediáticos ao serviço de agendas políticas só podem ser de direita.

O único momento em que patinou no raciocínio foi quando fez alusão a uma passagem da entrevista em que Pinto Monteiro recordou que o processo “Freeport” ficou parado após as eleições de 2005. O Daniel, talvez influenciado pela Clara, viu nisso apenas a suspeita de pressão política vinda do Governo ou do PS. Ora, à luz dos factos já inscritos na História, é muito maior a probabilidade de se ter parado o processo por causa das eleições, sim, mas tendo em conta que as próximas eleições legislativas ainda iam demorar 4 anos. Continuar a investigar seria uma estultícia num processo que nasceu no PSD de Santana Lopes com o único propósito de influenciar actos eleitorais. E assim foi, em 2008 regressou com estrondo e ocupou todo o ano eleitoral até às eleições em Setembro de 2009. Como disse há uns anos o Professor Marcelo entre risos de prazer, Sócrates perdeu a maioria por causa dessa golpada.

A agenda do Presidente Marcelo foi eleita pelos portugueses?

Ontem, saiu este título: Nem Marcelo foi confortar ciganos vítimas do temporal de Faro. Hoje, no mesmo jornal, saiu este: Marcelo visita sábado as famílias ciganas desalojadas em Faro. Em 24 horas, ou talvez duas, uma “fonte de Belém” contou aos órgãos de comunicação que Marcelo já tinha decidido fazer a visita “há alguns dias, mas a agenda impediu a realização da visita mais cedo“.

Existindo imprensa em Portugal, algum jornalista estaria agora a comparar os tempos de resposta e de visita de Marcelo noutros acontecimentos congéneres e a listar em que ocupou e vai ocupar o tempo entretanto. Assim de memória, a imagem é de excepcionalidade para este desastre que atingiu um acampamento de ciganos em Faro. Não só está a demorar uma semana para se deslocar ao local como não houve nenhuma declaração da Presidência da República a respeito de tal intenção antes da posição pública tomada por diversas associações e activistas de etnia cigana saída na terça-feira. A referência à “agenda” tresanda a mentira. Ou será que foi a agenda que também impediu uma qualquer mensagem “das fontes de Belém” em cima da ocorrência?

Marcelo sabe que a malta se está a cagar para os ciganos. Que os ciganos não prestam, só causam problemas. Ciganos, pretos e imigrantes. Passos Coelho, apoiante entusiasmado de André Ventura, e Octávio Ribeiro, campeão de vendas na indústria da calúnia, estão disponíveis para explicar do que é que o povinho gosta se ainda restarem dúvidas. O actual Chefe de Estado não perderá um ponto nos índices de popularidade, não perderá um voto, por estar a precisar de uma manchete negativa para se pôr a caminho até ao distante Reino dos Algarves. Ainda se fosse um acampamento de escuteiros, cheio de crianças loirinhas, frágeis e tão católicas a perder as suas tendas no vendaval, aí valia a pena sacrificar um bocadinho a tal agenda e aproveitar para tirar umas fotos giríssimas. Porque são seres que precisam muito do amparo do “presidente dos afectos” dado não estarem habituados a lidar com o mau tempo e as noitadas ao relento. A ciganada, sim. Aliás, é o que eles preferem, esses selvagens.

Medo da bófia?

«A possibilidade de uma espécie de boicote às multas foi admitida, ao Jornal de Notícias, por Paulo Rodrigues, da Associação Sindical dos Profissionais da Polícia, e César Nogueira, da Associação de Profissionais da GNR. Os sindicalistas admitem que muitos agentes da autoridade estão a avisar os condutores antes, por exemplo, de estacionarem num local proibido — noutras ocasiões, admite um dos sindicalistas, o agente poderia preferir esperar que estacionasse e, depois, multar.»


Fonte

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Algures na minha adolescência, calhou ouvir um jurista que me impressionou pela sua fluência e sofisticação verbal. Era eloquente sem ser verborreico. E por isso estava distraído a ouvir as suas intervenções num debate acerca de temas variados quando ele se saiu com uma afirmação que nunca mais me abandonou. Parece algo corriqueiro, mesmo irrelevante dado não ser um assunto que tenha visto alguma vez tratado fosse por quem fosse depois (mas, com certeza, alguém mais terá voltado à questão nas décadas seguintes): quando a Polícia escolhe colocar um radar numa estrada de baixa sinistralidade e muito tráfego, em vez de colocar o mesmíssimo radar numa estrada com maior sinistralidade mas menos tráfego, então estamos perante uma caça à multa; e isso é ilegítimo, é uma grave falha do Estado. A ideia ficou comigo por ser uma iluminação súbita, a partir do concreto, do que significava a Lei, o Estado, a República, a democracia – portanto, a política.

Na citação acima, temos declarações de responsáveis sindicais que revelam uma completa inconsciência a respeito da natureza da PSP. Quem se permite ser apontado como pertencendo a uma força de segurança que reclama poder enganar e explorar os cidadãos merece expulsão imediata. O retrato de termos agentes da PSP que ficam à espera que o incauto ou ignorante condutor estacione num local proibido só para assim o poder multar é antinómica do conceito de serviço público. E se a PSP não pretende cumprir com a sua obrigação de serviço público, então esse será o prego no caixão num regime de irremediável fantochada.

Durante os anos do Professor Passos, e sua política de sacanço nacional, a caça à multa foi furiosa e às descaradas. Ninguém com voz neste país se queixou. Não acho que seja medo da bófia, acho que é falta de tesão pela liberdade.

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Descodificando a cagufa dos direitolas

Eu acho que ele não conhecia o podcast, porque quem o conhece sabe que eles se preparam. [...] Mas é uma entrevista muito bem preparada, número um, e, segundo, eles não têm medo dele. Não sou ninguém para 'tar a criticar quem é que as pessoas têm medo ou não têm medo, mas vimos jornalistas encolhidos com José Sócrates, a evitarem perguntas, a fugirem ao assunto, etc. Eles fizeram uma entrevista bem preparada. Isto mostra como o Ricardo à bocado foi injusto com o Passos, ao não valorizar uma certa aceitação das perguntas, do contraditório... esta coisa colérica... Há dois ou três momentos aqui um bocadinho, tendo em conta quem são eles... que são pessoas que não são conhecidas do grande público... Não há justificação para àquele tipo de cólera! E portanto, e de facto, ainda bem que nos livrámos desse tipo eu sempre fui, independentemente das questões judiciais, ferozmente adversário do animal feroz.


Pedro Mexia, 2018

José Sócrates é um entrevistado “agressivo, duro, muito duro. Tem um olhar intimidatório, o que é muito relevante na televisão. Tem um olhar feroz”.


Judite de Sousa, 2013

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A Penélope, e em boa hora, já botou faladura sobre a ocorrência, mas vale a pena voltar a ela. Começo por agradecer ao sr. Araújo ter usado o seu poder mediático para me dar conta da existência de uma mui proveitosa, e divertida, entrevista. Provavelmente, não a teria descoberto sem a sua divulgação no Governo Sombra (isto porque não leio o Sol, onde foi igualmente referida). O número sarcástico que montou com ela está ao nível de “Os Trapalhões” e seu humor infantilóide, grupo que sempre me pareceu ser o modelo de referência para os “Gato Fedorento” caso estes vencessem a crise criativa e quisessem continuar a trabalhar juntos. A miudagem adorava os GF, esse filão poderia ter sido explorado indefinidamente.

Pois bem, o que os sombrios governantes disseram, contudo, foi muito mais engraçado do que o eficaz escárnio na manipulação da entrevista. Porque, pelos vistos, os próprios são incapazes de entender quão contraditório é acusar alguém que até aceita ser entrevistado por ilustres amadores, ou discretos e bisonhos profissionais, de estar a fugir a perguntas. De acordo com o argumento que ouvimos, Sócrates é um ser que está desesperado para ser interrogado e que, em concomitância, fica desesperado se for interrogado. O Ricardo, que usou as instalações visíveis no vídeo e a juventude dos jornalistas como material da piada onde Sócrates era caricaturado como um coitadinho a mendigar tempo de antena, lá admitiu que também ele, superestrela deste rectângulo, havia sido entrevistado no mesmo programa pelos mesmos fulanos. Ao seu lado, e ao mesmo tempo que se justificavam alegando terem apenas visto fragmentos da entrevista, Tavares e Mexia declaravam que a “preparação” e as “perguntas” dos rapazes eram excepcionais, melhores do que as dos jornalistas consagrados. Faz isto sentido? Não precisa de fazer. Os três tristes sicofantas estão a trabalhar para o seu espectáculo, são profissionais a despachar mais uma sessão. Ainda por cima, aquilo é um programa de humor, são apenas palhaços na palhaçada, né?

Acontece que a entrevista estava não apenas mal preparada como revelou a ausência de condições mínimas para se equivaler a um trabalho profissional – os elogios recebidos no GS ou nasceram da mais acabada chicana ou atestam que os elogiadores nem sequer prestaram atenção às perguntas ou que não perceberam no que consistiam. Desde o exagero desinteressante sobre a temática das barragens às manifestações de ignorância acerca de aspectos funcionais do que é um Estado, do que é a prática executiva num Governo e do que são as características da disputa partidária e seus contextos históricos, o retrato é de puro amadorismo, quando não de sectária tonteira. Exemplo mais espalhafatoso destas fragilidades, o facto de terem levado um artigo científico que defendia serem as barragens fontes de emissão de gases de estufa. O problema não estava na referência a esse estudo, o problema está em se considerar que um ex-primeiro-ministro pode ter algo de válido a dizer sobre esse ou qualquer outro estudo calhando não ter participado na sua produção como investigador ou não ser um académico ou jornalista nessa precisa área científica. A falácia é demasiado tosca, expondo a nescidade dos entrevistadores a respeito do que seja a cultura científica, a sociologia do conhecimento e até os mais elementares conceitos da epistemologia. O cruzamento da imaturidade de quem questionava com o temperamento sanguíneo e a conjuntura vivencial de quem explicava deu origem a diversas situações em que Sócrates foi intenso, enérgico e combativo, sim, mas sempre em modo amistoso, franco e leal. Foi ele próprio, portanto – e foi humilde na sua frontalidade e disponibilidade, por tanto. O final da entrevista mostra-o de forma cristalina.

O mais relevante acaba por ser a retórica do Mexia, acima exibida. É uma das facetas do ancestral processo de diabolização em que a um adversário poderoso se cola uma natureza maligna. Dessa forma, a exibição da sua força passa a ser prova mesma da fantasiada iniquidade. Por razões ligadas à antropologia e respectiva cognição, é muito mais frequente o fenómeno acontecer à direita do que na esquerda, embora seja universal. Na direita há um culto da individualidade que tende a substancializar traços de personalidade e atitudes. Isto leva a crenças determinísticas em que se funda todo e qualquer conservadorismo e sua defesa da oligarquia e da “tradição”, terreno da direita onde o Mexia se filia. Assim, se o adversário é mais forte do que nós, direitolas, passamos a considerá-lo perverso e de uma natureza ontologicamente ameaçadora. Se as mesmas características acontecerem num nosso companheiro ou “amigo”, então passamos a tratá-lo como forte, bravo, herói – ou, tão-só, mas igualmente de preciosa utilidade, como “o nosso filho-da-puta”. Isto é básico, o que faz do Mexia também um básico. Quando carimba como “cólera” o modo emocionado como Sócrates discursa em certos passos da entrevista, a sua deturpação ocorre ao nível do contexto e da expressividade. Por um lado, o fluxo da entrevista e a interacção com os entrevistadores explicam esses picos de tensão. Por outro, até nesses momentos se pode observar expressões de simpatia e respeito por parte de Sócrates. Estamos perante o mesmo abandalhamento que levou o Ricardo a recordar-se de como acabou a entrevista, de forma abrupta e com Sócrates a lamentar não poderem continuar a falar, mas a esquecer-se que também por aí a atitude de Sócrates era precisamente contrária à da sua zombaria. Ele queria mais perguntas, mais conversa, mais contraditório, não menos.

Não há nenhum mistério no fenómeno de irritação, asco, medo que Sócrates provoca na direita, em grande parte da esquerda e até em parte do PS. É uma consequência directa da psicologia política, onde se desprestigia e hostiliza sempre o adversário, e é um efeito nascido da percepção do seu valor guerreiro tomado antropologicamente, onde se acredita que esse indivíduo continua em condições de ser uma ameaça política para os interesses de quem o teme. Esta dimensão está absolutamente separada da interrogação judicial que sobre ele impende, não sendo possível saber apenas pelo que declara aqui e ali se irá ser ilibado ou condenado das acusações, escusado seria dizer. O que vier a ser estabelecido pela Justiça a respeito do passado de Sócrates terá as devidas consequências, seja qual for o desfecho. Até lá, podemos ir aproveitando o tempo para perceber melhor o que é que a direita decadente realmente teme, a ferocidade que corre solta nos seus pesadelos. Está aqui, no minuto 39 da entrevista:

"A última vez que o País teve uma ideia para o seu desenvolvimento, a última vez em que houve um partido político que apresentou a sua perspectiva para a modernização do nosso País, foi quando nós apresentámos o Plano Tecnológico."

Adenda à entrevista de Pinto Monteiro

Usar a Justiça para fazer ataques políticos é a mais velha perversão da democracia. Quem assim age está a expor a sua impotência intelectual, pois foge do confronto de ideias e da procura de acordos, entregando-se à violência de uma pulsão totalitária. Com estas pessoas não há qualquer possibilidade de diálogo posto que elas só aceitam a sua gula de poder como critério de sucesso. Merecem ser tratadas com tolerância zero pois são terroristas, desprezando a racionalidade e o bem comum.

Se o que acontece com Sócrates, Pinto Monteiro e Noronha do Nascimento acontecesse com um político do PSD ou CDS e outros magistrados quaisquer, a obrigação de denunciar a degradação da comunidade, da sociedade e do regime que a judicialização da política provoca seria exactissimamente a mesma. E, nessa alternativa, provavelmente veríamos o que vemos agora: aqueles que utilizam a Justiça como arma política igualmente a atacarem seja quem for que se apresente independente, neutro e livre na crítica ao que estão a fazer. Para os fanáticos, a moderação e a objectividade são inimigos ainda piores do que aqueles que perseguem, não suportam a coragem de quem lhes mostra quão destrutiva é a sua influência na cidade.

Nesta entrevista, Pinto Monteiro volta a contar a mesma história que conta há anos e anos. É um relato onde os factos nunca são contestados. Os caluniadores têm de saltar por cima de todas as evidências para continuarem a envenenar o espaço público. As evidências dizem respeito à impossibilidade de Pinto Monteiro ter influenciado fosse no que fosse as investigações feitas a Sócrates durante o seu mandato, a começar pelo estatuto de independência de cada magistrado e a terminar no poder do sindicato e do CSMP. As evidências continuam com o extenso rol de decisões que provam como o ex-procurador-geral da República decidiu que se investigasse o que havia para investigar à luz da Lei. E as evidências culminam naquilo que Noronha do Nascimento resumiu desta maneira, cito de memória: “Se as escutas onde Sócrates foi apanhado – as quais foram consideradas pela Justiça como inúteis para qualquer investigação, e por isso destinadas a serem destruídas – tinham algum indício de crime, por que razão não aparecem publicadas?”. Ou seja, numa situação onde o segredo de justiça foi violado sempre que se quis e como se quis sempre que aparecia algo que pudesse ser ligado a Sócrates nem que fosse pelo cheiro, então ele seria preservado logo naquele naco onde o gatuno tinha sido apanhado com a galinha na mão? Se Pinto Monteiro e Noronha do Nascimento tivessem feito essa golpada, acaso os sindicatos dos procuradores e dos juízes, mais os respectivos Conselhos Superiores, mais os partidos da oposição e, finalmente, o saudoso e heróico Presidente Cavaco, ficariam impávidos e serenos a ver passar a procissão? A referência ao Tribunal de Aveiro e sua deliberação sobre essas mesmas escutas pode até ficar sem comentário.

Houve e há dirigentes e deputados no PSD de Ferreira Leite e de Passos, Pacheco Pereira incluído e talibãs do CDS por arrasto, a que se junta o coro dos profissionais da calúnia no extenso laranjal mediático, que irão morrer a repetir que Pinto Monteiro foi um dia almoçar com Sócrates, e já depois de ter abandonado as suas funções na PGR, porque foram parceiros de corrupção. Qual a relação desse almoço seja com o que for que tenha influência na situação judicial de Sócrates eles não sabem explicar. Nem eles nem ninguém que tenha sido gerado no ventre de uma mulher. Obviamente, não seria com esse monte de calhaus com olhos que Rio poderia contar. Ou serão postos borda fora ou irão afundar o PSD.

Os novos cómicos

[...] Isto para já não falar da experiência que foi a maioria absoluta do PS.[...]


João Pedro HenriquesFaçam a política, não a guerra

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Este amigo tem décadas de acompanhamento interessado e profissional da política. É jornalista, suponho que com os salários em dia. E ainda se espraia na secção de opinião onde deixa preciosos recados morigeradores da cambada que anda por aí a ocupar os lugares nos partidos, no Parlamento e no Governo. Estamos perante um especialista da coisa.

Então, qual é a sua intenção ao teclar que não pretende falar de um certo assunto, no caso a maioria absoluta do PS? Será porque não tinha tempo ou espaço? Será porque é tímido? Será que tinha bebido de mais e já não se achava em condições de guiar o seu raciocínio por esses sinuosos caminhos adentro? Ou será porque imagina que aquilo que ele pensa a respeito, seja lá o que for, é o que todos pensam, seja lá quem for?

Não. O que se pretende é apenas uma gargalhada. Temos de rir a bom rir quando há alguém a pagar a um fulano para este nos informar que não pretende falar dos temas que, aparentemente, domina na perfeição.

Um ciclo de 12 anos para a esquerda

A esquerda portuguesa tem a cada vez maior probabilidade de conseguir ser a força governativa maioritária num ciclo de 12 anos. As contas, e as profecias, são fáceis de fazer:

– Rio apenas pode ambicionar a um tipo de triunfo, o PS não atingir a maioria absoluta nas próximas legislativas, e a um tipo de bóia de salvação, recuperar eleitorado nas autárquicas e deixar o CDS abaixo dos dois dígitos para a Assembleia. Vencer as legislativas em 2019, com os dados que se conhecem e se prevêem para a execução governativa e excluindo fenómenos extraordinários, será impossível.

– Assunção* Cristas, tendo Nuno Melo como seu tenente, está na corrida para comer eleitorado ao PSD que tenha Passos como o seu ídolo. Se quiser ir buscar outro tipo de votos, terá de se posicionar como uma candidata retintamente populista e começar a atacar o sistema a outrance. Nenhum destes caminhos tem a palavra “futuro” no bornal.

– Calhando Rio sair após a derrota em 2019 e Montenegro (ou um outro medíocre qualquer) pegar no partido, teremos o regresso do fanatismo beligerante, da baixa política e da decadência do poder pelo poder. Discursarão para um nicho e o PSD voltará a ter de tentar recuperar as origens a seguir a 2023 ou contemplar o seu desaparecimento como partido sociologicamente relevante.

Estamos perante 12 anos, começados em 2015, que podem continuar, aprofundar e expandir o que temos visto na primeira metade da actual legislatura – legislação que passa em Lisboa, contas que passam em Bruxelas, política que chega aos cidadãos de acordo com as suas necessidades e aspirações. É que aquilo que se aponta como a principal ameaça à estabilidade do Governo minoritário de Costa, as radicais diferenças em certas áreas para as posições do PCP e do BE, pode ser visto de forma absolutamente simétrica: nem com a influência centrífuga das divergências em relação à lei laboral e questões europeias, entre tantas outras, a união de responsabilidades do PS, BE e PCP se desfez.

Que os idos de Março de 2011 fiquem como a mais importante lição política deste início de século em Portugal.

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* Chamei-lhe “Conceição” na versão original do texto, no que fica como um desvio teológico quase imperceptível.

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What Women Want– How Personal Desire Impacts Pressure for Sex
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When it comes to our brains, there’s no such thing as normal
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Punishing a wrongdoer more rewarding to brain than supporting a victim
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Low-fat or low-carb? It’s a draw, study finds
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Mind-reading algorithm uses EEG data to reconstruct images based on what we perceive
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Einstein’s equations allow a non-determinist future inside some black holes
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David Dinis explica o que é isso da judicialização da política e da politização da Justiça

«O risco é maior, porque junta as duas guerras no PSD numa só. A guerra pessoal, porque criticar o Ministério Público e pôr o foco no segredo de Justiça será visto, no partido, como uma ajuda a Sócrates e Salgado, persona non grata para o mundo social-democrata; a guerra estratégica, porque abre uma auto-estrada a António Costa onde o PS não podia entrar, precisamente por ter José Sócrates em julgamento.

É por isso que um pacto para a Justiça com António Costa é o maior risco que Rui Rio pode correr. Porque é pessoal, porque é estratégico. E porque Rui Rio não o assumiu na campanha interna.»


Da série “Pânico na direita decadente