Foi há um mês, Graça Franco publicou um texto cuja popularidade superou largamente a que costuma colher – Jornalismo a meia-haste – tendo nele ligado vários temas correntes a uma denúncia do sensacionalismo e demais abusos e deturpações cometidos sob a protecção constitucional da “liberdade de imprensa”. Uma das situações tratadas, quiçá a que explica o impacto das suas palavras, foi a da entrada de Armando Vara na prisão de Évora e o que alguns meios de comunicação social fizeram na ocasião. A autora ilumina a fragilidade da pessoa condenada naquela situação de exposição incontornável, onde foi reduzida a mera figura abstracta cujo estatuto cívico consistiu apenas em servir de matéria desalmada para a exploração mediática. É um exercício de empatia o que serve aos leitores, oferecendo a raridade de olharmos, no espaço público, para um dos maiores bodes expiatórios do regime com módico humanismo – e ainda permitindo uma colagem retoricamente eficaz com o tema seguinte que queria igualmente (ou até mais) tratar e realçar, a reportagem da TVI acerca da Igreja Católica onde se usaram câmaras ocultas.
Do muito que se poderia dizer, tanto, sobre uma intervenção política (ah, pois é, bebé) que poucos dias depois estava já soterrada no mais fundo esquecimento, escolho o ponto de vista onde Graça Franco revela o seu instinto assassino no acto mesmo de estender a sua mão, as suas palavras, o seu coração católico (ou que seja só cristão, ou nem isso) a Armando Vara prisioneiro. É que ela exigiu um preço altíssimo para a vulgaridade ética de apelar à mais básica decência para com Vara: aproveitar para confirmar que ele é alguém que deve ser odiado, porque foi um “poderoso” de um tipo que ela detesta, um fulano socialista e com actividade governativa e na banca. Para tal, agarrou num episódio com perto de 20 anos. Ao tempo, Vara terá passado uma informação à Renascença em que admitia demitir-se do Governo de Guterres, pedindo que a fonte não fosse revelada. A notícia saiu e Vara desmentiu-a, só para se ver denunciado pela Renascença. Foi isto, não mais do que isto, e isto é ridiculamente importante seja para o que for. Aliás, a ter importância que justifique a sua recordação, ela remete é para a violação pela Renascença do sigilo exigido. Contudo, eis que a directora de informação da RR nos conta a história da carochinha em que se pinta Vara como o papão que a rádio da Igreja (da Igreja Católica em Portugal, senhores) enfrentou num combate biblicamente desigual. Ele o Golias e um órgão de comunicação social com o poder da RR como David. Nem para rir dá.
Ao mesmo tempo que Graça Franco compõe o retrato pungente de uma vítima da turba linchadora, um alvo social que nenhuma condenação judicial justifica ver despojado dos seus direitos e dignidade, vai colocando estrategicamente elementos que assinalam a sua concordância com o veredicto popular: aqui está o monstro. É, ainda e sempre, a dinâmica da diabolização. A expressão de uma agressividade antropológica inerente à vivência política e ao combate identitário. Daí recorrer ao processo mais antigo ao dispor de todo aquele que se prepara para cometer uma violência que precisa de disfarçar como um acto de defesa: dizer que alguém ou algo é ameaçador, poderosíssimo, que já fez e vai continuar a fazer muito mal se não for abatido. E depois de o declarar, depois de chamar o bom povo para a caçada nocturna, até dá para acreditar nisso. Tem a vantagem de permitir adormecer com facilidade.
