Os bancos da Avenida da Liberdade, em Lisboa, purgaram uma pena severa e prolongada sem que nunca se tenha provado o seu crime. Basta olhar para a imagem.
Já perceberam. Não faço parte dos lisboetas que gostaram de os ver pintados de outras cores que não o verde tradicional. Para quem não saiba, não se tratou apenas de pintar de vermelho, branco ou azul especial bancos que eram verdes escuros desde há pelo menos cem anos (embora também possam ter sido castanhos ou até inexistentes…). Foi pior: em todos eles foi pintado um círculo de dimensão razoável, de inspiração oriental, ou outras figuras quaisquer indefiníveis, com cores diferentes do habitual. Nalguns casos o banco todo mudou de cor. Sem mistério, por haver 1500 litros de tinta, e para mal dos nossos pecados, tamanho mau gosto estendeu-se também a candeeiros, pilaretes e gradeamento, que se coloriram aleatoriamente.
Mas hoje, parece que acabou, diz o DN. Vai tudo regressar à normalidade. A «obra de arte» fazia parte de um acordo comercial celebrado entre a Câmara Municipal e uma empresa dinamarquesa de tintas, a Dyrup, que previa a recuperação de dois milhares de peças de mobiliário urbano da avenida contra a exibição desta arte. Não se percebe por que razão a empresa não optou por chamar a atenção para as novas cores de maneira mais harmoniosa e integrada na paisagem, digamos. Pintando, por exemplo, um ou outro prédio mais degradado da dita avenida, nem que numa parede pespegasse a marca. Certo, concentraram-se no mobiliário. Nem que fosse só um prédio? Talvez não tenham entendido o espírito da época, em Lisboa. O século XIX foi urbanisticamente poderoso, a avenida é romântica e apetecível. Mas em julho do ano passado começou a ver-se verdadeiramente descaracterizada por esta brincadeira de resultado pindérico de quem habitualmente pinta casas e, no limite, cascos de navios, pretendendo acompanhar os tempos com as técnicas do feng shui, para que os lisboetas “vivessem a cidade”.
Na altura, há um ano, ouviu-se um coro de protestos na blogosfera e na própria autarquia. Embora também tenha havido elogios (!). A onda artística de mau gosto que varreu a bonita, frondosa e chique avenida desvanece-se agora finalmente numa só cor. Já não era sem tempo. E por falar em “viver a cidade”, isto e a despoluição através da redução do tráfego automóvel devolver-lhe-ão mais rapidamente a graça, a vocação e o interesse. Bem merece. Há outras zonas da cidade onde iniciativas destas poderão ter todo o cabimento. Esta não era uma delas. Sugiro à Dyrup que proponha à Câmara de Paris pintar cada arco da Place Vendôme de uma cor diferente.

