(artigo de Lourenço Pereira Coutinho, no Expresso)
E ainda:
Notas sobre racismo (eu)
No meio de toda a agitação que para aí vai a propósito da violência exercida sobre um negro norte-americano à vista de toda a gente, e que acabou por matá-lo, e sem questionar sequer que possa existir em muitas pessoas (incluindo polícias) um preconceito em relação aos africanos ou seus descendentes, várias perguntas me vêm à baila à boleia do questionamento da história da relação do Ocidente com África que se seguiu e sempre se segue às manifestações anti-racistas:
- Os afro-descendentes que aliam a justíssima reivindicação de um tratamento justo, igualitário e digno nas sociedades ocidentais onde vivem ao propósito de condenarem e quererem apagar o passado histórico dos “brancos”, gostariam do quê? Que o tráfico negreiro nunca tivesse acontecido e os seus antepassados tivessem permanecido escravos nos seus locais de origem? É que, se vamos analisar a história do tráfico de escravos pelo Atlântico, então será preciso reconhecer que nem os portugueses nem os ingleses, nem nenhum outro povo que se tenha dedicado ao comércio de escravos naquela altura, se aventuravam pelo interior de África em busca de pessoas para capturar, escravizar e transportar (pelo menos inicialmente e durante muitas décadas), nem foi esse o objectivo da expansão marítima portuguesa. Essas pessoas, já feitas escravas segundo as leis da sobrevivência e da guerra vigentes na altura em quase todo o continente africano, eram-lhes trazidas à costa por africanos em troca de outras mercadorias. No entanto, não vejo qualquer revolta contra os dirigentes africanos de então nem tentativas de identificação dos mesmos. Não será isso um pouco o reconhecimento da superioridade dos brancos, que por isso teriam obrigações que os chefes africanos não teriam? Não é isso aberrante?
Não, não estou a dizer com isto que até foi uma bênção os africanos terem sido levados dali para fora e que deviam estar agradecidos por isso. Seria estúpido, sobretudo atendendo ao carácter nada voluntário das viagens e às condições desumanas de transporte. Possivelmente, o que os agora revoltados gostariam é que os seus antepassados pura e simplesmente passassem a homens livres mal entrassem no barco e lhes tivesse sido oferecido um contrato de trabalho justo e habitação condigna no destino – segundo os padrões actuais. Sabemos que não foi isso que aconteceu. Porém, sabemos também que não teria sido possível que as coisas se passassem assim naquele tempo. E porquê? Se mais nenhuma razão houvera, nomeadamente os valores bem diferentes da época, basta a de que nem entre “brancos” as relações laborais eram justas! Muito pelo contrário. Quantos miseráveis embarcavam nos nossos navios de então? Não eram escravos, mas muitos dos que ficavam em terra a labutar nos campos era como se fossem. Além de que também os antepassados dos “brancos” foram escravos e durante muitos séculos, antes, durante e depois do império romano. Vamos derrubar o templo romano de Évora?
- Embora tenha todas as reservas quanto ao questionamento do passado colonialista de alguns países à luz das condições e dos valores e conhecimentos de hoje (e não esquecer que os EUA brancos começaram por ser uma colónia britânica), apoio 100% a luta contra as discriminações raciais na sociedade. A cor da pele não pode de maneira alguma ser motivo para considerar um outro ser humano inferior, prejudicando-o. Mas eu pergunto se, na América, a polícia só é violenta para os negros. E sei a resposta: não é. Basta lá ter vivido uns tempos. A polícia é violenta em geral e a esse facto não pode ser alheia a liberdade de porte de armas pelos civis. Está tudo de acordo, diria eu. Os negros são apenas os mais pobres, mais vigiados e mais facilmente apanhados. Mas, por outro lado, há milhares de polícias negros nos Estados Unidos. Serão todos brandos? Será que nenhum homem branco morreu devido a maus tratos de polícias também brancos descontrolados e cruéis? Já aconteceu com certeza. E é péssimo. É inaceitável. O polícia que assassinou George Floyd deve ir preso e, de preferência, não sair mais da cadeia. Mas mantenho as minhas perguntas.
- Interrogam-se alguns comentadores da nossa praça, escandalizados, por que razão não vemos afro-descendentes nas nossas televisões, no Parlamento, etc. Também penso que devia haver e tenho pena que não haja. Mas não vou tão longe ao ponto de considerar que essas pessoas não estão lá porque alguma força social as impede, como uma discriminação na hora das entrevistas de emprego ou nas inscrições em partidos políticos, como parecem sugerir os que assim se indignam. É evidente que os imigrantes das ex-colónias não vieram para Portugal por serem ricos. Demora muitos anos e algumas gerações até que a melhoria das condições de vida e a educação produzam frutos. O que não quer dizer que já não tenham produzido. Há em Portugal excelentes músicos e, seguramente, excelentes técnicos noutras áreas, de origem africana. A discriminação tem muitíssimo a ver com a pobreza e essa é a razão pela qual há mais negros nas nossas prisões. Nas lojas da Avenida da Liberdade não consta que haja racismo.
- Em suma, as discriminações em função da cor da pele devem acabar e a luta deve ser permanente nesse sentido. Mas aproveitar a luta para uma minoria ajustar contas com o passado dos chamados “brancos” (viemos todos de África, senhores) em jeito de punição, como se os chamados “negros” tivessem tido antepassados imaculados e fossem apenas vítimas dos que lá aportaram, isso é que já não. O Rui Rio não terá razão quando diz que não há racismo em Portugal, mas tem razão quando sugere que os exageros da turbamulta, nomeadamente a destruição selvagem de monumentos, farão muita gente olhar para os afro-descendentes com olhos pouco amigáveis e até com alguma revolta, a que alguns chamarão “racismo”. É pensar nisso.
