Todos os artigos de José Mário Silva

Relendo George

Neste país, nunca ninguém lê. Neste país, toda a gente «releu» sempre. Ou ainda o está fazendo. «Estou a reler Camilo…» Camilo, o tal, entenda-se. Está-se a reler «Os Maias», ou «O Milagre Segundo Salomé», ou «A Velha Casa». E cedo relerão toute Agustina, tout Antunes, tout Saramago.

E, está visto, sucede a todos. Estive, e digo-o a corar, estive a reler João Pedro George. Encontrei numa livraria Não é Fácil Dizer Bem (Tinta da China, 2006), e não resisti. Deitei-me, pois, a ler. E – agora vem – eu estava, na realidade, a reler. Uma parte do livro apareceu na «Periférica», o resto, e é muito, está simplesmente online no «Esplanar». Não dou os links, porque me importa, de momento, que prossigam a leitura aqui.

Reli, reli. E só senti uma falta. Duma pequenina nota de rodapé, corpo 8, digamos. É que, das talvez dezenas de atingidos pelo coruscante crítico, só um acusou o toque. Fui eu. Por isso, e só por isso, não teria sido nada de mais que JPG o tivesse assinalado. Ficava-lhe bem. Eu tive esse cuidado, esse bom gosto, quando, há uns anos, publiquei em livro as minhas georjadas, se assim me posso exprimir. Referi as reacções, nem sempre maravilhadas, daqueles que critiquei. (JPG, que abundantemente citou do volumezinho, poderá verificá-lo). Não é por nada, mas poupa-se trabalho aos investigadores, sempre haverá de havê-los, todos precisamos da nossa bucha.

Desse meu texto, fica aqui o essencial. Veio no número 11 da «Periférica», do Outono de 2004. Chamava-se «Aqui não há jantares. Uma resposta a João Pedro George». Dizia outras coisas e também isto:

A peça, «A coutada literária do Expresso», vinha assinada por João Pedro George. Era extensa, como o assunto pedia, e convocava quatro dos mortais que, na celebrada folha, se vêm eternizando. Era uma honra, não a atenção, porque tudo fazemos para consegui-la, mas a assinatura do George. Estava escrito, um dia calhava a nossa vez.

Há muito que o George traz os agentes culturais debaixo de olho. A todos. Anda fazendo a história da literatura actual, a verdadeira, a única realmente importante no futuro. A dos meandros, dos bastidores. É uma actividade meritória, sobretudo porque nunca suficientemente apreciada, sempre antes mirada com desconfiança. Todos quantos em Portugal, e não foram muitos, tentaram um dia a história da literatura coetânea acabaram esquecidos, activamente esquecidos. A universidade e o agenciamento cultural detestam ver-se examinados.

Isso não assustou o George. Continuou rastreando as movimentações de fundo, cartografando os processos e os conflitos, a pequena história que afinal não o era tanto assim. Mapeou, entretanto, alguns sectores da história presente, como as sondas fazem em Marte, criando vistas espectaculares, vertiginosas paisagens. E ali estava eu também, minúsculo relevo na vertigem.

Segundo o George, o Expresso desenvolveu um microclima literário de compadrio, de mútuo elogio, de autocomplacência. Os termos não são dele, sou eu que racionalizo. Nessa refervente calda, dois eixos se lhe desenharam então mais nítidos, mais descarados. Um que liga o filósofo e crítico António Guerreiro ao poeta e crítico Manuel de Freitas. Outro que corre entre o professor e crítico Ernesto Rodrigues e este vosso servidor.

Os medonhos ficheiros de João Pedro George justificam esta topografia. Um pressuroso vaivém de obséquios, de mimos, de conspirações, eis o que transpira da documentação. Ainda um escrevente não esvaziou o bafo, já o outro retoma alento. Dão-se o mote, dão-se a deixa.

Tem de fazer-se a George a justiça de supor nele, sobretudo nele, consciência de que isto é um retrato demasiado composto. É uma organização do caos, uma de numerosas, nem saiu mal feita. As realidades são, ainda assim, mais complexas.

E por aí prosseguia eu. Um dia, a posteridade haverá de ler-me. De reler-me, a desavergonhada.

Multidão ausente

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A 36.000 pés, e como uma embaladora turbulência, leio um suplemento do NRC-Handelsblad, o diário holandês de referência. Traz um artigo sobre a tese de Kurt Gödel de ser o decorrer do tempo uma ilusão. A tese não convenceu ninguém, nem o seu amigo Einstein. Por um raciocínio que não penetrei totalmente, considerava-se que, a ser realidade o que Gödel intuíra, estaria a máquina do tempo praticamente concebida.

A corroborar tão decepcionante conclusão, o artigo dizia: «Se a máquina do tempo fosse possível, podia ter-se esperado um público considerável na crucifixão de Cristo».

E eu não sei que mais lamentar: se a falta da multidão, com a minha ausência nela, se a inexequibilidade da máquina do tempo. Cristo morreu para nos salvar? É, não se pode ter tudo.

Mais «eduquês»

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Jorge Buescu

Leio no número de Maio de A Página da Educação, excelente jornal de – e para – professores, o artigo de Licínio C. Lima, «O ‘anti-eduquês’ como ideologia pedagógica». É uma crítica, segura e moderadíssima, ao livro de Nuno Crato, O “Eduquês” em discurso directo, da Gradiva. Esse número de Maio, note-se, ainda não está em linha no site da Página.

A questão do «eduquês» e da ideologia que o inspira tinha, em França, excitado os ânimos, e feito estragos, no âmbito do Caso Lafforgue. Já aqui o tínhamos referido, citando Guilherme Valente, que, num artigo no Expresso, se referira ao mesmo Caso.

De uma comentadora nossa, Shyznogud, recebi – e muito agradeço – a referência de um artigo anterior de Jorge Buescu sobre a mesma «affaire». Veio publicado no número de Janeiro/Fevereiro de 2006 na Ingenium, Revista da Ordem dos Engenheiros. O texto foi, informa-se-nos, retirado da página da Escola Secundária de Alberto Sampaio, de Braga.

É um artigo magnífico, como são todos os deste grande mestre da divulgação. Lembram-se de «O mistério do bilhete de identidade e outras histórias» e de «Da falsificação de euros aos pequenos mundos»? É ele.

Destaco a passagem: «Estas políticas foram inspiradas por uma ideologia que consiste em passar a não valorizar o conhecimento, associada ao desejo de fazer a escola desempenhar outros papéis que não a instrução e transmissão do saber, à crença em teorias pedagógicas delirantes, ao desprezo das aprendizagens fundamentais, à recusa do ensino construído, explícito e progressivo, à doutrina do aluno “no centro do sistema” que “deve construir ele próprio os seus saberes”».

Trata-se da mesma visão das coisas – digo eu – que, na teorização literária, afirmava que «o leitor é que constrói o livro», a mesma que, portanto, permitia, e avalizava, monstruosidades, publicadas ou por publicar. Era a mesma, também, que proibia qualquer afirmação de gosto. Sim, proibia-se (e ainda se proíbe, senhores) dizer isto: «Gosto deste livro». Pois, a literatura é para ser ‘analisada’, não propriamente lida, e por nada deste mundo degustada.

Parecendo promover o aluno, essa pedagogia não faz senão abandoná-lo.

«Modernos escravos»

Em comentário ao post Uma agenda ibérica?, a nossa comentadora Sombra produziu o texto que aqui se transcreve.

o direito dos povos à sua autonomia é uma conquista muito importante. há alguns k ainda lutam por ele, vejam o caso dos tibetanos. a luta pela liberdade, o direito a não ser subjugado por outro povo, não é uma questão de esquerda ou direita. tanto uns como outros têm interesses aí. o k acontece é que são por vezes parciais: defendem esse direito quanto a uns povos, e recusam-no a outros conforme os interesses geoestratégicos que defendem. eu, como portuguesa k sou e ciente de que mesmo ganhando mais, não estaria melhor dominada por castela, prefiro de longe lutar para k o meu país, com todas as debilidades k tem, permaneça uma pátria livre. sabem como nos classificaram os romanos quando aqui entraram? como um povo de escravos k trabalhava para os castelhanos. escravos de castela… é isso k querem voltar a ser? a troco de quê? mais uns tostões no bolso? a dignidade e a liberdade não se vendem. e isto não é de direita ou de esquerda, é um valor humano. bascos, catalães e galegos ainda hoje lutam por isso…querem deitar fora aquilo porque outros estão dispostos a morrer? portugal é uma conquista de todos nós e um direito que legamos aos nossos filhos. escravos modernos, é isso k querem para eles? na galiza só é aceite o galego escrito e falado à espanhola, a norma linguística imposta por castela. aqui há uns anos uns professores de galego que ensinaram a norma de raiz portuguesa (a verdadeira, a do galaico-português) tiveram processos disciplinares e já nem sei se foram mesmo presos… eu própria – em tempos idos que não há muito – transportei para a galiza (a pedido de amigos galegos) livros sobre a galiza e portugal que eram proibidos lá. porquê ? porque eram sobre a independência da galiza, ou defendiam a norma linguística proibida! temos é de lutar por viver melhor neste país, não vendê-lo mais do que já está. não ficaremos melhor. isso é uma ilusão. olhem o k nos aconteceu com os filipes e olhem o que está a acontecer agora: não nos estão a ajudar em nada, colocam a todo o momento obstáculos à entrada das nossas empresas e entram tanto quanto podem aqui, para quê? deixam aqui o dinheiro? não, levam-no para a sua pátria e vão. nos deixando cada vez mais pobres a nós. já se esqueceram do que nos tentaram fazer com o petroleiro que destruiu a costa galega? mandá-lo para aqui, só não entrou pk tínhamos um governo que o impediu (e tb não interessa se era de direita ou esquerda, interessa k nos protegeu). mas a galiza não escapou e castela não a protegeu. abandonou-os, lembram-se ? é isso k quereriam para nós? e não, não troco o alentejo e o algarve pela galiza. algarvios e alentejanos, são portugueses, os galegos… bem, são galegos…têm algo a ver connosco, mas não são portugueses. ao longo da história assim o foram provando. Viram-se para nós quando lhes interessa para “chatear” castela, mas depressa se voltam contra nós e nos traem a favor de castela quando têm algo a lucrar com isso. queiram ou não queiram, portugueses somos nós, e ou fazemos algo por este país, ou estamos perdidos. ninguém vem cá dar-nos nada. só tirar se puderem. não tenham ilusões. nunca ouviram dizer que não há almoços grátis?

Sombra

Uma terra sem blogues (de novo)

Ainda algumas anotações, para os amantes da estatística, sobre a blogosfera holandesa.

1. O título do post original, «Uma terra sem blogues», era uma alusão cultural (porventura demasiado subtil), não um dado estatístico.

2. A cada nova estatística, estes dias aqui aduzida, sobre os blogues em neerlandês, mais nítido se me tornou que, na Holanda, a blogosfera NÃO VIVE. Há imensos blogues? Seiscentos mil? Será a realidade subestimada, e são um milhão? Seja. E todavia, comparando com o nosso estremecido Portugal, É COMO SE NÃO EXISTISSEM. Quase não têm significado social, cultural. Mesmo gente culturalmente empenhada tem dificuldade em perceber o que possa ser isso de um «blog» ou um «weblog». O termo, de momento, não se lhes agarra a nada na mente.

3. É, talvez, significativo que o termo «blogosfeer», que nada impede de funcionar em correntio neerlandês, quase só aparece em contextos de… marketing.

4. No arquivo do diário NRC (digamos, o «Público» holandês) aparecem as seguintes referências à blogosfera:

Blogosfeer, 20-04-2006
Elke seconde komt er een weblog bij, 06-08-2005
De nieuwe Orwell, 27-05-2005
Het slagveld van de waarheid, 24-12-2004
‘Rathergate’ en de oude media, 07-10-2004
Veel te verliezen, 07-10-2004

Isto é, em dois anos e meio, o termo (não só o tema, mas o termo, a palavrinha) apareceu apenas seis vezes: três em 2004, duas em 2005 e uma neste corrente 2006. E esta última vem na secção de… Economia.

Moral: não se criou ainda, na Holanda, qualquer noção da blogosfera como comunidade cultural. Um «Aspirina B» (ou um Barnabé, ou um Abrupto, ou um Blasfémias, ou um Da literatura, até mesmo um Esplanar) seria, de momento, coisa impensável. Mas, sobretudo, não sei como se tornaria ela realidade. Necessitaria de uma dinâmica. Que não vejo desenhar-se nem sei que caminhos seguiria.

Sobre isto, e sobre a viva blogosfera portuguesa, reflecti um pouco no post original. E a minha perplexidade foi, aí, compartilhada por vários comentadores (inclusive blogueiros), que também conhecem o meio holandês. A perplexidade continua.

Uma terra sem blogues

Hoje, numa aula, aproveitei um momento de descontracção para falar de blogues. Andamos entretidos com o estatuto jurídico das línguas minoritárias, não-estatais, na Europa, e eu contara aos alunos o que sabia sobre a bela posição do galego, há tempos 14º em espaço na Internet, muito devido ao grande número de blogues. E falei-lhes, sob esse pretexto, no mundo trepidante da blogosfera. Eu sabia que estava a falar de Marte, mas a minha missão, e o meu prazer, é desenvolver culturalmente aquelas dezenas de jovens adultos. Mesmo com assuntos exóticos.

Na Holanda, a blogosfera não existe, nem como conceito nem como realidade. Alguns políticos têm uns blogues, mas nada que se assemelhe ao Abrupto ou à Causa Nossa. São simples caixas de propaganda, modernaças e pirosas. Os paisanos têm uns diários com grande renovação fotográfica e emocional, e alguns jornalistas disponibilizam simpaticamente textos já aparecidos. Não é estranho?

Não, não é. Os holandeses conhecem, já de há dezenas de anos, vivíssimos circuitos de opinião. Todas as quartas-feiras aparecem os semanários, uns bons doze à escala nacional, e neles a reflexão, a tomada de posição e o confronto predominam, com muita crónica, muito ensaio opinativo, muita divulgação, muita reacção de leitores. E os diários, mesmo decrescendo em vendas, conservam um considerável número de assinantes, que muitas vezes os acumulam com os semanários.

Será a blogosfera, então, um índice de subdesenvolvimento? Acho-me longe de supô-lo. Estaremos, antes, perante um simples funcionamento do ‘avanço retardador’. Nos transportes em Portugal paga-se electronicamente, na Holanda ainda se usam módulos, que um dia foram inovadores. Nós ultrapassámo-los com a blogosfera. Mas vínhamos de muito pouco, quando eles já nadavam em fartura de opinião. Não, os meus alunos vivem, aí, em pleno século XX. Eu só estava a falar-lhes do futuro.

Uma agenda ibérica?

Puxo para aqui o curiosíssimo texto com que Orlando Braga comentou o meu post «Líricos, pobres e ibéricos», um texto que lança sobre o assunto uma luz desconhecida e incómoda. Existirá, então, uma ‘agenda ibérica’ comum a Zapatero e a Sócrates? Ou ela é só de Zapatero, mas Sócrates acha perfeito? Serão as declarações de «profundo iberismo» do ministro dos Transportes, afinal, menos anódinas do que pareceriam? Mantenhamo-nos atentos. E lúcidos. E críticos. Tanto mais que a nossa folclórica extrema-direita já anda cheirando a caça.

Li todos os comentários até agora e muita gente tem muita razão. Conheço muito bem Espanha, por imperativos profissionais; e quando digo que conheço, falo do conhecimento do país de lés a lés, das pessoas, de muita conversa com muita gente, desde o povo menos letrado até a intelectuais de renome.

É verdade que o “iberismo” em Espanha não existe (até há bem pouco tempo), porque o espanhol em termos gerais, ou é contra a Espanha das nacionalidades (integrismo espanhol, extensivo a Portugal), ou é a favor da independência da sua nação (separatismo); não existe, normalmente, meio-termo nesta escolha por parte dos espanhóis. Ora, o Iberismo pressupõe um compromisso entre estas duas hipóteses: resulta daí a ideia do Leviatão Ibérico.

O Integrismo espanhol é tanto de esquerda como de direita; de direita quando expressa no passado pelo “Império” celebrado pelos nacionalistas tradicionalistas (“nacionalismo tradicionalista” segundo o conceito de Fernando Pessoa) e de esquerda por via dos republicanos que sempre defenderam a anexação de Portugal. O separatismo existiu desde sempre. Não foi por acaso que durante séculos o centralismo de Madrid incentivou a “colonização” das nacionalidades peninsulares; hoje encontramos mais andaluzes, galegos, castelhanos etc. em Bilbau do que bascos. A língua galega é proibida nos organismos públicos galegos; o etnocídio galego continua.

Portanto, se a ideia da “união ibérica” das nacionalidades não existiu, é de facto “a novidade política” introduzida por Zapatero, naquilo a que os intelectuais espanhóis (integristas ou separatistas de direita e de esquerda) chamam de “deriva nacional-zapaterista”. O conceito de “união ibérica” segundo Zapatero, consiste no Leviatão Ibérico, independente — na sua dinâmica e ideário — do projecto europeu, embora se aproveite das suas sinergias políticas. É este o novo “iberismo”: a construção paulatina presentista de um supra-estado ibérico, um Leviatão que apague a memória histórica, e que a partir da Ibéria das Nacionalidades, contribua para a unificação ibérica sob uma bandeira e uma língua comum utilitária e civilizacional: o castelhano.

Depois disto, podemos compreender as “concessões” de Zapatero em relação às nacionalidades, podemos compreender os protestos da direita tradicionalista espanhola, e podemos entender que o que Mário Lino disse não foi consequência de uns copos a mais de bom Alvarinho. Teria dúvidas é se Sócrates está metido nesta mistela, mas em política, o que parece, é.

Orlando Braga tem um blogue.

A loucura do mundo

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Leio sempre na «Visão» a crónica do Ricardo Araújo Pereira. Não vou ao ponto de comprar o magazine só para lê-lo (conheço quem o faça), mas considero que dignifica uma publicação séria e sólida o dar esta leitura desafogada.

Li-o desde o primeiro momento, e o primeiro momento já foi há muito tempo, estagiava o RAP no «Jornal de Letras». Já então ele não podia passar despercebido, com a sua curiosidade sempre num desassossego, o sinal mais visível da inteligência. Não o único, já que há inteligências muito discretas. E discreto, o RAP até o é. Mas sabe esconder muito bem.

Nas primeiras crónicas da «Visão», ecoava um Miguel Esteves Cardoso dos anos 80. Não era um mau eco, longe disso, o MEC é um grande professor. Mas o Ricardo entrava, não raro, pelo mais indecoroso pastiche. Veja-se isto (desculpe-se a fraca actualidade): «O Benfica tem boas hipóteses de ser campeão, este ano, e eu confesso que não consigo pensar noutra coisa. Devo acrescentar que, mesmo quando o Benfica não tem hipóteses nenhumas de ser campeão, eu não consigo pensar noutra coisa». É o MEC em estado puro: a mesma traquinice, o mesmo bluff mental, a mesma nitidez. Antes de 1983 ninguém escrevia assim em Portugal. E se, depois, se acabou a escrever tanto (MEC teve vários, e bons, epígonos), era porque alguma falta fazia.

Hoje, Ricardo Araújo Pereira vai construindo uma marca literária própria, paralela à marca cenográfica que nos «Gatos» patenteia. Vai abandonando a sombra de Miguel Esteves Cardoso (o que não levaram a bom cabo alguns, mesmo se bons, dos seus epígonos), e move-se já num universo de ainda maior ousadia e primariedade, as de um ser perplexo perante a loucura do mundo, segundo a sadia fórmula: para loucura, loucura e meia. É uma fórmula de sobrevivência que, imagino, vale por dez livros de auto-ajuda.

Comentários

Desde cerca das 02.00 h. da passada madrugada, a caixa de comentários do Aspirina B está inacessível. Pedimos desculpa pelo percalço e prometemos celeridade na resolução.

ÚLTIMA HORA: está resolvido.

Fica o post, para informação de quantos tentaram comentar nas passadas horas.

Líricos, pobres e ibéricos

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A nossa caixa de comentários mostra como é difícil a um português entender isto: que a auto-declaração de «iberista» feita pelo ministro Mário Lino é infelicíssima. Alguns pontos mais de reflexão.

1. Numa Espanha cada dia mais plural, chamar-se «iberista» é, no mínimo dos mínimos, bizarro. (E foi em Espanha – por ironia, logo na Galiza – que Mário Lino se o declarou). Pode-se, com isso, agradar a Madrid, claro. Mas galegos, bascos, catalães e andaluzes (as comunidades que se desejam tratadas como «nações») franzem a testa. É muita gente. São já a maioria dos espanhóis.

2. «Iberista» é um conceito português. É uma doutrina resvaladia, de espíritos destravados, mesmo se (como Antero ou Oliveira Martins) inteligentes. É uma pancada que dá aos portugueses em épocas de crise. Não, o corrector ortográfico do castelhano não reconhece esse vocábulo, «iberista».

3. Ainda nenhum governo português desenvolveu uma «política espanhola». Uma que respondesse à questão: o que é exactamente a Espanha para nós? Tudo o que existe é jurisprudência interjeccional. Pergunta-se ao PM qual é a prioridade internacional portuguesa, e ele responde: «Espanha. Espanha. Espanha». E o PR não deixou passar uma oportunidade, na campanha das presidenciais, para lembrar quanto a Espanha se está (e está) a desenvolver.

4. José Luís Rodríguez Zapatero não dura sempre. As sondagens continuam a dar a Aznar (digo bem, Aznar) uma razoável esperança de retorno. É bom lembrar que a extrema-direita espanhola (que não tem partido próprio) está em postos de comando do PP espanhol.

5. Declarar-se «iberista» é uma forma de lirismo. Ser líricos (e submissos, e pobres, e ibericamente migrantes) será o nosso particular papel na Ibéria – na Ibéria com que, segundo informa Mário Lino, o Governo de José Sócrates sonha.

6. A Espanha é um país magnífico de mais para ser tão desconhecido por portugueses responsáveis. Uma declaração de «iberismo» é, também, uma de incultura.

Actualização

A notícia do FARO DE VIGO está aqui.

Há referências ao tema (cita-se a título informativo, que não de adesão ideológica) nos blogues de Orlando Braga aqui, de Manuel Azinhal aqui, de Vítor Sousa aqui e de Ruvasa aqui.

Portugal em extinção

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Cristiano Pereira oferece-nos uma viagem visual e sonora ao mundo de Artur Gonçalves. Muita gente se anda a rir com a figura, num típico fenómeno de sobranceria cultural que esconde o intento maligno de terraplenar a identidade pátria. Pela minha parte, não compreendo como o Presidente Jorge Sampaio conseguiu acabar os seus dois mandatos sem o condecorar. Afinal, terá existido mais algum português com a coragem, e bom gosto para gravatas, que esta capa ostenta?… Shame on you, Mr. President.

Para uma nova licenciatura

É um assunto que não pode rivalizar com a importância do jogo desta noite entre o Benfica e o Barcelona, sequer com o interesse do jogo Alcaçovense contra o Fazendas do Cortiço (1ª Divisão Distrital, o Fazendas perdeu por um golo tendo marcado dois), mas que preocupa um grupo restrito de pessoas: educar os pais a serem pais.

Uma das últimas vacas sagradas, talvez um tabu, que não se ensina nas escolas, por maioria de razão não se ensina nas famílias, não ocupa os líderes de opinião, não suscita parangonas, não se ouve nas conversas de café, não consta dos programas partidários, não entusiasma, não aquece, só arrefece – para se ser responsável por um ser humano durante os seus anos de formação basta ser-se doador do material genético?

A sociedade não reclama do Estado uma regulamentação da qualidade da paternidade, nem se consegue conceber essa eventual logística. A complexidade e melindre da questão esmagam os raciocínios e ninguém se atreve a dizer que os pais vão nus para a paternidade e que são obscenos na crença de bastar amar os filhos para que os filhos sejam amados. O quadro penal apenas contempla os casos de óbvia – e excessiva… – violência física, sendo o resto varrido para debaixo do tapete da privacidade. Entre homem e mulher não metas a colher e entre pais e filhos não ligues aos sarilhos (acabei de inventar, muito obrigado).

Consequentemente, o mercado para psicólogos, advogados, astrólogos, trafulhas da religião e um sem-número de vendedores de banha da cobra cresce saudavelmente. Ou seja, nem tudo é mau na situação. Sempre se vão criando uns empregos.

O problema do abuso de droga nas redacções

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O editorial do Público de hoje é a prova viva de uma velha campanha: droga, loucura e morte!
Voltarei mais tarde ao assunto, mas o artigo é simplesmente genial: estará o esforçado José Manuel Fernandes convencido conseguir convencer alguém com aquele arrazoado de disparates, para além da estimável Helena Matos?
Aqui ficam alguns “factos”, para incentivar a leitura:
– A culpa da não existência de armas de destruição maciça é de Saddam: fazia Bluff e assim enganou maldosamente os Estados Unidos da América.
– A prisão de Abu Graib, a tortura e Guantánamo são a prova da superioridade da democracia dos Estado Unidos da América: só sabemos delas porque há imprensa livre.
– A al-Qaeda está muito activa no Iraque e o terrorismo disparou numa escalada incontrolável, porque a “base”, sabe-se lá com que cumplicidades, já actuava no Iraque nos tempos de Saddam.

Marines salvam Jesus Cristo

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Segundo vi no meu blog favorito (clicando nesta imagem), vai ser realizado um filme heróico em que Jesus Cristo é salvo da cruz pelos marines. A super produção está a cargo do aclamado realizador Jonathon Mostow. O cineasta, autor do grande sucesso “U-571”, garante que “apenas especialistas vão conseguir perceber algumas discrepâncias históricas”.
Na Internet já circulam algumas das cenas mais fortes, para os cinéfilos aqui fica uma delas:
Artillery from the Pharisee emplacements ROARS overhead. Explosions SHATTER the air itself, and Brock SHOUTS into the Messiah’s ear:
Capt. Brock
Hey, Lord!
Jesus
What?!
Capt. Brock
There’s something I’ve always wanted to know..!
Jesus
What’s that, son?!
Capt. Brock
The ‘H’ in “Jesus H. Christ” — what’s it stand for?!
Christ chomps down on His cigar. He STANDS UP, staring, unblinking, into the withering MACHINE GUN FIRE that zips around His head.
Then He winds up and THROWS.
The object — all we can see is a small ball — SOARS overhead, then LANDS beside a Pharisee howitzer.
It EXPLODES! Enemy soldiers FLY through the air as the howitzer is consumed in a fireball!
Jesus
Stands for “hand grenade.”