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Adeus, Eduardo

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Ontem li, no Público, a crónica dele. Tinha graça, mas já não a força de antanho. Vi-o em Maio, na Fnac do Chiado. Ao despedir-me, abracei-o. Era a primeira vez na vida, eu sentia que era também a última.

Neste lugar, que é um bocadinho meu, fica a recordação do homem que disse de mim coisas que não lembram ao diabo, mas acrescentando que, se o V. agora entrasse por aquela porta, teria o maior prazer em recebê-lo.

Agora foi ele quem entrou por essa porta, mais que todas, tremenda. Que ela o conduza ao mais tranquilo e verde dos espaços.

Foz do Arelho, ouvido cândido

São mais cás mães, pá. E aparecem, sem avisar, em tudo quanto é sítio, mesmo público, mesmo assim tipo discreto. O que mais por aí há são héteros, é o que eu te digo. Héteros. Nunca ouviste falar? Daqueles gajos que…, eh pá, tu percebes, não disfarces. E vêm, sim, vêm como calha: sozinhos, juntos, aos pares, claro, mas não se ensaiam por virem também aos magotes. Um gajo topa-os logo.

Também, pá, não escondem. Nem um nadinha de decoro. De urbanidade, digamos. Dantes não era assim. Dantes essa malta escondia um bocadinho. Fachada, meu, pois era, fachada pura, tá-se a ver. Mas sempre era outra coisa. Agora até os miúdos reparam, já viste? Até os miúdos. Que é que um pai vai dizer, se vêm com perguntas? Sim, um tipo não vai… Tá bom, há maneiras de rodear a coisa, eu sei. E os putos entendem. Às vezes entendem até mais que sei lá o quê.

Mas não devia ser. Não devia, pá. Quer dizer, eu nem sou contra. Nunca fui. Cada um lá… Ãh? Pois, pois falam, falam muito em liberdade, em assumirem, em «todos diferentes», comé quié? «Todos diferentes»… Isso, «todos iguais» tarantã. Mas depois um gajo é que os grama.

E são, são uma data deles. Vai por mim, meu. Mais cás mães.

«Tu»

A presidente da maior confederação de sindicatos holandeses trata por tu o ministro do Trabalho. O presidente do conselho de universidades holandesas (que vai sempre de bicicleta para o trabalho) trata por tu o ministro da Educação. Vários presidentes de grandes bancos holandeses tratam por tu o ministro das Finanças.

E julga alguém que este Reino, de onde vos escrevo, amanhã se desmorona?

Aspirina Box #8

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Coisas novas na Box. Em primeiro lugar, há o belo e longo «He’s Simple, He’s Dumb, He’s The Pilot» dos Grandaddy, seguido de uma superior interpretação de Vinicius Cantuária da melhor canção do mundo. Para além de «Maryan» do indispensável Robert Wyatt (cujo novo Comicopera sai já em Outubro) e do muito estival «La Baie» de Etienne Daho, também coloquei o meu tema favorito dessa doida que é a Björk, o não menos belo «Feather by Feather» dos Smog e «La Cienega Just Smiled» de Ryan Adams (que aqui parece o Elton John antes deste ter começado a soar que nem aquele galo que canta desde 1919). Para terminar, há a Radio 1 Session de «London, Can You Wait?» dos Gene (um autêntico case-study: como é que uma banda tão medíocre conseguiu compor uma pérola destas?), «Smoke & Mirrors» dos The Magnetic Fields e Mark Kozelek a resgatar da sombra dos Genesis o tema «Follow You, Follow Me», o que prova, mais uma vez, as virtudes da reciclagem.

CARTA ABERTA A JOSÉ SARAMAGO

Do DIÁRIO DE NOTÍCIAS de hoje

Muy señor mío, Me perdonará Usted mi pobre castellano, pero desde anteayer me entero de la urgencia de praticarlo. Al “Diário de Notícias” de Lisboa predijo Usted esto: “Acabaremos por integrar-nos” en España. Preguntado por el periodista João Céu e Silva si nuestro país seria entonces “uma província de Espanha” (le sigo citando en nuestro antiguo idioma), Usted contestó: “Seria isso. Já temos a Andaluzia, a Catalunha, o País Basco, a Galiza, Castilla La Mancha e tínhamos Portugal”.

Claro, nos asegura, podremos conservar nuestra lengua, nuestras costumbres, y así mismo creo yo nuestro fado, pero (no lo dijo, uno entiende) nos gobernaría el jefe de estado madrileño del momento. Y aunque diga Usted que no es profeta, no hay que olvidar su proverbial modestia. En fin, para gente sencilla como yo, sus palabras son un caritativo aviso del destino.

Pues, señor, no y no. Usted, el más famoso de mis compatriotas, se permite en público unos juegos muy guapos de futurología. Pero se los guarde para sus libros, los cuales están perdiendo el suspense de antaño. Créame, el real futuro de un Portugal integrado en España lo conocemos ya muy de cerca. Está visible en la Galicia de hoy, donde la lengua dominante, y los derechos dominantes, y los partidos dominantes, son los de Madrid. Esto no es futurología, sino lo qué uno ve. Si quiere verlo.

No creo que sea su caso, Don José. Me contaran que, hace poco, visitó Usted Galicia invitado por el Pen Club. Le rogaran que hiciera su discurso en Portugués. Todos podrían entenderle, sin problema, si hablara en nuestra hermosa variedad de gallego. Usted – como otras veces ya en Galicia – recusó y habló en Español.

Muchas gracias en realidad. Ahora sabemos cómo hablarán, en la Provincia española de Portugal, los futuros traidores.

Fernando Venâncio
Amsterdam, 17 de Julio de 2007

Curso rápido de leitura das entrevistas do Saramago

Há quem não se importe nada com o que Saramago disse, com o que Saramago pensa e com o que Saramago quer. Estes, aparentemente, também não se importam muito com o fim de Portugal como país, passando a província da Espanha. Dizem que Saramago não é iberista, apenas lúcido. Que Saramago fala da integração como quem diz que vai chover, mas sem ser uma inevitabilidade (??). E ainda acrescentam que leram a entrevista ao DN do passado domingo.

E nisso, no ter lido a entrevista, é que está o problema. Porque para quem não a leu, acreditar que Saramago é um vendido aos castelhanos é legítimo e recomenda-se. Estar-se-á centrado no essencial, sem se ter perdido tempo a ler o supérfluo. Porém, quem leu passa a ter um problema. E que não é pequeno. É um problema com 800 quilómetros de costa.

Saramago, na quase totalidade do que diz, argumenta a favor do fim de Portugal como Estado independente. A troco do quê? Do abstracto desenvolvimento. Mais não avança ou detalha, revela ou esclarece. O desenvolvimento é para ele um conceito auto-evidente, universal, e, se bem explicado, todos os portugueses o iriam desejar. Isto é, todos os portugueses iriam querer viver com o nível de vida dos catalães, promete Saramago. Ora, com isto fica patente que o nosso Nobel está a mentir, a delirar e a enterrar-se no valado do ridículo. Porque o designado desenvolvimento espanhol corresponde a uma situação que não é reproduzível no contexto português, com ou sem integração.

A montante e jusante da ciência económica, o nosso leitor de entrevistas de Saramago já desistiu há muito de Portugal, o qual constata estar pejado de portugueses. Este leitor não acredita na renovação do escol luso, preferindo substituí-lo por atacado pela elite madrilena. Contudo, a entrevista afirma que seriam ainda os portugueses a gerir Portugal, embora subservientes ao poder central ibérico. Esta contradição deixa o nosso leitor numa periclitante posição, arriscando o erro hermenêutico ou a ignomínia patriótica. O que me leva a oferecer este ensinamento: quando se lê uma entrevista de Saramago, lembremos-nos de que estamos perante um ex-português. Um ex-português que sonha com uma Espanha das Baleares aos Açores.

SIC Comédia

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As actuais direcções do PSD e do CDS são paupérrimas. Não espanta que tenham aproveitado o banho de inteligência dado pelo eleitorado minoritário que votou em Lisboa. E aproveitaram para mostrar que nada entendem do que se passa à sua volta. O fascinante está na possibilidade de tudo ainda ser capaz de piorar nestes desesperados e desesperantes partidos. Por exemplo, se a loucura colectiva levar à escolha de Luís Filipe Menezes para chefe, sendo ele um dos políticos com mais sucesso no stand-up comedy nacional, será o completo delírio no PSD. Adivinho um ciclo melodramático que alcançará o milagre de fazer Santana Lopes parecer minimamente competente.

Na entrevista dada ontem na SIC Notícias, Menezes apresentou-se com a excitação contida de quem se prepara para roubar caramelos em Badajoz. À sua frente estava Ana Lourenço, uma jornalista que parecia sob o efeito de alguma medicação debilitante, ou estar paralisada pela aurea mediocritas da figura, ou agindo as duas causas em reforço mútuo. Esta Ana foi protagonista, há dois anos, de um delicioso lapsus linguae (et pour cause…) que deverá ter feito disparar a sua popularidade junto de colegas e populares mais bem informados. E, para mim, essa memória foi a parte mais relevante da presença televisiva do comediante Filipe Menezes.

Coño

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A pessoa que escreveu um dos livros que mais me faz amar Portugal, os portugueses e a Língua — LEVANTADO DO CHÃO — é a mesma que despreza a nossa História, a nossa Alma, a nossa Liberdade. É desconcertante. E vexante.

Semanas atrás, um espanhol de 30 anos veio a Lisboa. Namora com uma portuguesa em Barcelona. Trabalha em comunicação, representando o que será um típico jovem adulto catalão, versão sofisticada e moderna. Pois bem (e sem surpresa), é ódio o que ele mostra ter por Madrid. Ouvindo-o, fica-se convencido que Espanha se vai desagregar dentro de minutos, talvez segundos. Mas mais, e bem mais importante: é possível adivinhar uma funda, embora calada, inveja da nossa independência. O mesmo sentem os galegos e os bascos, pelo menos, fazendo de Portugal a excepção ibérica que espanta as províncias subjugadas. É esse carácter excepcional da nossa identidade que Saramago quer anular. O que não admira, vindo de um cultor do internacional-socialismo, essoutra jangada que afogou tantos na tentativa de os reduzir a uma pasta informe e desvitalizada.

Derrelictos — Gonçalo da Câmara Pereira

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O mais patusco dos pretendentes ao trono autárquico é também o único a poder reclamá-lo por direito de baptismo. A familiaridade com a Câmara está no anil que lhe corre nas veias, é vocação dos que nascem em berço. Os plebeus da concorrência não conseguem lutar com fidalguia contra a hereditariedade. Então, recorrem aos mais baixos e funestos instintos populares, os quais vão encher a cidade de urnas. É isto a república, o Reino enfiado num quadrado. Para tourear a turbamulta, no partido do candidato alguém ataca com um fado. Ao eleitor pede-se, pois, que faça silêncio.

Eu daria tudo

Pois é. «O que eu não daria para tê-lo (ou tê-la) aqui, cinco minutos que fosse!», dizemos. Pura leviandade. Sim, a sério, quanto estaríamos dispostos a dar pelos cinco minutos, por dois, por um? Mil euros? Quinhentos? Cento e cinquenta? Nunca fazemos as contas. Ao desejo e ao porta-moedas.

E quando o desejo é grande, e dizemos «Eu daria tudo…», isso é mesmo a valer? Tudo? O emprego, a casa, a segunda casa, o carro, as férias às cálidas caribenhas areias – tudo, mesmo?

Às vezes, a língua humana embaratece muito.

O vento, ainda

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Ao voltares as páginas do livro, ainda escutas o gemido da folhagem
quando o vento lambia o seu esplendor.

João Pedro Mésseder, Abrasivas, Porto, Deriva, 2005

O livro de Mésseder está editado, além de no original português, em galego normativo. O texto acima sai ortografado assim:

Ao voltares as páxinas do libro, ainda escoitas o xemido da follaxe
cando o vento lambía o seu esplendor.

Dá-se um bombom (que digo eu, uma tarte de Santiago inteira) a quem nos explicar como esta frase, com a sua sintaxe, a sua morfologia e o seu léxico, pertence a duas línguas diferentes. E esqueça a ortografia, sim, bom amigo. As ortografias nunca criaram línguas.

Claro: a frase é escolhida. Mas poderiam dar-se dezenas. Como poderiam dar-se vários contra-exemplos. Óptimo. O convite mantém-se. Expliquem-me, pois, a frase acima.

Para lá desta questão menor (e, concedo, bizantina): o livro de João Pedro Mésseder é belíssimo.

What’s in a name?

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O acesso aos cafundós do Aspirina – acesso que não é só feito de alegrias – permitiu-me achar um recente comentário a um «post» já de Setembro de 2006. Tratava este (pode ver) uma questão anódina, um fait-divers sobre Vasco Pulido Valente. Mas a discussão derivou para o nome do historiador, e é ainda a esse propósito que Francisco M. Pulido Valente Pena agora escreve:

«Quanto às “tristes” cenas e outros tantos “tristes” comentários acerca do “verdadeiro” apelido do meu Primo Vasco Valente Corrêa Guedes, gostaria que, e não me tendo sido solicitado qq pedido pelo próprio, deixassem o Grande Historiador sossegado pois estes Srs. que aparentemente se “preocupam” com o verdadeiro apelido do Grande Historiador, pelos vistos não têm mais nada que fazer ou em que pensar senão nesse pouco (a meu ver) importante facto dele, o Grande Historiador e meu Primo utilizar os apelidos do nosso Avô Materno, Prof. Dr. Francisco Pulido Valente, verdadeiro Democrata mas não comunista como alguns insistem. Vão mais além nas vossas considerações e, deixem-se de mexeriquices que mais parecem, essas sim, conversas de mulheres.»

Aquando da saída do «post», comentara «jcfrancisco»:

«A propósito… Para quando a decifração do facto de esse senhor se chamar Vasco Correia Guedes e não Pulido Valente? Será que não é prioritário?»

A isto respondi eu na altura:

«Caro jcfrancisco. É já a segunda vez que te vejo afirmar, ou insinuar, que Vasco Pulido Valente se chama, na realidade, Vasco Correia Guedes. Deixa-me ser sincero: o facto de essa questão te preocupar é, para mim, mil vezes mais interessante do que estar informado do nome autêntico do grande historiador.
Todavia, sem descentrar o meu verdadeiro interesse, apreciaria saber:
– terá VPV razões (razões públicas, de imagem) para usurpar um nome, e concretamente esse?
– a patronímico Correia Guedes (que nada me diz, mas eu sou em questões de sociedade um cavernícula) é algo que, patentemente, apeteceria escamotear?
Aqui tens duas perguntas altamente… prioritárias.»

Estas perguntas estão, ainda hoje, por responder. A minha precisão de resposta é muita? Nem por isso. Mas as obsessões alheias fascinam-me.

E, entretanto, a questão – vê-se agora – ainda mexe.

«SEMPRE ABRIL» na TV Galega

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Até às 23.00 de Lisboa, a TVG, televisão galega, aí no seu cabo, transmite um programa sobre o 25 de Abril e José Afonso. Estão lá os irmãos Salomé, João Afonso, Júlio Pereira, Dulce Pontes – e suponho que mais virão.

21.43 h.
A estreia absoluta de «Grândola Vila Morena», em 1972, deu-se no Burgo das Nacións, em Santiago de Compostela. Foi aí que José Afonso se deu conta da força do número. O concerto foi apresentado por Emilio Pérez Touriño… em 2007 o presidente da Galiza.

Percurso

O Público de hoje traz um excelente texto de Rui Bebiano, «O concurso e a responsabilidade dos historiadores». Trata-se, percebe-se, do concurso «Grandes Portugueses» da RTP.

De assinalar é, não só o texto em si, mas ainda a circunstância de ter aparecido primeiro no diário As Beiras e seguidamente num dos blogues de Bebiano, onde eu o tinha lido já.

À atenção dos observadores de circuitos nos media, ficam a apreciação, mais a interpretação, deste percurso: Imprensa Regional, Blogosfera, Jornal de Qualidade.