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Raul Brandão – do «Mercure de France» ao Círculo Eça de Queirós

É uma das novidades da «saison» este «Portugal no Mercure de France – aspectos literários, artísticos, sociais, de fins do séc. XIX a meados do séc. XX». A tradução e a coordenação cabem a Madalena Cruz e Liberto Cruz e a edição é da Roma Editora. Este livro é um monumento de 707 páginas com a reunião das crónicas escritas ao longo de 50 anos por Philéas Lebesgue sobre os livros de escritores portugueses que lhe iam chegando à sua casa de La Neuville–Vault e que entre 1896 e 1951 recenseou na revista Mercure de France. Raul Brandão é um dos mais assíduos frequentadores das páginas do periódico. Desde 1896 até à sua morte inesperada no dia 5 de Dezembro de 1930.

Horas depois do lançamento deste livro, estou no Círculo Eça de Queirós ali ao Chiado e assisto à apresentação de um livro de entrevistas de António Ferro a Salazar. Não vejo Rita Ferro, velha conhecida minha da revista Ler, mas Mafalda e António oferecem-me uma verdadeira preciosidade. Trata-se do fac-símile do protesto dos homens de letras, jornalistas e artistas portugueses em 17 de Julho de 1923 contra a Censura policial à peça teatral «Mar Alto» de António Ferro.

Numa lista de escritores, jornalistas e artistas plásticos que inclui António Sérgio, Fernando Pessoa, Norberto de Araújo, Aquilino Ribeiro, Alfredo Cortez, Luís de Montalvor, Artur Portela, Eduardo Malta, Augusto Santa Rita e Mário Saa, a presença do nosso querido major em primeiro lugar num protesto contra a «precipitada e injustificável proibição de um drama por uma autoridade policial» é hoje, em 2007, um sinal.

Mudam os tempos, mudam as vontades, mas não mudam as coisas essenciais da vida.

O poder de encaixe das pessoas

Um romance anda a fazer-se. Há-de chamar-se Deus chega no próximo avião, mas não me comprometo. O primeiro capítulo será como vai aqui. Mas sem este visual de blogue.

*

Nunca hei-de perceber porque é que, tarde ou cedo, toda a gente rompe comigo. Até os mais íntimos, até os mais indiferentes. «Não dês as culpas logo a ti», consola-me a Noémia. Por vezes, insiste: «Tens tantas qualidades, tantas! Mas é isso também, acho que é isso, o que fere as pessoas.» E explica melhor: «Elas não aguentam o ciúme que lhes fazes.» A Noémia tem sempre estas profundidades.

A sério. Se há coisa que não entendo, são os invejosos. Eu posso ter, e de certeza tenho, todos os outros pecados capitais, mas a inveja é-me estranha. Invejar, invejar o quê? O que eu quiser conseguir, hei-de tê-lo por mim próprio. E se não, não. O mundo não acaba aí.

O caso do Luciano Malta, sirva esse exemplo. Jamais me apanhou a tratá-lo mal, tive sempre o cuidado de envolver em modos afáveis as reservas ao trabalho dele, convidei-o até várias vezes para almoçar. Era uma maneira de falarmos da família, dos gostos, da sua Constância natal, que tanto refere e onde tem ainda casa, falarmos enfim do que calhasse, tudo menos do trabalho. Porque, julgo eu, é assim, nesse terreno pacato, que os entendimentos crescem. Pois disse-me sempre que sim senhor, mas achou mil desculpas para nunca irmos tomar sequer um café.

E, ontem, foi o que se viu. Pôs-se aos berros, disse inconveniências, tudo diante dos colegas, e não me admiraria que na direcção lhe estivessem a ouvir os mimos. Por mim, fiz quanto pude para acalmá-lo, disse-lhe duas ou três vezes que sim senhor, tinha razão nisto e naquilo, fui mesmo ao ponto de propor trocarmos de funções: eu fazia as correcções mais miúdas, as vírgulas, a ortografia, mexia só em algum vocabulário, ele que amaneirasse depois os textos à sua vontade, falasse com os autores, decidisse com eles o produto final. Procurei ser desinteressado, mostrar que a minha posição ali não era tudo na vida, bem sabendo que a Irene, atenta ao ecrã, estava a seguir-nos a conversa, a sonsa, ansiosa por ver se era desta que eu me espalhava. Pois tanto me valia ter estado calado. Quanto mais terreno eu sacrificava, mais o senhorito perdia as maneiras. Que eu era um cínico, um impostor, um pedante, que hoje em dia «as letras do burgo», termos dele, não estavam à espera das camisas-de-forças em que eu sonhava amarrá-las, e que não era já a primeira vez, nem a segunda, que um autor da casa tinha ameaçado levar os originais a outras paragens.

«Luciano», disse-lhe eu, e quis dar a impressão de que procurava ainda as palavras. «Se as coisas, para você, estão já nesse pé, parece-me altura de a direcção ser avisada.» Parou o gesto, recuou, quase perdia o equilíbrio. Depois, desgrenhado, espumando incapazes raivas, despediu para lado nenhum a sugestão definitiva: «Vá pró car…». Deixou o dito assim, e desembestou dali, enquanto da pasta se lhe perdiam canetas de várias cores. A Irene ergueu ao céu os bem desenhados punhos: «Que mal fiz eu a Deus…» Mas também a eloquência lhe ficou por aí.

Ia eu buscar um café ao andar de cima, quando o dr. Cícero, no corredor, me barrou o caminho. «Chegue aqui». E fez-me entrar no gabinete. «Quer tomar alguma coisa? Toma, que vão sendo horas do meu uísque.» Senti que apreciaria que lhe apanhasse a graça, e eu fiz-lhe a vontade, embora sem o talento que tanto me favorece nestas ocasiões. «Você anda stressado.» Disse-mo, e logo sorriu, enquanto servia generosamente os dois copos. «Esse stressado, aposto, não lhe saía vivo das unhas.» Corrigiu: «Das mãos.» É esta a minha triste fama: a de puritano, a de castigador dos desbragamentos de linguagem. Não, nunca saberão eles a tolerância a que, desde há muitos anos, me venho obrigando.

«Sabe, Gildo», meditou ele, «o poder de encaixe das pessoas…» Mas foi sentar-se, mais propriamente caiu na cadeira, e ergueu o copo com uma indecisão que denunciava outros uísques no bucho. «À sua, Hermenigildo.» «À nossa, doutor Cícero.» O que era cerimónia a mais nas nossas relações. E o doutor atirou, fixando os infinitos, e englobando o Luciano Malta, a editora, a avenida dos Defensores de Chaves, o planeta, a parte reconhecível do universo: «Não ligue, Gildo. Até lhe ficava mal. Você está muito, mas muito, acima disto tudo.» Ficámo-nos olhando, como se algo de decisivo tivesse sido suspenso. Segundos depois, desatávamos a rir, regalados. Já só se falou do campeonato.

Conta-me o teu sonho

Não sei se há blogues de sonhos. Daqueles assim em que o mantenedor, ou a mantenedora, logo pela manhã (e, Planeta afora, a todo o instante é manhã) nos conta em que andou metida, ou metido, nas horas anteriores.

Não sei, repito, de nenhum blogue destes. Mas hão-de existir, estatisticamente – isto é, com base no que sabemos desta humanidade e desta bloguítica.

Confessar os sonhos havidos pode ser tentador (quem nunca interferiu na tranquilidade matinal de alguém com um «Tive esta noite um sonho maluco»…), mas não consigo conceber que, mesmo numa relação íntima (e sobretudo numa relação íntima), se contem os sonhos como quem responde a um «Que tal hoje o trabalho?». E assim é que está bem. Dentro da maior intimidade partilhada, é preciso que exista um espaço onde se esteja, e se fique, garantidamente sozinho.

Isto quanto aos sonhos «desta noite».

Mas há os sonhos recorrentes – os que se contam encetando por «Eu costumo sonhar com…» – e esses são bem mais inócuos, e participáveis. Vou contar um meu.

Um razoável número de sonhos, situo-os em bairros periféricos de Lisboa. Bairros que, estou perfeitamente convencido, não existem. Mas ando por lá horas perdidas, entretido em actividades de toda a ordem, que não vêm aqui ao conto.

Olho para a planta da cidade – que conheço como à palma da mão – e não sei sequer onde colocar tais subúrbios, quase sempre de um urbanismo irresponsável, mas essa é a parte menos original. Este, um sonho recorrente, nem bom nem mau, e às vezes divertido.

Mas, certa noite, aconteceu-me o reverso disto tudo. Sonhei-me num local da cidade, que efectivamente não conhecia, algures ao Alvalade. E que sucedeu? Tempos depois, em  visita real, ele revelou ser, muito pormenorizadamente, como eu o sonhara. Ruas, casas, passeios, pequenos parques, e até um arco.

E pronto, paro aqui. Isto, sonhos, é mesmo tentação.

Cobaias de teorias

Em sintaxe clubista: sou bem mais do Rui Tavares (e por isso um tanto isolado, nesta casa) que da Helena Matos.

Mas ontem a senhora – no debate dos dois sobre a inteligência dos desfavorecidos e sobre a escola pública, que hoje prossegue no Público – escrevia o que segue, e que é muito, e muito, acertado:

Os filhos dos pobres não são nem mais nem menos inteligentes que os filhos dos ricos. Tiveram sim foi o azar de os seus pais não ganharem o suficiente para os poupar a esse papel de cobaias de teorias que tanto vêem na ignorância o estado supremo da perfeição igualitária, como entendem que aprender tem de ser divertido e fácil.

Lembram-se do eduquês? Lembram-se dos destravados que, no ministério da educação, comandam à distância as salas de aula, os seus sujos laboratórios para relatórios tão limpos?

Pois é. Era disto que se falava.

Musiquinhas deprimentes

Quando acabam as «Conversas» com Marcelo Rebelo de Sousa, corro para o aparelho e baixo o som. Para fixar algum pensamento mais útil, mais esclarecedor? Para trocar impressões com a companhia ouvinte? Não e não. Simplesmente para apagar o tune que ali vem. Deprimente a mais não poder.

Quem será o marau (virá no genérico?) que, numa manhã de puro azar, compôs, talvez – quase certamente – por bom dinheiro, aquela aflitiva melopeia?

Não é, sequer, caso único na minha lida semanal. A bizarria sonora que precede e segue o «Eixo do Mal» é, se possível, ainda mais psicótica. Outra corrida sala afora, se bem me entendem.

Sei do que falo. Também compus coisas. Não, não estou a sugerir nada. Nunca ligaria a minha arte a tais programas. Era mau para mim e para eles. Mas, como está, sofro eu sozinho.

Parece justo?

Pode ser Pepsi?

Não. Isso nunca mo perguntaram. Porque também nunca pedi uma Cola. Mas tenho ouvidos, e sei, e não posso ignorar. 

Há todavia coisas, outras coisas, que não quero, por favor, voltar a ouvir. Aqui vão algumas. 

Faça de conta que a casa é sua.

O que tem que ser tem muita força.

Ah, no meu tempo…

Não é para fazer de ti criado.

É diurético.

Então essa barba não se faz?

[Numa livraria] Está esgotado.

Como dizem os brasileiros.

Isto é vento da Serra da Estrela.

Posso ficar-lhe a dever 10 cêntimos?

Mas, se calhar, sou eu só a ter destes miudinhos, mas quão decisivos, tabus.

ASPIRINAB.COM

Amigos, Senhores e outros Mortais,

Lamentamos interromper o vosso serão.Está o Tiago Martim a lavar a louça, está a Soraia Vanessa a deitar os miúdos, está a Dona Gilda quase quase a acabar o sodoku, está o Doutor Gustavo, de fones postos, na lição 7 do harpsicórdio – e vimos nós desassossegar tão amável mundo. Custa-nos sobretudo interromper o Gato Fedorento, que tão promissoramente nos precedeu na passagem destas bloguíticas paragens para sítios se possível ainda mais vistosos. Mas, vai ver já, a interrupção tinha mesmo de ser.É que, Senhores, Mortais e outros Amigos, nós estamos noutra. Percebeu bem: o Aspirina está noutra. Onde? Onde? Isso agora… Para achar coisa apelativa, investigámos, estudámos, suámos, fizemos três biliões de operações por segundo. Mudávamos os parâmetros, fazíamos rotação de algoritmos, e o resultado era sempre, sempre o mesmo. Este:

aspirinab.com

Só. Só assim. Nem uns dâblius para uma última hesitação, um último desvio.

Rendemo-nos, pois. Migrámos. Transumançámos. Com armas e bagagens, lá fomos instalar-nos. Já aqui estamos. Já aqui estávamos. Foi o segredo mais bem guardado do século. E ainda ele é uma criança.

Segredos públicos

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No debate surgido aqui sobre o galego e o português, interveio «Alexandre». Como a sua intervenção apareceu assinada num debate paralelo no Portal Galego da Língua, não nos parece indiscreto informar que se trata de Alexandre Banhos, conhecido sindicalista galego, destacado membro do Bloco Nacionalista Galego, hoje no poder em Compostela, e também Presidente da Associaçom Galega da Língua. Aqui segue uma reacção.

Caro Alexandre Banhos,

Escreve você que a nossa língua nasceu no eixo Compostela-Guimarães, e que por isso chamar «português» à actual língua dos galegos não é forçar grandemente as coisas.

Compreendo o seu ponto de vista. Ele exprime uma percepção das realidades em que ambos concordamos: a de que, qualquer nome que ele tenha, o seu idioma e o meu são, ainda hoje, o mesmo. A ortografia é divergente, bastantes formas são divergentes, mas as estruturas mantêm-se fundamentalmente as mesmas. Partilhamos uma morfologia, uma sintaxe e um léxico únicos na Latinidade. Por isso, e usando a nossa mais exacta expressão local, entendemo-nos sem grande dificuldade de Faro à Corunha, uma das maiores distâncias – se não a maior – de intercompreensão de toda a Europa Ocidental.

As particularidades exclusivas a galego e português são ainda hoje de tal ordem que só uma possibilidade resta: a de que, no momento em que começa a haver «Portugal», o idioma está em muito adiantada fase de desenvolvimento (não registada nos escassos documentos escritos que restam), e isso pressupõe largos séculos de evolução. Em todo esse processo, de «Portugal» nem sombra. Simplesmente, quando foi preciso dar nome à língua, os portugueses ignoravam quase tudo disto (até os principais documentos faltavam), e chamaram-lhe, nessas condições, o óbvio: «português». Mas os criadores desse portentoso idioma tinham sido o que havia: galegos.

Aqui está por que não adiro à sua proposta de se chamar «português» à língua da Galiza. E digo-lhe mais. Se a questão é um nome de internacional prestígio, que tenha em conta as actuais proporções de falantes, então só esta conclusão se impõe: que é uma incomensurável parvoíce não chamarmos, hoje já, à vossa e nossa língua, «brasileiro». Em matéria de população e de prestígio estamos falados.

Conheço as vossas vantagens de a língua da Galiza passar a usar um nome internacionalmente sonoro. Isso pode funcionar como valente açoite nas almas dos galegos que, em número crescente, e já alarmante, educam os filhos em castelhano. E é uma bofetada no rosto de Madrid, que há-de ter de reconhecer que uma das suas constitucionais «lenguas españolas» extravasa para o Atlântico e se espalha por continentes. O Estado Espanhol vai tremer nos seus alicerces, e você sabe que não estou a brincar.

Mas exactamente aqui está já um problema. A chance de o seu Estado aceitar uma balbúrdia interna, com a fragmentação territorial então mais visível do que nunca, e isso para dar à sua Comunidade Autónoma Galega o gosto de ter, para o idioma, um nome pomposo, essa chance é tão mínima, que das duas uma: ou esse seu sonho é lúdico, e vamos deixá-lo assim, ou ele é mesmo a sério, um real desafio a Madrid, e você pode ir pondo as barbas de molho.

Esse seu sonho malandro, esse saboroso desafio, que digo eu, essa directa provocação ao conjunto de Espanha, eles incluem a esperança de que Portugal – lisonjeado – diga logo: «Eh pá, porreiro, man, bué da fixe, vamos a isso, mèrmão».

Aqui, o seu sonho, que já era tramado, entra em pleno delírio. É que, assegure-se disso, nunca Lisboa – nem pelos, sem ironia, lindos olhos dos galegos – mexerá um dedo para colaborar naquilo que Madrid logo chamará o começo do estilhaçar do seu belo Estado. A sério: nem a Galiza, nem ninguém, ganhará com que Portugal se meta no atoleiro político que é Espanha. Se a Galiza for esperta, nunca aliciará Portugal para isso. Além do mais, exactamente por ser a língua a mesma, e portanto nossa também, não poderá admitir-se que ela sirva de instrumento político intra-espanhol.

Uma coisa parece, pois, clara: a tentativa de convencer Espanha e Portugal de que a língua dos galegos deve chamar-se «português» é dum êxito tão remoto, está tão fora de toda a triste realidade, que persistir nisso é um irresponsável gasto de energias, vossas e nossas. Que bem merecem um objectivo melhor.

E há, de facto, um objectivo óptimo, em que podemos começar a trabalhar amanhã de manhã: é o de aproximar estes dois magníficos povos que habitam o Ocidente Peninsular e tão lindamente se entendem. Sem agendas políticas secretas, sem golpes baixos. Só com esse, já ambicioso, programa de participar numa cidadania alargada.

E, quanto a picante, ele não faltará. Você saberá, e eu saberei que, em tudo isso, o seu e o meu idiomas são o mesmo. Alguns portugueses sabem-no, sabem-no alguns galegos (até dentro do establishment) e mesmo outros espanhóis. Deixamo-lo assim. É o nosso grande segredo. Tão grande que até em Madrid podem sabê-lo.

«O Galego, variante do Português»?

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Um despacho da Agência LUSA foi difundido por vários média portugueses no dia 7 passado. Era a propósito dum Congresso da Lusofonia, realizado em Bragança. Informava-se-nos de que «na sessão de encerramento o linguista Malaca Casteleiro (na foto) defendeu que “também o galego é uma variante do português e como tal deve se trazido para o espaço da lusofonia”».

Fiquei contente. E pasmei. Contente por ver o mais conhecido linguista português, Malaca Casteleiro, quebrar um tabu: aquele que manda silenciar as relações – íntimas, como se vê – entre português e galego. Mas pasmado pela forma em que o fez, subordinando o galego ao português.

Com efeito, afirmar que «o galego é uma variante do português» equivale a considerar o português a norma e o galego o desvio, a «variante». Com isso se avança, dá-se mesmo – em matéria de opinião portuguesa – um passo de gigante na percepção das realidades, mas esse passo dá-se para um lado deveras estranho. Ele necessitará de ser explicado, esclarecendo como é que a região de origem do nosso idioma acaba com a «variante» nos braços. É como se o Vinho Verde delimitado fosse «uma variante» do (aliás, excelente) do Bombarral. Não será por 200 milhões o consumirem que o vinho do Oeste se tornará mais ‘autêntico’.

Leiamo-lo assim: a opinião pública portuguesa não está preparada, de momento, para ouvir a verdade toda. Esta: que português e galego são variantes um do outro. Fica-se, agora, à espera da próxima façanha. E nem tão façanha como isso, pois o linguista Luís Lindley Cintra assim o concebia, e assim o escreveu, há cerca de vinte anos.

A meia verdade de Casteleiro é já muita verdade, é certo. Mas nós já somos crescidinhos. Vai custar a entrar, a verdade toda. Mas, depois, vamos ver logo o mundo com outros olhos. Este nosso mundo peninsular, por exemplo.

P.S. Talvez desnecessário

No debate ‘ibérico’, tomei sempre posição contra qualquer aproximação política entre os dois Estados da Península. A proximidade linguística entre Portugal e uma parte do Estado vizinho nada modifica nisso. Eu faria uma festa no dia em que a Galiza se tornasse independente. Seríamos talvez os maiores amigos do Mundo. Mas opor-me-ia, sempre, a qualquer união política dela com Portugal.

Reconheço que seja difícil explicar à nossa gente, medularmente nacionalista, como se podem conceber uma continuidade linguística e uma descontinuidade política. Mas não desisto de os meus compatriotas um dia o compreenderem.

Jackpot

Chegou-se ao balcão da tabacaria, onde sempre comprava os lotos, e disse:
– Como é que se faz quando se ganha um prémio grande?
O instinto dizia-lhe que não era o sr. Pires quem lhe entregaria o balúrdio. Meteria banco, contas, transacções.
– Ai ganhou muito, ontem?
O sr. Pires a radiar. Não tardava, e a televisão viria falar-lhe.
– Bastante.
E, cuidadoso, insinuou que lhe saíra o jackpot.
Já não chegou vivo ao terceiro andar.
O sr. Pires achara que, entre o rosto na televisão e um fim de vida nas Seycheles, a hesitação
era demasiado parva.

Declaração de Admiração

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O escritor Almeida Faria assinalou, com o texto abaixo, os noventa anos do professor e investigador ÓSCAR LOPES (na foto), no passado 2 de Outubro. Agradeço ao autor a oferta e disponibilização do texto.

De entre os contemporâneos de Óscar Lopes, poucos serão os escritores em Portugal que não lhe devam algo. E também alguns brasileiros – João Cabral de Melo Neto ou João Guimarães Rosa – lhe ficaram devendo atentas e lúcidas análises.No que me diz respeito, devo-lhe argutas leituras de romances meus e, pelo contexto em que isso se passou, a sua recensão a Rumor Branco. Este livro fora atacado por Pinheiro Torres que depois se disse pressionado nesse sentido por gente que com ele partilhava um fanatismo supostamente progressista. Óscar Lopes, com maior cultura e abertura, procurou pelo contrário naquele romance o que ele teria de mais autêntico.

Mas não é só da sua crítica que me declaro admirador. Aprendi com a idade a dar à lucidez o mesmo valor que dou à generosidade, e várias vezes confirmei a generosidade deste grande leitor cujos noventa anos hoje festejamos. A seguir à publicação de A Paixão, participei com Óscar Lopes em sessões públicas que sempre saltavam da literatura para a política – sendo esse justamente o seu objectivo implícito. Foram memoráveis as sessões na Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto e na Cooperativa Piedense, esta por iniciativa de Cid Simões e ambas sob mais que provável vigilância policial. Nem por isso o debate foi menos corajoso e acalorado. Da sessão na Cova da Piedade há documentos fotográficos. Da sessão portuense haverá pelo menos o testemunho de quem lá esteve.

ALMEIDA FARIA

Trabalhos de Sísifo

Isto de manter um blogue, mesmo um serenamente colectivo, como este, é uma trabalheira. Um caso recentíssimo, de ontem à noite. Um leitor dá com um texto meu de 31 de Janeiro de 2006 e faz um comentário catita.

Iniciava-se o meu «post» pelas palavras «Nunca tinha visto falar José Pacheco Pereira». O comentador – que assina Cid León – entende que mereço umas «reguadas» pelo meu «pretogunhez». Com efeito, eu deveria, entende ele, ter escrito «Nunca tinha ouvido falar JPP». As reguadas destinam-se – conclusão minha – a eu aprender que o particípio passado de «ouvir» não é… «visto».

Ora, ouvido JPP, eu tinha-o muito. Mas nunca visto falar – fora do pequeno ecrã, façam-me o favor de entender. Tive, pois, de corrigir mestre Cid León.

Tive? Eu entendi que sim. E fui lá deixar-lhe a resposta. Dei-me esse trabalho.

Mas, se calhar, sou simplesmente parvo. E ele passou por ali, e nunca mais volta.

Há uma saída para este Portugal?

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Não posso (no sentido de «não consigo tecnicamente») transpor para aqui a crónica de VASCO PULIDO VALENTE , «A corrupção do Estado», hoje no «Público». Mas aconselho vivamente a que se a leia.

Já o que disse Cravinho teria servido para assustar-nos, como Valupi aqui sublinhou. Mas Vasco faz de Cravinho – que admira – um ameno menino de coro.

Se for verdade o que ele afirma (e não vejo muito por onde iludir-nos), que fazer com este país?

A crónica vai transcrita aqui abaixo. Com um obrigado à Zazie.

Génio, Loucura ou Marketing

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Ignoro se outros têm medos recorrentes. E ignoro-o porque a malta é basto discreta em matéria de humanidade. Mas eu, eu tenho um medo recorrente. E é este: chega meados de Outono, o Nobel da literatura calha a António Lobo Antunes e eu sou chamado à televisão holandesa para um entretém a propósito.

Nada impensável. Aconteceu-me em 98, com Saramago. Nessa altura, ainda El Ibérico não tinha escrito os seus piores romances, e eu podia expor algum entuisasmo. Mas o Antunes… chegarão os seus dois únicos bons livros, Explicação dos Pássaros e O Manual dos Inquisidores, chegarão eles para atear uma minúscula chama telegénica? Talvez. Mas as reservas hão-de assomar demasiado ao ecrã para a coisa me sair festiva.

Será então agora? As estatísticas não jogam, para meu sossego, a favor do Antunes. E, pessoalmente, preferiria, de longe, um prémio para a literatura brasileira (para Rubem Fonseca, de quem acaba de sair, de novo, em Portugal A Grande Arte, na Campo das Letras) ou para a flamenga (para Hugo Claus, autor do magistral O Desgosto da Bélgica, na Asa) ou para a moçambicana (para Mia Couto, que escreveu um portentoso O Último Voo do Flamingo, na Caminho).

Como se não bastasse, as coisas estragaram-se mais nos últimos dias, desde que Lobo Antunes declarou à Visão esta modéstia: «Não tenho a menor dúvida de que não há, na língua portuguesa, quem me chegue aos calcanhares. E nada disto tem a ver com vaidade porque, como sabe, sou modesto e humilde».

Há anos, um dos romances do Antunes saiu com uma cinta em que a Dom Quixote o proclamava «um génio». Um génio não é, sobre isso podemos tranquilizar-nos. Será então um louco? Talvez. Mas até nisso não é peculiar, pois tem muitos, e bons, colegas.

Fiquemos pelo marketing. Falta agora o senhor arranjar, nisso, melhor conselheiro.

Fique, também, o desejo de que viva muitos e muitos anos. Não que a literatura ganhe grandemente com isso. Mas sempre lhe dará tempo para ir lendo romances alheios. Por exemplo, em língua portuguesa.

Actualização

Li as primeiras páginas de O Meu Nome é Legião, o romance de Lobo Antunes que acaba de sair. Sei, por críticas em jornais, como vai desenvolver-se. Por uma coisa e por outra, tenho a impressão de que é absolutamente espectacular. Lembra muito – o que só é uma recomendação – a Balada da Praia dos Cães, de Cardoso Pires, seu amigo e mestre. Não no brilho da linguagem, mas na esperteza dela.

Se o Nobel vier, estarei menos desabrigado. Mesmo não indo à televisão, claro.

É do Cartaxo, mas é bom

António Cartaxo tem uma das melhores vozes da rádio (frase que não sei o que queira dizer, nem tenho modo de justificar, mas que fica aqui muito bem, isso é inquestionável), a que se junta uma cabeça que resguarda o seu apurado gosto musical das ameaças externas. Na Antena 2, logo a seguir ao noticiário das dez matinais, fica o éter De Olhos Bem Abertos. São cinco minutos, não mais, de trechos musicais embrulhados em palavras apaixonadas. É a minha bendita cocaína dos dias úteis.

A cada semana se pode ouvir online os cinco programas da semana anterior. Recomendo-vos todos, e sempre, mas o do dia 25 de Setembro em particular. Porque termina com uma comparação entre Londres e o Campo Grande (em Lisboa). E isso, meus amigos, nunca antes tinha sido tentado neste universo.

(e o de 24 de Setembro devia ser de audição obrigatória na Escola, em todos os níveis e logo a começar pelo 1º, gastando-se 5 minutos por ano com estes 5 minutos, até ao fim da escolaridade, e convocando-se o pessoal auxiliar, incluindo o da cozinha e o da limpeza, para a festa)

Nascidos em caixas

Nenhuma norma ou lei – da Internet, do café ou da Galáxia – pode justificar o enxovalho público a que, há dias, foi submetido aqui o Daniel de Sá. A libérrima política do Aspirina em matéria de comentários permitiu que indivíduos exercessem a ofensa (não a crítica, a ofensa) sistemática.

Paralelamente a isso, construiu-se (se não nas intenções, decerto nos efeitos) um microclima em que a insinuação delirante ganhou rédea solta. Assim, alguns comentadores declararam-se «certos» de que o Daniel de Sá fora induzido à colaboração no Aspirina para ser publicamente massacrado. Uma variante virulenta desse delírio anunciou ao Mundo que esse é um procedimento habitual neste blogue.

Nada me obriga a dar acolhida a quem usa as caixas de comentários para a terapia de frustrações e paranóias. Anuncio que, nos «posts» que eu assine, valerá alguma – mínima, mas decidida – restrição. As caixas de comentários têm criado espaços onde frequentemente apetece estar. Deles, quanto de mim dependa, banirei a violência.

Nunca esquecerei que eu – e o Valupi, e o José do Carmo, e o Jorge – todos «nascemos», para o Aspirina, nas caixas de comentários (o João Pedro e a Susana já eram bloguistas – e o Zé Mário, bloguista pioneiríssimo, soube ser para alguns de nós um querido parteiro). O Daniel foi, apenas, o último a revelar-se… blogogénico.