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Bocage na Calçada do Combro

É nos olhos de Fernanda que tudo principia
Empurram a neblina no combro da calçada
Projectam muita luz na escuridão da livraria
E dão o calor do fogo ao frio da madrugada

Por acaso no trânsito tão hostil desta cidade
Um eléctrico com turistas parou em frente
Uma estrangeira fixou-se com curiosidade
Nas velhas gravuras feitas de cor e de gente

Não havia táxis, ambulâncias ou pizzarias
Só as lareiras para enfrentar os vendavais
As pessoas iam pois aos cafés e livrarias
Á procura da saúde, não iam aos hospitais

A caminho dos Fanqueiros passou Cesário
Sorriu para Bocage ali à porta da livraria
Fruto do momento surgido do imaginário
Fernanda quebrou então a sua monotonia

Homenagem

(a Thomas Ehrling, operário no Lausitz, ao tempo em que os havia)

O homem está sentado debaixo da macieira que dá maçãs vermelhas, no pequeno quintal. Vagueiam-lhe os olhos, silenciosos, na paisagem breve, a terra é plana e o bosque de bétulas fecha logo ali o horizonte, atrás dele só a pesada silhueta da fábrica de briquetes. As últimas folhas do outono passam levadas na frialdade da brisa, por isso o homem tem este ar arrepiado na face, e tem húmidos os olhos inquietos. Não sabemos decifrar-lhe a expressão nem contar-lhe os anos do rosto, vemos é que tem na fronte rugas pronunciadas, será a gravidade do momento que as torna mais fundas.

Hoje não foi trabalhar, nem sequer se aproximou do portão da fábrica. Rebelaram-se nele rotinas muito antigas mas ficou aqui, debaixo da macieira que dá maçãs vermelhas, os olhos incapazes de furar para lá das bétulas, incapazes de passar além da silhueta da fábrica velha, onde a altíssima chaminé deixou de fumegar.

Divagam-lhe no ar frio recordações distantes, neste céu que subitamente ficou vazio. Ele sabe, por ouvir contar, que há muitos anos reinava aqui uma grande quietude plácida e verde, com bosques de abetos, e faias, e carvalhos, vinham os homens com lanças e dardos e corriam atrás dos gamos que se aventuravam nos prados. Então eram os rios claros e bucólicos, desciam das montanhas distantes e passavam tranquilamente, e traziam nas águas peixes prateados que os homens apresavam em armadilhas de cana, nas margens baixas. Para lá da floresta semeava-se o trigo com arados antigos, e nas hortas, por trás das casas de madeira, as galinhas guardavam os filhos das ameaças do gavião, abrigadas aos caules de ruibarbo e de funcho.

Um dia, quando as cidades começaram a crescer e a vida dos homens apareceu com exigências novas, um artesão que passava no antigo vale glaciar encontrou sinais de minério de ferro à superfície. E não demorou a chegar o inferno vivo dos regatos de gusa a arder nas fundições, e a fumarada dos altos-fornos, e o cantar matutino do martelo no ferro quente das forjas. Encontraram-se na orla da floresta depósitos de linhite, e logo se rasgou a barriga da terra para os explorar. E construíram-se fábricas para albergar as máquinas de volantes aterradores, que engoliam o carvão e vomitavam pequenos briquetes negros, logo levados por vagões apressados a incendiar as caldeiras das máquinas a vapor. E surgiram na paisagem, riscando o céu e perturbando os deuses que habitavam nos bosques, grossos cabos negros que levavam para longe uma energia nova e misteriosa.

Os homens dormiram cansados mas contentes, por acreditarem no progresso. E a terra foi-se cobrindo desta poeirada escura, gerada no ventre das fábricas, tão fina e tão subtil como areia de ampulhetas, a marcar a galopada frenética das máquinas.

O homem olha, em sua volta, o manto negro, regurgitado pelas chaminés ao longo de séculos, dispersado pelo vento sobre as terras e os caminhos, sobre os jardins e os telhados das casas, e as sepulturas dos mortos. Debaixo deste manto viveram gerações que produziram riquezas, modelaram o mundo e alargaram o saber dos homens. Nesta mesma fábrica trabalhou o seu pai, logo a seguir à guerra. Foi uma canseira pôr tudo a funcionar depois de tanta destruição, contava ele. Mas havia os direitos da vida depois de tanta morte, faziam falta o calor e a energia que as cidades engolem para serem habitáveis, à custa de privações e sacrifícios a vida recompôs-se e a produção recomeçou a sair.

Mais tarde chegou a sua vez, o homem entrou na fábrica e nunca trabalhou noutro lugar. Moldaram-se-lhe os gestos ao ranger das gruas, ao matraquear incessante das válvulas, e acabou por lhe adoptar o corpo a respiração das velhas máquinas, devorando o carvão que chegava em vagões cobertos de fuligem. De dia ou de noite a sua própria cara era tão escura e cheia de majestade como a das locomotivas que vinham da mina a céu aberto, a galopar na paisagem violentada.

Habituado a cumprir metas de produção, planos quinquenais, emulações proletárias, o homem construiu a sua vida ao compasso infatigável da fábrica. E para ele era motivo de esperança e orgulho ver chegar, dia a dia, os longos camiões que vinham da fronteira, de cidades e países distantes, e faziam fila à espera dos briquetes que deslizavam nos tapetes rolantes.

Mas quem poderá desvendar os caprichos da roda do mundo, e do interesse dos poderosos? Um dia a fábrica parou e todas as chaminés da paisagem deixaram de fumegar, como coisas inúteis. O seu trabalho é agora arrancar dos alicerces aquilo tudo que foi a sua vida. Deixaram de ter préstimo, ele e as velhas chaminés, foi o que lhe disseram.

Tudo perdeu, de repente, o sentido, por isso o homem ficou aqui sentado, todo o dia, no pequeno quintal. Amanhã há-de ir de novo à fábrica, vencerá o desespero que lhe treme nas mãos, e desmontará, peça a peça, as máquinas antigas, encharcadas em óleo, como quem se desmonta a si próprio. Depois há-de vir o camartelo encarregar-se do resto. E ele talvez receba uma pensão para deixar de viver.

No céu cinzento, por trás da espessura das nuvens, o velho Cronos, o ancião barbudo, vai devorando pacientemente os filhos. E espreita, quem sabe, as maçãs vermelhas que pendem dos ramos, indiferentes ao chuviscar do Outono. São carnudas e frias.

«Mana Galiza» no Expresso

O suplemento «Actual» do Expresso de hoje, 1 de Dezembro, inclui um dossier de oito páginas sobre a Galiza, preparado por este vosso humilde servidor. Tudo para vosso proveito e edificação. Alguns excertos:

«Na península que habitamos, na Europa, mesmo no mundo inteiro, nada nos é mais próximo do que a Galiza, nada deveria ser-nos, também, mais caro. Temos ali uma irmã: na cultura, no idioma, no modo de ser. Por ali se prolongam tranquilamente as nossas paisagens. Foi dali que, num dia longínquo, nascemos como país, depois de séculos em que o nosso Norte era somente o Sul da Galiza. E, todavia, muito disso é quase um segredo.» (F.V.)

«Portugal deveria rever o relacionamento com as nações que compõem o Estado espanhol, ultrapassando os receios que nitidamente tem. Quanto à sociedade portuguesa, depende do interesse que tiver. Até este momento não o mostrou.» (Elias Torres Feijó)

«Portugal e Galiza olham-se um ao outro nos espelhos de Madrid e contentam-se, habitualmente, com essa imagem.» (Ramiro Fonte)

«Revoltar-nos contra a imagem espanholada que temos em Portugal não quadraria com o qualificativo que, por boca do Gama, nos pôs Camões, o do «galego cauto», teimosamente disposto a sobreviver.» (Carlos Quiroga)

«Somos sensíveis ao «glamour» da monarquia vizinha (cujos namoros e partos as nossas revistas do coração seguem fascinadas) e o «Reino de España» acabou por ser-nos natural e óbvio, mais que a alguns dos seus súbditos. Não bastando isso, um ministro português chegou a declarar-se, com inaudito à-vontade, e em plena capital da Galiza, «um iberista convicto». Escusado dizer que muitos espanhóis não nos entendem.» (F.V.)

«Tratar os agentes culturais galegos como estrangeiros é um erro palmar, tão profundos conhecedores eles são da cena cultural portuguesa.» (Samuel Rego)

António Martins, o jornalista que gostava de Vermeer

A morte dum jornalista não é notícia. A menos que tenha ganho um Pulitzer, mas então passou a ser uma personalidade. Há, todavia, excepções. Morreu o António Martins, um homem que, em 79 anos de vida, passou por todas as tecnologias, por todas as redacções, por todas as modalidades.

Trabalhei com ele entre 1996 e 2006 no «Sporting». Mas já o conhecia de «O Século», do «Diário Popular», de «A Bola», do «Record». Tenho uma história passada com ele numa manhã em Barroca de Alva. Eu estava num Sporting-União de Leiria do nacional de juvenis, ele estava num jogo do campeonato distrital. No intervalo fui espreitar um terceiro jogo, o do nacional de iniciados e verifiquei que o jornalista tinha faltado. Liguei-lhe para o telemóvel e não atendeu. Pensei logo no pior, um acidente, um problema de saúde. Não respondia. O Martins, feito o seu trabalho, veio à sala de imprensa para saber o meu resultado. Viu a minha cara, achou muito estranho o que se estava a passar. «Vamos desenrascar isso!» foi a sua resposta. Saiu disparado e foi ao autocarro do Estoril Praia. Minutos depois tinha a ficha do jogo dada pelo delegado dos «canarinhos». Foi comigo à cabina do Sporting e arranjou a ficha do delegado do Sporting. O treinador contou o jogo e nós fizemos a crónica que assinámos em equipa. Os leitores não tinham culpa de que o jornalista tivesse adormecido.

Uma segunda história tem a ver com a entrevista que lhe fiz em 2005, onde revelou o seu gosto pela pintura de Vermeer. Adorava «O soldado e a mulher risonha». Houve quem achasse insólito. Mas também um jornalista desportivo tem o direito de gostar de pintura. E gostar de Vermeer só lhe ficava bem.

Hoje vai ser cremado. Está uma bela manhã de sol. Não é a luz do mestre de Delft, mas é também uma luz feliz, uma luz que aquece o rosto e ajuda a doirar as lágrimas dos amigos.

As ocupações do espírito

Gildo está divorciado de Clara. Mas os dias de anos continuam sagrados. Vê-se isso nas melhores famílias. Ei-los, pois, que abancam, num restaurante lisboeta, com o filho único, Diogo. Com este jantar, vai o capítulo 9 de Deus chega no próximo avião.

*

Fomos festejar os anos da Clara a um restaurante da Graça, que fica sobranceiro a um mercado, e de que me escapa sempre o nome. Mantemos o costume do jantar em família neste dia, talvez porque nenhum de nós – nem a Clara, nem o Diogo, nem eu – se acomodou ainda à actual situação. É o aniversariante que oferece, e isso proíbe-nos, é da praxe, de olhar a preços. Eu nunca soube bem quanto ganha presentemente a doutora Clara Sorreito, mas, por cálculos de um colega dela, e meu amigo, andará já entre as três e as quatro vezes o meu salário. Não me queixo, e ela sabe-o bem. Não preciso do cabriolet dela, só odeio a menção «topo de gama» com que mo apresentou. Dispenso a casa na Lapa, que conservou, e até sinceramente me alegra que o Diogo adore viver lá. Tenho o meu carrinho, muito utilitário e que trato como um irmão, e as minhas duas assoalhadas são o meu castelo. E sinto que, quando, como agora, ostensivamente, não olho a preços, crio no mundo um pouco mais de justiça.

Divagámos – durante as entradas, e a propósito da actual namorada do Diogo, que vai cursar Direito – sobre a pouca preparação com que os alunos saem presentemente da faculdade. Divagaram mais eles. O salmão fumado veio um pouco para o seco, mas o alvarinho, escolha impecável do meu moço, compunha bem. «E como vai ela de resto, a Mónica?», quis eu saber. Tinha-a vislumbrado no carro dele, pareceu-me miúda fixe. «Estuda.» Este meu filho sempre foi poupado de conversa. «Já tiveste pior», tentei chatear. A Clara deu um apoio: «A Feliciana, por exemplo.» Rimos os três. A garota de Oeiras mostrara queda para tudo – dança, corrida, skate, yoga, algum alpinismo –, mas em ocupações do espírito ficava pelo raso. Não era em nada «o nosso tipo», mas o rapaz tivera por ela um fraco que enternecia.

A avestruz veio sublime. As minhas papilas não alinharam com o Bairrada eleito do meu filho, mas o produtor provou-se honesto e eu um bebedor indulgente. O Diogo falou-nos do curso no IST. Fê-lo circunstanciadamente, não porque nem eu nem a mãe andássemos a par, mas porque, percebi-o, não é todos os dias que tem os dois interlocutores juntos. Simplesmente, eu parecia senti-lo cansado, distante. Tenho a certeza de que a Clara se apercebeu do mesmo. E não era essa imagem, nitidamente, a que o Diogo queria deixar-nos. Foi com um entusiasmo sem preparação que nos disse: «Que tal o vinho?» «Óptimo», fez a mãe saber, como se agora mesmo acordando. «Que castas são estas, Diogo, exactamente?» O produto não me aliciava, mas o meu interesse não era estudado. O Diogo estava de novo no seu melhor. E assistimos, deleitados, orgulhosos, a mais uma lição do enólogo que, sem sabê-lo, andámos criando.

À sobremesa meti eu assunto. «Ontem passou-se uma…» Não me movia a busca da sensação, e sim a urgência de partilhar o que me enchia a mente. «Conta lá.» A voz não soava à Clara nada opressa, como tantas vezes, e havia mesmo uma descontracção. É para isso que se come fora, diria o meu pai, que sempre precisava de motivos para tudo. Narrei-lhes, com algum pormenor, o caso do romance de um dia antes. A minha noite em claro com O bom, o malvado e quem fica de fora, o uísque matinal do Cícero, o escorregadio da reunião de edição. «Mas de que é que trata?» «Trata o quê?» «O romance.» Tinha o Diogo razão. Disse o básico. Expus ambientes, algumas personagens importantes, a época em que decorre, imprecisa, mas estranhamente palpável, alguma peripécia, a caminhada para o desenlace, a atmosfera de inelutável catástrofe. Vinte minutos, meia hora, o meu público sorveu-me as palavras, e eu nem uma sombra, nem um pobre reflexo, lhes transmitia do que a leitura me oferecera. «Se vissem a linguagem, aquele modo de narrar… Só lendo.» Vieram os cafés.

«E o autor, conheces?» Mais uma vez o Diogo. «É segredo.» Rimos. Eles sabiam que eu apenas retardava a informação. A minha confiança na discrição deles é ilimitada. «Não, a sério, não tem interesse. É um desconhecido.» «Mas há-de ter um nome», e na voz do Diogo não havia a certeza de ter a minha confiança. «Ouçam e esqueçam», disse eu. «Por outra, não esqueçam. Porque este vai ser, se não é já, um grande escritor deste século. E terá, julgo eu que terá, bastantes anos para ir provando isso.» Dei-me então conta de que a idade do senhor me era de todo desconhecida, e que só a poder de imaginação eu o fizera um jovem. Fiz sinal à menina para mais um café. Eu sou o único a bisar. «Chama-se Maurício Peres. A idade não sei.» Era como se fosse urgente desculpar-me. «Até pode nem ser novo», disse a Clara, mas percebia-se que para ela tanto fazia. A minha ‘ex’ é  capaz de saber mais de literatura que o meu patrão, mas raros livros a vi levar ao fim. «Tens de saber.» Tão premente era o tom do Diogo, que não entendi logo. «A idade do fulano.» Não iria custar-me saber, nem demoraria talvez. «Está bem, quando souber digo.»

Pedi à menina, que andava perto, dois conhaques, o da Clara mais bem servido. «Um também, se faz favor.» Olhámo-nos. Era a primeira vez que o Diogo bebia assim.

Não se pode ter tudo

Para prevenir distúrbios psíquicos, que aqui e ali parecem desenhar-se, aqui vai, vá lá, novo capítulo de Deus chega no próximo avião. Seja pelos meus pecados. Recorde-se que o revisor Gildo acabava de ler, numa noite em branco, um inédito de romance espectacular. O que temos, aqui, é a reunião semanal da editora. Com o inimigo à coca.

*

«Temos que beber a isso», quase gritou o dr. Cícero Pompeu. Quis lembrar-lhe que ainda só eram nove e meia, mas preferi um patrão tocado a um ofendido nos brios. Bebi também o meu uísque – «Um fundinho, só um fundinho, senhor doutor» –, com a firme tenção de correr dali a tomar uma bica restauradora.

Afirmar que o editor se espantou era dizer de mais. Pareceu-lhe, até, natural que, possuindo o seu fundo os autores mais notórios do país, viesse o melhor da produção nacional, pelos seus pezinhos, ter-lhe à mão. A literatura nunca foi o forte dele, mas sempre ali esteve um exímio comerciante. «Então você acha…», e logo o sorriso lhe estragava a frase. «Mas está bem. Vai ficar tudo, para já, entre a gente os dois.»

Não sei se fui muito esperto quando decidi informar o doutor à parte, de antemão. Achei necessário que, se o pulha do meu colega houvesse de dar um ar de graça no encontro, o essencial estivesse já posto em seguro. O risco que corria era, todavia, o de excitar em demasia o dr. Cícero, sem grande tempo de refazer-se, antes que os outros aparecessem. Eu pusera, pois, uma mínima emoção no tom, como quem anunciasse não um tesouro do céu, mas a hipótese técnica de ter-se ganho a lotaria. Errei o cálculo. Ou então foi o doutor que ouviu nos meus modos o que eu tanto me forçava a dissimular. Já verifiquei que o actor não é o forte em mim.

Concluo é isto: se não foi o precário controlo do patrão a alertar os meus colegas, podem tê-lo sido os matinais eflúvios do álcool. «Do caso do Maurício Peres trata-se depois», disse o dr. Cícero, como quem não quer a coisa. Era um deslize, e teria ficado por ali, não fosse a pituitária do Luciano. «Então o senhor Hermenegildo ainda não leu?» Víbora. E que finura! Nem eu nem o dr. Cícero tínhamos diversão pronta. «Surgiu algum problema?». E o Luciano olhava-nos com intenção, um por um, em redor. Senti que Cícero, bebido ou sóbrio, nunca me perdoaria que deixasse para ele a castanha. «Problema? Não. Bem pelo contrário», meti, sabendo quanto importa estabelecer depressa a confusão. «Simplesmente, o autor pode ainda sugerir alterações.» Nem o Luciano nem a Irene nem a Matilde da contabilidade sabiam bem que fazer com essa minha observação. Tivera eu contacto com o escritor, e avisara-me ele de acções iminentes? Queria eu apenas sublinhar o óbvio, já que sempre um autor pode pretender retocar o texto? A questão morreria ali, não fosse uma muito infeliz curiosidade da minha fiel Micas. «Mas é para publicar, ou não?» A esta não podia, por mais que quisesse, escapar o Cícero. «Mas evidentemente.» E esquecido das conveniências: «Vai passar, até, à frente de tudo.»

Metade disto chegava para pôr despertas ao Luciano todas as antenas. «Conte lá, doutor», atirou, e havia naquele tom descontraído um insolente ruído de fundo. «Aqui o Gildo explica. Se quiser», suspirou o patrão. Tive que querer. «Ora bem», e obtive, com a pausa, uns segundos para alisar duas ideias. «Vamos lá ver. O que está encaminhado para a Feira do Livro, avança, é evidente. Mas a campanha de Verão ainda permite ajustamentos. Sei que o senhor doutor – e, se não me exprimir bem, o senhor doutor corrige-me – pensava lançar um autor novo, estreante, evidentemente com hipóteses. Ora este pareceu-lhe», e premi no verbo, «pareceu-lhe uma escolha a considerar.» Dei-me conta de que relativizava em demasia. «É uma escolha, estou em crer que com certas chances.» E calei-me. Cada palavra é, nestas ocasiões, um alçapão.

O dr. Cícero olhou em volta: «Está esclarecido?» E não tornou claro se falava do assunto ou do Malta. Mas o tom era de questão arrumada. E este patrão, valha-nos isso, tem uma dureza serrana, mas terminante.

Postal do Intendente

De «Lisbon Blues», colectânea de José Luís Tavares, este poema.

Isto aqui é o paraíso —
fazer uma mija contra a sebe,
sem que a bófia nos interpele,
embora o frio nos morda a pele
e mil dele eu te deva.

Alguém chamaria a isto vida.
Diógenes teria encontrado aqui
o seu homem. Goethe o proto-tipo.
Ovídio não lamentaria o seu exílio
— alta estima tenho por ele
embora não perceba o latinório.

Amigos na folia, vejo cão
e perdigão. Mas uns bacanos
armados em al capone
semeiam deliciosa confusão.
Quando todos aguardavam o encore
abalaram de roldão.

Na contramão, cismando, ainda
lhes perguntei se de onde vinham
a manhã se bordava a fogo,
mas apenas a pólvora dos impropérios
e um arroto de aguardente velha deixaram
por essa pretérita manhã do burgo.

Se o inimigo nos trama

«Preciso de mais um capítulo. Como um adolescente precisa de um telemóvel. Ou como os telemóveis – as empresas que os produzem, bem visto – precisam dos adolescentes.» Isto escreveu-o Confúcio, o inestimável, o vivo, o nosso. Quem tem coração para deixar a aguar um púbere assim?

Eu sei. Não há-de chegar, para tanto insofrimento. Mas é tudo o que se tem, este capítulo, mais um, de Deus chega no próximo avião. Arrancará a ‘acção’ aqui, finalmente?

*

Passa já das quatro e meia. Lá fora, o vento ganhou em fúria com o vir da madrugada, a chuva não deu descanso. Quase vazia está, na mesa-de-cabeceira, a garrafa de Reguengos. Começo a sentir um buraco no estômago, mas impossível erguer-me e confeccionar qualquer coisa. Não sei quando irei dormir, se vou dormir sequer. Isto que está a passar-se é único, e já não me importo com que cara possa aparecer, daqui a horas, na Água Líquida.

Era já bem meia-noite, quando me afundei no número cinco dos originais. Achava-me sem sono, e antes com uma energia que, em momentos de outra premência, acontece falecer-me. Fizera observações à margem nos manuscritos, anotara no bloco sugestões de feitura. Os quatro enredos não me tinham aquentado nem deixado de fazê-lo, mas já vira pior. Como sempre faço com este trabalho, li trechos com maior detenção, a outros deixei-os para eventual oportunidade.

E, de repente, isto. Um texto que, à primeira linha, rompeu como uma sinfonia, e veio depois ganhando este ritmo sereno mas subjugante, desenvolvendo aqui uma vivacidade, ali um alargar de visões, além um espadanar de conceitos. Venho-lhe degustando, uma e uma, as expressões, entrando pelos parágrafos como quem se arroja a uma nova onda, crescentemente desperto, a cada momento mais sobressaltado.

O nome do autor, Maurício Peres, nada me diz. O título, O bom, o malvado e quem fica de fora, não se me fez mais eloquente. E, todavia, impossível agora deter-me. Vou pouco para além de meio, e já me toma uma dolência, uma nostalgia, por saber que esta narração estonteante há-de ter um remate. Tento retardar a leitura, procuro se possível inverter a marcha, revivendo situações e abstraindo da sequência entretanto conhecida, para que o conjunto não se exaura. Pergunto-me quem escreveu este desmedido assombro, que mente concebeu tamanho primor. E sinto que passei estes largos anos aguardando só esta exacta dádiva, e desesperando de tê-la um dia nas mãos. Agora aqui descansa, concreta, sobre os meus joelhos, a escrita mais luminosa que supor se possa, um brinquedo de argúcia e gentileza, de ingenuidade e atrevimento, uma bela tonalidade clássica cortada aqui e além por discretas gírias, tudo servindo uma história louca, sim decerto louca, mas plausível, genuína. Que sorte esta, a da minha editora, vir parar-lhe um livro assim.

Que terá passado pela cabeça ao Luciano Malta quando leu isto? Vejo que, esparsamente, lhe corrigiu uma acentuação (estava «impúdico», estava «os pelos», estava «páro»), eliminou, pois claro, os ponto e vírgulas em discurso directo, uniformizou aspas e itálicos. Não se valeu, vê-se, do corrector ortográfico. De outro modo, não se percebe por que tivesse feito emendas no papel. Eu tenho ali a disquete, posso ir confirmar. Enfim, o Luciano fez a sua parte, e fê-la bem. Mas terá ele reparado no material que se lhe oferecia? Reconheceu ele, ali sobre o tampo da secretária, este romance assombroso? E, se o viu, tê-lo-á dito, chamado a atenção de alguém? Nem uma nem outra coisa parecem prováveis. Este texto já lhe passou pelas mãos há algum tempo – exacto, vejo aqui na capa uma data, vai para quinze dias – e, caso houvesse alarme, já me teria chegado, e a mim antes de a muito outro. Está visto, o Luciano não leu. Quer dizer, leu e não reparou. Nada de anormal nele. Nunca o ouvi comentar a qualidade de um livro. No máximo faz menção de alguma brejeirice.

E antes assim. Se alguém tiver de avisar o mundo, que seja eu. Vou fazê-lo com cuidado, tratar o assunto a sós com o dr. Cícero. Já é desse modo que procedo em casos excepcionais, e desta vez proporei que nem se aluda ao caso na reunião. O Luciano é imprevisível em demasia para se arriscar tanto. Teria sempre a reacção que mais me prejudicasse. Com os seus imperturbáveis ares de sábio, desfaria no apreço, «Também nem tanto…», ou chamaria a si a descoberta, «Isso já eu tinha percebido», e comporia com charme o resto da intervenção.

Por outro lado, e agora que nisto penso, silenciar totalmente a questão não é aventurar menos. Se o safardanas tiver entrevisto desta maravilha um décimo que seja, pode bem lançar-me um laço, perguntar inocentíssimo se o Hermenegildo por acaso trabalhou também o manuscrito de certo Maurício Peres – «O senhor até já telefonou a saber» – e, se sim, o que é que achou. São incontáveis as formas de um inimigo nos tramar.

Primícias 4

Com este trabalho, encerra Jorge Carvalheira o que chama «contributo para a história da nossa civilização».

*

Era assim. Mas já dois séculos antes, mal tinha o Gama achado o caminho das Índias, houve entre nós outro monarca excelente e piedoso, que lá fora estipendiou os melhores mestres do moderno pensamento, para ilustração das escolas do reino, um deles, escocês, o viria a crismar de rei dos muitos nomes. Quem não tem ciência paga por ela, já uma vez ficou dito por ser verdade, como se vê tão antiga como a própria ignorância. A Salamanca foi ele requestar Clenardo de Lovaina, um homem de saber e modestos costumes, para educar os príncipes seus filhos. Ora já seu pai, para calamento e satisfação do fanatismo, ao mesmo tempo em que abria as portas do império, logo lhe amputava as pernas, ao expulsar do país os hebreus, donos dos cabedais e do saber que a empresa sumamente exigia. De modo igual, o piedoso rei dos muitos nomes, enquanto chamava os homens que às escolas trariam saber e civilização, logo mandou vir de Roma o jesuíta, que sem demora faria do reino coisa sua. Ademais, por lhe parecer isso tão pouco, logo aos mesmos renomados mestres cortava as pernas e o pescoço, requisitando ao papa a Santa Inquisição, que sem demora os meteria a tratos, por hereges. Entenda quem puder, e antes que tarde seja ouçamos a Clenardo, ele nos contará o que viu e deixou dito.

Chega do mar escravaria e ouro, e pimenta às quintaladas, por isso vive Portugal à grande e à francesa, qualquer trabalho útil se tem como vergonha. Jazem os campos de pousio a monte, que todos se vão ao cheiro da canela, às margens do rio de Meca, e muito melhor não estariam as artes mecânicas, se os ruivos europeus não viessem cá dentro exercitá-las. Os naturais desdenham servir-se das mãos, e tudo é feito por escravos e mouros cativos, esses que o próprio Deus despreza, ele é a preta da Mina que vai ao mercado, é a preta da Mina que lava a roupa, é a preta da Mina que varre a casa, é a preta da Mina que vai pela infusa de água, é a preta da Mina que faz os despejos à hora conveniente, e é ainda a preta da Mina a parir os filhos escravos com que havemos de lucrar no mercado, como se fizéssemos criação de pombos. Todos somos fidalgos, ou para lá caminhamos, por isso nos acompanha sempre, rua abaixo ou rua acima, a mesma comitiva, adiante os dois criados batedores, e um terceiro que nos leva o chapéu, e um quarto o capote, não vá ele chover, um quinto segura as rédeas da cavalgadura, um sexto vai ao estribo, a cuidar-nos da seda dos sapatos, um sétimo traz a escova, com que nos limpa do fato as poeiradas da rua imunda, um oitavo nos estenderá o pente em sendo necessário, e ao nono caberá enxugar com uma fralda o suor da cavalgadura, vindo ela a ser desmontada. Com tudo isto sofre a mantença da casa, onde a custo se acha que comer, mormente quando chega o domingo, dia em que ninguém apanha rabanetes na praça.

Aqui chegado, deu Gabriel com a ouvinte rendida ao fio cristalino da sua erudição. Não venho com estas coisas a dar-lhe lições de história, apressou-se a dizer, por certo dispensará as minhas, se as teve melhores. Porém, vastos demais são os tempos e muito longa a forma de os decifrar e dizer, para vidas tão curtas como as nossas, cada um há-de saber da sua.

Geneviève agitou-se no banco, no íntimo a sentir-se culpada, da ligeireza com que falara da revolução das flores. Quis saber por que dava Gabriel ouvidos a palavras de estrangeiros, em vez de usar vozes de portugueses, se da portuguesa história se tratava. Gabriel deixou o reparo no ar, urgia concluir.

O que pretendo mostrar-lhe, por isso de tão longe parto, de onde tudo começou, é que a aventura da Índia foi para os portugueses uma tormenta muito maior que a nau, como se ouve dizer, foi maldição que o país ficou, desde então, condenado a remir. Como se, ao vencerem o mar, tivessem os marinheiros desafiado uma lei qualquer do universo, ou um regulamento caprichoso da vida. Alguns no reino o perceberam, alguns em vão se lhe opuseram, com tão poucos homens e mais diminutos recursos, muitos ainda hoje não entendem como tudo foi possível. E o espanto maior, para quem nos conheça bem, é que toda a empresa se iniciou no mais perfeito conhecimento e no maior rigor da técnica. Os portugueses construíram as naus mais avançadas desse tempo, conheceram os ventos e correntes do mar como ninguém, elaboraram cartas, artes de marear e roteiros de viagem que eram a cobiça dos mestres europeus. Venceram as lendas antigas do mar tenebroso e alcançaram a Índia, e submeteram as deslumbrantes terras orientais à força de canhões, e feriram de morte culturas requintadas, e apoderaram-se das rotas do comércio com uma ferocidade selvagem, e trouxeram à Europa os ouros da Mina e do Monomotapa, e os escravos de Ajudá, e as canelas do Ceilão, e as pimentas do Malabar, e as porcelanas da China, e as sedas do Japão, e os cavalos da Pérsia, e os algodões de Cambaia, e a noz-moscada das Molucas, e os rubis, as pérolas, as lacas, e até um rinoceronte que emboscaram no sertão de Bengala e vão oferecer ao papa. Já se arredondam em Roma bocas de estupefacção, sabes tu lá, minha filha, diz-se que vai chegar aí o supino fulgor do exotismo. Porém o mor espanto não vamos nós poder vê-lo, e é o que haveria de mostrar-se nos grandes olhos da béstia couraçada, por se ver assim à frente dum leão, ainda por cima papa. É que já se vai afundando, à vista de Génova, a caravela que o transporta, tarde se arrependem os náufragos de tanta gala perdida, e mais que todos repesa está a fera, para tão pouco não merecia a pena ter dado a volta a metade do mundo, de estômago revoltado. Um dia há-de ela entrar no palácio de S. Pedro, mas pela simples porta do cavalo, já inofensiva e amparada em cabrestantes, a barriga inchada de palhas amassadas e os velados olhos mordidos dos caranguejos.

Parecia a vida uma festa.

29 euros

Lerei eu alguma vez Rio das Flores, o recente romance de Miguel Sousa Tavares? Quem saberá dizê-lo? Também eu nunca digo nunca. Mas a vontade de me meter ao livro é, devo confessá-lo, basto reduzida.

Acabo de ler o comentário que do romance faz hoje, no Público, Vasco Pulido Valente. O conhecido cronista é um notável historiador (entre outras coisas, do período que Tavares romanceia) e a noção que fica é que se trata dum passável romance de aeroporto.

Mas eu já tinha sido alertado para o José Mário Silva, que, no blogue «A Invenção de Morel» (clique aqui à direita), reproduz uma sua crítica na revista Time Out. Também o Zé Mário é devastador.

Escrevi um dia, em Crónica Jornalística. Século XX (do Círculo de Leitores, 2004), que «em Vasco Pulido Valente, em Miguel Sousa Tavares, em Eduardo Prado Coelho, em António Mega Ferreira, em Manuel António Pina, em Mário de Carvalho» estava, na realidade, a fina-flor da nossa prosa actual. A ordem não era arbitrária de todo. Se é certo faltar ao cronista Tavares a consistente qualidade da escrita de Mega, de Pina e de Carvalho, também é verdade que assinou algumas crónicas brilhantes.

Hoje sei que o cronista Tavares permitiu a existência do romancista Tavares, e lhe deu carta branca para a banalidade e a frouxidão. Ele venderá os 100.000 já impressos, e mais, muitos mais. Mas o grande prosador de Sul e de David Crockett terá entrado, definitivamente, na prateleira light.

O alerta para a crítica do Zé Mário foi-me dado pelo ficcionista Eduardo Pitta, no blogue «Da Literatura» (clique aqui à direita). Aí escreve Pitta que sentiu ficarem-lhe no bolso mais 29 euros. Sei que, para Pitta, isso equivale a um «melão com presunto» no alto do Hotel Tivoli. Eu, que não sou mundano, hei-de trocá-los por dois livrinhos que – assim o destino não seja avaro – me saberão a néctar dos deuses.

A factura

Vejo uma vespa ao olhar a tua cintura
Da grande janela do café, pastelaria
Cansado já de esperar, estou à procura
De ouvir de novo tua voz em harmonia

Com os sons desta cidade debruçada
Sobre o Tejo tão povoado de navios
Com restos da neblina da madrugada
Já infiltrados nas palavras e nos fios

Vejo uma vespa ao olhar a tua cintura
Há uma leveza de ave nos teus passos
Que eu procuro desenhar nesta factura
Entre a luz dos olhos e os teus braços

Testemunho do encontro nesta mesa
A factura permanece na minha mão
Escrevo nela este poema de surpresa
Para provar que a ternura tem razão

Um homem feliz

Contra o prometido, ainda não é aqui que o motor de Deus chega no próximo avião engrena. Um pouco mais de paciência, pois, gente leitora. O que não torna desprezáveis as informações ainda assim fornecidas.

Para quem possa ignorá-lo: Moreanes é uma tranquila aldeia entre Mértola e Mina de São Domingos. Tinha, à época em que escrevi isto, um restaurante que valia bem vários détours. Se calhar, ainda lá está. A Foz do Lizandro, essa, é no Oeste, não longe da Ericeira.

Numa caixa abaixo, Valupi escreveu: «Deus chega no próximo avião? Continuemos à espera, pois. E rezemos (mas a quem?…) para que o avião não caia.» Interessado até aos gorgomilos, também eu acenderei uma velinha.

*

Acabo de levar a casa a Noémia. Pôs-se uma noite de chuva, nada que o esplendoroso fim-de-semana pudesse anunciar. Ainda tentou aliciar-me para um serão, mas só aceitei os ovos com presunto e a taça de clarete. Foi óptimo estarmos os dois na Foz do Lizandro, lendo àquele sol já de Primavera, vadiando pelas dunas, e mais tarde horas a fio na cozinha aprontando um prato inédito. Mas ela compreendeu a minha pressa, a minha indisponibilidade. É que preciso de passar ainda os olhos por uma resma de originais, e amanhã às dez quero sentir-me fresco para a reunião semanal. Com o dr. Dominguinhos reuníamos quinta à tarde, resvalando o encontro o mais das vezes para o jantar na marisqueira. O filho é mais tipo norte-americano.

Trago quase sempre manuscritos para casa. Ponho os almofadões na cabeceira da cama, e assim fico horas regalado. Do corpo, porque o espírito, não raro, sofre atrozmente. Leio mais romances num ano do que um leitor compulsivo em cinco deles. E, diferentemente desse leitor, não posso escolher. Para mais, não leio apenas. Tento entrar nos textos, tomar-lhes a espessura e o cheiro, para melhor aquilatar-lhes o conseguimento, revitalizá-los onde for praticável, fortalecê-los onde o admitirem. E faço-o à mão. Só no escritório é que, depois, pego da disquete, ou do cd, e construo os meus best-sellers.

Estes dois diazitos com a Noémia fazem-me bem. São o meu oxigénio. Partimos sempre sem outro programa senão o de esquecer Lisboa. Com a vantagem de se ficar por perto. Quando estava com a Clara, era uma aventura meter-nos até Moreanes. Não havia as belas estradas de hoje, e o regresso dos algarvios, ao domingo à tarde, ainda mais nos estragava as contas. Hoje raramente lá vou, e só uma vez ou outra com o Diogo. Ele aprecia o ambiente alentejano, tem lá amigos nos montes à volta, organiza farras até altas horas, é um regalo vê-lo, e mais para quem, como eu, gostaria de ter sido assim. E, quando não vai comigo, leva a namorada do momento, leva o computador, leva a mãe. Não nasceu lá, e dá-se melhor no Alentejo do que eu.

Com a Clara, nem eu nem ela esquecíamos, ao fim-de-semana, o trabalho. Tínhamos em comum a obsessão da minúcia: ela no direito, eu no jornal. Era onde melhor os dois nos encontrávamos, era, tenho de ser sincero, o único ponto em que reagíamos bem. Aprendi, nas suas matérias jurídicas, a força da pormenorização, a valia das distinções, o préstimo duma global coerência. Confio em que também ela tenha ganho comigo, talvez na estruturação de um raciocínio, no colorido das sonoridades, na exactidão de um vocábulo. Os nossos fins-de-semana, fossem na Lapa ou na casinha alentejana, eram «de trabalho», por muita descontracção que isso nos garantisse. Quanto ao resto, o nosso casamento só tinha um arrimo: a existência do Diogo. E, mesmo aí, estive sempre longe de empenhar-me quanto devia. Porque é que não fui mais vezes com ele a treinos, ao cinema, a devassar mundo, mesmo a preguiçar numa praia, ainda hoje não sei. Quando me descobri pai, já o meu filho não precisava de mim.

A Noémia atravessou-se-me no caminho. Foi quando, meio conformado meio fatalista, eu começava a habituar-me à solidão. Era um processo a que eu assistia com curiosidade, e que o aparecimento dela perturbou o seu tanto. Não poucas vezes me ouvi pensar: «Se isto também der bota, tenho-me ainda a mim mesmo.» Mas foi-me boa, essa experiência do despovoado. Lembra-me aquilo que afirmam quantos se acercaram da morte e regressaram. Um por um dizem ter perdido qualquer medo. Também para mim a Noémia, ou quem a ela se siga, será apenas uma alternativa, aceite com muita alegria, mas com igual desprendimento. Estranho seria se ela nada disso notasse, por informe que essa noção lhe chegue. Para alguma coisa lhe haveria de servir essa larga prática com homens, de que ela se gaba mais do que a minha vaidade aprecia.

Mas talvez por tudo isso o contacto com ela me é tão relaxante, e nada nele se assemelhe a um pânico perante falhas ou suposição delas. É isso. Ao mesmo tempo que bendigo os céus que ma deram, estou pronto a entregá-la inteira quando eles o requererem. Eu devia considerar-me um homem feliz. Se calhar sou, e não sei.

O gene auto-destrutivo

Um comentário no Público.pt, esta tarde. O pretexto é o apuramento de Portugal para o Europeu.

Realmente nao percebo esta mentalidade nacional, velhos do Restelo ingratos!!! Sempre que se avança um passo no nosso país aparece um medíocre tuga, xico esperto, a envenenar-nos para darmos dois passos para trás. Algures na nossa historia pusemos um gene auto-destrutivo que aparece sempre quando as coisas estão finalmente com uma luz ao fim do túnel. Tenham vergonha, todos nós somos culpados, somos um pais multicultural e fazemos piadinhas absurdas dos nossos irmãos, e depois quando vamos para fora queremos ser bem tratados? Ignorantes!!! Qual é a lógica de ser assim? Qual é a lógica de constantemente nos sabotarmos a nós próprios por pura vaidade e orgulho ácido?

Bruno Sá Marques, Londres

[destaque meu]

Escritor falhado?

Uma multidão audível, e já ameaçadora, à porta do Aspirina obriga-me a entregar mais este capítulo de Deus chega no próximo avião. Mas eu, prometo, resistirei.

*

Às vezes desejaria ser um desses espíritos rasos, para quem o mundo é uma paisagem de enlevos, sem fronteiras nem conexões, de enlevos trazidos pelo vento, pelo vento arrumados, e isso um dia, e outro, e mais outro. Porque é que, pergunto-me, fui eu feito de perspicácia, porque trespasso eu os dizeres alheios, que vantagens me supôs a vida ao carregar-me com a imparável percepção de um gesto, de uma hesitação, de um silêncio? Quanto mais leio acerca dos sobredotados, mais evidente se me faz que injustiça há neste excesso de penetração, neste estontecedor discernimento. Tento não ver, proíbo-me de raciocinar, esforço-me por mirar só as superfícies, só o que de contingente, de volátil, apresentam as coisas e as pessoas. Por vezes, penso que consegui. E tenho instantes de paz, sinto-me o anjo cego, o boi na paisagem. Dura instantes. E logo acordo, ébrio de lucidez, outra vez desgraçado.

Faculdades excepcionais poupam muito, é certo. Não preciso de ler um manuscrito completo, nem um capítulo, às vezes nem já o primeiro parágrafo inteiro, para saber, de ciência feita, o que aquilo vale, que investimento meu se justifica, que hipóteses existem de o autor alinhar com propostas. Mas exactamente esta pasmosa capacidade cria as fricções que depois se vêem. Eu não estou sempre disposto a engonhar a cena, a subtrair a choques o incomensurável ego dos romancistas. E, sei bem, é isto que não se me perdoa. O eu não poder, e não querer, camuflar a rápida apreensão que tenho do conseguimento alheio. «Você nunca dá chances a ninguém», rosna-me o Luciano. É a pura verdade. E pior seria – mas isso não o adivinha ele – se eu não fizesse o arrasante esforço de acompanhar, aqui e além, o miúdo passo dos meus semelhantes.

Mas se possível ainda mais doloroso é este contacto tão directo, que é o meu, com o íntimo dos autores. Vê-se a milhas que passaram meses afeiçoando um psicodrama ou um ajuste de contas. Ou os dois, já que o ajuste se faz às vezes com o agreste passado que lhes calhou. Não são os mais legíveis, não são seguramente os mais recreativos. Além disso, e sou o primeiro a compreendê-lo, este exercício de honestidade e de exposição deixa-os susceptíveis em extremo, quase intratáveis. Vejo então como missão minha protegê-los contra si próprios. Nem sempre com êxito.

E é assim que – exemplo ao acaso – ando, há bem quatro anos, nas mãos de uma loura escrevente, que eu venho estilisticamente medicando, e é senhora de um psiquismo vertiginoso. «Você aponte o que quiser, o problema é seu», lançou-me uma tarde destas a Úrsula Magno. Uma voz sonora e bem timbrada que, pobre de mim, tanto mexe comigo. «Mas não se muda nada, senhor. Cada palavra, ouviu, cada palavra sai-me muito daqui.» E estrafegava o peito, com uma auto-imagem de todo invejável. Em termos velados mas audíveis, ameaçara há tempos, ela também, ir bater a outras portas. Não foi o que fez agora. «Para mais, e o sôr Gildo sabe isso muito bem, a crítica tem apreciado os meus livros.» Quando outros argumentos falham, ou a vontade de produzi-los, é fatal o dizer dos críticos. Neste caso, nem era muito verdade. Tirando a desaforada Natália Rosas, do Mundo, já poucos recenseiam, e ninguém com entusiasmo, as novelas anuais da pseudónima Úrsula. Mas, exactamente, eu não quero, nem sequer com as minhas reservas, animar um jogo perverso. Não são os júbilos ou os desprazeres da crítica o que salva um livro ou lhe rouba as qualidades. Mesmo as obras que eu tornei apresentáveis não foram sempre descobertas, e, se descobertas, ponderadas o suficiente. Respeito a crítica, sei a espiga que é ler certas produções, mas não aceito chantagens. Simplesmente, a Úrsula não me era interlocutora, como nunca me serão interlocutores esse mediático Rafael Sirais, ou a premiadíssima Antónia Fontouro, ou o misterioso, e por isso, tão requerido Olavo Junqueira, os pilares da casa. «Mas, ó Gildo», atira-me o dr. Cícero, «você não acha mesmo um piadão a eles?» Eu não consigo dissimular quão módico alvoroço me infundem. E o dr. Cícero não recupera da desolação.

Mas não há crise, evidentemente. Já aprendi a usar de brandura com os semideuses, e chego ao ponto de cometer a maior das abominações: dar-lhes o benefício da dúvida. Não mo apreciam, isso também eu o vejo, como não apreciariam se não se lhes endireitasse aqui um acento, além um género gramatical. Eles querem ter a certeza de que são lidos. Mesmo por alguém desprezível como eu.

A esperteza, isto foi-me contado, já deu a um ou outro para a sugestão, gratuita, mas sucesso seguro à mesa do café, de eu ser o que se esperava: um escritor falhado, ciumento, mau perdedor. Revolta-me a aleivosia, porque nunca poderei provar que se enganam, que nem uma fibra em mim lhes cobiça os descomandos, ou sequer as proezas. Dou por mim, é certo, a divagar, a entrever situações, ou ditos, ou peripécias, que dariam um conto, um romance, mas não saberia como descrevê-los, nem a urgência de tal me acode. Gosto de ver as coisas já meio feitas, quando outros as começaram, e por isso, sim também por isso, tenho tanta satisfação no que ainda deixam para mim. Amo esse discreto acréscimo à façanha alheia. Gosto de amanhar, de mondar, de evidenciar o bom e disfarçar o imperfeito, diverte-me pôr no papel o que o outro queria dizer, e diria, se tivesse feito um esforço, se fosse mais capaz. Mas sei que por nada do mundo – nem sequer para dar uma valente resposta à mesquinhez – eu pegaria da caneta e me poria a forjar uma história. Fiz um filho. Plantei algumas árvores. Um livro, não há hipótese.

When I’m sixty-two

O editor Manuel Alberto Valente, da ASA, fez anos e contou-o assim no blogue do Francisco José Viegas, «A Origem das Espécies», clicável aqui ao lado. Ao homem, os parabéns. Ao poeta, os ouvidos do mundo.

Soneto para os amigos no dia dos meus 62 anos.

Se aqui cheguei foi graças a vocês
Que me tiraram as pedras do caminho
E me deram resposta aos múltiplos porquês
Onde o medo sorrateiro faz o ninho

E por isso aqui estou passados os sessenta
Pejado de tabaco e de vinho tinto
A olhar tranquilo o banco onde se senta
Esse juiz supremo a que não minto

Fui jovem e sonhei, errei, caí
Mas sempre soube que o rumo que escolhi
Só podia ser livre e verdadeiro

Não sei se consegui mas estou seguro
Que tentei construir o meu futuro
Pra que nele coubesse o mundo inteiro

O filho mais desejado

O quarto capítulo de Deus chega no próximo avião é o que vai aqui. De resto, não há pão para malucos.

*

Era isso mesmo. Eu estava a precisar de falar com o Diogo. «Preciso de falar contigo», disse-me ele ao telemóvel ontem à noite. Combinámos ir jantar hoje. Voltei, há momentos, de pô-lo em casa.

O Diogo nasceu quando eu e a Clara ainda andávamos no primeiro enlevo. Queríamos aquele filho, por mais que os meus pais, e a mãe dela, nos chamassem à razão. A Clara tinha dezanove anos, eu vinte e um (passará pela ideia ao Diogo que tem, hoje, a idade que eu tinha quando o fiz?), estávamos ambos desempregados, a viver por quartos, mas loucos de mútua fome. O meu filho foi a criança mais desejada que o mundo viu.

Levei-o ao Snob. Há tempos que lhe andava prometendo um sítio chique. Adoro, ele também, restaurantes de bairro, onde se serve uma comida honesta e dentro dos orçamentos. O meu não é largo, e por isso mantenho com agrado o hábito de condividirmos a despesa, e sei lá se o puto não se safa com mais dinheiro de bolso que eu. Mas hoje, ali, insisti em pagar eu sozinho. Parecia-me justo. Este filho é o maior tesouro que a vida me deu.

«Tens visto a mãe?» Não há um só encontro em que não mo pergunte. «Telefonei-lhe há dias.» É a resposta que ele já sabe, e nunca percebi se o deixa tranquilo, se desconfiado. «Como vai o trabalho dela?», quis eu saber. «Se lhe falas, deve dizer-te.» Tinha razão. Mas era para mim importante ouvi-lo da boca dele. A Clara é uma advogada de renome, e eu sei que o Diogo tem nisso orgulho. Simplesmente, vivendo com a mãe, deve sentir como experimenta ela a fama, e a canseira que a fama traz. Além do mais, andará bem informado do meu pouco contacto com ela. Quando me pergunta «Tens visto a mãe?», o que quer ouvir não é um memorando de falas e encontros, mas a minha confissão da importância que ainda nos damos, ela e eu. Não, não deve ser fácil para ele ver-se onde o pusemos. E por muito feliz me poderei ter, se ele ainda não percebeu que aquilo que, no fundo, me interessa é descobrir se, na vida dela, há já, ou não, algum outro. É rasteiro, eu sei. E esta ansiedade, esta chã indiscrição, contaminam aquilo que mais puro eu desejaria manter: a relação com o meu filho. Queria poder aguentar-lhe o olhar, e só ter a mostrar, no meu, uma perfeita candura, de quem ainda não acreditou nessa rara oferta de alguém me chamar pai. Enfim, e Deus o queira, se calhar só complico.

Falámos – falamos sempre – como dois amigos. Não confidentes, mas melhor do que isso ainda. As nossas conversas são a mais serena das desordens, e nem um nem outro parecemos desejá-las diferentes. Ele fala com a mesma dedicação da electrónica ou das namoradas, eu distraio-o com os meus autores e com planos de férias. São famosos entre nós os meus planos de férias. Já dei a volta ao Mundo em projectos, e posso com a mesma convicção expor-lhe o indispensável jornadeio a Katmandu, como enunciar a urgência de se demandarem as Ilhas Virgens. Eu não sei onde sejam as Ilhas Virgens, mas arrisco supor que o Diogo faria hoje as malas para irmos lá.

Outras vezes, toma-nos a nostalgia. Somos dois náufragos, com algum exagero. «Sinto-me, às vezes, tão velho», diz ele. Sim, filho, na tua idade também eu me sentia. «Ainda não fiz nada que se veja», insiste, magoado. Aqui, não posso dizer-lhe a verdade. Que, por muito que se viva, e se produza, não mais ela nos larga, essa convicção de nunca fazermos coisa que mereça mencionada. Mas o Diogo tem direito à ilusão, a de um dia vir a dizer que sim, que algo valeu a pena. E portanto calo-me. Ou lembro-lhe alguns méritos entretanto bem demonstrados. Ou pergunto-lhe se é assim tão indispensável fazer na vida coisas. «Mas nunca te apeteceu voltar atrás?». Quando ele me pergunta isso, sinto-me mais aliviado. Em vez de dar a resposta que ele pretenderia, a do pânico que dia após dia nos vai capturando, entrego-me ao pouco comprometedor exercício de construir cenários, de forjar-me uma outra biografia. Assim não se educa um filho, eu sei. Mas falta saber se alguma vez obteve ele de mim senão isso, o mínimo dos mínimos: alguma atenção, um tudo-nada de segurança, o pãozinho. E, depois, eu posso invejar-lhe a juventude, mas com ela eu perderia outra vez este aconchego que é o ter vivido, o saber cada vez melhor onde estou, do que sou capaz, o que é legítimo esperar, o que, por isso, ainda vale um esforço. Ele é novo. Mas ser novo é uma grande tristeza. Isso também já ele o descobriu.

Enquanto aguardávamos a sobremesa, contei-lhe o essencial do ambiente que se vem formando na Água Líquida. Nunca me alarguei, diante dele, em pormenores. Ele conhece as pessoas, das vezes em que vai apanhar-me no carro ao trabalho. Engraça com a Micas (e quem não engraçaria?), e eu sei, porque vejo, que entre ele e o Luciano há um nítido à-vontade, em que não desejo interferir, que direito teria eu aliás. Fui, portanto, sucinto no que relatei. Pouco comentou, e quase só isto: «Acho que tu provocas sempre invejas». Ia dizer-lhe que era, palavra por palavra, a apreciação da Noémia, mas teria de explicar-lhe quem é a Noémia, e ainda não me parece o momento. Quis, sim, ouvi-lo mais sobre esse misterioso tema da inveja que me reservam, forneci mesmo exemplos provocadores. Mas o meu filho não é parvo. Teve a noção de que expressara já o definitivo.

O vinho foi o evento da noite, escolha que é, sempre, do Diogo, e eu perguntei, meio a brincar meio sincero, de que me servia um filho se não percebesse de vinhos. Riu, e só entendeu do meu dito o que mais o elogiava.

Sobre o assunto de que tanto necessitava falar-me, e que ali nos tinha trazido, nem uma palavra.

Inversão? Perversão?

Da crónica de Rui Tavares, hoje no Público:

«Se falo em “carreira” é porque Durão diz na mesma entrevista [ao DN e à TSF] que não gosta da expressão “carreira política”. Declarações portentosas vindas de quem, sobre a Guerra do Iraque, diz ainda o seguinte:

“Não temos que estar de forma nenhuma arrependidos da posição que tomámos. Portugal não perdeu nada, também na Europa, com isso. Repare, depois das decisões que tomei, fui convidado a ser presidente da Comissão Europeia e tive o consenso de todos os países europeus. O que demonstra que o facto de Portugal ter tomado naquela altura aquela posição não prejudicou em nada, em nada, a imagem de Portugal junto dos seus parceiros europeus.”

Durão Barroso pode não gostar da expressão, mas faz da sua carreira política a medida de todas as coisas. Aquelas frases sugerem bem como funciona a sua cabeça e a de tantos políticos como ele. Portugal não tem que estar arrependido do apoio à invasão do Iraque. Porquê? Porque “não perdeu nada com isso”. Não perdeu o quê: honestidade, credibilidade, autoridade moral? Nada de tais coisas; foi a nossa “imagem” que não sofreu. E como sabemos que a nossa “imagem” não sofreu? Porque a carreira de Durão o “demonstra”.

Esta é a mais pura inversão moral. A carreira de um indivíduo é a medida da imagem de um país. A imagem de um país é mais importante do que o seu comportamento. E a opinião dos parceiros – em geral mais ricos, poderosos e brancos – é mais importante do que o destino de gente que é menos qualquer dessas três coisas.

Muitos anos, muitos jornais e muitas crónicas depois, pergunto-me se será demasiado ter uma palavra sobre os quinhentos mil mortos e quatro milhões de refugiados desta guerra. Mas afinal, os portugueses não devem preocupar-se com isso, porque Durão Barroso veio depois a ser nomeado para um cargo importante. Mais alguma coisa interessa?»

Anti-elegia da Beira-Tejo

Um sonho de Outono: sermos editores de José Luís Tavares

*

Vejo-os balouçando nas patas trôpegas,
palmípedes vorazes sob a garoa febril.
Ardeu-se-lhes a juventude nas plumas desgrenhadas
e já nem este mijo outonal os faz recear a pestilência
fosforescendo como um desígnio cautelar.

A tantos foram alimento por tardes soneteiras,
mas agora que o céu oculta vozes e cores
e deus essa babugem cantante,
quem acende nas margens hesitantes
o tumulto irmão da ira?

Ó aves, que um falcoeiro outono
difracta em sarro, nuvens, fogueiras,
agora sois apenas ténues fotogramas
iluminando a insónia — o tempo,

esse relojoeiro cego, quebrou vosso encanto;
baixou sobre vós a heráldica da dissolução;
embora a reverência compassiva cascateie
louvores em jacentes metros doutrora.

Vós, aéreos náufragos, concedei-me o passo
vacilante com que à tarde o frio trazeis
em vossos desdoirados bicos — ficará,
decerto, o azul doutra lembrança,
coloridos prospectos apreçando o sol
olhando lisboa cinza agora sobre o rio.

Charmes do ócio

Sob a insustentável pressão de três Costas – o JP, o Confúcio e um discreto indivíduo que paira benfazejo sobre o Aspirina – aqui vai mais um capítulo, o terceiro, de certo romance in fieri. Não se promete mais nada, nadinha.

*

Vá-se lá entender como estas coisas transpiram. Haverá, terá de haver, leis a reger os humanos. A ordenar o vaivém no palco dos nossos actos, mesmo os mais medidos, mesmo os mais falhados. Como compreender, de outro modo, que um autor modestíssimo, e, para dizer tudo, uma futilidade de cima a baixo, como é o Damião Marreiros, se tenha permitido os tons insolentes com que esta tarde me filou? Eu havia passado o fim-de-semana a aparelhar-lhe as cenas do romance, tentando alentar os parcos méritos de um ou outro episódio, esbatendo a brusquidão de golpes de teatro, estranhamente abundantes. Nunca rejeitei nenhum original, por mais desesperado de formas. Tudo quanto me veio ter às mãos acabou publicado. Cheguei a lutar, contra toda a coerência, contra toda a sanidade, pela obra mais disforme, o enredo menos aconselhável. Quando, há três ou quatro semanas, me trouxe O Olhar do Ciclope, foi um mesureiro, suplicante, Damião quem insistiu em narrar-me «em poucas palavras» o essencial da intriga. Meia hora levou no intento, surdo ao meu desejo, ao meu quase direito, de vir a ler-lhe a história com um mínimo de lastro, com algum resíduo de surpresa. «Só terá a ganhar com isso, Marreiros.» Não me ouviu. E daí, sou sincero: sem esse dengoso relato, ter-me-ia sido incomparavelmente mais difícil entrar pelo desnorteio a que ele chamara ‘romance’. 

Pois bem, hoje, foi um outro Damião Marreiros que me entrou no gabinete. Sim, é verdade, tenho desde há pouco um gabinete. A última desavença com o Luciano teve o bom efeito de se me dar finalmente um espaço próprio, onde possa sem constrangimento, meu e deles, receber os autores, expor-lhes o que melhor entendo, ouvir-lhes as dúvidas, aparar-lhes as defesas. Era meu hábito levá-los para o café, onde a conversa, e mesmo a discussão, tinham o charme do ócio, e onde estávamos, eu sobretudo, ao abrigo das antenas do Luciano, da Irene, do Marcos, que nunca perderiam uma observação, uma réplica.

«Você estragou-me o romance», prorrompeu o Damião, cruzando a perna. A Micas tinha-nos trazido dois cafés. Fiz-me de parvo. «Acha?» A brandura não o desfez. «Está visto que não entendeu nada.» Escolhi alargar a volta, sabendo-se que pode levar tempos a convencer um autor. «O que é que o senhor Marreiros acha que não entendi?» «Nada», atirou, «o melhor escapou-lhe.» «O melhor?» «Sim, o que a Joana vai fazer na casa de praia. Ela nunca foi lá, não percebeu? Ela nem sabe onde a casa é. São tudo sonhos. O Filipe já morreu.» «O Filipe já morreu?» Do meu espanto escorria sinceridade. O Damião destraçou as pernas. «Logo vi que você…» E não foram as reticências, foi uma atrevida, como dizer, uma impune ameaça, o que logo movimentou todos os meus alertas. Confessei: «O senhor é livre de ter em conta as minhas propostas. Eu não sou aqui patrão.» Logo me achei defensivo em demasia, segredei-me que, para insolente, insolente e meio. Só que eu ainda não digerira o inesperado do episódio, daí aquela vacilação. É isso, ninguém é perfeito.

Facto é que o Marreiros, que vinha para a guerra, não previra o meu recuo. «Deixa-se então o que eu entreguei.» Mas era-lhe audível a convicção abalada. Também ele, depois da minha trabalhosa leitura, intuíra fraquezas na narrativa. Simplesmente, o mundo teria que ser muito melhor do que é, e o Damião mais esperto do que nasceu, para sermos poupados ao que então sobreveio. Vi-o levantar-se, reunir as peças, dirigir-se à porta e, já com a mão no trinco, atirar: «Não se apoquente. Mais dia, menos dia, você troca com o doutor Malta. Ficam-lhe as vírgulas. Espero que se divirta.» E, antes que eu pudesse atinar com um gesto, com um tom para a voz, desapareceu.

Olhei-me dentro de mim, e vi-me calmo. Coisa inaudita, já que, por bem menos do que aquilo, costumo dar comigo em pânico. Mas não. Em qualquer esconso da mente, algo me sugeria que, na vida, havia coisas mais atrozes do que a missão que o Luciano pudesse desempenhar na Terra. Que, ao fim e ao cabo, a minha labuta, se era compensada com o lisonjeiro ascendente que me cabia, não me deixava menos esgotado, deprimido, envergonhado por interposta pessoa. E, maior mal ainda, ao mesmo tempo que, fim-de-semana após fim-de-semana, eu aprontava best-sellers, o meu casamento definhava e o meu filho crescia sem mim. Não, a Clara nunca mo lançou em rosto, mas as minhas façanhas literárias clandestinas tiveram sempre de parecer-lhe mais absorventes do que a existência dela. E só espero que o Diogo, vinte e um anos ajuizados, tenha aprendido a distinguir entre o comedido carinho que sempre lhe dei e um autêntico desinteresse. Mas nem disso estou certo.

Os olhos do abutre

A pedido da Sininho, sob pressão de várias famílias, e desvairado com os elogios que cobriram o primeiro capítulo, aqui coloco o segundo de Deus Chega no Próximo Avião. Mas não se promete mais nada.

*

Vai fazer em Abril oito anos que vim para a Água Líquida. Entrei pela mão do dr. Domingos Pompeu, que Deus tenha, um homem bom como poucos conheci, e que me foi buscar ao Observador, me «comprou», expressão muito dele, chefe de uma equipa reunida a dedo. Eu estava bem no jornal, estava mesmo nas minhas sete quintas, era conceituado, «adorado», no tocante dizer da Micas, enfim não havia razão de mudanças. Via-me ganhar tranquilos cabelos brancos – e ganhei alguns – naquele cubículo do terceiro andar onde me cabia passar a pente fino a edição. Todos me estavam gratos para a vida inteira. É que ninguém resiste à imagem do director lendo a nossa peça, exactamente a nossa peça, e dizendo consigo «Dá-lhe um jeito, este sacana!». Eu era o copydesk mais invejado de Lisboa, valia uma fortuna. E foi essa fortuna que o excelente dr. Dominguinhos sacou um dia ao banco.

A transferência, se deu aquele brado todo, deu também horas amargas aos proprietários do Observador. O semanário mais apresentável do País – da Península, dizia-se – passou a sair à rua falho dos brios que os meus olhos de abutre asseguravam. Dez anos naquilo levei, contas redondas. Fui descoberto aos vinte e quatro, e nunca mais o jornal foi o mesmo. Tudo me caía sobre a escrivaninha, tudo me invadia o ecrã. «O Gildo passa os olhos por isso», «O Gildo depois ajeita». Era o meu estandarte, pudera transformar-se no meu pesadelo. Consegui meter lá a Viviana e o Artur, dei-lhes um curso nos meus segredos, e pude um mês por ano afastar-me para o Alentejo, com a Clara e o Diogo.

Na Água Líquida fui recebido em triunfo. A editora saíra da zona de perigos, e achava-se naquela etapa eufórica em que até os maus autores acabam contagiados. Diante da minha secretária se sentaram um dia, encolhidos, minguados de palavras, três actuais best-sellers. Fui parteiro de outra gente, mais modesta, mas mesmo assim hoje meninos do meu orgulho. Tive, até este momento, o gosto de vê-los, a esses, salvos do desvaire que toma aos outros, os que, ainda os capítulos finais estão por pensar, têm já edições esgotadas. Quanto escritor não há entretanto por aí – dói-me, só de nisso pensar – que vai ler a escolas os capítulos mais inteligíveis do seu livro, deliciando os putos com a minha fluência, com a minha inventiva. Nenhum irá jamais confessar que fui eu quem, à débil trama primitiva, ao tosco da locução, trouxe luminosidade, deu robustez. E, se, em parte recôndita do cólofon, um ou outro consentiu que se assinalasse, em tipo seis, tipo oito, «Revisão de Hermenigildo Vilena», mesmo isso desaparece, nunca descobrirei por que artes, às edições seguintes.

Simplesmente, jamais me deixei tomar de vinganças. Sou um tipo discreto, sempre o fui, e retiro gozo suficiente de uma escondida contribuição para glórias alheias. Sem descanso, continuarei a fazer, também, o trabalho miudinho, ir verificar uma data, um nome de personagem ou localidade, a grafia exacta de um barbarismo. Cuidarei de que as estações do ano se sigam coerentemente, de que as personagens não mudem levianamente de nome, de profissão, de estado civil. Irei sempre ver se tal marca já existia à época, se tal designação já fora popularizada, se aquela estação ou linha de metro já estava aberta, se o tempo de uma viagem de carro combina aceitavelmente com as distâncias. Continuarei a estimular a coerência no relato, no retrato íntimo das personagens, no que se pode saber e no que se deve ignorar. Quando um livro sai do meu computador, sai irreconhecível. Mas era aquele o livro com que o escritor sonhava, o livro que agora chamará seu, com naturalidade, com infantil confiança. Aí está um prazer que ninguém me arranca.

Mas, pobre de mim, não será dos autores que vai esperar-se que refiram, em entrevistas, o senhor que lhes cozinha e tempera as obras-primas. Todos terão sempre uma escusa magnífica, e eu serei o primeiro a aprová-la. É que o meu benemérito ofício não tem, nunca teve nome. Porque, como chamar a esta minha função, tão rarefeita, quase incorpórea? A de «redactor»? A de «revisor»? A de «conselheiro redactorial», como a Noémia gostaria de me titular? A de «editor», pondo-lhe a melhor pronúncia britânica? O dr. Cícero Pompeu apresenta-me às visitas como seu «coordenador literário». É, de tão inócuo, quase adequado. Sem título a que segurar-me, sem categoria com que se me defina aos olhos das gentes, eu faço meio mundo feliz, e, tranquilamente, não existo.