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Novos Portugueses

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Há uma geração de portugueses, agora na viragem para os 30 anos, que nasceu depois do 25 de Abril. Juntam a essa característica outras tão ou mais relevantes, como o convívio desde os cueiros com as novas tecnologias da computação, diversão e comunicação. E, ainda por cima, não têm estudos superiores (sequer inferiores) em cultura clássica, tradições humanistas, formação científica. Não se interessam por política, não gostam de touradas, nunca leram a Bíblia. E eu tenho a sorte de me dar com alguns deles, alguns que são particularmente talentosos.

É o caso do Nuno Baltazar, um dos mais interessantes dos novos artistas/designers portugueses. Acho que é dos mais interessantes porque sou amigo dele. É muito simples justificar o meu gosto. Porém, pode dar-se o caso de eu não estar só nessa opinião. Haveria coincidências mais estranhas.

Esta pergunta, e não outra (II)

O Fernando fintou a sovinice (e pouca visão comercial, mas esse é outro assunto) do PÚBLICO e deu a ler, a quem ainda não o tivesse feito, a última crónica de Rui Tavares. Ainda bem para nós, e ainda bem para mim que vou aproveitar a oportunidade. O texto em causa termina com um repto:

O que não se pode é invalidar a pergunta, degradando a sua lógica. Trata-se de uma pergunta directa. Como tal, pede apenas uma resposta honesta.

De facto, o homem tem razão. Entretanto, aqui já desenvolvi os pressupostos do meu voto. Agora, especificarei adentro dos significados da pergunta. Ei-la:

Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras dez semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?

Rui Tavares explicou-nos que a pergunta é directa, razão para se ser honesto na resposta. Claro que não convém ir incomodar o esforçado articulista com a nossas dúvidas quanto à sua noção de honestidade. Não que ele esteja privado da mesma, que é carência que nem me permito pensar existir, apenas acontece estar aqui em causa uma concepção de honestidade que poderá ser divergente da minha, da nossa, da de cada um. Como não ficou definida, não se sabe. Mas, adiante, ultrapassemos a dilacerante interrogação e usemos a prata da casa, a minha humilde noção do que seja a honestidade.

E, para dar uns ares de Rui Tavares, vou também tentar explicar o óbvio: ser honesto, cá comigo, é não mentir. Não mentir, que fique claro, é ser honesto. Diria ainda mais: há uma impossibilidade ética na simultaneidade do estado honesto com o acto mentiroso. Espero estar a ser fiel ao estilo ruitavariano, um estilo que me lembra muito o maior legado do Poder Local ao País, logo a seguir à corrupção: as rotundas.

Ora, posto que eu não quero mentir, por que razão haveria de concordar com a interrupção voluntária da gravidez, fosse lá por opção de quem fosse, fosse lá quando fosse e fosse lá onde fosse? É de resposta directa: não devo concordar com aquilo que não me está a ser apresentado, explicitado, justificado. Se eu concordasse às cegas, de cruz, estaria a ser cúmplice de todas as interrupções de gravidez feitas nas tais circunstâncias — mas onde se poderiam incluir algumas que me tirassem o sono, ou a dignidade, ao concordar com elas; que poderiam ser barbaridades, até crimes contra a humanidade. Assim, sendo coerente com o propósito de não invalidar a pergunta degradando a sua lógica, como ensina Rui Tavares, o melhor para a minha honestidade é não concordar.

Outro exemplo. A pergunta remete para a opção da mulher, conferindo-lhe o exclusivo da decisão. Que diabo… Então, e eu? Quero eu que a mulher grávida do meu filho, filha ou filhos, possa abortar por sua solipsista iniciativa? Claro que não! Eu não quero alienar a minha paternidade. Guiando-me pelo avisado conselho de Rui Tavares, que frisou estar apenas em causa a capacidade para dar uma resposta honesta, é evidente que tenho de discordar.

Último ponto. Na pergunta estipula-se o limite das 10 semanas. Mas todos concordam que este limite é um arbítrio, seja lá qual for o ponto de vista sobre ele — científico, médico ou jurídico. Nem para os defensores do SIM este limite parece ser bom, pois conduz a absurdos trágicos ou a práticas ilegais: i) 10 semanas e 1 dia já será crime; ou; ii) 10 semanas e algum tempo mais, não limitado e segundo o critério de cada médico, não será crime. Pois não vou ser eu a esclarecer a trapalhada. Se os doutores dos calhamaços não se entendem entre si, como poderei alinhar com uma condição temporal que não sei donde vem nem porquê? Lamento, mas está em causa a minha honestidade, como lembra tão a propósito Rui Tavares, e como tal eu seria um mentiroso se concordasse com a pergunta.

Rui Tavares, obrigado pela tua clarividência.

Talvez

Estava nas mesas de voto em 98. Comecei a ser chamado em meados dos anos 80 e deixei de receber a carta assim que as convocações passaram a ser pagas. Mas nesse Verão ainda não se recompensavam míseras ganâncias, ainda era o tempo dos que ofereciam o seu tempo, dedicação e responsabilidade à democracia. Por isso, foram poucos os que apareceram. Tão poucos que foi necessário juntar diferentes mesas de voto em salas comuns, por falta de gente até para cumprir os serviços mínimos. E tão poucos os que foram votar que o Colégio S. João de Brito parecia assombrado, os longos e escuros corredores silenciosos. No bar atendiam-nos ao chegar. Nunca lá houve domingo de votos mais desolador.

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Revelação literária de 2007 & Grande Português

Duas semanas com o computador avariado contribuíram para variadas experiências alternativas ao gasto habitual, uma delas a leitura de livro que me deu a conhecer aquele que é já o meu Prémio Revelação Literária para o corrente ano, venha quem vier a seguir. Ao mesmo tempo, a figura entra directamente para a tabela dos meus portugueses favoritos. Estou vencido da vida, a dele, mas não estou só. Para Ramalho Ortigão, este autor foi o português mais brilhantemente completo do seu tempo.

O meu português favorito é o Fernando Pessoa. E é também o Camões. E o Agostinho da Silva. E o padre António Vieira. E o Alexandre O’Neill. E o Ary dos Santos. Casos estes em que Portugal foi essência, não acidente. Agora acrescento Francisco Manuel de Melo Breyner, Conde de Ficalho. O que li foram dois contos, inclusos no livro CONTOS DE OITOCENTOS, Fronteira do Caos Editores, 2006. Trata-se de uma antologia que reúne peças de Pinheiro Chagas, Ramalho Ortigão, Maria Amália Vaz de Carvalho, entre outros. O elenco lê-se mais por curiosidade histórica e sociológica do que por proveito literário, contribuindo para o choque da descoberta que me estava reservada a partir da página 161.

O primeiro conto, Mais Uma: Cenas de Província, é o levantamento meticuloso do processo através do qual uma rapariga se decide prostituir por influência da mãe e da miséria. O segundo conto, A Caçada do Malhadeiro, é uma apologia da vingança de morte quando a honra está em causa. Em ambos, a mesma visão naturalista; seja pelo rigor das descrições fenoménicas, seja pela composição cénica, seja pela credibilidade dialógica, seja pelo preciosismo psicológico, seja pela ausência de Deus e dos deuses (ou seja, a ausência da moral e do castigo).

O domínio da técnica narrativa parece-me exemplar. O léxico está ao serviço de um impressionismo contido, mas tão intensamente gravado que se torna tangível, fotográfico, exacto. Somos levados para dentro de cenas em movimento. Somos levados para dentro das pessoas e dos seus movimentos. De tudo se gosta, tudo é natural, está aí. O rico que tenta comprar um corpo jovem está apenas a cumprir o seu papel, a ser coerente com o seu poder; e até oferece contrapartidas benéficas, legitimadas pela comunidade. E o pai que massacra 8 soldados franceses, com a ajuda do filho adolescente, é bom e amoroso, terno; santo. É que um homem deve morrer como um porco, se o for.

Nunca me tinha acontecido: ao acabar a leitura do segundo conto, voltei de imediato a ler o primeiro. E ainda não parei de recomeçar. É assim como ir passear ao Jardim Botânico e ter muita pena de sair.

Fiama, essa ilustre desconhecida (1938-2007)

INFÂNCIA

Todas as árvores apaziguam
o espírito. Debaixo do pinheiro bravo
a sombra torna metafísica
a silhueta de tronco e copa.
Em volta da ameixoeira temporã
vespas ensinam aos meus ouvidos
louvores. As oliveiras não se movem
mas as formas da essência desenham-se
cada dia com o vento.

Na sombra os frémitos
acalentam o pensamento
até ao não pensar. Depois
até sentir a vacuidade
no halo de flores que o envolve.
Sob as oliveiras, por fim,
que não se movem contorcendo-se,
concebe o não conceber.

Três Rostos

Wikiporrada

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Estou muito preocupado com este senhor. Há uma tragédia em preparação. É um daqueles casos em que toda a gente está a ver e ninguém descruza os braços para ajudar, ninguém lança um aviso. Deve estar por dias, ou horas, o desenlace fatal.

E o que vai acontecer é isto: as jornalistas do PÚBLICO vão imprimir todos os seus artigos sacados à má fila da Wikipedia, vão enrolá-los com cuidado em forma de bastão até sentirem a consistência do mogno, e irão fazer uma espera ao Rui Araújo nas traseiras das instalações. Já foi tudo tratado com um paquete do jornal, o qual vai entrar no gabinete do Rui e dizer com o máximo de convicção (e até simulando uma certa mágoa, um choro na voz): “Senhor Araújo, elas estão outra vez a copiar!”, apontando para o local combinado. O Provedor saltará fogoso da cadeira, dirigindo-se quase correndo para as traseiras. Depois, será aquilo que uma das jornalistas antecipou enquanto imprimia um artigo tirado da Wikipedia sobre o José Manuel Fernandes: “Está na altura de lhe fazermos a folha…”.

Num cinema, perto de mim

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7 de Janeiro de 2007. Domingo. Na Gulbenkian o povo quer Amadeo, aparecem bichas sinuosas. O povo também quer cinema, cinema belo.

Chávenas e copos e pratos ao longo do balcão e na bancada interior do bar. Duas empregadas aturdidas com os incessantes pedidos. Atropelos selvagens dos consumidores de alta cultura na conquista de um cafezinho, aquela fatia de bolo de maça. São seis e meia da tarde, vai começar Au Hasard Balthazar. Bresson.

Shubert interrompido por um zurro. Estamos ainda no genérico. No final, um burro deixa-nos calados. Com os olhos muito abertos. Nós. Muito.

As três e meia da tarde antecipam-se às seis e meia dessa mesma tarde, e isto dura desde o tempo em que há registos do tempo. Neste domingo, na Gulbenkian, não houve excepção à regra do jogo. Quem foi descobrir-se no The River, de Jean Renoir, teve de atravessar os cordões souza-cardosianos. Teve de entrar numa sala que ficou cheia de velhos com espírito jovem e de jovens com gosto de velhos. Teve de rir por ter nascido uma menina. No final do filme, teve de ouvir aplausos.

Quantas vezes se ouvem aplausos num cinema? Não sei. Sei que foi belo. É.

Socorro!

Em má hora me atrevi a desafiar a ira do Norte e agora estou a ser gramaticalmente sovado pelo meu primo JPC, sem apelo e com agravo. E é de corpinho macerado que me vejo obrigado a conceder que só deve obedecer à gramática quem já não consegue aguentar o que sente.

Capítulo vinte, versículo treze

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Fui ver 20,13. Ver um filme português em estreia, e tanto nas bocas do mundo, é luxo a não desprezar levianamente. Para mais, a presença dum desertor da Guerra Colonial sempre enfeita uma sala, sobretudo quando está às moscas, como estava aquela no passado dia 21.

Deixo umas perguntitas para quem viu. Fazem as vezes de outras tantas perplexidades.

1. Em que momento (assim por alto) se deu conta de quem é o protagonista?

2. Em que momento (com mais exactidão) percebeu quem é, ou era, «o» amante?

3. Numa escala até dez, que classificação deu a Marco d´Almeida, o alferes?

4. Agradou-lhe a subtileza bíblica, ou exactamente ela irritou-o (a)?

5. Considera que este filme aponta caminhos recomendáveis para o cinema português?

Pense. Diga. Debata. Esqueça essa chatice, sempre igual, da passagem de ano.

Micro-causa

Ouvi a notícia e não quis acreditar: a direcção da Antena 2 decidiu proibir Jorge Rodrigues, o autor e animador do programa Ritornello, de fazer entrevistas a convidados portugueses. Se for verdade (ainda me custa crer…), trata-se de um caso de censura explícita e de um atentado ao serviço público que Jorge Rodrigues vem prestando há muitos anos, ao fim da tarde, na rádio estatal.
Deixo-vos aqui um texto sobre o “caso”, assinado pelo compositor António Chagas Rosa:

»Apoio ao Ritornello

O programa Ritornello da Radiodifusão Portuguesa, da autoria de Jorge Rodrigues, é provavelmente o programa de maior audiência de toda a Antena 2. O Ritornello é produzido há mais de 10 anos com uma imaginação, diversidade, inteligência, sentido formativo e informativo tais que se tornou, na prática, uma referência incontornável para todos os amantes da música dita erudita em Portugal.
Mas não só da música. A poesia, o teatro, a literatura, a dança e a cultura portuguesa, em geral, circulam no Ritornello como numa grande coreografia, cruzando-se através da temática de cada programa – criteriosamente escolhida pelo seu autor – e por meio dos convidados que nele têm tido voz. Ao longo dos últimos 10 anos, mais de 2000 individualidades, nacionais e estrangeiras, foram entrevistadas por Jorge Rodrigues, permanecendo o testemunho de muitos gravado na memória dos portugueses.
Recentemente, alegadamente por conduzir entrevistas desinteressantes (!), a direcção da Antena 2 proibiu Jorge Rodrigues de continuar a entrevistar convidados portugueses. Ficam assim excluidos do programa as vozes de José Saramago, de Agustina Bessa Luís, de Paula Rego, de Maria João Pires, etc.,etc… Sob qualquer ângulo que se observe, a medida é insólita e obtusa, fazendo lembrar tempos dos quais Portugal se libertou com dificuldade.
Que serviço público é este que proíbe a voz dos artistas e intelectuais portugueses no programa de maior prestígio de toda a Antena 2? Logo aquele que mais dinamicamente tem contribuido para manter os ouvintes, directa ou indirectamente interessados, ao corrente das causas culturais portuguesas! O mérito de Jorge Rodrigues deveria ser premiado por ser do interesse cultural nacional e não obstruído desta forma ridícula.
Se discorda desta proibição e se acha que os artistas e intelectuais portugueses merecem continuar a ser entrevistados no Ritornello, por favor divulgue esta informação.»

Quem quiser assinar uma petição contra este absurdo, pode fazê-lo aqui.

Um estranho caso de amnésia

Em entrevista ao DN, a propósito do lançamento do filme 20, 13 (estreia hoje), diz o realizador Joaquim Leitão:

«(…) acho que não temos nada que ter vergonha daquilo [Guerra Colonial]. Evidentemente que há episódios menos dignos, mas não há nenhuma guerra em que não haja episódios menos dignos (…)»

Para Joaquim Leitão só tenho uma palavra: Wiriamu.

Passa por mim na Avenida dos Aliados

Estava-se mesmo a ver: Rui Rio vai entregar a gestão do Rivoli à produtora de Filipe La Féria. Venham de lá as “grandes produções” revisteiras, os musicais à la Broadway dos pobrezinhos, o fogo-de-artifício para contentar o povão e satisfazer a ideia de cultura do autarca que tem alergia a subsídios.
Ou seja: entrega-se assim, de mão-beijada, a um privado com uma noção de “espectáculo” estritamente comercial, um espaço que as verbas públicas da Câmara do Porto ajudaram a restaurar e conservar. Pode não haver aqui qualquer surpresa (este desenlace já se adivinhava mesmo antes do eufemístico “aturado processo de selecção”), mas importa sublinhar o modo como a diversidade cultural nas grandes cidades vai sendo cerceada, subrepticiamente ou às escâncaras, por políticos medíocres que nivelam a arte pela bitola da televisão e encaram os criadores alternativos ora como empecilhos ora como parasitas (ou como as duas coisas ao mesmo tempo).

Joana Santana Dias

Na primeira página do DN, mercê de uma publicidade engraçadinha da TSF, aparecem sobrepostos os rostos de Joana Amaral Dias e Pedro Santana Lopes. Melhor dizendo, a metade esquerda do rosto dela (que publicamente se assume de esquerda) funde-se com a metade direita do rosto dele (que publicamente se assume de direita). Além do perigoso subtexto da imagem (esquerda e direita transformando-se numa só e mesma coisa…), choca-me a ideia de um eventual clone que cruzasse o DNA das duas figuras. Como é que seria o discurso de uma tal quimera? E quem levaria a melhor: a menina guerreira soarista ou o engatatão com excesso de rímel?

É o YouTube, estúpido!

A TV tal como a conhecemos acabou? O que vai mudar na produção contemporânea de conteúdos audiovisuais numa altura em que a tecnologia nos abre novas possibilidades a cada dia? Estas perguntas servem de mote para o É a Cultura, Estúpido! de amanhã, às 18h30, no Jardim de Inverno do Teatro São Luiz, em Lisboa. Os convidados, Manuel Falcão (ex-director da 2:) e Francisco Rui Cádima (professor universitário), responderão aos reptos de Nuno Artur Silva, Pedro Mexia e Nuno Costa Santos. A rubrica “Relatório do Mês”, com sugestões culturais, ficará a cargo de Daniel Oliveira e José Mário Silva.

Quiosque

Como todas as manhãs, espreito as gordas num dos quiosques da Graça. Os jornais de referência dão grande destaque a Cesariny, os outros dão menos. E depois há o 24 Horas. O 24 Horas não dá uma linha sequer ao poeta na primeira página, mas tem uma chamada para nos informar que Mantorras «vai oferecer um cavalo à filha»…