Que futuro para o pretérito perfeito?

Agora que todos, incluindo bravos ateus e petrificados marxistas, estão submergidos pelo melífluo tsunami consumista do Natal, e ainda menor é a disposição para blogues e seu cortejo de irrelevâncias, parece-me o tempo próprio para partilhar uma raiva cada vez mais quotidiana; e talvez bizarra para a catatónica maioria dos meus patrícios. Trata-se do take over hostil que o presente do indicativo vem fazendo ao pretérito perfeito do mesmo. Posso estar douradamente enganado, sugerindo que o foco da epidemia se situa algures na região do Porto e é corrupção amplificada pelos dirigentes futebolísticos invictos, mas em muito a praga ultrapassa essa fauna e já invade outrora imaculados santuários. A gota de fel foi ter constatado, ontem, que o vírus chegou à TSF, tendo o locutor (jornalista?…) largado um falamos quando o sentido temporal da acção obrigava a um falámos. Uma vez que está em causa a TSF do Fernando Alves, implacável capataz do rigor gramatical da sua equipa (ou assim era, em época não tão distante), é caso para ficarmos apavorados. Fenómenos há assim na oralidade, em que o desvio, de tão frequente, perverte a própria capacidade de discernir a norma. Língua viva, óptimo, mas excesso de vida é letal — ou será que andamos a querer destruir o que andámos oito séculos a criar?

27 thoughts on “Que futuro para o pretérito perfeito?”

  1. «Será que andamos a querer destruir o que andámos oito séculos a criar?»

    Há 100 anos atrás:
    «Será que andamos a querer destruir o que andámos sete séculos a criar?»

    Há 200 anos atrás:
    «Será que andamos a querer destruir o que andámos seis séculos a criar?»

    etc…

    Ou como o que parece ser a destruição de uma língua no presente é (quase) sempre uma construção quando no pretérito.

    (Este meu comentário e tão irritante que até eu fiquei irritado comigo.)

  2. Picuinhices sulistas, Valupi, que a oralidade nortenha anda a ignorar olimpicamente vai para oitocentos anos. E a língua nunca é feita pelos gramáticos nem pelos escritores, mas pelo povão. Os gramáticos limitam-se a registar a sua evolução, e a tentar sistematizá-la, e os escritores a enriquecê-la; mas quem determina o seu futuro são as peixeiras do Bolhão e do Mercado da Ribeira, que não ouvem a TSF.

  3. Caro Valupi,
    nós, no norte, dizemos sempre da mesma maneira (sem acento, no que à representação gráfica diz respeito) e, imagine, nunca compreendemos erradamente a mensagem do interlocutor! Olhe, a mim bole-me mais cos nervos ouvir dizer “redículo” ou “frio” como os de partes ao sul os dizem. A língua nunca morrerá por excesso de vida, espero é que não morra por estiolar por excesso de zelo…

  4. sim, pois, como uns dizem aloquete e outros cadeado, ou uns dizem cruzeta e outros cabide… não será melhor que continuem a existir ambas as variantes, até – e sobretudo – porque significam coisas diferentes? (chamo mais uma vez a tua atenção, joão pedro, para o facto de ser cruzeta um cabide em forma de crucifixo com um camarão na extremidade superior, enquanto cabide é uma designação mais abrangente.) em coimbra, em coimbra é que se fala bem. :p

  5. Não vos entendo. Que se ganha com uma confusão onde se usa código do presente para referir o passado?…

    A bondade da língua não está no uso, está na lógica. Caso contrário, nem valia a pena pensar.

  6. “A pobreza atinge mais de um em cada cinco – acima de dois milhões. Os portugueses estão também individados em 117 por cento dos rendimentos. A maior fatia é crédito para habitação.
    João Saramago” in Correio da Manhã on-line

    Individados? Faz muito sentido, porque além de ser muito in, repercute-se sobre o income…

    Eu gosto de salsa linguística, senão semântica pelo menos sintáctica, faz-me cócegas e um sorrisinho…

  7. Desculpem falar-vos do alto de meio século de vida observante da língua portuguesa. Acrescente-se a isso um nascimento no fundo do Alentejo, uma escola primária em Lisboa e toda uma adolescência em Braga. Depois, ainda, uma formação em linguística. Arranjavam melhor?

    Pois bem, o caso de «falamos» e «falámos». Há meio século (mas ouso dizer que ainda há dez anos), era assim:

    – no Sul, não se distinguia. O «a» tónico era fortemente nasalado: «nós falãmos ontem e falãmos também hoje».

    – em Lisboa e Centro, distinguia-se: «nós falámos ontem e falâmos também hoje».

    – no Norte, não se distinguia: «nós falámos ontem e falámos também hoje».

    A tendência actual, perfeitamente assinalada pela Valupi, é para a indiferenciação em «â»: «nós falâmos ontem e falâmos também hoje».

    Se bem entendi, esse recente processo vem do Norte (de onde, de facto, veio a norma até ao século XV, passando ela, a partir de então, a irradiar de Lisboa), e isso por acção duma hipercorrecção, complexa como todas as hipercorrecções. Foi assim:

    A realização «falâmos» da norma lisboeta no presente verbal fez que, no Norte, se sentisse «falámos» como regional (que de facto era, mas só no presente). Como a norma de Lisboa é forte, a sua realização diferente (de novo, a de «falâmos» do presente) foi sentida como a correcta.

    Simplesmente, como o Norte não aprendera a distinguir (nem disso sentia necessidade…), adoptou o chique presente lisboeta (de novo, «falâmos»), e isso, muito logicamente, para todos os casos.

    Mas que Deus nos livre das hipercorrecções nortenhas e de outras suas complicadas relações com a norma. O país não tem que gramar, inteiro, com elas.

    Não falou o linguista, que só observa. Falou o cidadão, que prefere qualidade de vida.

  8. «A bondade da língua não está no uso, está na lógica. Caso contrário, nem valia a pena pensar.»

    A lógica de que falas não existe antes da língua mas com ela. Assim como o pensar, de resto.

    Já dizia o Martinet (que é um autor de facílima e proveitosa leitura) que a evolução de uma língua depende essencialmente de:

    1) O princípio de economia: a) Quanto mais complexo for um fonema, menor é a sua ocorrência (enunciado semelhante à Lei de Menor Esforço de ZIPF); b) Quanto maior for a frequência de um fonema, menor é a quantidade informativa que ele comporta.

    2) Função comunicativa: num sistema, a inteligibilidade das mensagens e a salvaguarda da função comunicativa são sempre preservadas. Este princípio acaba por ser contrário à Lei da Economia, na medida em que não vai deixar desaparecer nenhum fonema que seja útil para a funcionalidade do sistema.

    3) Estrutura: uma língua evolui no sentido de integrar os seus fonemas de uma forma harmoniosa num sistema. Um bom exemplo é o par de fonemas /r/ (caro) e /R/ (carro) que, por surgirem de forma isolada no sistema fonético português, tendem para se unirem num só fonema.

    O caso que referes parece ser motivado não apenas pela lei do menor esforço (para quê produzir duas vogais distintas em vez de uma?) como pela própria estrutura da língua (o fechamento da vogal tónica em «falámos» tem correspondência lexical no Português («falamos»), isto é, não surge nenhuma palavra «nova» desse fechamento. Essa evolução apenas ocorre porque, nos actos de enunciação, existirem outras palavras que salvaguardam o princípio comunicativo, como advérbios temporais ou mesmo o próprio contexto de enunciação que permite ao receptor perceber se o verbo está no pretérito ou no presente.

    Ou seja: a língua pode funcionar lindamente em piloto automático e sem precisar de «polícias» – a própria possui um sistema complexo de mecanismos que permitem a sua evolução harmoniosa.

    (Ah e eu não sou vairrista, primo.)

  9. relativismo e água benta… cada um toma o que quer.
    Acontece a muita gente, e até aos melhores linguistas.
    Por esse andar, as 150 palavras que povoam os miolos de muito povão são tudo o que restará daqui por uns anos.
    Juízo nesse piloto automático! A língua evolui, claro. Mas aprende-se, e sobretudo cultiva-se. E não tem dono.

  10. Sorte a minha, sorte a nossa, por podermos privar com o talento e a generosidade do Fernando e do João Pedro.

    Para mim, e para os actuais consensos gramaticais, o princípio da economia (usando o exemplo dado) explica a utilidade da diferenciação fonética e ortográfica. Vejamos:

    Que se passa contigo e com o António?

    a) Namorámos.

    b) Namoramos.

    É evidente a economia resultante da distinção, a qual anula a necessidade de qualquer outro vocábulo para aferir do sentido da resposta.

    Ainda mais um exemplo básico. Ligo o rádio e oiço:

    “Jogamos com muita valentia e andamos à procura do golo.”

    Se o falante não estiver munido da norma, terei de esperar por eventuais acrescentos informativos para descobrir se o jogo continua ou se já acabou.

    Assim, abdicar do fonema identificador do pretérito (ou abdicar da acentuação gráfica, numa natural consequência da oralidade, e sendo já falta amiúde encontrada em textos jornalísticos e literários) não é uma questão de economia, é um problema de sovinice. Em excesso, pode até ser um caso de polícia – um roubo.

  11. saúdo esta clareza de Valupi, que não cede a encartes académicos.
    Uma coisa são as leis que vão regendo as operações da língua; outra, bem diferente, é a iliteracia falante, o relativismo pimpão.

    É como quem diz, num contexto muito diferente do aludido:
    O facto de 95% de pivots ignorantes referirem sistematicamente ‘um dia solarengo’, quando querem dizer ‘um dia soalheiro’, não transforma a ignorância em norma.
    Quando dizem que o ferido não corre perigo de vida, talvez devessem dizer que não corre perigo de morte.
    O que ele não tem é a vida em perigo.
    Conclusão: nenhum predestinado falante nasce com a norma encasquetada na cabeça. Primeiro apodera-se dela, e depois fala como gente. Ou então diz palermices de sertão.
    Passado, presente, o que é isso?

  12. Valupi: lamento ser tão «estruturalista», mas nesse caso, a própria língua, como sistema, possuirá mecanismos para colmatar essa evolução, caso ela, de facto, ponha em causa o princípio da função comunicativa. De resto, não faltam ambiguidades em todas as línguas do mundo e os falantes vivem muito bem com elas.

    Anonymous:
    «Conclusão: nenhum predestinado falante nasce com a norma encasquetada na cabeça. Primeiro apodera-se dela, e depois fala como gente.»
    Se fosse assim, meu caro, as línguas não teriam evolução na sua diacronia e o Português que falamos hoje seria idêntico ao falado há 500 anos.

  13. Primo, confesso-te a minha perplexidade. Salvo melhor interpretação, estás a defender uma decadência gramatical (que até foi magistralmente explicada pelo Fernando) por estranho amor da ambiguidade linguística. E ainda lhe chamas “evolução”. Não dá, primo, são provocações a mais ao bom do Camões.

    Sim, há ambiguidades em todas as línguas, e todas as línguas até serão por essência metonímicas (sendo a sua ambiguidade estruturante uma sua condição de plasticidade e eficácia), mas donde vem a necessidade de aumentar o ruído? A comunicação humana através da língua não carece de mais ambiguidade para a função informativa. Tudo o que prejudique, complique ou atrase a assimilação da informação é retrocesso e contraditório com a própria racionalidade da linguagem. Se a ambiguidade fosse um objectivo bondoso para os organismos, nunca se teria criado/descoberto a matemática.

    Outra história, e nalguns casos sórdida, é o facto de nos habituarmos a tudo. Vezes há em que viver pior é melhor do que viver bem. Porém, no caso nem esta imediatamente anterior e cretina frase se aplica, pois só há vantagens na norma em causa.

    Conta lá, que mal te fizeram os tempos verbais?…

  14. Primito, pareces um dos manos Grimm.

    «Decadência gramatical» é, como sabes, ideologia pura e pressupõe uma língua adâmica, uma Ursprache, se calhar até implica alguma ingenuidade face ao mito de Babel.

    As línguas são seres vivos que se alimentam constantemente da tensão entre uma norma e o uso que os falantes fazem dela. Para te dizer a verdade, até vou mais longe do que os linguistas ou «academistas»: um erro gramatical (ou melhor: a tendância generalizada de uma comunidade para um erro gramatical) é sempre para mim motivo de comoção e, em vez de sacar uma língua azul, tento perceber os mecanismos que lhe estão associados.

    Falemos de ambiguidades. Conheces fenómeno linguístico que tenha dado origem a mais ambiguidades que a perda (quase) total dos casos do latim nas línguas românicas? Pois é. Mas sem essa «decadência» não haveria hoje um Dante, um Cervantes ou um Camões (só para citar três gajos com algum talento).

    E não me venhas com merdas: o pretérito continua a ser grafado correctamente e, no registo oral, existem milhares de mecanismos para colmatar (ou não) a ambiguidade.

    Quanto ao «habituarmo-nos a tudo», para além de demonstrar novamente o pendor ideológico do teu post e comentários, merece da minha parte a seguinte observação: já reparaste que tu é que te habituaste de forma doentia à norma? Um pouco de «ostraniene» faria de ti um primo ainda mais inteligente.

    NOTA 1: a metonímia é um fenómeno linguístico e não aplicável a relações referências.

    NOTA 2: Estou a curtir muito esta conversa.

  15. Gostei disto. Parece a discussão da ” TLEBS”
    Mas, pelo sim pelo não, eu vou dizendo: falamos agora, falámos ontem. De onde veio já não me interessa.
    Um abraço a todos pelo vosso interesse nas coisas da Língua.

  16. João Norte

    Cumprimentos, e saudações pelo acerto da opção.

    Titus

    Então vais continuar a ser cúmplice do assassinato do pretérito perfeito do indicativo. Bonito serviço…

  17. Não concordo. Embora viva em Lisboa, sou de Tomar e lá é assim que se fala. A pronuncia é diferent da de Lisboa, é apenas isso. Gosto da diversidade, vou continuar a dizer: vermelho; bailar; guarda vestidos; sapatilhas; paposeco…
    E o acordo ortográfico com o Brasil?

  18. Tito, e em Tomar pronunciam o teu «paposeco», papuzeco, papózeco, ou pronunciam papo-seco (papusseco), como em lisboa, no porto ou em Coimbra e até mesmo no algarve?

  19. Titus

    Não é a questão da pronúncia que está em causa, antes a da gramática. As pronúncias são belas, alegres, eróticas. Só podemos lamentar o seu inevitável desaparecimento devido à uniformização causada pela rádio e televisão.

    Quanto ao Acordo Ortográfico, qual é o problema?

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