Gigas

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A presença de Freitas do Amaral na RTP comoveu-me. Falo de presença, e não de entrevista, porque seria indiferente ter tido outro jornalista ou outro elenco de questões. Freitas é igual a si próprio, o que o levou para o percurso heterodoxo que incomoda tanta gente. E que o incomoda a ele. E que me comoveu.

Da direita à esquerda, da autarquia ao Governo, o tipo de político mais frequente é um misto de manha, pesporrência e más companhias. O “sistema” está disponível para observação e estudo atento nas juventudes partidárias, as quais servem para fazer a triagem dos eticamente “adaptáveis” ou “versáteis”: permitem ensaiar futuros papéis sem risco de causar prejuízo eleitoral e levam os neófitos a iniciarem-se nos benefícios da carreira política; havendo abundância de opções laborais, confortavelmente remuneradas, para entreter os rapazes-boys. Mas ainda mais embriagante do que a materializada segurança financeira e social é, ui!, a inefável sensação de impunidade. O Estado e seus recursos, a Lei e a Ordem, aparecem sarapintados a duas ou três cores (não mais, não mais…) nas pupilas dos políticos de profissão, permitindo localizar com rigor as zonas de protecção e influência. E os almoços e jantares, as festas e eventos, os aniversários e casamentos, vão selando outras negociações com as cores concorrentes. Todos ganham, desde que sejam discretos, porque todos procuram exactamente o mesmo: um sistema alternativo — e muito mais eficaz e eficiente, porque muito mais controlado e restrito — de redistribuição da riqueza.

Ora, Freitas, num passo do seu testemunho, disse que é do a-b-c da política começar os preparativos para a reeleição logo a partir do momento em que se é eleito. E disse-o com a impaciência alegre de quem explica a uma criança como usar os talheres à mesa. Este nada no meio do discurso, que nada suscitou na jornalista, é na sua cândida formulação um curso inteiro de ciência política. Se o político deve, em boa prática disciplinar ou artística, tentar garantir a reeleição, dai decorre que essa avidez é inevitavelmente o seu maior objectivo político e o primeiro do seu programa. Porém, como o político reconhece a desvantagem de assumir publicamente esta regra tácita da sua actividade, não a vai comunicar ao eleitorado, nem a admite em caso algum se calhar ser interrogado. Tem, então, de mentir; isto é, mente ainda mais alucinadamente.

Eis que vi Freitas do Amaral como nunca o tinha visto antes. Um homem a carregar peso dilacerante às costas, as quais se mostravam fracas para tal fardo, tanto física como moralmente. Porque nele coexistiam, em paridade, a estátua idealista e o cimento realista, o projecto de serviço e o plano de poder, a ilusão criativa e a desilusão pragmática, a identidade e a tentação. Como tal, foi supinamente educativo colher a ambivalência com que falou de Cavaco Silva. E o mais extraordinário, dentro desse extraordinário registo, consistiu nisso da genuína gratidão se saber, em concomitância, maquiavelicamente traída. Falta um coevo Shakespeare para esta tragédia.

Comove-me a transparência deste homem, que é coragem. Comove-me a sua grandeza, que é verdade. Comovo-me pelo falhanço da sua ambição, com o acerto da sua vida.

6 thoughts on “Gigas”

  1. A entrevista de Freitas do Amaral e uma visita ao Insurgente inspiraram-me o seguinte Rap:

    O INSURGENTE É DOENTE (RAPa o Insurgente)

    Três vivas a Pinochet
    Cantam os manos do Insurgente
    Lambem o cu ao General
    Que era escroque e demente
    Allende era terrorista
    Dizem os burros do Insurgente
    Que exultam com o Augusto fascista
    A massacrar people inocente
    Pinochet agiu em legítima defesa
    Cantam os manos do Insurgente
    Que mantêm uma vela acesa
    Pelo diabo feito gente

    Se vais ao Insurgente
    Na merda vais chafurdar
    Por isso leva água e sabão
    E quilos de detergente

    Gente bem demente
    É só ir ao Insurgente
    Nem no Júlio de Matos
    Encontras people tão doente
    Em Santiago do Chile
    Havia um louco à solta
    Era o Pinochet e o seu redil
    A trazer o fascismo de volta
    O general foi um mal menor
    Dizem os manos liberais
    Allende era pior
    Só num blog de anormais

    Se vais ao Insurgente
    Na merda vais chafurdar
    Por isso leva água e sabão
    E quilos de detergente

    “Pinochet assassinou um terrorista (Salvador Allende). E assassinar um terrorista é um acto de legítima defesa da nossa sociedade”

    Claudio Téllez em http://www.oinsurgente.org

  2. Se parece certo que o político deve “tentar garantir a reeleição”, já me parece um salto injustificado afirmar que tal será “inevitavelmente o seu maior objectivo político e o primeiro do seu programa”.

  3. Injustificado?! Então, de que outro modo se deve entender o propósito da reeleição?… Acaso se vota num político para que ele tente perpetuar o poder como fim em si mesmo? Ou não deverá ser a eleição, e eventual reeleição, a lógica consequência de existir um programa a realizar, ou realizado, que agradou mais do que o dos concorrentes?

    Vai para aí grande confusão.

  4. Claro que a reeleição é um objectivo fulcral e até entendível; só questiono se será mesmo o “maior e o “primeiro”. Pelo menos para a mairoria deles, claro.
    E não esqueças que há muito político que nunca sequer é eleito para coisa alguma, pelo menos por sufrágio universal e em seu nome individual.

  5. “A democracia é a pior forma de governo, à excepção de todas as outras que já foram tentadas”, talvez por ser a síntese acabada entre idealismo e realismo. Permite ao pior dos governantes a obtenção do poder, realismo do voto, mas espera a eleição do melhor dos governantes, idealismo da competência. Nesta lógica, quem se preocupa em garantir a reeleição – “objectivo fulcral” – estará a incluir uma meta que não negociou com o eleitorado; e que não se legitima democraticamente, pois fere de morte o espírito do serviço público. Aliás, como se afere do dispêndio de tempo e recursos para tal desiderato? Como se destrinça entre o que é para o bem comum e o que é para o bem próprio do governante? Que realizações públicas ficam comprometidas como inerência da procura de realização privada?

    Obviamente, esta é a gostosa e escorregadia boceta de Pandora onde o homem da rua, dos jornais e da oposição resfolega alegremente. O descrédito dos políticos e das instituições é consequência de uma sucessão contínua de políticos que optaram pela reeleição (a qual pode ser para um conselho de administração de abastada empresa, por exemplo), em detrimento do compromisso que os levou à eleição. Enfim, “lana caprina” do rebanho democrático.

    Voltando às hierarquias, se o político começa a preparar a reeleição no momento a seguir à eleição, eis o inegável 1º objectivo, primeiro na ordem do tempo. E se tal objectivo se sobrepõe a qualquer outro ao ponto de ser o primeiro e de ser imediato, eis o maior dos objectivos, que de tão grande ultrapassa qualquer outro em investimento e cuidado. Exibe a sua importância na sua precedência.

    Não sei se viste a entrevista, mas o modo como Freitas fala com a Judite, neste passo, é ainda mais revelador do que aquilo que é dito. Na superfície, temos uma banalidade que convive cordata com o nosso marasmo e cinismo; nas profundezas, vemos o inferno entrópico e reaccionário da animalidade. A selva onde o interesse do indivíduo é prejudicial para a comunidade.

    Não é disto que vem o nojo da política?

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