Revelação literária de 2007 & Grande Português

Duas semanas com o computador avariado contribuíram para variadas experiências alternativas ao gasto habitual, uma delas a leitura de livro que me deu a conhecer aquele que é já o meu Prémio Revelação Literária para o corrente ano, venha quem vier a seguir. Ao mesmo tempo, a figura entra directamente para a tabela dos meus portugueses favoritos. Estou vencido da vida, a dele, mas não estou só. Para Ramalho Ortigão, este autor foi o português mais brilhantemente completo do seu tempo.

O meu português favorito é o Fernando Pessoa. E é também o Camões. E o Agostinho da Silva. E o padre António Vieira. E o Alexandre O’Neill. E o Ary dos Santos. Casos estes em que Portugal foi essência, não acidente. Agora acrescento Francisco Manuel de Melo Breyner, Conde de Ficalho. O que li foram dois contos, inclusos no livro CONTOS DE OITOCENTOS, Fronteira do Caos Editores, 2006. Trata-se de uma antologia que reúne peças de Pinheiro Chagas, Ramalho Ortigão, Maria Amália Vaz de Carvalho, entre outros. O elenco lê-se mais por curiosidade histórica e sociológica do que por proveito literário, contribuindo para o choque da descoberta que me estava reservada a partir da página 161.

O primeiro conto, Mais Uma: Cenas de Província, é o levantamento meticuloso do processo através do qual uma rapariga se decide prostituir por influência da mãe e da miséria. O segundo conto, A Caçada do Malhadeiro, é uma apologia da vingança de morte quando a honra está em causa. Em ambos, a mesma visão naturalista; seja pelo rigor das descrições fenoménicas, seja pela composição cénica, seja pela credibilidade dialógica, seja pelo preciosismo psicológico, seja pela ausência de Deus e dos deuses (ou seja, a ausência da moral e do castigo).

O domínio da técnica narrativa parece-me exemplar. O léxico está ao serviço de um impressionismo contido, mas tão intensamente gravado que se torna tangível, fotográfico, exacto. Somos levados para dentro de cenas em movimento. Somos levados para dentro das pessoas e dos seus movimentos. De tudo se gosta, tudo é natural, está aí. O rico que tenta comprar um corpo jovem está apenas a cumprir o seu papel, a ser coerente com o seu poder; e até oferece contrapartidas benéficas, legitimadas pela comunidade. E o pai que massacra 8 soldados franceses, com a ajuda do filho adolescente, é bom e amoroso, terno; santo. É que um homem deve morrer como um porco, se o for.

Nunca me tinha acontecido: ao acabar a leitura do segundo conto, voltei de imediato a ler o primeiro. E ainda não parei de recomeçar. É assim como ir passear ao Jardim Botânico e ter muita pena de sair.

9 thoughts on “Revelação literária de 2007 & Grande Português”

  1. Valupi,

    Quando entras a matar nesse tom laudatório às virtudes de contista do homem de Ficalho, fazes logo esmorecer a vontade que qualquer um menos lietràriamente preparado que tu teria para fazer um comentariozito.. Serei a excepção, pelo andar deste barco.Li o da família arruinada com a morte do fazendeiro, não fui ao outro. E acho que foste severo com a mãe, mais do que o Severo o foi com a filha. Et, comme d’habitude, lá encontraste coerência no homem de cacau, dono dum monte, a cobiçar carnes novas. Já pensaste quantos judeus e muçulmanos decidem em situações equiparáveis, sem sequer lhes passar pelas cabeças o termo “prostituição”? E não me fales de comunistas-marxistas-ateus que se casaram pela igreja porque os pais da menina eram ricos e devotos.

    Enfim, o conto não está mau, mas não vou arriscar sair de casa com este vendaval para comprar as obras completas do senhor. Mas lá está, daqui não fala ninguem enfronhado em prosa oitocentista, nem noutra qualquer, para ser fiel à verdade…

    TT

  2. TT

    Se consideras que o conto “não está mau”, tomo o teu critério como equivalendo a uma medalha de prata para o gosto comum.

    Tenta ir ao outro. É outra loiça; igualmente boa, ou até mais (para os testosterónicos), mas outra.

  3. Não me recordava – como não recordo – de ter lido o primeiro conto (o da Rita caída em miséria, e que o TT leu também), e apreciei o bom domínio da narrativa. Cujo remate está, obviamente, traçado desde o título.

    Já o segundo (o dos franceses), era a segunda vez, e quem sabe mais, que o lia. Mas, dez vezes que venha a lê-lo, sempre me tomarão, julgo, a tensão e o entusiasmo de quem testemunha uma obra-prima.

    Grande artista, sim, Valupi.

  4. Quando voltámos para a malhada, já os grifos andavam no ar às voltas, às voltas, por cima do vale, onde ficaram os dois primeiros

    (eu agora ando é com saudades de torresmos, mesmo :)

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